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Il. Erfaringer om bedriften og dens vilkaar

In document N~RGES FISKERIER (sider 101-107)

Em 1882 representou-se, pela primeira vez, a peça Como se fazia um

deputado146, de França Júnior. A comédia, cujo título original estava no presente (“faz” e não “fazia”)147, é uma demonstração, por meio das cenas, das práticas questionáveis que resultavam na eleição de um deputado.

O autor escreveu três tipos de comédias: 1. clássicas, com tramas e armadilhas; 2. burletas, com cenas fantasiosas e apoteoses; 3. satíricas e políticas, com aguda crítica aos costumes (as duas comédias analisadas filiam-se a esta categoria)148. Conforme Freitas, no processo de criação de suas comédias:

...elabora simultaneamente a crítica dos costumes e a crítica política, mostrando-nos como o público e o privado, a intimidade e a vida pública estavam de tal maneira imbricados no tecido social e cultural brasileiro, compondo uma trama de hábitos, comportamentos, ritos e aparências criticáveis.149

Dividida em três atos, a peça passa-se, no primeiro e no último, no terreiro da Fazenda do Major Limoeiro, e, no segundo, na praça de uma pequena cidade interiorana. Nota-se, assim, que os atos oscilam de um ambiente que seria considerado, sob um ponto de vista tradicional, privado, para um ambiente público, retornando-se, então, ao primeiro.

A estrutura dos atos é voltada para a apresentação do problema (a “feitura”, ou eleição, de um deputado) e não para o desenvolvimento de uma trama ou o atar e desatar dos “nós” dramáticos. A eleição do deputado é apresentada como um “negócio” ajustado entre duas lideranças locais. Primeiramente, ajusta-se o “negócio”, no ato inicial; depois, ele se concretiza, no segundo ato; por fim, suas repercussões morais e políticas são apresentadas.

146 FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José de. Teatro de França Júnior. Tomo II. Rio de Janeiro: SNT,

1980, p. 123.

147 Em 1881 nova lei eleitoral busca moralizar as eleições, trazendo novos requisitos para a

qualificação de eleitores (que reduz o número de participantes no processo), concentrando-a nas mãos dos juízes. Graças à intensa fiscalização do governo central, ocorrem aquelas que seriam as eleições mais justas de nossa história até a República, respeitando-se rigorosamente as determinações da lei e levando vários parlamentares governistas à perda de mandato (GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 261). Talvez em virtude disso (e da censura), o autor tenha concordado com a mudança do título da peça.

148 CAFEZEIRO, Edwaldo e GADELHA, Carmem. Ob. Cit., p. 275.

149 FREITAS, Eduardo Luiz Viveiros de. Folhetins e Máscaras - a obra de França Júnior. São Paulo:

dissertação de mestrado, Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais-PUC-SP, 2002, p.84.

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O primeiro ato, que, conforme afirmado, passa-se no terreiro da Fazenda do Major Limoeiro, inicia-se dentro dos padrões usuais das comédias, apresentando os personagens, e, no caso, também o “negócio” político a ser celebrado.

Pelas informações da rubrica inicial, percebemos que se trata de uma fazenda de café, localizada no Rio de Janeiro. A primeira cena apresenta um inesperado coro de escravos que, em versos, informa o público sobre a chegada do sobrinho de Limoeiro e relata que beberão satisfeitos nas senzalas, fazendo batuques durante a noite. Do coro destaca- se Domingos, uma espécie de corifeu, que voltará à cena mais tarde como mais um personagem, afirmando que vai dançar com os outros, mas ameaçando:

Domingos - (...) Ninguém bula c’o Domingos, Que não é de brincadeira;

Quando solta uma umbigada, Quando puxa uma fieira.150

Limoeiro “ordena” a todos que se divirtam e que “ataquem a foguetaria” tão logo o sobrinho chegue. Domingos, então, descreve os embelezamentos feitos para esperá- lo e afirma que confirmara com o tenente-coronel Chico Bento a presença dele e de sua família na recepção. Na cena seguinte, Limoeiro, em monólogo, esclarece que Chico Bento é uma grande influência na freguesia e afirma que seu sobrinho chegaria formado, com uma carreira brilhante a aguardá-lo, podendo ser o melhor do local, desde que “aprenda na sua escola”, ou seja, a escola da política. Desde logo a ética da patronagem se estabelece: o sobrinho terá tudo, desde que obedeça ao tio.

