Perguntamos aos profissionais de enfermagem se estão satisfeitos com a profissão, o que eles gostariam que mudasse, conforme demonstram as falas a seguir:
“Eu gosto do meu trabalho, me sinto satisfeita... só que é... eu acho que como tá interferindo em algumas coisas na minha vida, essa carga horária excessiva, eu tô repensando isso. Se realmente vale a pena trabalhar tanto assim, abrir mão de algumas coisas, mas isso não vai ser por muito tempo. Eu tinha essa meta que fosse por pouco tempo. Então faz 3 meses que eu estou nessa rotina mais louca e já me fez parar e ver que não vale a pena. Não é nem financeiramente falando, mas a questão da saúde física e mental mesmo. Porque acaba ficando muito cansativo e ai as vezes você começa a ver se o lucro/beneficio de tudo isso e se realmente vale a pena no final. Eu gostaria de ter uma carga horária um pouco menor. Tipo, mesmo que fosse para trabalhar nos dois vínculos, né. No SAMU eu tenho uma carga horária de 24 horas semanais, uma carga horária boa. Na UMS eu tenho uma carga horária que choca com a do SAMU, e eu acabo fazendo ás vezes no final de semana 18 a 24 horas por causa desse choque de carga horária e ai eu trabalho todos os dias de segunda a sexta, eu não tenho folga. Então isso prá mim é bem puxado, mas também isso é por um tempo só. Mas é isso. o profissional enfermeiro, o fato de ele ser mal remunerado ele acaba tendo que se submeter a isso, a ter 2, 3 vínculos, tem uns que conseguem ter até 4 serviços. Eu acho que isso é extremamente prejudicial porque a nossa formação é uma formação que ter muita dedicação no local de trabalho, tudo, tem que tá bem para conversar com as pessoas e chega um momento assim, que se você absorve muito trabalho, muito trabalho, você começa perder esse lado de você passar uma tranqüilidade ao doente, pras pessoas. Toda classe, técnicos, enfermeiros, a gente trabalha muito e é muito mal remunerado. (E1).”
“Hoje satisfeita. Eu vi que não dava para ficar aqui e na UTI e são dois setores que não param, é natal, ano novo, fim de semana, feriado. Então me sinto satisfeita assim (E2).”
“Bom, eu gosto do que faço. Gosto da enfermagem. E gostaria que fosse mais reconhecida, valorizada porque, infelizmente ela não é tão valorizada quanto deveria. E a questão da jornada de trabalho acaba sendo um pouco cansativa e excessiva pros profissionais. Então isso acaba interferindo na qualidade de vida da pessoa. Não só na profissão, mas fora dela também. Acho que o ponto mais importante prá poder melhorar seria a carga horária e essa valorização do profissional. Essa valorização profissional não somente no âmbito do hospital, mas da sociedade como um todo. Talvez divulgasse mais sobre a profissão né, prá poder ver a importância dela na saúde (E3).”
“Eu estou satisfeita. Eu gosto da Enfermagem, adoro ser enfermeira. Gosto de trabalhar na UMS, tanto é que fui prá PSF e banco de sangue e fiz de tudo prá voltar prá cá. É estressante, a gente trabalha muito, né assim, existem algumas situações que causam estresse, porque é um sistema público, a gente trabalha numa UMS. Existe uma falta de profissionais que acaba acarretando em acúmulo de serviço, que é o que mais prejudica, que é os funcionários trabalhar no limite, tanto técnico de enfermagem quantos os enfermeiros. Então a gente trabalha por três, e acaba sobrecarregando mesmo. Mas de um modo geral eu estou satisfeita porque gosto de ser enfermeira. Mas o trabalho é puxado (E4).”
“Olha, eu gosto muito do que faço, mas eu acredito que deveria mudar muita coisa prá ajudar o profissional dentro do próprio serviço. A gente vê que falta bastante coisa, material, acho que mais profissionais também porque fica muito
carregado, aqui mesmo fico com as duas alas. São muitos leitos. (...), as pessoas que ficam internadas é uma responsabilidade muito grande. Eu acredito que deveria ter mais profissionais na área, dentro da instituição, não na área, mas dentro da instituição, deveria ter mais funcionários prá dividir melhor o serviço. Tá muito lotado. (...). A remuneração do funcionário da área de saúde, do técnico de enfermagem, eu acho muito pouca pela responsabilidade que a gente tem com o paciente, você não está cuidando de uma máquina que você pode errar e consertar de novo, você tá cuidando de ser humano, você tem que dá atenção, você tem que conversar bem, porque a pessoa às vezes já chega estressada por vir internar. Então você tem que ser psicóloga, você tem que ser compreensiva, né e você tem que deixar os problemas em casa, tem que vim tranqüila prá poder conversar com o paciente e tratar ele bem, ter um tratado humanizado, né. Eu acredito que deveria ser bem mais remunerado mesmo, muito pouco o que a gente ganha pela responsabilidade que a gente tem, porque a instituição querendo ou não ela fica na responsabilidade do técnico, o médico vem prescreve, a enfermeira tá ali por perto, mas quem exercita realmente, tá ali perto do paciente no dia a dia é o técnico de enfermagem. Então eu acredito que seria até bem melhor até prá saúde mental da gente porque faz parte. Se você ganha bem, tem dinheiro prá pagar seus compromissos você é bem mais feliz (T1).”
