8. ANALYSE AV LØNNSOMHET
8.1 RENTABILITETSANALYSE
8.1.2 Dekomponering av egenkapitalrentabilitet
Além da multiplicidade étnico-cultural que embasa a composição demográfica brasileira, a última divulgação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2010) revela que o modelo de família tradicional (ou nuclear, composto por homem e mulher casados e com filhos), que já foi sinônimo de “normalidade”, vem reduzindo a sua incidência entre as famílias brasileiras na última década.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2010), a família tradicional composta de casal com filhos (47,3% da população em 2009) vem reduzindo, ao longo do tempo, a porcentagem de predominância na população, que já foi de 59,4% em 1992. As estatísticas revelam um aumento de divórcios (1,20% em 1999 para 1,52% em 2008) e uma gradual redução do número de casamentos entre
14 Existe uma discordância entre autores sobre a validade do emprego do termo “burguês” para denominar o grupo social contemporâneo que detém a maior concentração de capital, devido a diferenças históricas e culturais. Porém, como ele é utilizado por muitos autores consultados, representando um referencial humano, optou-se por citá-lo neste trabalho.
solteiros (89,4% em 1999 para 82,9% em 2008). Também houve um aumento dos recasamentos (10,6% em 1999 para 17,1% em 2008).
Esses dados indicam um processo de mudança gradual das configurações familiares brasileiras, sendo que o modelo tradicional-normativo vem sendo questionado, e outras possibilidades de organização socioafetivas passam a ganhar espaço.
As famílias pesquisadas apresentam configurações que espelham as mudanças que vem ocorrendo no país. Das cinco famílias que participaram da pesquisa, quatro apresentam a configuração de pessoa de referência do sexo feminino e sem cônjuge, sendo duas das entrevistadas15 viúvas (Alessandra e Olga),
uma divorciada (Maria) e duas separadas (Isamara e Pity). Apenas duas entrevistadas eram casadas, porém somente Vitória morava com o marido, dado que o marido de Natália estava preso na época da entrevista.
Tanto o fato de que a maioria das famílias que participaram tinham as mulheres como “chefes de família” como o fato de que só as mulheres concederam entrevistas levam à necessidade de se pensar sobre a questão de gênero na pesquisa.
Segundo Scott (1990), a palavra gênero destaca o caráter social das distinções entre os sexos, e sua inserção no contexto acadêmico foi fortalecida pelos estudos de feministas, que rejeitam o determinismo biológico dos papéis sociais e sua função de manutenção da ordem social. Scott (1990) representa um grupo de autoras que defende a necessidade de incluir a análise de gênero nas leituras científicas, pois, tal como as análises de classe e raça, este tipo de análise permite evidenciar as desigualdades existentes e, assim, incluir na história essas categorias de oprimidos (gênero, classe e raça) para desvelar o sentido e a natureza desta opressão.
Respaldando-se nessas informações, a tese tem como participantes apenas mulheres, representantes de um grupo social que permanece em uma situação de desvalorização social, e que, portanto, emitem seus pontos de vista sobre
15 Vale lembrar que, apesar de terem sido entrevistadas cinco (05) famílias, foram ouvidas sete mulheres, já que duas dessas famílias eram compostas por filhos e netos da pessoa de referência (vide Quadros 1 e 2).
a temática investigada desta posição de desigualdade e “inferioridade” social ideologicamente construída e refletida nas relações entre os sexos (SCOTT, 1990).
Estudos feministas da década de 1970 “[...] privilegiaram a maternidade para explicar a situação de desigualdade das mulheres em relação aos homens.” (SCAVONE, 2001, p. 52), visto que as colocam em situação de opressão ao determinar o papel da mulher na família e na sociedade: o papel de mãe, esposa e dona de casa. Scavone (2001) salienta que Simone de Beauvoir foi uma das principais autoras a pontuarem que a maternidade, tal como se vivia na época, era mais uma “invenção” social do que um papel socioafetivo natural a ser desempenhado, para a mulher atingir a sua plenitude.
