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Measuring P c -Curves by Use of the DMS-Method

8.3 Imbibition Capillary Pressure Measurement

«Falam que do céu, hoje em dia, não cai mais nem cocô de pombo, quanto mais ideia, né? Hoje, quanto mais acharem que vai cair a maçã e aí dar o estalo da gravidade, mais longe da criatividade vão estar.» Assim se referiu à criatividade Rafael, empreendedor renomado e sócio executivo da Biruta – Ideias Mirabolantes.16Com estilo imperial, muito assertivo

no que diz, ele não titubeia. A sua tribuna é a do artífice. Contraposto à prática de entesouramento de «segredos», Rafael expressa de forma con- tundente o seu jogo corporal com a situação e com os inúmeros desafios trazidos, a cada dia, pela sua condição de empreendedor. O trabalho bem- -feito, a exigência contínua da explicitação e da clareza fazem parte de uma forma de operar que envolve o árduo processo de trabalho na agência e que descarta deferências focadas no «criativo solitário». Na contramão da aura de originalidade, do privilegiamento do sujeito que deu a ideia para a sua empresa, tido para ele como um mero «cuspidor», Rafael exalta como criativo «aquele que sabe fazer e que na hora da entrega está ali, junto da produção». Para ele, «esse é o cara». Envergando princípios e convicções que convergem, a cada dia, para o eclipse da ideia, ou seja, para a órbita de legitimação do sujeito que «teve a ideia» versus aquele que consegue transformá-la em acção, Rafael não deixa de identificar gestão com criação. À época, ele e os seus sócios, quando deram início ao empreendimento

16Definida como um novo tipo de empresa pelo seu próprio site, a Biruta é focada

em inovação, no sentido mais amplo da palavra, e pretende ser um parceiro criativo para os seus clientes, aliando planeamento, conhecimento, tecnologia e ousadia. Segundo um dos seus sócios, o mantra dessa empresa de publicidade é: «Ideias mirabolantes geram resultado. E nosso trabalho é transformar essas ideias em realidade.»

publicitário, confessaram-nos que «chegaram à conclusão de que criativi- dade sem gestão não é nada, são apenas ideias engraçadas».

A ênfase no plano da capacitação, na esfera da execução e da concre- tude, e do treinamento árduo e incessante do artífice deixa para trás pri- mazias conferidas à cápsula da originalidade e do talento inatos, prerro- gativas da genialidade do artista. Não somente essas prerrogativas parecem ficar pelo caminho, mas este, por sua vez, redirecciona-se frente a novos rumos do possível, tendendo a tornar indissociáveis os automatismos se- quenciais entre os planos da reflexão e da ação.

«Tirar da cachola», «margens para casuísmos» são imagens recorrentes no imaginário dos jovens empreendedores com o objectivo de reiterar uma espécie de cenário em desuso, deixado para trás. Uma cartilha de valores que já não parece acenar para a receita de sucesso e prestígio entre os vários ambientes de trabalho a que tivemos acesso.

Mais uma vez, a explicitação como diluição, dilatação e disponibili- zação espalhada dos «saberes-fazeres» envolvidos no processo atravessa a experiência de Thiago no banco de investimentos. Nesse ambiente, a fundamentação e a concretização são condições mais importantes do que a própria ideia. Mais do que isso, a inescapável skill conexionista im- pera produzindo e traduzindo efeitos de rematerialização do processo criativo. Do mesmo modo, o pick-up (como será exemplificado mais adiante) e não o cut-up pós-moderno remetido à mera colagem/soma/jus- taposição, como operação realizada por Thiago diante da questão que envolvia o afundamento de um navio carregado de soja que ia para a China, «faz-se entre ideias, cada uma desterritorializando-se na outra, se- gundo uma linha ou linhas que não estão nem numa nem na outra, e que carregam um bloco» (Deleuze e Parnet 1998, 26).

