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É certo que o espaço geográfico constitui-se por elementos naturais e artificiais que, quando combinados, o singulariza e, portanto, o torna diferenciado e concorre para o processo de regionalização16. E podemos afirmar, que as força telúricas (provenientes do interior da Terra), as forças

cósmicas (o sol como principal fonte de energia exterior a Terra) associadas

com as forças humanas (através do trabalho e da técnica) são responsáveis na modelagem e nas transformações significativas da superfície da terra (HARTSHORNE, 1939, p. 272). E ao atuarem em conjunto essas forças tornam cada parcela do espaço geográfico algo sui generis.

O espaço geográfico por não ser e nem se apresentar como uma superfície polida, semelhante a uma mesa de bilhar, torna-o objeto de conflitos e ou disputas entre os que ambicionam controlar posições espaciais consideradas estratégicas (GOTTMANN, 1951, p.154; ELIAS, 1993, p.93). Por essa razão, é necessário compreender que os recursos naturais possuem aspectos importantes a eles inerentes tais como a interdependência, a

permanência (como é o caso da posição de um dado lugar em relação a

outros) e a inamovibilidade (uma montanha, caso não tenha sofrido nenhuma

16 Faz-se necessário esclarecer o que entendemos por regionalização tal como foi inserida no

texto acima. Como assinalou Gottmann (1951, p. 154), a razão de ser da Geografia consiste na variedade dos lugares que constituem o espaço geográfico. Por essa razão, a Geografia, cujo objeto de estudo é o espaço geográfico na sua totalidade, é também uma ciência ideográfica visto que dentre outras preocupações, ela busca compreender, analisar e explicar os fenômenos únicos/singulares. Contudo, esses fenômenos estão diversamente distribuídos por todo o espaço geográfico. Cabe ao geógrafo escolher como estudá-los. Hartshorne (1939, p. 361-362, grifo nosso) demonstrou que os fenômenos espaciais concorrem para que os geógrafos regionalizem ou dividam o mundo como forma de investigar a totalidade espacial: “embora a superfície da terra – o mundo – em termos de todos os seus aspectos geográficos, não está dividido em partes espaciais distintas, a função fundamental da geografia – o entendimento das diferenças entre as áreas distintas – requer aos geógrafos dividir o mundo arbitrariamente em partes espaciais. Um princípio geral de qualquer ciência requer que seu objeto não seja para ser deixado em áreas, mas é para ser organizado em um sistema lógico de conhecimento. (...) Um sistema lógico de regiões específicas não podem ser organizadas sobre as bases de qualquer princípio. Deve considerar todos os aspectos geográficos de importância e, em determinar qualquer nível particular de subdivisão, deve selecionar aqueles aspectos que são encontrados para serem os de maior importância em determinar a característica da área – em termos medidos de interesses humanos”. Por fim, cabe lembrar que a regionalização ou divisão mais evidente do espaço geográfico total, conforme assinalou Hartshorne (1939) é a divisão política, que dentre outras, “é a razão de ser das relações internacionais” (GOTTMANN, 1951, p. 154).

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interferência das forças telúricas, não há como ser movida). Acresce ainda o fato dos recursos naturais possuírem determinadas propriedades (orgânico/ inorgânico, inesgotável, renovável/não renovável). Quanto aos recursos

espaciais destaca-se a localização, a posição, o clima, o tamanho do espaço

ocupado, a forma e a topografia. (RATZEL, 1990, p. 43; HARTSHORNE, 1935, p. 945; FUERTES, 1964, p. 424, AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 3). Cabe ressalvar que esses atributos geográficos, como afirmou Spykman (1942), são fundamentais no que diz respeito às relações internacionais, pois tendem a ser permanentes. Muda-se o corpo político de um Estado e ou de um país (ministros, governos, administradores etc), mas uma dada montanha, por exemplo, pode permanecer imperturbada por um grande lapso de tempo. Logo, como afirmaram Agnew e Corbridge (1995, p. 3, grifo nosso), “não há como discutir que os aspectos fixos do território são fatores que condicionam,

determinam e limitam as possibilidades estratégicas dos Estados”.

Cada parcela do espaço geográfico tende a se constituir numa síntese de diferentes elementos que nem sempre podem ser encontrados em outros pontos do globo, pois como assinalou Gottmann (1952, p. 514, grifo nosso),

o sistema de relações [espaciais] é altamente complicado porque muitas posições em nossos espaços podem, em termos, ser únicos. Isto significa que nenhuma posição tem mais chance de ter uma rede de relações de outra posição. Não pode haver duas posições exatamente iguais. Existe uma razão matemática simples para isto: dado um ponto ou uma área limitada do espaço considerado poderia ser similar para o sistema de relações do primeiro ponto ou área escolhida? A resposta dependerá da uniformidade do espaço considerado e dos elementos de simetria com os quais ele está circundado. Quando os elementos de simetria são poucos e a distinção de muitos elementos daquele espaço, como é no caso da nossa terra, a possibilidade de encontrar duas posições similares parece ser praticamente intangível.