As mulheres participantes da pesquisa vivem a centralidade de seu papel de mãe e de provedora do lar. São mulheres que contribuem para a “[...] produção e a reprodução da identidade de gênero.” (SCOTT, 1990, p. 8), de forma a consolidar um padrão de maternidade/maternagem tradicional (mãe responsável pela educação dos filhos e cuidado da casa) além de agregarem o papel de provedoras, o que também reforça um modelo de paternidade/paternagem ausente, desvinculada com a criação e educação dos filhos, descomprometida com a manutenção objetiva da família.
O olhar inicial para essas configurações revela que são famílias que não se “encaixam” no modelo patriarcal burguês, sendo que em todas as casas das famílias entrevistadas tinha pelo menos uma mulher responsável por criar os filhos sem o apoio do pai dessas crianças. Sem entrar no julgamento moralista desta realidade, que não serve para a análise em profundidade, outras análises são possíveis para ampliar as possíveis interpretações a serem dadas para esta questão.
Um dos pontos é que as configurações das famílias entrevistadas indicam o aumento da dissolução de casamentos, bem como a necessidade das famílias se agruparem na mesma residência. As falas das entrevistadas sobre a dissolução dos casamentos foram principalmente no sentido de que preferiam ficar sozinhas a continuarem com seus parceiros; logo, não são mulheres que se percebem abandonadas ou fragilizadas pela saída da figura masculina das suas casas. Assim, nos casos discutidos, a separação e o divórcio foram estratégias que as entrevistadas encontraram para ficarem melhor, e não que “desestruturaram” suas famílias. Este
resultado apresenta uma possível diferença no modo de as mulheres perceberem seus casamentos, saindo da visão de indissolubilidade do casamento, presente nas mulheres chefes de família entrevistadas por Soares (2002), e abrindo-se para a perspectiva de reconstruírem suas vidas de uma forma mais positiva, fora de um casamento que “não deu certo”.
Maria, sem explicitar a razão do seu divórcio, fala que não deu certo com o ex-marido, que até tinham tentado “morar junto” novamente por quatro meses, mas não tinha dado certo. Ela ressalta que foi com a regularização do divórcio e da pensão que ela pôde controlar melhor os gastos financeiros da filha:
Maria: Ele [ex-marido] já pagava [pensão]. Mas nós fizemos um acordo e do acordo para cá ele nunca aumentou. E tem que aumentar segundo o salário mínimo. E o salário mínimo aumentou e ele falava: “Ah, mas pelo aumento vai dar só um real. Não vai dar diferença.” Mas é um real, né. Bom, mas eu nunca fiz as contas, sabe. Falava: “Ah, se ele tá pagando os R$ 200,00 tá bom.” Aí, depois, quando foi em setembro, a gente voltou e tentou morar junto, mas aí não deu certo. Daí ele não pagou. Nós foi morar junto em dezembro e de setembro a dezembro ele não pagou. Ai era um leite, uma coisa... Ai a gente ficou até fevereiro. Aí depois que ele tinha que pagar os atrasados. [...] Chegava no outro mês e eu falava: “Você não vai dar o restante?” Ele falava que não e eu: “Então não dá.” Daí eu pus lá... [no C.J.S.] É, porque daí... eles põem o valor certo e ele vai e paga certinho. Paga tudo certo, porque ele tem o dinheiro para pagar, né. Já desconta direto do pagamento dele.
Isamara, por sua vez, sofreu muito em seu casamento com seu ex-marido, contando que ele batia muito nos filhos, brigava com ela por tudo o que ela fazia e ele achava errado:
Isamara: Ah, ele tem um sistema diferente. Ele é daqueles antigo. Num, num gosta. Num gosta, num gostava de sair com a gente, não gostava de brincar, de nada.
Apesar de enfatizar que nunca tinha se sentido amada, Isamara e o ex- marido ficaram por muitos anos, tal como ela descreve, “volta, não volta, volta, não volta”, e, em um destes momentos, Isamara engravidou do filho mais novo, o que ela atribui a uma “armação” do marido para fazê-la voltar para ele. Esta relação instável, marcada de desconfiança e “acomodação”, que perdurava até a época da entrevista, foi para Isamara um dos principais desencadeadores de sua depressão.
