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Genericamente, “tap/flap”, também designados por vibrantes simples ou batimento, são dois sons que, invariavelmente, apresentam um encerramento único e curto e são, por norma, apicais. O “tap” pode ocorrer em produções como “merry” [‘meɾi] para falantes de algumas variantes dos Inglês. O “flap” corresponde à realização de oclusivas dentais em posição intervocálica para falantes dos Inglês Americano (e.g. “city” [‘siɽi]) (Catford, 1977; Ladefoged & Maddieson, 1996). Embora a distinção entre estes dois termos nem sempre seja considerada, Ladefoged (1968) refere e mostra a importância de os distinguir.

As características do “flap” e do “tap” são descritas por Ladefoged e Maddieson (1996) do seguinte modo:

“The distinction now proposed is that a flap is a sound in which a brief contact between the articulators is made by moving the ative articulator tangentially to the site of the contact, so that it strikes the upper surface of the vocal tract in passing; a tap is a sound in which a brief contact between the articulators is made by moving the ative articulator directly towards the roof of the mouth. Both types are usually coronal. Thus flaps are most typically made by retracting the tongue tip behind the alveolar ridge and moving it forward so that it strikes the ridge in passing. Taps are most typically made by a direct movement of the tongue tip to a contact location in the dental or alveolar region.” (Ladefoged & Maddieson, 1996, p. 231).

No que diz respeito aos “trills”, denominados também por vibrantes múltiplas, é consistente na literatura a distinção entre vibrante múltipla alveolar (“apical trill”) e vibrante múltipla uvular (“uvular trill”) (Ladefoged & Maddieson, 1996; Ladefoged, 2005). As vibrantes múltiplas uvulares estão presentes em algumas variantes conservadoras do Francês e do Alemão padrão, embora alguns falantes destas línguas utilizem mais frequentemente as fricativas uvulares ou aproximantes do que propriamente as vibrantes múltiplas (Ladefoged & Maddieson, 1996; Lindau, 1980).

A principal característica articulatória da vibrante múltipla, no geral, é a existência de duas ou mais vibrações (ou ciclos) de um articulador contra outro. Neste sentido, os “trills” caracterizam-se pela vibração de articuladores supralaríngeos, nomeadamente ápice ou região posterior da língua, provocada por forças aerodinâmicas específicas, por oposição

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aos “taps/flaps” que envolvem um movimento balístico do ápice da língua90. Para que a

vibração (“trilling”) da língua ocorra, é necessário um controlo motor preciso, nomeadamente a contração muscular da língua para que esta assuma a posição, forma e elasticidade necessárias à produção do segmento e ainda a existência de condições adequadas de pressão, designadamente o controlo rigoroso da pressão subglotal91, e a

manutenção de diferenças de pressão suficientes ao longo da constrição lingual (Barry, 1997; Catford, 1977; Ladefoged & Maddieson, 1996; Solé, Ohala, & Ying, 1998; Solé, 2002; Spajic, Ladefoged, & Bhaskararao, 1996).

O mecanismo de produção das vibrantes múltiplas é descrito por Ladefoged e Maddieson (1996), da seguinte forma:

“The primary characteristic of a trill is that it is the vibration of one speech organ against another, driven by the aerodynamic conditions. One of the soft moveable parts of the vocal tract is placed close enough o another surface, so that when a current of air of the right strength passes through the aperture created by this configuration, a repeating pattern of closing and opening of the flow channel occurs. (...) In its essentials this is very similar to the vibration of the vocal folds during voicing; in both cases there is no muscular action that controls each single vibration, but a sufficiently narrow aperture must be created and an adequate airflow through the aperture must occur.” (Ladefoged & Maddieson, 1996, p. 217).

Considerando as particularidades das vibrantes, assim como a sua sensibilidade a pequenas variações articulatórias e, consequentemente, aerodinâmicas, pequenas modificações das referidas características podem condicionar a ocorrência de vibração e, como tal, justificar a alternância com realizações como aproximantes e fricativas, em que não existe vibração (Ladefoged & Maddieson, 1996; Solé et al., 1998; Solé, 2002).

De acordo com os resultados obtidos por Proctor (2009), os “trills” do Espanhol, em posição intervocálica, são os segmentos com maior variação fonética, sendo que as principais fontes de variação estão relacionadas com: o número de oclusões/ciclos, que em

90 “A tap or a flap is caused by a single contraction of the muscles so that one articulator is thrown against

another. It is often just a very rapid stop gesture.” (Ladefoged & Johnson, 2011, p. 175).

91 Responsável pelo efeito de Bernoullie: “An aerodynamic effect which causes two articulators to come

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médias são dois, mas que podem ir até quatro (esta variação é também observada dentro das diferentes produções do mesmo falante) e com o grau de “spirantization”92.

