Preparation of Core Plugs for Special Core Analysis
7.3 Imbibition Tests and Amott Indices
Emanoel, um jovem de comunidade, 28 anos, é criador do Projecto Kabum,13realizador do Festival Estética Central, director de cinema, ci-
negrafista e designer. No final do nosso encontro com ele e os seus sócios numa quitinete-escritório-casa no Estácio, Manu tinha-se esquecido de mencionar o projecto do jogo para computador que eles estavam «bo- lando». Enquanto caminhávamos em direcção à saída, ele disse-nos que o seu plano era criar algo que fosse atraente para os jovens e pudesse, ao mesmo tempo, desdobrar-se num motivo de bem-estar, de qualidade de vida e de auto-estima para toda a família. Manu relatou-nos que a ideia do jogo surgiu da observação contínua da prática cada vez mais comum de jovens que passam o dia «jogando na frente do computador». Nas co- munidades/favelas é muito comum encontrar as lan houses sempre cheias de adolescentes «viciados» em jogos on-line. A partir dessa observação, eles pensaram: como fazer algo com esse estado de coisas para transformá-lo em algo produtivo, que se reverta em coisas boas? Se ao jogar o jovem pudesse ganhar a reforma da sua casa, por exemplo, ou de um cómodo da mesma, ou a pintura da fachada e melhorias estruturais etc., com cer- teza a família iria apoiá-lo em vez de reclamar que ele joga tempo de mais. Assim, o jogo possibilita integrar/juntar o interesse dos jovens com as questões da família e da comunidade. Quer dizer, o projecto actuaria me- lhorando a qualidade de vida e elevando a auto-estima, ao mesmo tempo que ajudaria a remover a pecha e o estigma do ócio juvenil.
Naquela época, Manu e seus sócios estavam a tentar obter patrocínio de grandes empresas de tecnologia como a Intel ou a IBM.
Essa extensa descrição é capaz de nos fazer mergulhar no plano da- quilo que aqui defendemos como a configuração da criação como uma operação. Ou seja, do modo como pensaram a construção da ideia do jogo, Manu e seus sócios trabalharam na rematerialização do entorno mais imediato da comunidade onde viviam, pelo alargamento dos pos- síveis explorando affordances até então inexploradas, encontrando brechas
13A Oi Kabum é uma escola de Arte e Tecnologia que tem por objectivo a formação
de jovens para a produção de audiovisual e o uso de tecnologias de comunicação e in- formação para o fortalecimento da cidadania. A escola existe em quatro capitais brasileiras (Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife) e é fruto de uma parceria do Oi Futuro com ONG locais. No Rio de Janeiro, a parceria é com a ONG Cecip – Centro de Criação de Imagem Popular.
muitas vezes geradas a partir de conexões imponderáveis, forjando a cria- ção como nice nature.14A operação, assim, explora a colecção de affordan-
ces que são inerentes à ecologia da situação, à amplitude de sensibilidades
e oportunidades (Urry 2000, 205).
Rodrigo, economista, trabalha num grande banco de investimentos e é sócio fundador da Frugale. Foi em torno daquilo que deu origem à sua empresa como incrementação máxima das redes de reciprocidade e associação entre três situações que Rodrigo envelopou (Sloterdijk apud Latour 2008), à sua maneira, o seu processo criador. Muito acima do seu peso, que acumulou num curto intervalo de tempo sentado diante do computador horas a fio acompanhando operações da bolsa, diz-nos que teve a «visão» de uma aeromoça passando atrás da mesa de operações do seu banco com um carrinho repleto de produtos saudáveis. As frequentes viagens que costuma fazer, aliadas ao incómodo de seis quilos a mais e às dificuldades de encontrar alimentação rápida e saudável nos arredores onde trabalha, levaram a uma vida sedentária e resultaram na criação da empresa Frugale. Enquanto conversávamos com Rodrigo, pudemos pro- var e desfrutar dos seus inúmeros produtos saudáveis, como sucos, sala- das, sanduíches naturais, iogurtes de vários tipos, etc. E, da mesma forma, acompanhámos o deslocamento do carrinho pelas mãos da «aeromoça em terra» em direcção aos outros andares da empresa. Hoje, ele distribui os seus produtos a mais de dez empresas no Rio de Janeiro.
