• No results found

Illikviditetspremie

7. AVKASTNINGSKRAV

7.1 EGENKAPITALKRAV

7.1.4 Illikviditetspremie

O primeiro fator a ser analisado é o papel da mídia (especialmente a televisiva, mais difundida entre a população brasileira) na construção e na disseminação de valores e modelos hegemônicos de família. Maria Rita Kehl (2004) alerta para o fato de que a violência da televisão está embutida em sua forma de entrar e se instalar na “consciência” dos telespectadores sem um crivo crítico, absorvendo-os de forma automática.

Pela multiplicidade de realidades que a televisão desencadeia, ela passa de um meio de comunicação a um poderoso agente ideológico. A televisão ocupa grande parte do tempo de lazer da maior parte da população brasileira, dia após dia, disseminando valores que penetram fundo no ideário das pessoas inertes e passivas, diante dos espetáculos milimetricamente programados para disseminar o que interessa aos detentores do poder midiático, que determinam quais serão os conteúdos presentes na cultura dominante.

Tal como alerta Horkheimer (1976), a indústria do entretenimento vem se colocando cada vez mais como decisiva no processo de seleção e transmissão dos valores com os quais as pessoas de identificam. Assistir à televisão é um hábito tão difundido entre os brasileiros, que é comum, em habitações que não tem nem geladeira, a presença de antenas de televisão, às vezes até de televisão a cabo.

Na pesquisa, Isamara ilustrou este hábito, com a fala de que ele é tão forte para a sua filha adolescente que seu castigo é ficar sem poder assistir à televisão:

Isamara: Quando ela [filha M.] não tá fuçando no celular, ela tá assistindo televisão. [...] Agora a M., castigo era diferente. Eu deixo ela isolada, sem televisão, sem celular, que eu sei que é o que ela gosta. Eu deixo ela sem isto.

Esta presença maciça da televisão na rotina das famílias participantes da pesquisa apareceu na maioria dos lares, sendo as novelas da rede Globo a programação preferida das entrevistadas e a mais frequente, seguida pelos desenhos das crianças. Desde as entrevistadas mais idosas, como Olga e Vitória, até as mais novas, como Maria, Alessandra e Isamara, citaram que as novelas eram seu programa favorito.

Quando questionadas sobre aquilo de que gostam nas novelas, Isamara manifestou em seu depoimento a sua postura realmente passiva e inconsciente sobre o que se é reportado pela televisão, diariamente (principalmente pelas novelas):

Isamara: [...] Eu não parei para pensar ainda porque que eu gosto de ver novela!

Vitória: [...] o meu marido acha assim: “Ah, quem gosta de novela, vive a novela.” Ah, eu não vivo a novela. Eu acho que é uma história de vida que tá te ensinando como você deve fazer... na Globo, que eu gosto mais da Globo. É um detalhe que você vai pegar aquilo e usar... não usar aquilo... [...].

Vitória sinaliza, em sua fala, a possibilidade de haver a aprendizagem de modelos e comportamentos por imitação dos personagens das novelas. Roso et al. (2002) analisam este tipo de comportamento, afirmando que os telespectadores correm o risco de serem vítimas da manipulação da consciência quando assistem a programas de televisão sem se questionarem, pois são submetidos a uma série de imagens simbólicas intencionais, que se apresentam como convencionais, mostrando inter-relações de elementos específicos com objetivos de representar conteúdos e significados, conforme certas concepções sócio-históricas específicas. Autores como Guareschi (1995) e Dupas (2001), entre outros, asseveram não existirem mensagens que não sejam dotadas de intencionalidade, e, consequentemente, de uma determinada ideologia a ser difundida, sendo que esta é sempre definida por aquele(s) que emite(m) o conteúdo a ser comunicado.

Kehl (2004, p. 89) explica que a televisão tem o poder de, através de repetidas e insistentes transmissões de programas violentos, levar as pessoas a se habituarem com cenas que não suportariam ver há alguns anos, pois com a exposição sistemática destas imagens, os telespectadores vão aumentando o “[...] padrão de tolerância ao horror.”