Estudos articulatórios e acústicos que estabeleceram comparações entre o “tap” [ɾ] e “apicoalveolar trill” [r] do Catalão mostram que a vibrante múltipla, contrariamente ao “tap”, envolve um maior abaixamento do pré-dorso da língua, recuo da raíz da língua (Recasens & Pallarès, 1999; Recasens, 1991b), o que, deste ponto de vista, aproxima [r] de /l/ velarizado.

Dados articulatórios (EPG), combinados com dados acústicos, recolhidos de cinco falantes do Grego mostraram que o rápido movimento balístico do ápice/lâmina da língua contra o rebordo alveolar que ocorre durante produção do “tap” pode envolver diferentes graus de constrição que variam desde um contacto completo na região alveolar até à ausência desse contacto (Baltazani & Nicolaidis, 2013; Nicolaidis & Baltazani, 2011). Para a mesma língua, Nicolaidis (2001) verificou que cerca de 85% das realizações de /ɾ/ em discurso espontâneo, dos dois participantes em estudo, foram produzidas com ausência de um contacto completo entre os articuladores, sugerindo que /ɾ/ é frequentemente produzido apenas com a aproximação entre articuladores.

Adicionalmente, e para além das diferenças quanto ao modo articulatório, são também reportadas diferenças no que toca ao ponto de articulação de /ɾ/ do Grego, que variam entre as zonas alveolar e pós-alveolar, sendo que a sua localização precisa depende contexto vocálico adjacente, ou seja, em contextos de vogais [+ anteriores] o ponto articulatório de /ɾ/ situa-se também numa região mais anterior da cavidade oral, em oposição ao verificado em contextos de vogais [- anteriores] (Baltazani & Nicolaidis, 2013; Nicolaidis & Baltazani, 2011; Nicolaidis, 2001).

As realizações aproximantes descritas a partir de dados articulatórios para o Grego são também observadas a partir de dados provenientes de estudos de caráter acústico. Baltazani (2005) confirma que /ɾ/ intervocálico do Grego é, predominantemente, realizado como “tap” [ɾ] (64% do total de realizações, sendo que 48% dizem respeito a realizações com uma contrição completa e 52% apresenta uma constrição incompleta, com presença de fricção)93. Adicionalmente, foram ainda encontradas realizações compatíveis com

92 “Spirantization” é um processo fonológico a partir do qual um som apresenta característica de fricção, sem

alterações do ponto de articulação.

93 Esta variabilidade de realizações ocorre também entre participantes e dentro das várias repetições da

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aproximantes (em 34% das realizações) e uma pequena percentagem de “trills” (2%). Quanto às realizações em posição de ataque ramificado e coda, a tendência para maior frequência de [ɾ] é mantida (100% em ataque ramificado e 95% em coda). Nestas posições silábicas as aproximantes são menos frequentes (apenas 5% em coda) e não há registo da existência de “trills”. Os dados apresentados por Baltazani (2009) indicam que, globalmente, em ataque ramificado e coda cerca de 80% das realizações são [ɾ], 18% são aproximantes e apenas 2% são vibrantes múltiplas.

Numa conceção ampla e tradicional da classificação articulatória de /r/ do Inglês Americano, os foneticistas (Delattre & Freeman, 1984; Kent & Read, 2002) dividem as configurações adotadas pela língua em duas categorias contrastivas: “retroflex” (na qual o ápex da língua está elevado e o dorso da língua está baixo) e “bunched” (na qual o ápex da língua está baixo e o dorso da língua está elevado). Contudo, diversos são os estudos que mostram a variabilidade de configurações da língua utilizadas por diferentes falantes durante a produção de /r/ do Inglês Americano, indicando que estas duas categorias são apenas os extremos de um continnum que inclui diferentes realizações (Alwan, Narayanan, & Haker, 1997; Delattre & Freeman, 1984; Espy-Wilson et al., 2000; Guenther et al., 1999; Tiede, Boyce, Holland, & Choe, 2004; Westbury, Hashi, & Lindstrom, 1998; Zawadzki & Kuehn, 1980; Zhou, 2009).

Com base em dados de cinerradiografia (“X-ray sound moving pictures”), Delattre e Freeman (1984) identificaram, pelo menos, seis tipos diferente de /r/ do Inglês Americano (cf. Figura 12). Estas seis realizações partilham o facto de envolverem duas constrições durante a sua produção: uma na região palatal e outra na região faríngea. As configurações articulatórias diferem, em grande parte, em função da localização exata da constrição na região palatal, ou seja, se a constrição ocorre (i) no rebordo alveolar e é realizada exclusivamente pelo ápex da língua (type 7), (ii) na região posterior do palato e é feita unicamente pelo dorso da língua com o ápex baixo (type 2, 3 e 4) ou (iii) em ambas as regiões do palato (rebordo alveolar e região posterior) e é realizada pela elevação simultânea do ápex e da lâmina da língua (type 5 e 6)94. A intervenção de uma componente labial,

utilizada consistentemente na articulação de /r/ do Inglês, para além das regiões anterior e posterior da língua é referida por Gick, Iskarous, Whalen e Goldstein (2003), apesar da grande variabilidade inter e intrafalantes também observada.