“O meu trabalho é uma coisa assim que realmente eu sou realizada, porque eu gosto muito, sabe. Então eu acho que a minha meta agora é ficar em um só emprego. Eu tô há 4 meses em dois, mas não é obrigatório, mas eu tenho que buscar sugar as informações o máximo que eu puder. Então a minha meta agora é ficar em um só porque eu realmente sou muito realizada, gosto muito da minha profissão (T2).”
“Aumento de salário, nunca tivemos aumento e sim reposições só em pequena quantidade. (...), mas tá dando prá viver, eu sou feliz. Às vezes falta medicação, mas agora está mais ou menos (T5).”
“Sim, gosto do que faço, estou satisfeita, mas o que eu gostaria é que tivéssemos um pouco mais de recursos prá trabalhar. Às vezes faltam materiais prá trabalhar, você faz algumas coisas, procedimentos mesmo sem ter condições (...) você tem que tá improvisando. Mas estou satisfeita com o meu trabalho (T6).”
Apesar de todos os profissionais dizerem que estão satisfeitos e que gostam da profissão que exercem apontaram alguns problemas que enfrentam no dia a dia tais como a falta de condições de trabalho, falta recursos humanos e materiais, salários defasados, estresse, jornada excessiva, dois ou mais vínculos empregatícios, portanto o que mais nos surpreendeu foi descobrir que também falta o reconhecimento e valorização profissional de todas as categorias da enfermagem. Através das entrevistas podemos constatar que o reconhecimento profissional é muito importante para qualquer profissão. Segundo Neumann (2007, p. 63), a responsabilidade dos profissionais diante de um ser humano a ser cuidado, passa pela competência, mas também por recursos apropriados, que são facilitadores e oportunizam uma assistência de qualidade. A mesma autora afirma que o reconhecimento e a valorização são estímulos para o crescimento dos trabalhadores em seu processo de trabalho, pois em nossa sociedade não somos acostumados a elogiar, a estimular através de uma
expressão verbal de reconhecimento, sendo que o mesmo pode vir de qualquer direção, seja dos gestores da organização, dos membros da equipe de trabalho e ainda dos pacientes (p. 69). Para Martins (2002, p.22), os profissionais de enfermagem devem visar a concepção de situações de trabalho que não alterem a sua saúde, locais onde possam exercer suas atividades em um plano individual e coletivo, encontrando possibilidades de valorização de suas capacidades e condições de trabalho adaptados às suas características fisiológicas e psicológicas, garantindo deste modo, a manutenção de sua saúde e qualidade de vida. Para que isso aconteça é necessário que os gestores dos serviços hospitalares reconheçam a importância de proporcionar uma melhor qualidade de vida e saúde física e mental aos seus funcionários, visando o bem estar dos mesmos. Na maioria das vezes a preocupação maior é com a qualidade prestada na assistência ao paciente, não se preocupando com a satisfação e as condições de trabalho dos profissionais da enfermagem.
Segundo a mesma autora os programas de Qualidade Total promovem melhorias das condições de trabalho e na maioria das vezes, restritas às questões de higiene, limpeza e maior organização nos locais de trabalho. Contudo, deixam de abranger pontos fundamentais para a saúde dos trabalhadores, como o trabalho em turnos e as sobrecargas física e mental do trabalho da enfermagem hospitalar que trazem conseqüências negativas para a qualidade de vida (p. 24).
Percebemos que não há o envolvimento de todos os funcionários ainda, sendo um dos fatores imprescindíveis para o sucesso de qualquer ação. Para Fernandes (1996) apud Martins (2002, p. 24), os programas de qualidade tendem ao fracasso por não se mostrarem consistentes e não contarem com o comprometimento das pessoas. E no caso desse estudo, a UMS está passando por esse processo de implantação de um programa de qualidade, devendo atentar para essas situações descritas acima a fim de que tenha sucesso na adesão de todos os funcionários e objetivo desse programa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo procurou-se analisar as condições de saúde física e mental dos profissionais de enfermagem da UMS, identificando se a instituição oferece algum programa que beneficie a saúde deles e lhes proporcione melhor qualidade de vida. Além disso, pretendeu-se conhecer as atitudes práticas desses profissionais com relação à sua própria saúde. Buscou também identificar de que maneira a saúde física e mental do profissional de enfermagem tem sido tratada pelas instituições formativas, e ainda, a existência de leis e normas que protejam o os profissionais de enfermagem.
Com esta pesquisa foi possível constatar que os profissionais de enfermagem da UMS possuem o conhecimento e a percepção da importância de sua saúde física e mental para o bom desempenho de seu trabalho.