A opinião de Pity sobre a dissolução de seu casamento foi a única que guardava um desejo de que a história tivesse sido diferente, mas isto se explica pelo fato de ter sido o ex-marido quem a abandonou, deixando a filha dele para ela cuidar:
Pity: [...] Eu conheci o pai dela [V.], que eu casei, né. [...] Mas depois que larga, ele foi embora, como é que faz? Quem poderia me salvar?
Porém, Pity conseguiu, ela mesma, “se salvar”, criar a filha adotiva e ainda adotar outro filho, além de ter a admiração da filha, que diz querer ser uma mãe como ela. Mas dentro da família de Pity já se pode encontrar a repetição deste padrão de família monoparental feminina, que foi predominante entre os entrevistados deste trabalho, pois a filha adotiva de Pity (V.) tinha acabado de ter uma bebê, nos seus 15 anos, solteira, desempregada e sem auxílio financeiro ou suporte afetivo do pai da criança.
Entretanto, se a realidade demonstra mudanças, e a investigação de alguns casos (tais como os desta pesquisa) revelam que a manutenção da configuração tradicional seria uma estratégia ruim para algumas famílias, por que ainda se encontram discursos que atribuem à configuração familiar o resultado da boa (ou da má) educação dos filhos? Será que incorporamos essas ideologias disseminadas pela televisão? Qual o interesse de se difundir este modelo hegemônico, fazendo com que as pessoas o almejem para si?
A escolha deste modelo pode ter tido influências tanto dos mitos da cultura católica romana, como o de Adão e Eva, como de mitos da modernidade burguesa, como o mito de criação da cultura e da moral, difundido pela psicanálise através do livro Totem e Tabu de Freud (1999). No entanto, a difusão maciça desses modelos tem outras explicações.
Ruiz (2006) argumenta que, ao colocar a responsabilidade nas famílias, aceita-se que os instrumentos modernos, tais como o Estado, a economia e a cultura contemporânea, não teriam influência nessas questões; assim, esse tipo de responsabilização atribuída às famílias remete ao pensamento positivista. Contudo, as evidências históricas, culturais, sociopolíticas e econômicas indicam o oposto; por
essa razão, esta faceta distorcida da problemática familiar precisa ser ampliada com análises de dimensões variadas.
O pensamento positivista advém da corrente de pensamento denominada Positivismo, cuja origem é atribuída ao filósofo francês, Augusto Comte (GIDDENS, 1998), que realizou uma crítica à metafísica própria da filosofia do século XVIII, assim como uma crítica racionalista à religião dominante.
Giddens (1998) destaca que, os pontos centrais da filosofia positivista podem ser descritos da seguinte maneira: a) a história precisava ser reconstruída a partir do pensamento positivo, do ponto de vista científico, segundo o qual a religião e a metafísica eram fases de mistificação do conhecimento que deveriam ser superadas pela ciência; b) a filosofia metafísica deveria ser substituída pela filosofia positiva, entendida como a explicação lógica dos preceitos científicos; c) a perspectiva empirista, marcada por traços racionalistas, que daria origem às teorias que permitiam que se conectassem os fatos às leis universais, deveria predominar; d) a ideia de que o conhecimento científico é relativo, no sentido de que nunca estaria terminado e pronto, mas sempre aberto à modificações e ao aperfeiçoamento, deveria se confirmar; e) a concepção de que a ciência possibilitaria o desenvolvimento tecnológico, que, por sua vez, influenciaria diretamente o desenvolvimento social, o que lhe conferiria um viés político e moral, deveria ser posta como irrefutável.
Em virtude do acima exposto, poder-se-ia aplicar o pensamento positivo na compreensão dos depoimentos das entrevistas, encontrando-se tendências interpretativas positivas na apreensão da sociedade de forma geral. Entretanto, esta não foi a opção escolhida, já que a lógica dialética permitiu a aproximação (e o distanciamento correlato) e a compreensão (e o questionamento) das questões estudadas de forma mais complexa e dinâmica, que pareciam possibilitar um maior aprofundamento das categorias singularidade, particularidade e totalidade do que a linearidade e a universalidade positivista.