Um dos colegas que com ele trabalham no banco destaca-se pela sua singular aptidão em saber «extrair». Ou seja, num cenário movido pela des- substancialização dos feitos inteiriços, solitários, prontos e acabados, o seu colega rematerializa e redesenha a circunstância do facto criador na em- presa. «A economia americana vai melhorar, porque as pessoas vão com- prar mais em função de tais e tais razões, mais empregos vão ser gerados, logo, a bolsa vai subir, a economia vai crescer.» O «geniozão», como nos diz Thiago, teve a ideia dele, mas o cara bom é o que pega a ideia e faz a conexão. Ou seja, é aquele que, no contemporâneo entendimento da cria- ção como operação, coloca em simultaneidade e contaminação o descobrir (conectar) e o inventar, visibilizando que o facto é feito (Latour 2002). Os operadores da bolsa comungam do princípio de que o grande mo- vimento criador não reside no facto de se «possuir uma ideia», mas sim,

Criatividade contemporânea e os redesenhos das relações entre autor e obra

de saber extrair associação e conexão de tudo aquilo que existe e que já está dado no mundo. Esse, sim, é o grande movimento criador. Eis, então, o pick-up e o movimento de conexão de possíveis efectuado por Thiago: afundou-se um navio que levava uma enorme quantidade de soja para a China. Como posso lidar com essa informação? Ele indaga- -se, exemplificando os regimes da criatividade no seu espaço de trabalho: «É você conseguir reunir todas as informações e chegar com elas a algum lugar.» O navio afundou-se, e ele, então, imagina: «Vou comprar acção dessa empresa porque ela vai se dar bem, o chinês vai precisar comer soja e não vai ter onde comprar.» Misturando todos esses factores, e pensando em como eles se podem afectar mutuamente e, ao mesmo tempo, aprenden do com isso, vai-se instalando o movimento criativo desse em- preendedor. Todas essas informações, por sua vez, não se podem perder, deixar de ser aproveitadas, deixar de «desaguar» em algum lugar. E isso sig- nifica estar atento a uma visão de amplo espectro, uma espécie de zoom da lente o mais aberta possível.

A imagem de um xarope cujo sedimento se acumula no fundo, à es- pera de ser agitado e, em seguida, ingerido, por mais que não tenha sido expressa dessa forma por Yuri, artista visual, 26 anos, serve como metáfora do seu processo criador. Permitindo-se deixar atravessar pelos percursos simultâneos do pensar-fazer, onde não se sabe exactamente quando um plano acciona o outro, e mesmo em que ordem o fazem, as suas ideias vão tomando corpo na medida em que ele as vai pondo em prática. A partir daí vão surgindo outras, dessa vez oriundas da fricção, mais uma vez, com o que ele faz. E, «quando você vê», alerta-nos ele, «você está com um aglomerado de coisas, de camadas entre teoria e prática, tudo junto, sem distinguir as coisas que estão juntas». É aí que, na nossa visão, aparece o xarope como metáfora. Quando finalmente Yuri acha que, «pronto», o seu trabalho «decantou», ele agora pode «agitar», é a hora de apresentá-lo, ainda que essa apresentação, a seus olhos, seja entendida como um processo cujo aperfeiçoamento venha a dar-se lá na frente.

Agitar a decantação é uma imagem que não implica trajectividades sequenciais, e muito menos prever o que surgirá da mistura do líquido com o pó. Do mesmo modo que não há dimensão linear no tempo entre pensar-fazer no seu desempenho artístico, o mesmo Delano indaga-se sobre «se veio de fora ou de dentro a sua própria condição de ter-se tor- nado artista». Nem de fora nem de dentro, Delano fez-se artista, ou seja, o processo foi acontecendo... Tanto o reconhecimento institucional não presidiu a condição quanto esta se foi fazendo e alimentando a outra sem que ele se deixasse presidir pela «planta» (Sennett 2009), pelo próprio

cânone antecipador de ser declarado artista. Nas suas palavras: «Nem sei o que é ser artista de facto, estar em evidência, estar em circuito, expondo e tal. Foi sendo mais um meio de diversão, de criação mesmo...»