94 Para uma descrição mais detalhada dos diferentes tipos de configurações linguais, consulte-se Delattre e

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Figura 12: Configurações da língua identificadas por Delattre e Freeman (1984), para /r/ do Inglês Americano. Os tipos 1 e 8 não são apresentados uma vez que dizem respeito ao Inglês Britânico. De

Hagiwara (1995, p. 93).

No estudo de Alwan et al. (1997), foram recolhidas imagens de ressonância magnética, durante a produção de /r/, de quatro falantes nativos dos Inglês Americano, utilizadas para medir as dimensões do trato vocal e analisar morfologicamente as formas do trato vocal e da língua. Os resultados indicaram que todos apresentam um grande volume anterior à constrição oral, forma convexa da região anterior da língua e forma côncava da região posterior da língua.

Recasens (1991b) estudou os róticos, de forma contrastiva, no Catalão95 e concluiu, a partir das diferenças observadas quanto ao grau de resistência coarticulatória com os segmentos adjacentes, que o corpo da língua está sujeito a um maior grau de constrição durante a produção de [r] “trill” do que de [ɾ] “tap”. Resultados similares foram também referidos num estudo prévio, no qual Recasens (1987) concluiu que o “trill” do Catalão e do Espanhol, assim como a realização velarizada de /l/, foram mais resistentes à coarticulação, uma vez que estes segmentos envolvem um “velarization gesture”, por oposição ao “tap” e ao /l/ não velarizado (cf. sub-secção 2.2.1.1.1. ).

As diferenças identificadas entre vibrantes simples e múltiplas, quer ao nível das características articulatórias envolvidas na produção destes segmentos, quer ao nível do efeito coarticulatório com as vogais adjacentes, são os argumentos apresentados por diversos autores para mostrar que o “trill” não pode ser encarado como uma mera sequência de “taps” (Bradley, 2001; Catford, 1977; Recasens & Pallarès, 1999; Recasens,

95 No Catalão, tal como no Espanhol, “trill” e “tap” são utilizados de forma contrastiva apenas em posição

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1991b). Catford (1977) reforça o argumento, acrescentando que a duração de cada “tap” é superior à duração de cada ciclo do “trill”96.

Webb (2002) afirma que no seu estudo existem pelo menos três tipos de “rhotics”: [ʁ] para os dois falantes do Francês e um falante Holandês, [ɹ] para os dois falantes do Inglês e um dos falantes do Holandês utiliza [ɹ] em posição final e [ʀ] em posição inicial e intervocálica. De acordo com a descrição de Webb (2002, p. 123):

“The [ʁ] (…) is produced by close contact of the tongue body with the velum, often in close proximity to the uvula. When egressive lung air passes through the lateral opening at this point of closure, a turbulent airflow is created. Frication is produced as the tongue back is in relatively closer contact to the velar region. By contrast, if the opening is relatively greater, turbulence is lessened and the quality of formants is less distributed and more vowel-like. This is especially noted in word-final instantiations for all speakers having a velar or uvulo-velar rhotic.”

Em relação a [ʀ], o autor considera existirem semelhanças com [ʁ] (Webb, 2002, p. 125):

“In both cases, the tongue body is raised, causing a constriction in the back of the oral cavity. In the case of [ʀ], this constriction is normal to the uvula, such that the differences in air pressure anterior and posterior to the constriction cause the open- close movement of the uvula, i.e. a trill.”

Num estudo articulatório com base em imagens de Raio-X, Delattre (1971) mostrou que as vibrantes múltiplas uvulares dos falantes do Francês e do Alemão são produzidas, inicialmente, com recuo da raiz da língua seguido da sua elevação em direção à úvula, que também se desloca ligeiramente para a frente no sentido de favorecer a ocorrência da vibração. Na Figura 13, encontra-se a representação esquemática dos movimentos articulatórios para a produção das vibrantes múltiplas uvulares no Francês e no Alemão.

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“The frequency of alveolar and uvular trills [r] and [ʀ] is of the order of 30 cycles per second. This is much higher than the maximum rate at which one can produce a series of [ɾ]-flaps (about five or six per second)”. (Catford, 1977, p. 130).

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Figura 13: Sequência dos movimentos das vibrantes uvulares do Francês e do Alemão obtidas a partir do trabalho de Delattre (1971). “The second frame in each row, shows retraction of the tongue, and the third

frame in each row shows backward movement of the tongue root followed by tongue body raising and fronting of the uvula.” De Ladefoged e Maddieson (1996, p. 229).