Parte integrante do conceito de abordagem é concepção de língua, linguagem e língua estrangeira que o professor de LE apresenta (ALMEIDA FILHO, 2013). Inicialmente, a docente entende a língua estrangeira como forma de comunicação no sentido de que o aluno precisa se enunciar no idioma estudado:
[1] Ah! A comunicação. Ela é essencial. Nós precisamos dela! O... Nós, seres humanos, somos pessoas... somos pessoas que estamos nos... em constante... é... comunicação. E aí, eu relaciono também a língua com essa mudança constante que o ser humano passa, né?! (Sessão de planejamento e reflexão - 08/08/14- ciclo 1)
A visão de língua da participante como forma de comunicação vai se transformando ao longo dos ciclos. O uso da ficha com vocabulário-chave para conversação nas discussões e realização de tarefas (Apêndice B) a fez perceber, já no ciclo 1, que a língua estrangeira, mais do que uma mera forma de enunciação gramaticalmente correta, deve ser vista como instrumento de expressão do pensamento e do sentimento uma vez que o vocabulário-chave permitiu aos alunos utilizar a língua expressar suas opiniões, tomar decisões e divergir.
[2] P9: The most important thing, Maria, in the oral presentation is the way you
express yourself, if the students are going to understand you. Don't worry about the grammar structure, okay?
A: Ok (OP10-10/09/14- ciclo 1)
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Em todos os excertos apresentados nesta dissertação convencionou-se utilizar P para professora participante, PQ para pesquisadora, A para aluno (a) e AA para alunos.
Surge uma inquietação em ultrapassar o domínio do código linguístico para construir frases inerente à competência gramatical11, para se alcançar a competência discursiva12 na
qual encontra-se o propósito de fazer com que a mensagem seja significativa e se faça entendida pelo outro demonstrado no desejo em uma conversa com a pesquisadora de que apresentação do projeto do ciclo 1 alcançasse a compreensão de todos que assistiam às apresentações:
[3] PQ: Como é que a gente vai fazer? Vai ser tipo assim estações? Aqui tem um grupo apresentando aqui e o outro numa mesa ali. Eles pensaram em colocar comida pra chamar. Você lembra?
P: Eu acho que a gente podia fazer com que fosse uma visitação, né? A gente pega uma turma entendeu? Fazer uma visitação então aqui. E a gente tem que lembrar, né? Isabel nós queremos atingir a todos.
PQ: Sim
P: Então a gente precisa. Até isso vai ser importante ter um vocabulário que todos consigam entender se esse é nosso objetivo (OP-05/09/14- ciclo 1)
Pouco a pouco, manifesta-se a consciência da importância da produção de um discurso significativo no qual o aluno possa responder com veracidade às questões apresentadas a ele.
[4]P: Igual você falou. Quantas vezes eu já fiz isso de dizer: ”. Não, responde qualquer coisa qualquer coisa “
PQ: É
P: Só que naquele responder qualquer coisa, ele não encontra o significado pro que ele está respondendo (Sessão de planejamento e reflexão- 29/08/14 – ciclo 1)
Ao final do primeiro ciclo, a professora descreve a língua como “ algo para comunicação, para passar os limites” (sessão de planejamento e reflexão 05/09/14- ciclo 1), demonstrando uma ampliação do seu conceito inicial e restrito de comunicação entre dois ou mais falantes para se converter em meio de construção de um projeto:
[5] O uso da língua é reflexo do aprendizado do aluno e também fundamental para a construção do projeto (QE13
- ciclo1)
No segundo ciclo, permanece o intento de privilegiar o significado em detrimento da mera reprodução de enunciados prontos. A apropriação do significado do discurso se
11Teixeira da Silva (2008, p. 8 e 9) descreve a competência gramatical como o domínio do código linguístico, a
habilidade em reconhecer as características linguísticas da língua e usá-las para formar palavras e frases.
12 A mesma autora define competência discursiva como dizendo respeito à conexão de uma série de orações e
frases com a finalidade de formar um todo significativo. Este conhecimento tem de ser compartilhado pelo falante/escritor e ouvinte/leitor;
manifesta no seu desejo de que os discentes entendam o que estão lendo e escrevendo na língua-alvo.
[6] É a questão da construção texto. Como realmente precisa de tempo porque já teve texto que eu já fiz a correção. Mas foi uma leitura que eu fui fazendo com o aluno, né? Eu li aqui. O que você aprendeu com isso aqui? Isso aí foi algo que eu aprendi com você a semana passada porque não é ler por ler, mas ler também pra aprender pra. O que você aprendeu aqui? Mas porque que é assim? Então essas indagações eu também comecei porque eu também aprendi, né? (Sessão de planejamento e reflexão-14/11/14 – ciclo 2)
No ciclo 1 a língua era vista com um fim a ser alcançado. Já no terceiro ciclo, a LE se torna meio de auto-expressão possibilitando aos alunos falar de si mesmo e intervir, por meio, dela no contexto em que se insere. Há um movimento em direção a uma destrangeirização14
(ALMEIDA FILHO, 2013) da língua no qual a LE deve estar cada vez mais próxima da realidade do aluno e ele deve não só aprendê-la, mas refletir sobre o que fazer com ela. Tal reflexão é alimentada pela decisão dos alunos em trabalhar com um projeto sobre um tema que faz parte de sua vivência e interesse: a música (sessão de planejamento e reflexão 15/06/15 – ciclo 3). Ademais, coube aos alunos decidir sobre a maneira mais eficaz de apresentar o tema para a comunidade escolar usando a LE, ou seja, a configuração do produto final (Sessão de planejamento e reflexão 15/06/15 – ciclo 3):
[7] Percebi que é necessário dar voz aos alunos, permitir a eles a oportunidade em expressar suas ideias, usando a língua -alvo. Mostrar o aprendizado da segunda língua como parte da sua vida real não é outro mundo. (QE- ciclo3)
[8] O objetivo do projeto é te permitir usar a língua falando da tua vida, da tua realidade. É pra você perceber que você pode trazer aquilo que parece que tá externo para dentro de sala de aula. É isso que eu quero [em uma conversa com um aluno sobre o tema do projeto]. (Sessão de planejamento 10/07/15- ciclo 3)
Observo claramente uma gradual transformação de elementos constitutivos básicos da abordagem de ensinar da professora participante, ou seja, sua visão de língua/linguagem/LE ganha contornos cada vez mais amplos e permitindo ao aluno se apropriar efetivamente da LE para poder se expressar e interferir no âmbito escolar de maneira ativa e consciente.
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Termo cunhado pelo autor para se referir ao fato de que a língua estrangeira é estranha ao aluno por ser de outra cultura. Segundo ele: “A compreensão do termo se aperfeiçoa se o tomarmos como língua que só a princípio é de fato estrangeira, mas que se desestrangeiriza ao longo do tempo de que se dispõe para aprendê-la. Essa nova língua pode ser tida em melhor perspectiva como língua que também constrói o seu aprendiz e em algum momento futuro vai não só ser falada com propósitos autênticos pelo aprendiz, mas também “falar esse mesmo aprendiz”, revelando índices de sua identidade e das significações próprias do sistema dessa língua- alvo”. (ALMEIDA FILHO,2013, p.19-20).