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11.2 E TIKK
“Parada de rua” teve sua estreia em 1998 e, desde então, circulou por várias cidades de
vários países, entre eles: Brasil, Bolívia, México, França, Itália, Dinamarca, Noruega, Israel,
Egito.
Desenvolvido a partir do desejo de entender a teatralização e musicalização de espaços
não convencionais, “Parada de rua” foi o resultado de um longo processo de colaboração entre
o Lume Teatro e o músico, ator e diretor, Kai Bredholt, do Odin Teatret. A colaboração entre
o grupo e Bredholt iniciou-se em 1995, com viagens de Kai Bredholtt ao Brasil, e dos atores
do Lume à Dinamarca. Segundo Ferracini conta em entrevista, o objetivo inicial do contato
com o dinamarquês era trabalhar com música, não montar um espetáculo.
Como Kai Bredholtt e os integrantes do Lume Teatro só se encontravam uma vez ao
ano, o trabalho se deu da seguinte forma: durante o período de ausência de Bredtholt, os
50 Trecho retirado da página: http://www.odinteatret.dk/about-us/about-odin-teatret/odin-teatret---in- portuguese.aspx (acesso: 13/09/14).
atores trabalhavam os exercícios propostos por ele e testavam “saídas”, ou seja, indo para ruas
no centro de Campinas, ou em áreas movimentadas do distrito de Barão Geraldo, interagindo
com os transeuntes. Quando Kai Bredtholt retornava ao Brasil, eles então mostravam o
resultado dos exercícios e das saídas. Assim, muito aos poucos, foram-se estabelecendo
pequenos jogos e cenas que viriam a formar “Parada de rua”.
Neste caso, o processo de criação é, por si só, um espelho do espetáculo: uma colagem
de jogos com o público, músicas e cenas executadas por um grupo de excêntricos, ou, nas
palavras do próprio Lume: “Uma procissão de fanáticos, uma banda militar, um grupo de
ciganos, ou simplesmente atores-músicos que tocam e cantam melodias tradicionais
brasileiras e outras coletadas de diversas culturas do mundo.” (Trecho retirado da sinopse do
espetáculo disponível no site do Lume Teatro).
O processo de criação dos trajes de cena desta procissão de fanáticos é bastante
parecido com o do próprio espetáculo: gradual e a partir de experiências práticas, de tentativa
e erro. Renato Ferracini, em entrevista, começou a recontar a história de “Parada de rua” com
a seguinte afirmação: ‘Parada de rua’ é a história do figurino dela, praticamente. De fato,
este foi um espetáculo com um processo de criação dos trajes de cena em muitas etapas.
Segundo Ferracini, já nas primeiras “saídas”, Kai Bredtholt orientou os atores a usarem
roupas chiques, elegantes, de festa; o que, de acordo com vários dos atores entrevistados, foi
bastante difícil, pois eles não tinham roupas pessoais, nem do guarda-roupa do Lume, que se
encaixassem nesse perfil.
Abaixo, na figura 59, podemos observar uma das primeiras “saídas” do Lume. As
roupas usadas seriam a tentativa dos atores de usar “roupas chiques”, seguindo a orientação de
Kai Bredtholt.
Figura 59 - atores do Lume em saída no Largo do Rosário, centro de Campinas. 1995. (Fonte: Arquivo do Lume Teatro, Foto: autor desconhecido)
Após algumas saídas com tentativas de “roupas chiques”, o grupo resolveu tentar
inserir elementos da cultura brasileira no figurino. A forma encontrada foi utilizar-se de um
conjunto de macacões de chita que Renato Ferracini adquiriu em Óbidos (Pará), onde os trajes
são utilizados em um folguedo chamado de “Mascarado Fobó”
52. No folguedo, os
participantes usam esses macacões de chita com capuz e uma máscara de papel machê
(técnica de colagem com tiras de papel sobrepostas). Ainda hoje se encontram no guarda-
roupa do Lume Teatro as máscaras e os macacões. Vários dos atores relataram não gostarem
desse figurino (figura 60), pois este criava uma unidade muito forte entre seis dos atores e, ao
mesmo tempo, um contraste muito grande com o sétimo ator (Ricardo Pucceti), que já usava
uma roupa mais formal de maestro do grupo. Outra reclamação comum entre os atores era o
uso de chinelos de dedo que atrapalhava na movimentação em cena.
52 O folguedo Mascarado Fobó ocorre na época do carnaval e os foliões vestidos com máscaras e macacões jogam amido uns nos outros.
Figura 60 – “Parada de rua” realizada dentro da Unicamp em 1995. (Fonte: Arquivo do Lume teatro, Foto: Yael Karavan).