Nem descobrir, nem inventar, mas conectar, refazer a informação, re- desenhar contextos, ideias, objectos e situações que resultam, muitas vezes, em tornar explícito o implícito, gerando relações de equivalência entre matters of fact e matters of concern.15O pioneirismo da filosofia de
Peter Sloterdijk, ao tratar os suportes da vida humana (life supports) como
matters of concern, viabiliza que possamos empilhar e reunir interesses
14Esta expressão, no caso de referir-se a um produto ou objecto acabado, assim como
ao próprio processo de criação, caracteriza-se como algo «enxuto», «involuído», simples, agradável, que se relaciona com a variedade dos sentidos e maximiza as affordances. «Uma
nice nature maximiza a disposição das affordances para os humanos e também se relaciona
com a ‘variedade de sentidos’. Nice nature deve proporcionar experiências de toque, tacto, de ouvir, cheirar, de paladar e movimento, assim como de visão» (Urry 2000, 205, tradu- ção minha).
15Optamos – como é muito comum no caso destes dois termos – pela sua não tra-
dução. Eles expressam, ainda que de forma imprecisa e não exaustiva, os contrastes entre as noções de materialidade e moralidade, de facto e valor, factos concretos ou coisas e factos de interesse. A visão modernista – humanista, vigente na primeira metade do sé- culo XXe que encontrou em Habermas um grande preconizador – encara de modo an-
tagónico e contraditório os sentidos de matters of fact e matters of concern (Sloterdijk apud Latour 2008).
Criatividade contemporânea e os redesenhos das relações entre autor e obra
sobre interesses, dobras sobre dobras, envelopes sobre envelopes. Nas palavras de Bruno Latour a respeito da mudança de idioma que este fi- lósofo funda no que diz respeito às relações entre factos e valores, coisas e humanos: «Nós absorvemos os humanos para o interior de mais e mais elementos que têm sido cuidadosamente explicitados, protegidos, con- servados e mantidos (sendo a imunologia, de acordo com Sloterdijk, a grande filosofia da biologia)» (Latour 2008, 10, tradução minha).
A explicitação, portanto, converte-se, aqui, numa noção-chave por meio da qual procuramos dar mais um passo na direção das reconfigura- ções contemporâneas do processo criativo entre os nossos jovens em- preendedores. O conceito de explicitação, ainda perseguindo as grandes intuições desse filósofo do design, é capaz de viabilizar a reconciliação, na contemporaneidade, das duas grandes narrativas alternativas que a mo- dernidade separou: a da emancipação, tributária da história oficial, e a da cautela/atenção ao detalhe (ou attachment), aquela que sempre se manteve secreta e misteriosa (Sloterdijk apud Latour 2008, 8). A oposição traçada pelo modernismo entre os sentidos do social, do simbólico, do subjectivo e do vivido e o mundo material, real, objectivo e factual, sofrerá uma ra- dical torção no seu funcionamento. É nessa direcção que a «explicitação talvez nos permita compreender que é possível rematerializar (ou se re- materializar) sem importar, juntamente com o conceito de ‘matéria’, toda a bagagem modernista das matters of fact» (ibid., 9, tradução minha).
Em grande parte dos contactos travados com o universo de jovens, tanto do meio artístico, lúdico e expressivo quanto com aqueles mais an- tenados com o mundo empresarial e executivo, um certo atravessamento comum fazia-se presente: a criatividade como algo «criado». Apesar do incómodo pleonasmo ou da impressão de tosca redundância dessa infe- rência, residia aí um dos princípios norteadores e produtores da ressigni- ficação contemporânea dessa noção: criação como privilegiamento do
continuum operacional trajectivo, como explicitação, recombinação/co-
nexão de factores.