A terceira cena introduz a família de Chico Bento. Ele é caracterizado como uma liderança provinciana com mania de latim, normalmente sendo incompreendido, no seu “latinório”, por Limoeiro. São apresentadas, ainda, Perpétua, sua esposa, e Rosinha, sua filha, caracterizada como uma jovem roceira simples, ingênua e um tanto desajeitada, sendo constantemente recriminada por isso pela mãe.

Apresentadas as lideranças locais, a cena quatro mostra uma conversa entre ambos, sem a presença das mulheres. Chico Bento afirma que seria preciso “muito tino e prudência nos negócios da freguesia”151 e Limoeiro diz que eles ainda não possuem um candidato. Pelo diálogo, percebe-se que o primeiro é conservador e o segundo é liberal. Ambos referem-se a outras lideranças, que adotaram práticas questionáveis em eleições passadas, mandando prender adversários e mudando de partido conforme as conveniências.

150 FRANÇA JÚNIOR. Ob. cit., p. 125. 151 Idem, p. 127.

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A cena seguinte inicia-se com o estouro dos fogos de artifício, e a volta do coro de escravos satisfeitos, anunciando a chegada de Henrique:

Coro (Dentro) - Dos nossos braços valentes Unidos em doce amor,

Façamos forte cadeira P´ra conduzir o doutor.

(Entram Domingos e os negros, carregando Henrique) Os seus escravos, meu branco

Que vos amam com ardor Aqui trazem satisfeitos Da casa o doce penhor.152

Henrique reencontra o tio, Limoeiro, a quem dedica o diploma obtido, cumprimenta a família de Chico Bento e é celebrado novamente pelo coro de escravos. Enquanto isso, Rosinha repara no “canudo” do diploma, querendo saber do que se tratava aquilo e, depois, ficando espantada com o tamanho da “carta”.

Todos saem de cena, salvo Limoeiro e Chico Bento, que devem tratar de um “negócio importante”, a ser discutido “com toda a calma”:

Limoeiro - Tenente-coronel, cartas na mesa e jogo franco. É preciso arrumar o rapaz; e não há negócio, neste país, como a política. Pela política cheguei a major e comendador, e o meu amigo a tenente-coronel e a inspetor da instrução pública cá da freguesia.153

O “negócio” proposto por Limoeiro é simples: como ele tem “algumas patacas”, sugere casar seu sobrinho com Rosinha, filha de Chico Bento. Em troca disso, este apadrinharia Henrique. Como consequência, em sendo cada um deles de um partido diferente, sempre estariam no poder154:

Chico Bento - Já atinei! Já atinei! Quando o Partido Conservador estiver no poder... Limoeiro - Temos o governo em casa. E quando o Partido Liberal subir...

Chico Bento - Não nos saiu o governo de casa.155

Caso surja um terceiro partido, a solução é óbvia: Henrique ingressa no mesmo. O final da cena revela que tanto Limoeiro quanto Chico Bento já andaram trocando de partido e obtendo favores de ambos os lados. A lógica deles é clara: estar sempre com o partido do poder, obtendo o máximo de vantagens disso.

Por enquanto, a peça mostra a atuação de um líder local (Limoeiro) para ampliar sua rede de dependentes (e eleitores), a fim de se fortalecer politicamente e estar sempre no governo. Tal atuação revela a lógica do processo eleitoral em nosso país: o

152 Idem, p. 129. 153 Idem, p. 131.

154 Richard Graham relata ao menos um caso muito semelhante ao da peça, embora com um desfecho

desfavorável para as lideranças: o casamento da filha de um chefe liberal com o filho de um chefe conservador (GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 201).

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vencedor das eleições ganha o poder de nomear pessoas para cargos e distribuir favores, aumentando sua influência na região. Assim, o objetivo é ser governo, nunca se opor ao governo:

Um líder municipal lutava pela vitória eleitoral não para se opor ao governo, mas para ser o governo. Se conseguisse amealhar a maioria dos votos para si mesmo ou seus protegidos, isto seria uma prova de sua liderança. Poderia então contar com uma nomeação para importantes cargos locais156.

Tendo-se em vista esse objetivo final, os partidos políticos perdem sua importância enquanto reunião de homens em torno de ideais ou de programas, transformando- se em mera reunião momentânea de pessoas em torno de interesses particulares157. Por isso,

como a peça destacará adiante, é irrelevante o fato de cada uma das lideranças pertencer a um partido próprio.

