4 VERDSETTELSESMODELLER
4.3 I NNTJENINGSBASERTE METODER
Palhaço, clown, merryman, bufão, bobo da corte, louco, fool, jester. Muitos nomes e
muitas caras nos trouxeram ao que chamamos hoje de palhaço. A comicidade já apareceu sob
diversos disfarces durante a história europeia e é quase tão antiga quanto os primeiros
registros de teatro. Para falar do surgimento do palhaço, é necessário retomar brevemente a
trajetória da comédia dentro do teatro ocidental.
É comum partir da Grécia antiga para falar da história do teatro ocidental
14. Há
registros de 2700 anos que demonstram a existência de espetáculos de variedades de grupo
itinerantes na região dórica (CASTRO, 2005). Nos espetáculos de variedades havia cenas
cômicas com palhaços, sendo que ambos (cenas e palhaços) eram chamados de mimos –
palavra que originou séculos mais tarde as palavras mímica e pantomima, formas teatrais que
não utilizam texto. O próprio termo comédia deriva da palavra grega komos, festas e orgias
em homenagem ao deus Dionísio.
Já em Roma, no século II A. C. havia encenações de farsas com tipos
15cômicos
mascarados, chamadas de farsas atelanas, que contribuíram para outras formas teatrais
cômicas que se espalharam pela Europa, séculos depois. Um dos herdeiros das farsas atelanas
é a Commedia dell’Arte. Este é o nome que se dá a um fenômeno artístico do Renascimento
italiano de apresentações teatrais com tipos cômicos mascarados. De acordo com Viana e
Campello (2010), pela primeira, vez naquele período, grupos itinerantes de atores viviam
exclusivamente da bilheteria arrecadada nas apresentações.
As apresentações de grupos de Commedia dell’Arte eram baseadas em argumentos
com personagens (tipos) fixos, mas cujo diálogo era improvisado pelos atores. Como
exemplos de tipos temos: Arlechino, il Dottore, Pantaloni, Pulcinela, il Capitano e muitos
outros
16.
Na Commedia dell’Arte era comum que os atores assumissem para si apenas um dos
tipos existentes, tirando o máximo possível daquele tipo. O que fosse escolhido pelo ator
14 Aqui restringimos a tratar a história do teatro apenas ocidental, pois falar de toda a história do teatro seria abrangente demais. Também foi proposto este recorte ocidental, pois o clown é herdeiro dessa linhagem, ainda que receba influência de outras tradições e culturas.
15 Segundo a definição encontrada no Dicionário de teatro de Patrice Pavis, tipo é uma personagem que possui características físicas e/ou de personalidade já previamente conhecidas pelo público. Os tipos fazem parte de repertórios de formas teatrais históricas como a farsa e da Commedia dell’Arte. (PAVIS, 2011, p.410)
16 Para saber mais sobre os tipos da Comédia dell’Arte e seus figurinos, consulte VIANA, Fausto e CAMPELLO NETO, Antonio Heráclito C. Introdução histórica sobre cenografia – os primeiros rascunhos – São Paulo: Fausto Viana, 2010.
passava a ser o único personagem para o resto da carreira do intérprete – um pouco como
veremos que ocorre com o palhaço do Lume, uma figura cômica fixa, criada por um ator.
No livro “O elogio da bobagem”, Abreu (2005) aponta paralelos entres os tipos da
farsa atelana e da Commedia dell’Arte, através de características da personalidade dos tipos e
de sua caracterização física. Nessas comédias de tipos era predominante o uso de máscaras
que, similar à maquiagem do palhaço moderno, criavam uma imagem exagerada do rosto.
Abaixo (figura 1), temos a imagem de um tipo da Commedia dell’Arte usando
máscara. Este tipo é um Arlequim, que se encaixa na categoria de tipos “Zanni”. No livro de
Viana e Campello vemos a figura 1, a respeito da qual os autores dizem: Zanni são os
personagens mais antigos da Commedia dell’Arte. Nas palavras destes autores (2010, p.66):
“Era um palhaço contador de histórias, narigudo e acrobático”.
Há, ainda hoje, resquícios da farsa atelana e da Commedia dell’Arte nos trajes de um
dos tipos. O bufão grego Sannio, assim como o Arlequim da Commedia dell’Arte, tinha por
característica usar um pequeno chapéu preto e uma roupa de remendos coloridos (além da
máscara, claro). Estes remendos eram reais, surgidos do desgaste real do traje e da
necessidade de mostrar a pobreza do personagem. Ainda segundo Viana e Campello, apenas a
representação dos tais remendos permaneceu com os séculos, resultando, hoje em dia,
naqueles tecidos estampados com losangos coloridos que ainda vemos alguns palhaços
usando. A Commedia dell’Arte se manteve em voga não só no Renascimento, ela durou ainda
dois séculos, tendo se espalhado por outros países da Europa.
Se o teatro já existia, e tinha figuras cômicas há vários séculos, o circo, no século
XVIII, estava prestes a nascer. Foi com espetáculos equestres, na Inglaterra, que o circo
começou a se consolidar da forma que o conhecemos hoje. De acordo com Castro (2005), o
nome circus, para o espaço de apresentação, veio de uma arena construída pelo sargento
Phillip Astley (1742-1814), para ser escola de equitação e espaço para apresentação dos
espetáculos equestres. Astley foi o primeiro a mesclar as proezas equestres com
demonstrações de artistas de feira (equilibristas, acrobatas, atores de melodrama, cômicos,
entre outros), criando inclusive cenas cômicas equestres em que o cavaleiro fazia acrobacias
cômicas a cavalo!
O formato estabelecido por Astley e seus contemporâneos fez sucesso por toda Europa
e América, criando um ambiente propício para o desenvolvimento dos clowns. É nesse
contexto que, entre os séculos XVIII e XIX, estabelecem-se duplas de clowns, cada um com
seu próprio arquétipo. Um dos arquétipos era o do clown chamado de Branco, que
costumeiramente utilizava um traje elegante com muito bordado e brilho, um chapéu cônico
branco na cabeça e maquiagem também branca
17. Sua personalidade era autoritária e
sofisticada. O outro clown chamava-se Augusto e se caracterizava por roupas mais próximas
ao dia-a-dia, de empregado do circo (como ternos, gravatas e sapatos), mas em tamanho
exagerado. A característica mais marcante da maquiagem do clown Augusto era o nariz
vermelho, indicativo de gripe ou de consumo exagerado de álcool – essa maquiagem teria
sido inventada pelos clowns irmãos Fratellini, em 1910 (CASTRO, 2005). A personalidade do
clown Augusto é dócil e atrapalhada, quase ingênua, mas sem deixar de levar a melhor nos
conflitos com o clown branco.
17 Segundo Castro (2005), os trajes e maquiagens do clown branco seguiam mais ou menos a mesma linha do que foi inventado por Joe Grimaldi (1778-1837), conhecido como “pai dos palhaços”, por ser responsável pelo sucesso da figura do clown na pantomima inglesa.
Figura 2 - Cartaz do espetáculo "Medrano" dos irmãoes Fratellini. (Fonte: "O elogio da bobagem" p.72).
Figura 3 - Cartaz do espetáculo "Cirque d'hiver de Pareis" dos irmãoes Fratellini. (Fonte: "O elogio da bobagem" p.73.)