Em 1998, o grupo ainda estava no processo de encontrar um figurino que substituísse
os macacões de chita quando surgiu a necessidade de voltar para a ideia de “trajes chiques”.
Nesse ano, houve o lançamento da primeira edição da revista do Lume e, na festa de
lançamento, ocorreria uma apresentação de “Parada de rua”. O evento estava marcado para
acontecer no café e bar La Recoleta, ao lado do Teatro Municipal Luís Otávio Burnier, no
Centro de Convivência, em Campinas. Dada a natureza do evento, o grupo decidiu utilizar os
figurinos de “Afastem-se vacas que a vida é curta”. Essa escolha de reutilizar os figurinos de
“Afastem-se” foi bastante coerente, uma vez que, estes trajes eram bonitos, pouco usados e,
acima de tudo, tinham características de trajes europeus históricos que criavam, ao mesmo
tempo, a imagem de “roupas chiques” e certo estranhamento por serem roupas históricas.
A partir dessa apresentação, alguns itens do figurino de
“Afastem-se” foram
permanentemente incorporados ao figurino de “Parada de rua”. Eles são: duas saias de
algodão cru, um vestido branco que, posteriormente, foi tingido de laranja e um vestido rosa.
As saias, de cor crua, passaram a ser usadas como enchimentos por Ana Cristina Colla e
Raquel Scotti Hirson. O vestido tingido de laranja passou a ser usado por Naomi Silman (que,
aliás, não fez parte de “Afastem-se vacas”), e o vestido rosa era usado por Alice K. em
“Afastem-se vacas”, mas passou a ser de Ana Cristina Colla em “Parada de rua”.
Abaixo, podemos ver dois frames de vídeos. O da figura 61 é de “Afastem-se vacas
que a vida é curta”; e o seguinte (fig. 62) é da apresentação de “Parada de rua” no lançamento
da revista do Lume. Pode-se ver em ambas as imagens que um dos atores usa um casaco
vermelho com listras brancas e preta na manga (dentro do círculo vermelho) e um jabot
branco.
Figura 62 - Frame do espetáculo “Parada de rua” no lançamento da Revista do Lume em 1998 (Fonte: Arquivo do Lume Teatro)
Figura 61 - Frame do
espetáculo “Afastem-se
vacas que a vida é curta”, 1996 (Fonte:
Arquivo do Lume
Figura 63 – Frame de vídeo com Alice K em “Afastem-se vacas que a vida é curta” (Fonte: Arquivo do Lume Teatro).
Figura 64 – Frame de vídeo com Ana Cristina Colla em “Parada de rua” no lançamento da revista do Lume, 1998 (Fonte: Arquivo do Lume Teatro).
Figura 65 – O vestido usado por Alice K em “Afastem-se vacas que a vida é curta” e por Ana Cristina Colla em “Parada de rua” (Foto: Laura Françozo).
Na figura 63, podemos ver Alice K. usando o vestido que foi criado especialmente para o
espetáculo “Afastem-se vacas que a vida é curta” (1996). Na figura 64, vemos Ana Cristina
Colla em “Parada de rua” trajando, pela primeira vez, este mesmo vestido, da exata forma que
era usado pela primeira atriz, com o boá vermelho. A seguir, na figura 65, podemos observar
como o vestido é usado atualmente, sem o boá vermelho, mas com dois outros elementos: um
colar e um adereço que a atriz prende na cintura (esse objeto é usado pela atriz durante uma
cena de frevo).
Na última etapa de desenvolvimento dos trajes de cena de “Parada de rua”, os atores
retornam para a ideia de “roupas” chiques, dessa vez, passam a buscá-las intensamente em
brechós e acervos (no Brasil e na Dinamarca). O que norteou essa nova procura foi,
principalmente, a paleta de cores: “A gente foi testando (...) lembro que testamos cores, até
encontrar o que queríamos. Era uma questão de acerto e erro mesmo” conta Renato Ferracini
em entrevista (apêndice A5). Segundo Raquel Scotti Hirson, quem definiu cores quentes
(amarelos, vermelhos e laranjas) como diretriz dos figurinos foi o diretor Kai Bredtholt. Ele
fez essa escolha para haver contraste com as roupas pretas, de inverno, que os atores usavam
quando foram à Dinamarca.
Na figura 66, podemos ver a forma final dos figurinos, como eles se mantêm até o
presente.
Figura 66 – atores do Lume Teatro trajando os figurinos de “Parada de rua”, na sede do Lume em 1999 (Fonte: Arquivo do Lume teatro, Foto: Abel Saavedra).