Ajustado o “negócio” entre os chefes locais, é momento de comunicá-lo às partes envolvidas, pois tal acerto envolve um casamento entre os jovens. Na cena VII, Limoeiro e Henrique conversam. Este, ingenuamente, começa a falar em linguagem poética, destacando as cores da natureza e os sonhos de amor despertados por ela.

Impaciente, Limoeiro o interrompe, perguntando qual carreira pretende seguir. Após rapidamente descartar a magistratura, a advocacia, a diplomacia, o jornalismo, apresenta as vantagens da carreira política:

Limoeiro - A política, rapaz, a política! Olha, para ser juiz municipal, é preciso um ano de prática; para seres juiz de direito, tens de fazer um quatriênio; andarás a correr montes e vales por todo este Brasil, sujeito aos caprichos de quanto potentado e mandão há por aí, e sempre com a sela na barriga! Quando chegares a desembargador, estarás velho, pobre e cheio de achaques, e sem esperança de subir ao Supremo Tribunal de Justiça. Considera agora a política. Para deputado não é preciso ter prática de coisa alguma. Começas logo legislando para o juiz municipal, para o juiz de direito, para o desembargador, para o ministro do Supremo Tribunal de Justiça, para mim, que sou quase teu pai, para o Brasil inteiro, em suma.158

Após o discurso, Limoeiro pergunta ao sobrinho quais suas opiniões políticas e fica eufórico ao saber que ele não possui qualquer opinião. Graças a isso, afirma o tio, ele poderá ser dos dois partidos ao mesmo tempo. Henrique objeta que seria uma “indignidade”, mas Limoeiro afirma que “indignidade é ser uma coisa só”159.

De um modo muito ligeiro, de acordo com a natureza da comédia, Chico Bento ingressa eufórico na cena seguinte, afirmando que já acertara tudo com sua filha e

156 GRAHAM, Richard. Ob. cit., p.165. 157 GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 231. 158 FRANÇA JÚNIOR. Ob. Cit., pp. 133-134.

159 Idem, p. 134. Cientes de que haveria troca de partido no poder, cedo ou tarde, os chefes locais

nunca comprometiam-se exageradamente com qualquer facção, a fim de poderem eventualmente, mudar de sigla (GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 209).

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abraçando Henrique, que nada entende. Então entram Rosinha e sua mãe, Perpétua, conversando sobre o casamento, o qual a moça se recusa a aceitar. Diz que não conversará com Henrique.

Na cena X, os noivos são deixados a sós. Falando em “à parte”, cada um revela ao público seu estado de espírito com relação ao outro. De uma opinião depreciativa e negativa passam, também rapidamente, a outra mais favorável, até que Henrique se declara:

Henrique - (...) Quero dizer-lhe que a senhora é a rosa mais encantadora destes prados, e que faz morrer de inveja e de ciúmes todas as flores que a cercam.160

Rosinha lembra que eles brincavam juntos na infância e deixa transparecer que gosta dele. Quando ambos estão de mãos dadas, os pais e o tio voltam à cena, “flagrando-os”:

Chico Bento (vendo Henrique segurando a mão de Rosinha) - Venham, venham depressa, que o negócio está concluído! Jam proximus ardet.161

Com o acerto entre os noivos, o ato termina em festa. Henrique, instruído por Limoeiro, já começa a fazer “política”, bajulando cada uma das lideranças locais, presentes à festa. Ele deseja fazer “amizades”, a fim de conquistar a simpatia e a lealdade de futuros eleitores e, quem sabe, clientes162. O final do ato é marcado pela recitação de poesias laudatórias e pela cantoria do coro de escravos, celebrando seus senhores.

Analisando-se as cenas, podemos constatar que houve a apresentação dos personagens e a proposta do “negócio”. O “negócio” funde as esferas pública e privada, pressupondo um casamento entre os herdeiros de duas famílias influentes com a finalidade de marcar uma aliança política. Sob o prisma privado, ocorre o acerto entre os noivos; sob o prisma público, Henrique termina o ato preparando terreno para sua candidatura à deputado. Em suma, o “negócio” está “fechado” e começa a ser executado.

Durante as cenas, notamos uma perspectiva crítica por parte do autor, embora sem recorrer ao uso de um raisonneur. O riso cômico é dirigido às práticas questionáveis das lideranças locais e à concepção da política partidária como um meio de obter benefícios pessoais. Historiadores do teatro têm notado que França Júnior é um crítico ferino (“não poupa ninguém, cobrindo de ridículo até os bem intencionados”163), parodiando

160 Idem, p. 136. 161 Idem, p. 137.

162 Os favores dos políticos eram feitos, em primeiro lugar, para os parentes e, depois, para os

“amigos”. A amizade é considerada uma relação entre protetor e cliente. Assim, “os líderes políticos despendiam muito esforço construindo redes de amigos” (GRAHAM, RICHARD. Ob. cit., p. 305).

