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O arrebatamento de Anísio pelo modelo de educação nos Estados Unidos precedeu seu encontro com a filosofia de Dewey, no fim dos anos 20. Quando iniciou, na Bahia, em 1924, os trabalhos no campo educacional, ele já era leitor de Méthodes américaines d’éducation

genérale et technique,239 livro do belga Omer Buyse. Recebido de Góes Calmon — então

governador da Bahia, convém lembrar —, a obra foi importante para constituí-lo como educador. Não só lhe permitiu ter contato com questões educacionais alheias a sua formação acadêmica, mas também lhe apresentou as propostas educacionais de Dewey. Após regulamentar a reforma na Bahia, em 1927, Anísio autorizou a tradução240 da obra, que

recebeu o título de Métodos americanos de educação geral e técnica, e sua distribuição em

bibliotecas e escolas baianas, com orientação expressa aos professores para que usassem como guia das práticas de sala de aula.

239 BUYSE, Omer. Méthodes américaines d’éducation genérale et technique. Paris: Dunot & Pinat, 1908. 240 BUYSE, Omer. Métodos americanos de educação geral e técnica. Bahia: Imprensa Oficial do Estado, 1927.

Com efeito, vários pesquisadores comentaram o papel da obra de Omer Buyse na constituição do educador Anísio Teixeira. No dizer de Carvalho, na apresentação do livro às escolas em nome do governo da Bahia,

[...] Anísio Teixeira afirma o propósito do Governo de com ele “difundir os admiráveis métodos americanos de ensino elementar”. Com a tradução, o Governo esperava “concorrer para que se instalem aqueles processos tão úteis e eficientes, com as modificações que o meio exigir, na escola bahiana”. A tal ponto a obra traduzida lhe parecia completa que não acreditava necessário prefaciá-la. No seu entender, a Introdução escrita por Buyse analisava com tal “penetração, o espírito dos métodos americanos de educação”, que se tornavam dispensáveis palavras adicionais de esclarecimento em um Prefácio. As palavras de Buyse forneciam — complementava o reformador — “a chave para a perfeita inteligência dos processos pedagógicos americanos e prescindem de quaisquer complementos”.241

Para Schaeffer, a obra Méthodes... revelou a Anísio “[...] um modo de encarar a educação radicalmente oposto à concepção educacional por ele defendida e admirada no seu artigo ‘A propósito da escola única’”.242 Schaeffer aponta ainda que

A leitura desse relato de Buyse teria ao que tudo indica, abalado as convicções pedagógicas de Anísio Teixeira por dois principais motivos: de um lado, lhe teria revelado um sistema de educação em pleno vigor e funcionamento e, o que é mais importante, em perfeita concatenação com a sociedade moderna a que servia; de outro lado, apontava esse sistema educacional vitorioso na América como a alternativa que se apresentava àquelas nações que quisessem organizar um sistema de ensino, livre de vícios e preconceitos notoriamente presentes nos sistemas europeus.243

Sobre a importância da obra de Buyse na formação intelectual e técnica de Anísio, Clarice Nunes mostra opinião diversa:

Não nos parece, como pretende Schaeffer [1988], que a leitura de Buysse [sic] tivesse tido tal impacto sobre Anísio a ponto de lhe abalar as convicções pedagógicas. Em nossa perspectiva, foi livro que se prestou, nesse momento, a uma preparação apressada e casuística que não permitia ainda entrever o significado que teria, para o próprio Anísio, sua experiência na gestão do ensino público na Bahia. Essa gestão constituiu espaço de manobra possível, no qual Anísio exercitou sua escolha profissional entre avanços, recuos e abandono de certas perspectivas.244

241 CARVALHO, 1999, s. p. Rio de Janeiro, UFRJ/CFCH/PACC, Fundação Anísio Teixeira, 1999.

242 SCHAEFFER, Maria Lúcia G. P. Anísio Teixeira: formação e primeiras realizações. São Paulo:

USP/Faculdade de Educação, 1988, p. 2–3.

243 SCHAEFFER, 1988, p, 18. 244 NUNES, 2000a, p. 87.

Outra autora analisa a questão: Mirian Warde, para quem o livro de Buyse revelou a Anísio “[...] um sistema educacional que funcionou bem e em perfeita integração com a sociedade moderna; por essas razões era um sistema bem-sucedido”.245 Dito de outro modo, o

sucesso do sistema educacional depende da respectiva integração com a sociedade moderna. Warde esclarece ainda que

O livro havia lhe impressionado exatamente porque mostrou a ele uma sociedade vitoriosa do ponto de vista econômico e social, o que ameaçou a supremacia europeia e foi o fruto do espírito empreendedor norte-americano, resultado da educação familiar e escolar. Essa educação baseava-se na exigência de uma iniciativa e esforço pessoais. Resumidamente, a educação era a chave da prosperidade americana.246

Enfim, Carvalho salienta que a intimidade de Anísio com a obra de Buyse lhe proporcionaria referências importantes sobre o sistema educacional dos Estados Unidos antes de sua viagem a esse país e sobre os cursos universitários que faria lá.

