5. RESULTS
5.1. R EGRESSION ANALYSIS
No interior de cada um dos “territórios de saúde” acima mencionados, localiza-se uma Unidade Básica de Saúde que abriga, enquanto local de trabalho, as chamadas Equipes de Saúde da Família, compostas por equipes multiprofissionais, responsáveis pela atenção à saúde das pessoas residentes nesses territórios.
Com efeito, o movimento de aproximação com os sujeitos da pesquisa, que se deu a partir de sucessivas etapas, teve como primeiro passo a delimitação desses territórios. Em cada um deles, também chamados de áreas de abrangência das UBS, buscou-se saber seus limites e as microáreas nelas contidas. Para isso, o pesquisador se dirigiu a cada uma das UBS e procurou a gerente ou enfermeira da referida equipe e, na oportunidade, apresentou a proposta da pesquisa e solicitou a colaboração, sendo atendido em todas as instituições procuradas.
Em seguida, foi solicitado o mapa do território de atuação da equipe com as delimitações geográficas da área e microáreas. Em alguns casos, o mapa foi fornecido pela enfermeira e, em outros, foi obtido mediante encontro com os agentes comunitários de saúde. Nesses momentos, o pesquisador esclareceu os motivos pelos quais não adentraria a casa dos moradores com os agentes de saúde e porque a aproximação com os mesmos se daria sem qualquer intermediação dos serviços de saúde.
De posse dos mapas dos territórios, o pesquisador foi a campo com o objetivo de entrevistar pelo menos uma pessoa por microárea de abrangência, tendo como parâmetro a diversificação dos sujeitos escolhidos (idade, sexo, perfil socioeconômico) e das formas de estabelecimento do encontro (alguns foram abordados na calçada de sua casa, enquanto outros foram chamados ao interior de suas casas). As entrevistas foram realizadas nos turnos da manhã, da tarde e em horário intermediário (entre 11 e 13h), com o objetivo de não excluir, a princípio, trabalhadores e trabalhadoras que estivessem em casa apenas nesse horário. Não foram realizadas entrevistas com esse mesmo propósito à noite, por recomendação dos profissionais de saúde (enfermeiros e/ou agentes comunitários de saúde), que apontaram como justificativa a violência nesses bairros.
A esses parâmetros utilizados para orientar a escolha dos sujeitos, somaram- se aqueles previamente estabelecidos como sendo os critérios de inclusão da pesquisa: ter mais de 18 anos, concordar em participar espontaneamente da pesquisa mediante assinatura do TCLE, residir no bairro há mais de 01 ano, ter utilizado serviços de saúde
dessa UBS por quaisquer motivos no último ano. As entrevistas foram registradas em gravador digital de áudio e, posteriormente, transcritas pelo próprio pesquisador.
Com base na experiência adquirida com o pré-teste do instrumento que orientou as entrevistas, o pesquisador chegou a todas as residências vestido com calça básica, camisa polo básica, tênis e crachá; e, na oportunidade, identificou-se como professor da UERN e pesquisador vinculado à UFC, momento em que explicou que realizava pesquisa de dissertação, utilizando-se, para a comprovação disso, do histórico escolar extraído do SIGAA/UFC.
A realização do pré-teste, realizado meses antes, havia possibilitado ao pesquisador perceber que as pessoas não se sentiam seguras em se submeterem a uma entrevista gravada, realizada por uma pessoa cuja identidade era incerta; e também que uma diferença significativa da vestimenta – que induzisse a supor que o entrevistador pertencia a uma classe social mais elevada – criava nas pessoas receios quanto à exposiçãode sua realidade de vida e saúde. Daí os cuidados tomados pelo pesquisador em relação a esses pontos. Além disso, o pré-teste ajudou a aperfeiçoar o roteiro norteador das entrevistas, bem como a refletir sobre a linguagem a ser utilizada, que deveria respeitar a realidade do entrevistado (escolaridade, compreensão, interpretação, etc.).
Após abordagem inicial com identificação e comprovação da identidade do pesquisador, davam-se mais detalhes da pesquisa e da entrevista – conversa reservada e gravada - no caso de ser realizada, e convidava-se a pessoa a participar, momento em que se apresentava e lia o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido- TCLE (apêndice A).
Ao todo, foram entrevistadas 22 pessoas, sendo 14 mulheres e oito homens, entre jovens (01 homem e 01mulher entre 18 e 24 anos), adultos (09 mulheres e 04 homens entre 25 a 60 anos) e idosos (04 mulheres e 03 homens acima de 60 anos). Os mesmos residiam nos territórios de 03 áreas de abrangência de 03 UBS família.
A composição final da amostra, assim realizada, se fundamentou em premissas da tradição qualitativa, na qual não se confere relevância à representatividade estatística, no sentido de visar à generalização dos achados, mas ao acúmulo subjetivo ante o objeto a desvelar – correspondendo ao que se designa como amostra teórica (VASCONCELOS et al., 2008). A saturação da amostragem serviu, portanto, para a definição do tamanho final da amostra, a partir da recorrência das falas dos distintos sujeitos sociais que a compuseram (TURATO, 2008).
Em síntese, podemos dizer que o principal material que serve de objeto para a compreensão dessa realidade é a voz dos moradores dessas comunidades, em particular, aqueles que residem em territórios da ESF. Foram delimitados três bairros periféricos da cidade de Mossoró: Santo Antônio, Lagoa do Mato e Liberdade II; em cada um deles, balizou-se um ou mais territórios (área de abrangência) da ESF e suas respectivas microáreas, as quais constituiriam, concretamente, os locais para a busca dos sujeitos da pesquisa. Isso foi feito para garantir certa distribuição espacial dos sujeitos incluídos na pesquisa, de modo que o conjunto selecionado não se originasse de um pequeno espaço geográfico, e para garantir certo perfil dos sujeitos da pesquisa: são pessoas residentes em vários territórios da ESF que podem, além de exprimir suas necessidades, opinar sobre os serviços de APS. Por isso, as necessidades humanas investigadas são oriundas de sujeitos que têm a seu dispor (pelo menos em tese) uma equipe de saúde da família para prestar-lhes cuidados. Com efeito, os serviços de APS em resposta às necessidades de saúde dessas pessoas, são também, ainda que de forma secundária, objeto de reflexão deste estudo.