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os coroneis e sua “mentalidade patriarcal, autoritária, prepotente e quase sempre incoerente”164.

Também percebemos que o personagem Henrique, simbolizando os jovens bachareis, aceita tudo de um modo muito fácil, sem resistir, não possuindo qualquer fundo ético ou ideológico. Apenas deseja satisfazer as vontades do tio e seguir a carreira que este lhe escolheu. Já é um deputado em potencial.

Aliás, nada a surpreender. O bacharel transforma-se no representante do fazendeiro na cidade, sendo eleito graças à influência deste e tornando-se leal a ele165. Normalmente liga-se ao seu protetor por laços de parentesco e torna-se um conciliador de seus interesses com os interesses do partido166. Costuma preferir a ascensão por meio da

proteção do líder local, a uma ascensão político-partidária167.

Outro ponto a destacar é uma quase inesperada presença de um coro. Rotineiro na Comédia Antiga, desaparece durante a Comédia Nova. Todavia, ainda que possivelmente fruto de uma ridicularização por parte do autor, o coro cumpre uma função diversa daquela tradicionalmente ocupada no modelo grego:

Como função, o Coro assume duas atitudes que se completam: primeiro, serve ao desencadeamento dos contrastes, alimentando e provocando os desentendimentos; em seguida, aliando-se à personagem que defende as ideais do poeta, apoiam-no e ridicularizam os seus adversários.168

O coro ora apresentado revela escravos satisfeitos que se preocupam com o festejo da chegada de Henrique. Como na peça não há qualquer personagem que expresse diretamente o pensamento do autor, tal coro não se manifesta quanto a tais ideias.

Por fim, ainda convém reforçar que o acerto para a “feitura” do deputado deu-se no âmbito privado, na fazenda de Limoeiro. Trata-se de um “negócio” entre duas famílias, cuja finalidade é a conservação do poder político. Este, por seu turno, é visto como suscetível de ser apropriado ou privatizado, trazendo benefícios pessoais àquele que o possui.

Nitidamente, com o rápido acerto entre os noivos e a ausência de conflito que impeça o casamento, o autor da comédia optou por focar a faceta política do “negócio” ajustado. Em sendo assim, o segundo ato migra para a esfera pública, passando-se na praça

164 CAFEZEIRO, Edwaldo e GADELHA, Carmem. Ob. Cit., p. 278. 165 COSTA, Emília Viotti da. Ob. cit., p. 261.

166 Idem, p. 264.

167 “Do ponto de vista do jovem aspirante a político, a disciplina do partido naturalmente exercia

poucas atrações, e a ajuda de um padrinho local parecia bastante satisfatória” (GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 218).

168 DUARTE, Bandeira. História Geral do Teatro - volume III - Grécia (II). Rio de Janeiro: Minerva,

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de uma pequena cidade, com a igreja ao fundo e rodeada por algumas casas. Seu objetivo, pois, é apresentar o modo direto como um deputado (no caso, Henrique) era produzido.

Logo de início notamos um novo coro. No lugar dos escravos submissos, um grupo de capangas169, também submissos, mas em troca de dinheiro. Defendendo o voto livre, tal coro diz que vai usar o “cacete” e a “navalha” para cabalar.

Na cena II, Limoeiro afirma a Henrique que o “negócio vai correndo às mil maravilhas” e depois determina a Domingos, seu escravo, que vote em nome de outra pessoa170. Na sequência ocorre uma gritaria, com a acusação de que um eleitor seria “fósforo” (usaria título falso). No meio do tumulto, Limoeiro determina a Domingos que jogue diversos votos na urna e Henrique pede respeito às garantias constitucionais. Chico Bento manifesta suas preocupações.

Na cena VI, um votante revela a Chico Bento ser muito pobre e, por isso, aceitar dinheiro para votar, já estando em sua quarta votação. Limoeiro, por sua vez, afirma ter determinado que um votante adversário fosse preso, acusando-o de vagabundagem. Depois, promete alforriar o prestativo Domingos caso Henrique venha a ser eleito, determinando que ele vote ainda mais uma vez.

A eleição costumava ser chamada de “farsa, teatro, comédia, baile”171.