Sócio fundador da Gomus – uma empresa que se define como colec- tivo especializado em music branding, música ambiente para lojas, eventos, empresas, identidade musical e outros serviços nessa linha –, além de jor- nalista e empreendedor musical, Delano, 29 anos, «martela ali naquela mesma coisa, jogando e mastigando aquelas ideias, e quando a gente vai ver, aquilo vai virando um corpo e vai se tornando um trabalho incrível de criatividade...». Quando a coisa não está a sair, ele respira, sai um pouco, «porque tudo tem um limite». «Essa coisa de ficar esperando vir a grande inspiração», diz-nos, «não acontece, não.» Na sua empresa, cria-
tividade é busca, é insistência, é, mais uma vez, «espremer tudo que se tem para aquilo que você está fazendo». Uma leve alusão feita à «criati- vidade do ócio» – que ele viveu quando era mais jovem, quando pegava no seu violão, num belo dia, para compor música e «se vinha, vinha, e se não vinha, não tinha problema» – aproxima-se aqui da ideia romântica de livre fluxo, «pausa pra respirar até vir a inspiração». Essa «criatividade», diz-nos ele, não ver mais acontecer, e prossegue nas suas convicções sobre «espremer» e «martelar», «espremer» e «martelar»... Para esse empreende- dor, «respirar» remete ao perímetro da expansão do ócio e de atmosferas remotas, permeadas de certa nostalgia, do curso das associações livres e descomprometidas da sua primeira juventude. Com isso não queremos dizer que, no meio dos cenários contemporâneos da criatividade, tal con- dição se tenha tornado por completo rarefeita, mas apenas ressaltar a sua inserção numa orquestração outra, de revezamentos que se vão operar entre tempos de pressão e tempos de processos. Um pensar e um fazer juntos ressemantiza os processos criativos na Gomus. Nessa empresa, Delano e seus sócios trabalham pesquisando sons e músicos novos na internet, mas também «criam» músicas e sons «redesenhados» para os seus clientes.
Quando fomos entrevistá-los, o encontro deu-se no jardim de uma casa de dois andares com garagem, no alto da Gávea, que pertencia aos pais de um deles. A Gomus dividia-se naquele espaço entre o escri - tório, um «anexo» no quintal na frente da casa (aposento de 20m2) e o es-
túdio de gravação, que ficava na garagem da mesma casa. Nesse ambiente, muito da criatividade está na tentativa. Para Delano,
as pessoas mais criativas são aquelas que ficam martelando ali naquela coisa e jogando ideia e mastigando aquelas ideias, jogando mais ideias e aquilo ali vai virando um corpo e quando a gente vai ver... aquilo se torna um trabalho de criatividade fantástico.
O «virar» é uma circunstância inúmeras vezes accionada no universo dos agentes criativos em questão. Enquanto procedimento migrante (Sennett 2009) que envolve o deslocamento do «talento inato» em favor do «virar» e da capacitação/treinamento incessantes implica o desloca- mento do artista em favor do artífice. Mas o «virar» envolve também um acto de permanente alargamento de ambientes estimulantes, ou novos o bastante para já aparecerem à pessoa como matéria para invenção. «Virar» é, por um lado, «se virar»; por outro, procedimentos de se encon- trar novos territórios para a actuação, entre os quais aqueles que encarnam
Criatividade contemporânea e os redesenhos das relações entre autor e obra
na articulação entre fazer/aprender – um aprender enquanto se faz – uma nova abordagem da profissionalização.
Claras homologias fazem-se aqui presentes com a sugestão do design e do redesign em substituição das noções de construção e edificação, ca- tivas que são essas últimas, por sua vez, do criar a partir do nada, a partir do zero. Tijolo, armação, cimento, estrutura, ligação entre vigas, fazem as vezes das dobras sobre dobras, dos inúmeros envelopes com os quais Delano explicita, recombina e rematerializa as suas peças em favor da contínua clareza dos procedimentos e do que se dispõe.