Uma aposta na liberação como «táctica»

No final desta reflexão, que ainda se caracteriza como um trabalho em processo, apostamos na sugestão de um contraponto para os modelos mais duros das interpretações que advogam a entrada em cena de uma nova e asfixiante normatização das condutas na sociedade contemporâ- nea.17Ao contrário de uma nova normatividade, sugerimos, em relação

a ela, não uma oposição euclidiana e ingénua, que se encarnaria na leitura adjectivada de um processo de liberação. Ao propormos compreender a liberação na sua qualidade de advérbio de modo, temos em mente uma forma de se colocar em marcha ou em operação que não está radicada no ser e que produz, de cada vez, um «pirateamento» infinitesimal e in- filtrado da norma, uma vez que opera «de dentro», e não como oposição ou escape. Como procurámos exaustivamente descrever e demonstrar, as subjectividades que atravessam os processos criativos em pauta, no âmbito da subtileza do jogo flexibilidade/coerção18de Urry (2000), ope-

ram por captação e soltura versus funcionamento, que fala cada vez mais a mesma língua «rizomática», mas asseptizada, uma vez que opera por captura e resultado.

Tal como no estudo de Richard Sennett (2009) sobre a imagem da preensão na mão – fruto das suas observações junto dos cozinheiros japo- neses e do manejo que possuem das facas para o corte dos peixes –, desta- camos o «agarrar» que envolve o «saber soltar» ou o «acto de liberar». A preensão é o «estado de alerta», ou a co-presença permanente do pensar e do fazer (Sennett 2009), tantas vezes encontrados nas trajectórias e expe- riências profissionais dos agentes criativos com os quais trabalhamos. O cálculo da força mínima (como a empreendida pelo movimento da mão do cozinheiro japonês): a pressão/tensão necessita de ser diminuída, tra- balhada, remetabolizada, e não aumentada, no modo, por exemplo, como lidam esses jovens com a competição, a fim de gerar movimento fluido.

17Cf. Bozon (2004) e Le Breton (1999).

18O próprio facto de o Estado tomar a forma do gamekeeper permite-nos pensar a

abertura de brechas para os jogos astuciosos da liberação: «O Estado provê a licença e a infra-estrutura, para aqueles que vagueiam e perambulam, mas não onde e quando» (Urry 2000, 191, itálicos e tradução meus).

Criatividade contemporânea e os redesenhos das relações entre autor e obra

Entendemos, portanto, a liberação como precisão, obtida por geren- ciamento da tensão e da obtenção de tranquilidade: como uma «ética do soltar». Liberação, portanto, não como uma condição de interioriza- ção dos controlos, tal como emblematizada na hipótese civilizadora de Norbert Elias.21

Geração de concentração/foco/direcção/andamento/ritmo (e não im- pulso) é trabalhada pela via da co-presença entre o pensar e o fazer, o olho e a mão.

Hardt e Negri (2005, 2006) direccionaram as suas últimas análises para uma ampla reflexão sobre o trabalho imaterial e as sensíveis mudanças subjectivas dele oriundas. À relação dialéctica capital/proletariado/traba- lho e seu indissociável conceito de revolução, vemos opor-se o conceito de potência que, no capitalismo cognitivo dos dias de hoje, traz o cogni- tariado como seu principal agente. Mesmo tendo de lidar e trabalhar com o cenário do capitalismo rizomático que captura os valores da imaginação e da ludicidade, os processos astuciosos da liberação fazem-se valer e mos- tram os seus efeitos em relação a formas de se lidar com as vicissitudes da rotina, com o improviso, com o inesperado e com a própria competição. No universo contemporâneo das relações de trabalho é impossível desconsiderar as dilacerantes e perturbadoras relações de co-presença entre os novos agentes criativos, cuja acção no mundo acompanhamos, os traços remanescentes da sociedade fordista, como os encarnados, por exemplo, pela figura dos atendentes de telemarketing, assim como pelos inúmeros bolsões de trabalho semiescravo, cuja erradicação ainda soa tão remota e descuidada.

Como conclusão provisória, e procurando trabalhar entre o dentro e fora numa ampla rede de negociações, a liberação, como produção do dissenso sensorial (Rancière apud Canclini 2010), é a arte da iminência, do quase, do que não se fecha, do inconcluso, cujo feixe de virtudes e achados inesperados procuramos, com este trabalho, começar a explorar.

19Cf. Norbert Elias. 1990. O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. Rio de

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