Identificamos através das entrevistas a existência de um projeto em fase de implantação cujo objetivo é promover o crescimento individual e coletivo dos funcionários da UMS, buscando equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida, a valorização pessoal no seu aspecto biopsicossocial, resultando em melhores condições de saúde física, mental e espiritual. Apesar de estar sendo implantado, já foram colocadas em práticas as comemorações de aniversariantes por meio de festas e o relacionamento interpessoal entre eles. Outro ponto interessante encontrado nas falas dos sujeitos entrevistados foi a realização de ginástica laboral com os profissionais de enfermagem uma vez por semana, por iniciativa de uma fisioterapeuta do Centro de Reabilitação Municipal. Embora essa iniciativa seja muito positiva, infelizmente não contempla todos os profissionais nos três períodos laborativos. Percebemos que essa ginástica foi muito bem recebida por todos que podem participar e os que não podem fizeram algumas reclamações a respeito disso.
Independentemente das ações esporádicas do projeto citado, vemos a clara necessidade da implementação e fortalecimento de uma política orgânica de gestão de pessoas por parte da Secretaria Municipal de Saúde, que englobe a qualidade de vida dos trabalhadores da saúde como um todo no município. Opção esta, ainda distante de ser percebida na instituição pesquisada dado a precariedade de vínculo de estabilidade profissional que atuam na mesma e da carência de preocupação da própria Secretaria.
Constatamos também que alguns dos profissionais pesquisados adotam posturas que lhes proporcione uma melhor qualidade de vida, tais como atividade física, alimentação saudável e lazer com a família e amigos. Contudo não é a maioria, pois boa parte possui mais
de um vínculo empregatício, sendo esse um empecilho para uma vida com mais qualidade. Neste estudo foram identificados, revelados pelos profissionais de enfermagem algumas situações que prejudicam a prestação da assistência com mais qualidade, como: faltam recursos materiais e humanos, sobrecarga física e mental, jornada de trabalho excessiva, falta de reconhecimento e valorização profissional e salários defasados. Mesmo assim, eles disseram estar satisfeitos com a profissão que exercem.
Quanto à existência de leis e normas regulamentadoras foi possível conhecer em específico a NR 32, que aborda a saúde física dos profissionais da saúde, porém não há nada que se refira à saúde mental, sendo esse item deixado de lado, como se não tivesse importância. A saúde engloba não somente os aspectos biológicos, mas também os psicológicos, econômicos e sociais, conforme a definição da OMS.
Nesta pesquisa também podemos constatar através das entrevistas com os acadêmicos do oitavo semestre de enfermagem, que eles não tiveram durante a sua formação nenhuma disciplina que oferecesse um preparo adequado referente à sua saúde física e mental e que sentiram essa necessidade durante os estágios. Ficou evidenciado também através da matriz curricular do referido curso, anexo nesta pesquisa. Infelizmente as instituições formadoras não avançaram muito neste aspecto, pois dos profissionais entrevistados a minoria obteve esse preparo durante a sua formação, seja ela de nível técnico ou superior. Cabe aqui citar Silva et al (2005, p.28) que afirmam que os profissionais da enfermagem sofrem as influências de caráter institucional, no que diz respeito às instâncias educacionais e hospitalares, referente ao cuidado de si.
Nesse sentido, esta pesquisa não teve a pretensão de criticar o currículo de enfermagem, mas sim chamar a atenção para o fato, e assim repensar e levar à discussão essa necessidade de mudanças a fim de que nossos futuros profissionais de enfermagem estejam preparados adequadamente no que se refere à saúde física e mental. É de extrema importância que essa atenção esteja também voltada para o trabalhador de enfermagem, visto que este lida com vidas humanas no seu cotidiano, com o sofrimento, morte e estresse.
Essa deve ser uma preocupação dos gestores em saúde, pois hoje muito se fala em qualidade de vida para os trabalhadores, porém pouco se faz neste sentido, cabendo refletir que se o profissional de enfermagem for bem tratado, inclusive na sua saúde física e mental, poderá prestar uma assistência com mais qualidade. A implantação de programas de qualidade é válida, porém deve haver o envolvimento de todos nesse processo para que o mesmo tenha eficácia. Inclusive o enfermeiro da instituição pode ser o grande motivador e incentivador de sua equipe visto ser ele o gerenciador das atividades de enfermagem, englobando não somente
uma assistência de qualidade mas também um ambiente mais saudável para os profissionais de enfermagem.
Diante das considerações elencadas, sugere-se que seja incluída na matriz curricular do curso de Enfermagem uma disciplina que trate a saúde física e mental do profissional de enfermagem.
A enfermagem é uma profissão que cuida de pessoas e ela própria não é cuidada com o mesmo zelo e dedicação. É preciso que os profissionais de enfermagem lutem por seus direitos e reivindique-os, pois muitas vezes a iniciativa que faz a diferença.
Este estudo tem como objetivo contribuir com a enfermagem, pois se preocupa com a qualidade de vida dos mesmos, portanto com o ser humano por trás do trabalhador. Essa temática precisa ser aprofundada com novas pesquisas, com outros aspectos a serem considerados e abordados a fim de contribuir com a pesquisa em enfermagem e se transforme em ações efetivas que contemplem os profissionais de enfermagem com toda a amplitude que merecem.
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