Mas chamadas a refletirem, as entrevistadas manifestam saber que as novelas entram nas suas casas e também entram dentro de cada uma, incutindo valores, modelos e comportamentos:

Isamara: A gente vê isso na televisão e tem na realidade também. O que mais você vê é as pessoa dando golpe. Quer sempre mais e mais.

Vitória: O que a televisão fala, ela [neta M.V.] vai querer. Aprendeu a querer escolher as coisas. Ela assiste muito. [...] Eu acho que tinha que escolher um desenho mais calmo. [...] Ela já quer uns desenhos mais agressivos. Ela copia muito os desenhos.

As entrevistadas Natália e Pity são as únicas que dizem não gostar de televisão e não assistem porque não gostam do propósito que percebem haver neste meio de comunicação:

Natália: [...] Que que passa em novela de bão? Bão foi a que terminou que... que mostrou uma coisa que é o tráfico de, de gente, né. [...] Mas se você for ver tem também muita coisa assim, é traição, é pessoa querendo desmoralizar a outra, é coisas assim que não edifica.

Pity: Olha eu não assisto televisão, não gosto de novela. Mais que eu assisto às vezes é um jornal, gosto de escutar música, também. [...] Eu gosto mais de jogar videogame do que de assistir televisão. [...] Ah, eu não gosto de novela porque essas novela envolve assim umas coisas meio atrapalhada, né. Não gosto, acho que novela, elas influenciam a gente. [...] Porque já não é aquele espetáculo de vida, né. Ficar assistindo novela, ainda com aquele tanto de mintiraiada... (risos) eu falo “Não, vamos cantar, vamos jogar videogame que dá mais certo.”

Hamburguer (2005) chama a atenção para o fato de que os estudos sobre a indústria cultural reduzem a sua função de reprodução do status quo, desconsiderando que, mesmo que a televisão reproduza ideologias e valores dominantes, esses podem ser tanto absorvidos como repelidos pelos telespectadores. A autora ressalta que ainda é necessário estudar a diversidade com que os diferentes contextos de recepção da mensagem interferem na sua significação.

Natália reforça que seus filhos, tal como ela, também não gostam muito de alguns programas televisivos:

Natália: [...] E graças a Deus, meus meninos também é assim. Se eles ligar a televisão e tiver passando uma coisa que não tá prestando, não precisa nem eu ver, eles vê que é uma coisa que não é para eles vê e eles já tá mudando. [...] as coisas que passa que não tá sendo boa não. É coisa assim só de... é... não tem nenhum bem, não tem nenhum bem.

Como os filhos de Natália têm 15, 10 e 9 anos de idade, pode-se questionar se realmente eles já “sabem” selecionar a programação “melhor” para eles, como a mãe declara, ou se eles são obedientes e assistem ao que a mãe lhes “ensinou” que pode, que é o “melhor” para eles. Para Natália, programas como novelas, filmes de

violência e de sexo seriam aqueles inadequados para seus filhos, enquanto os programas evangélicos e desenhos infantis lhes seriam adequados.

A imagem de família ideal disseminada pela mídia atende aos referenciais confusos e estereotipados da modernidade. Segundo Hennigen (2008), o modelo de família divulgado sistematicamente na mídia é o de família nuclear burguesa14,

composta por pai, mãe e filhos, marcada pelo domínio masculino. Segundo a autora, a força televisiva é tanta que os comportamentos sociais seguem as tendências disseminadas: as famílias que se “encaixam” neste modelo são tidas como adequadas e “estruturadas”, contudo, as que não seguem estes parâmetros recebem o rótulo de “desestruturadas” e problemáticas.

A “desestruturação” das famílias é tomada como justificativa para os seus membros serem usuários de drogas, cometerem delitos e crimes, falharem nos estudos, não serem trabalhadores, entre outras... Faz-se importante o questionamento: até que ponto pode-se atribuir à configuração familiar as condutas éticas das pessoas? A hegemonia do modelo de família nuclear seria a configuração idealizada como se esta fosse manter a “ordem” social?