Portanto, é essa diferenciação espacial que explica o surgimento do

comércio e constitui-se num dos elementos que propiciam a divisão do trabalho

e a especialização dos lugares, pois conforme demonstrou Polanyi (1980, p. 64 grifo nosso) “a divisão do trabalho é um fenômeno tão antigo como a sociedade, e provêm das diferenças relativas ao sexo, a geografia e as capacidades individuais”. A diversidade espacial, portanto, favorece o

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comércio. E como observaram Ratzel (1990, p. 15), Smith (2003, p. 451), Marx (2008, p.113) entre outros, o comércio rompe com o isolamento das regiões17.

O processo de trocar está relacionado com a diversificação geográfica que, por sua vez, engendra uma dada divisão do trabalho, porque, como assinalou Polanyi (1980, p. 77, grifo nosso) “o verdadeiro ponto de partida é o comércio a grande distância, resultado da localização geográfica dos bens e da divisão do trabalho nascida dessa localização”. A troca ocorre pela necessidade de se ter acesso aos recursos naturais que só estão disponíveis em outra localidade. O comércio, por essa razão, está relacionado com a ausência de certos bens em determinadas áreas: “o comércio internacional é o resultado das diferenças entre os recursos naturais de vários países. Por causa dessas diferenças, o comércio torna-se lucrativo, e às vezes necessário para as nações trocarem seus excedentes” (ZIMMERMANN, 1917; p. 37, grifo nosso).

Cabe ainda ressaltar que comércio não é sinônimo de mercado, mas ambos são complementares. O comércio está relacionado com a circulação de bens (manufaturados ou não) de um lugar para o outro, quer seja, comércio tem a ver com o transporte (SMITH, 2003; POLANYI, 1980; GOTTMANN, 1952; BRAUDEL, 1986, ARRIGHI, 1996). O mercado nasce nos entroncamentos das rotas comerciais, isto é, nas posições espaciais estratégicas tais como os portos, os estuários dos rios, os istmos, entre outras. As antigas rotas comerciais da Europa do século XII, logo, afluíam todas para as posições espaciais importantes como as cidades-estado (Veneza, Florença, Gênova, Lyon, Sevilha entre outras) e estas localidades exerciam o

controle sobre os fluxos de bens e pessoas: “grandes rotas são controladas por um pequeno número de posições bem escolhidas; todo sistema global de navegação marítima foi dominado por muito tempo por estabelecimentos poderosos em certos pontos-estreitos, istmos, estuário de rios e similares” (GOTTMANN, 1952, p. 513). O comércio tornou possível, portanto, o

17 O comércio e a comunicação tendem a favorecer o intercâmbio entre os povos, além de

precederem a política, conforme observou Ratzel (1990, p. 180): “raramente foi possível a um Estado colocar barreiras a eles [ao comércio e a comunicação]. Mais usualmente, a regra tem sido a de atrair os Estados para os mesmos caminhos que eles [o comércio e a comunicação] já forçaram”.

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surgimento de ‘pontos’ de mercado como, por exemplo, as famosas feiras europeias (Flandres, Lyon, Veneza entre outras).

Como já foi mencionado anteriormente, o mercado é um lugar de encontro cuja finalidade é a venda e a compra. E como para o mercado afluem as mercadorias, engendra-se a necessidade de eleger aquela que sirva de medida para possibilitar a circulação entre as diversas que há no mercado. Logo, é o processo de troca que favorece a emergência do dinheiro como mercadoria que serve para medir todas as outras e facilitar as trocas. Portanto, o dinheiro-mercadoria é antes de tudo ação social, quer seja, é produto das relações sociais18.

Não consiste em nossos objetivos aprofundar sobre os meandros que envolvem a questão da gênese do dinheiro ou a forma de equivalente geral, porque seria demasiado cansativo. Contudo, importa compreender que o

mercado se desenvolveu nos pontos onde se entrecruzavam as rotas

comerciais e que a diferenciação espacial e a distribuição desigual dos recursos naturais engendraram o comércio. Este, por sua vez, favorece a divisão espacial do trabalho à medida que cada lugar, por se detentor de recursos naturais específicos, condiciona a produção de determinados tipos de mercadorias que exige uma divisão social do trabalho para tal fim. Dito isto, outra questão se impõe. Quais foram os fenômenos que emergiram da extensão do comércio (derivada da diferenciação espacial) e, consequentemente, da formação do mercado?

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“Em sua perplexidade, nossos possuidores de mercadoria pensam como Fausto: no princípio era a ação. Agem antes de pensar. As leis oriundas da natureza das mercadorias revelam-se através do instinto natural dos seus possuidores. Só podem estabelecer relações entre suas mercadorias, como valores e, por conseguinte, com mercadorias, comparando-as, com qualquer outra que se patenteie equivalente geral. É o que nos mostrou a análise da mercadoria. Mas apenas a ação social pode fazer de determinada mercadoria equivalente geral. A ação social de todas as outras mercadorias elege, portanto, uma determinada para nela representarem seus valores. A forma corpórea dessa mercadoria torna-se, desse modo, a forma de equivalente com validade social, ser equivalente geral torna-se função especificamente social da mercadoria eleita. Assim, ela vira dinheiro (MARX, 2005, p. 111)

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