Pois a peça escrita por França Júnior apresenta todas as principais cenas da “comédia eleitoral” brasileira.

Na cena IX, ocorre uma algazarra: Domingos é descoberto e os populares se revoltam. Limoeiro brada em nome da moralidade pública, solicitando que permitam o voto do “cidadão livre”172. Custódio, juiz de paz, manifesta-se defendendo o direito de

Domingos votar, “em nome da nossa honra, em nome da tranquilidade pública”173. Mas sua manifestação é inócua, havendo pedradas e cacetadas, até a intervenção da guarda, que dispersa todos.

Novamente nos deparamos com um juiz de paz sem outra fonte de autoridade que não seu cargo. Em sendo assim, torna-se fraco perante as lideranças locais e

169 “Um membro do Congresso referia-se ao ‘emprego de força (não de força pública), mas de força

vinda de fora, de homens conhecidos com a denominação de capangas’. Um dicionário do século XIX define capanga como ‘um valentão que é pago para guarda-costa de alguém ou para serviços eleitorais; mas, neste caso, [ele] é mais que um galopim eleitoral, é um caceteiro, às vezes um assassino’” (GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 185).

170 FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José de., ob. cit., p. 142. 171 COSTA, Emília Viotti da. Ob. cit., p. 161.

172 FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José de, p. 145. 173 Idem, p. 145.

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não consegue desempenhar uma de suas principais incumbências: presidir a eleição. Ainda tenta fazer a defesa da ordem, embora ela seja flagrantemente parcial aos interesses de Limoeiro174.

A cena anterior revela também as forças contraditórias que norteiam as eleições em nosso país: por um lado, devem parecer honestas e não devem disseminar a violência, para evitarem-se as comoções sociais; por outro, o partido do governo não podia perder (circunstância que, por vezes, levava ao uso da força)175. Dentro dessa dialética, o uso da força pelo governo era justificado como “manutenção da ordem”176, recorrendo-se, inclusive, à Guarda Nacional (como pode ter sido o caso).

Em meio à confusão pública, a cena X inicia-se com a entrada de Perpétua e Rosinha, trazendo a questão do ajuste privado do casamento à praça pública. Procuram os respectivos marido e noivo, preocupando-se com a agitação presenciada. Na sequência, ambos surgem e recriminam as mulheres por estarem lá. Chico Bento afirma que, em breve, tudo estaria “um dilúvio de sangue”, pedindo que elas saiam177.

Limoeiro reforça a confusão entre as esferas ao supor que as duas estivessem também a cabalar votos. Depois, ao ver Chico Bento desanimado, o estimula a seguir no “fogo” e condena Henrique por não estar tomando conta da urna:

Henrique - Estou ao lado da urna dos meus afetos.

Limoeiro - Deixa esta, que está segura, e vai tomar conta da outra, que está em perigo. (...) 178

As mulheres saem de cena. Limoeiro ordena a Domingos que vote ainda mais uma vez, dando instruções para ir se fantasiar. Em seguida, surge um italiano, Pascoal, vendendo bugigangas. É o pretexto para Limoeiro oferecer dinheiro para que ele se passe por um eleitor brasileiro.

174 “Juízes de direito e juízes municipais também exerciam grande poder sobre os resultados eleitorais.

Juízes de direito podiam ser colocados em jurisdições difíceis para criar um compromisso eleitoral, porém, com mais frequência, eles pareciam desavergonhadamente parciais em relação a uma ou outra facção” (GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 118). Quando um juiz estava amparado por um chefe local de oposição, tinha o poder de dominar os demais líderes (GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 176). Destaco, ainda, que o juiz de paz situava-se no mais baixo patamar na hierarquia do Poder Judiciário, embora tivesse, normalmente, a incumbência de presidir as eleições e redigir as atas.

175 GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 105.

176 FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José de, p. 123. 177 Idem, p. 146.

178 Idem, p. 147. Muitas vezes as urnas eram roubadas e reapareciam com mais votos do que votantes

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Chico Bento, então, sugere que mantenham a “capangada” alerta, caso algo não corra bem. Limoeiro parece tranquilo, e se lembra de episódios da eleição anterior, quando eleitores votaram cinco ou seis vezes, sem serem descobertos179.

Mas, na cena XVI, surge Henrique, preocupado, pois descobrira uma conspiração para roubarem a urna:

Chico Bento - (...) Estamos traídos! O chefe do nosso partido está ligado com um membro do partido contrário. Às duas horas em ponto estejam todos no coro, prontos

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