4. A perspective on autonomous technology and metaphorical descriptions
4.1 Ihde’s phenomenology of human-technology relations
Seguindo a mesma lógica da definição de ambiguidade utilizada, Chun e Rainey (2005a) definem a ambiguidade de objetivos como a possibilidade de diferentes interpretações que o objetivo propicia.
Um objetivo, segundo Scott (1998), são concepções de fins que se querem alcançar por meio de atividades desenvolvidas pelos participantes de uma organização. Numa concepção racional, semelhante à da perspectiva sistêmica-heurística, os objetivos devem ser explícitos, claramente definidos e devem prover critérios desprovidos de ambiguidade para que os atores possam selecionar entre diferentes cursos de ação. Considerando a estrutura comportamental, e fazendo referência à perspectiva interpretativista-behavioralista, os objetivos se tornam mais complexos, difusos, sujeitos à mudança e - por que não?- ambíguos. Considerando essa visão mais complexa, Scott (1998) comenta que, mais importante do que entender o que são objetivos e quais são os objetivos de uma organização (ou de uma política), importa saber quem são os responsáveis por estabelecer os objetivos e identificar as funções a que os objetivos estabelecidos se destinam. Segundo o autor, eles podem ter várias funções, dentre as quais: i) prover direcionamento para os processos decisórios e para as ações praticadas pelos atores; ii) gerar sentimento de identificação e motivação entre os atores; iii) fomentar uma ideologia e ganhar aliados; iv) simbolizar uma vontade; v) justificar decisões e ações passadas; e vi) avaliar o trabalho realizado.
Nessa linha, considerando a necessidade de analisar os atores responsáveis pelo estabelecimento de objetivos, Pandey e Wright (2006) buscam estabelecer conexões entre o ambiente político, a ambiguidade dos objetivos organizacionais e a ambiguidade nos papéis a serem desempenhados. A pergunta que eles buscam responder é: o ambiente político das organizações possui algum efeito nas organizações e nos indivíduos que fazem parte dela?17 Os autores iniciam o seu trabalho apontando as diferenças entre organizações públicas e privadas e ressaltam o fato de que a falta de informações de mercado e a existência de interesses conflitantes entre vários stakeholders faz com a ambiguidade de objetivos seja inevitável; ela é
17 “Does the political environment of organizations have an effect on organizations and individuals working in
um produto e um mecanismo para lidar com os conflitos e com a complexidade da política. Assim, eles ressaltam a importância de se analisar o papel desempenhado pelos atores políticos do processo.
Os autores afirmam que a ambiguidade de objetivos resulta muitas vezes da delegação de decisões políticas para os setores administrativos do governo e que isso pode se dar por razões políticas (conflitos) ou por questões de falta de recursos. Segundo Waterman, Rouse e Wright (1998), os burocratas de rua percebem a influência dos stakeholders (internos e externos à organização) de maneiras distintas, de acordo com os papéis que esses atores desempenham. Se anteriormente se pensava que, no modelo agente-principal, o principal não possuía controle sobre o agente, estudos empíricos sobre a percepção dos burocratas acerca da existência de controles políticos revolucionaram esse entendimento de sorte que atualmente não há dúvidas de que há controle político sobre as atividades burocráticas (WATERMAN; HOUSE; WRIGHT, 1998). Dessa forma, Pandey e Wright (2006) afirmam que os implementadores vão ser mais influenciados por atores que exercem um controle direto e hierárquico sobre orçamento, estrutura organizacional e processo decisório; já os beneficiários diretos dos serviços governamentais e as organizações que representam os interesses da sociedade possuem uma influência menor e suas demandas são comumente respondidas de modo simbólico apenas. De forma mais específica, o resultado do estudo desenvolvido pelos autores demonstrou que nem todos os atores possuem a mesma influência, sendo que alguns podem não exercer influência nenhuma sobre a organização. Já Stazyk e Goerdel (2010), de forma contrária ao trabalho de Pandey e Wright (2006), iniciam seu artigo se posicionando no sentido de que relacionam maiores níveis de autoridade hierárquica sobre as organizações com objetivos mais claros e definidos, visto que representam esforços para assegurar a coordenação e a cooperação e reduzir possíveis conflitos entre os implementadores. De acordo com os autores, pressões advindas de políticos e de outras agências tendem a exacerbar questões de coordenação e controle, proliferando regras e aumentando a hierarquização organizacional (WARWICK; MEADE; REED, 1975 apud STAZYK; GOERDEL, 2010). Assim, o apoio e a influência política dos stakeholders é necessária porque situa a organização na arena política em que ela está inserida e, com isso, direciona os objetivos organizacionais a serem perseguidos. Quando o apoio político diminui, as percepções de ambiguidade nos objetivos se manifestam de forma mais significativa.
De acordo com Thompson (1967), a ambiguidade de objetivos poderia ser direcionada e controlada pelas organizações, por meio da criação de “boundary-spanning units”18
, unidades responsáveis por absorver e minimizar a incerteza, a complexidade e as variações advindas do ambiente externo, permitindo que a organização se adapte às contingências externas por meio de um processo mais organizado. Dessa forma, as funções técnicas essenciais estariam protegidas das influências do ambiente externo e as organizações funcionariam melhor.
Chun e Rainey (2005a) desenvolveram medidas quantificáveis de ambiguidade de objetivos, que foi dividida em quatro dimensões: ambiguidade na compreensão da missão organizacional; ambiguidade no direcionamento dos objetivos; ambiguidade na avaliação dos objetivos; e ambiguidade na prioridade dada aos objetivos. A missão organizacional busca abranger os níveis institucionais e estratégicos da organização; quanto mais fácil de entender, explicar e comunicar o enunciado da missão, menor o espaço para interpretações e maior o compartilhamento sobre o seu significado. O direcionamento dos objetivos está relacionado às orientações para as decisões e ações do dia-a-dia, a forma como os objetivos organizacionais são traduzidos e orientam o comportamento dos indivíduos de forma que eles desempenhem seu trabalho de forma adequada. Nesse sentido, a ambiguidade de direcionamento dos objetivos se manifesta por meio dos diferentes padrões de orientação e de expectativas que são direcionados ao indivíduo. Em se tratando de orientações e expectativas em relação à execução de seu papel organizacional, tem-se o que Kahn et al (1964) chamam de role ambiguity. A avaliação de objetivos visa abranger os resultados das atividades organizacionais, o que geralmente é colocado em forma de indicadores. Os autores ressaltam, entretanto, que nem todas as atividades podem ser medidas pelo uso de indicadores quantitativos e objetivos, o que leva à necessidade de estabelecer indicadores de forma descritiva e subjetiva, dando margem a diferentes interpretações quanto ao alcance dos objetivos. Por fim, a dimensão da prioridade possui o objetivo de verificar quais objetivos possuem precedência sobre os outros. Segundo os autores, a presença de múltiplos objetivos sem uma hierarquia estabelecida abre margem para que os implementadores interpretem as prioridades e estabeleçam, por si, os objetivos que devem ser alcançados primeiro. Vale destacar que, apesar das dimensões apresentadas serem relacionadas à ambiguidade de objetivos, elas
18 Unidades organizacionais responsáveis por ligar uma parte da organização com outras, ou uma organização com outras.
também influenciam a ambiguidade de meios, quando é necessária uma orientação para guiar a escolha entre um meio ou outro.