Equipado com semelhantes referências sobre a escola norte-americana é que Anísio irá assistir aos cursos da Columbia University e visitar várias instituições educacionais. Terá os olhos aguçados para aspectos da escola americana que o livro de Buyse lhe apresentara. Entre eles, esse caráter de uma escola pública gratuita onde pobres e ricos eram vistos sentados nos mesmos bancos e onde trabalho manual e trabalho intelectual eram igualmente dignos e indissociáveis.247

Dadas essas opiniões, acreditamos que não seria incorreto afirmar que a leitura de Buyse calhou com a ruptura de Anísio com a tradição católica jesuítica e com o interesse em conhecer o modelo de vida e educação nos Estados Unidos. Como consequência, outra influência em seu processo de constituição intelectual foi o contato com a obra de Dewey, cuja leitura lhe dá acesso à filosofia pragmática, inspiração para o pensamento educacional de Anísio. O intelectual norte-americano se tornou, então, influência perene, de modo que o estudante baiano vai se distanciando cada vez mais dos princípios católicos jesuíticos que o guiaram no Brasil.

Convém reiterar que Anísio teve uma experiência internacional importante e anterior à sua viagem aos Estados Unidos. Como inspetor-geral do Ensino da Bahia (1924–8), ele iniciou seus estudos e suas viagens de observação da educação de outros países. Em 1925, em

245 WARDE, 2005, p. 207. 246 WARDE, 2005, p. 207. 247 CARVALHO, 1999, s. p.

companhia de dom Augusto Álvaro da Silva, arcebispo primaz da Bahia, ele viajou para a Europa. De junho a setembro, procurou conhecer os sistemas educacionais da Bélgica, Itália e França.248 Também participou de um evento católico promovido em Roma pelo Vaticano,

pois a Igreja Católica, dirigida pelo então papa Pio XI, comemorava o Ano Santo da Pacificação e da Paz.249 Sobre essa primeira viagem à Europa, Warde aponta que

Teixeira escreveu em seu diário que ele ficou cheio de dúvidas e voltou ao Brasil atormentado por uma enorme “crise espiritual”. A modernidade que ele havia visto em Paris o deixou profundamente chateado. Tudo naquela cidade parecia falso, artificialmente adicionado; as luzes artificiais da cidade escondem a escuridão espiritual pela qual o homem moderno foi submerso. Nem mesmo a visita ao Vaticano, a benção papal, acalmaram a sua alma: o esforço que a Igreja Católica estava fazendo para se atualizar parecia insuficiente para ele para encarar o que não era apenas uma crise pessoal, mas também, principalmente, a crise da espiritualidade do homem moderno.250

Ao comparar a Europa com os Estados Unidos, Anísio fazia uma alusão ao antigo e ao novo e reconhecia a supremacia do novo mundo — América do Norte — ante a Europa. Sua medida eram as evidências de progresso tecnológico e de formação de um homem novo. A Europa representava o declínio cultural, dada a falta de espaço, liberdade e novos ares — pensava Anísio. Em contrapartida, a “jovem América” se desenvolvia cheia de espaço, liberdade e riqueza.

[...] enquanto tudo no velho continente era obstáculo, dificuldade, impossibilidade para a revisão de velhos critérios mortos de civilização, nos Estados Unidos, uma política de amplo laissez-faire consentia que toda a transformação se realizasse em condições ineditamente adequadas. As forças novas operavam sozinhas, sem intromissão, nem sequer do Estado, lançando as formas novas em que a nova sociedade se ia plasmando. Esta, a primeira formidável vantagem da América sobre a Europa. É essa mesma vantagem, a vantagem de poder realizar a grande obra da libertação do homem e podê-la realizar rapidamente, quase facilmente, sem barreiras e vencer, sem batalhas a ganhar, em um ambiente de livre circulação, que leva à segunda vantagem:

248 Em 1925, Anísio concedeu entrevista ao jornal baiano A Tarde, relatando impressões de sua recente viagem à

Europa. Concentrou-se nas cidades intelectuais do mundo: Roma e Paris. Afirmou que a peregrinação dos servidores seculares da fé até Roma, que assistiu em 1925, representaria uma confortadora demonstração de força do apelo ao espírito, ao ideal e ao desinteresse, numa época de civilização material. Opõe-se àqueles viajantes que veem Paris como a cidade dos prazeres fáceis, destacando suas inteligências e o prestígio que seria então atribuído aos pensadores católicos, tais como Jacques Maritan, e, no âmbito da política, Charles Maurras. Ressalta que esses autores exerceriam forte influência sobre toda a mocidade intelectual ansiosa de se libertar das correntes do ceticismo, do racionalismo filosófico ou político. Cf. A TARDE. Paris é um filho espiritual de Roma. Entrevista com Anísio Teixeira. Salvador, BA, 30 de novembro de 1925.

249 Cf. a obra de Paulo VI denominada Gaudete in Domino e Evangelii Nuntiandi” (algo como alegrai-vos no

Senhor e anunciar o Evangelho), da editora Paulus

os julgamentos dos valores pelos resultados. [...] As ideias sofrem um único teste fundamental: vencem as que resultam.251

Entendemos que, do ponto de vista intelectual, as viagens aos Estados Unidos foram mais significativas: mudaram os rumos da vida de Anísio. Comissionada pelo governo baiano, a primeira viagem, em 1927, objetivou conhecer a estrutura educacional, métodos e instituições similares às que, por lei, deviam ser fundadas na Bahia. Sobre essa primeira viagem, Viana Filho relata a importância do conhecimento da realidade nos estudos e nas propostas de construção de um projeto educacional para o Brasil.

A bolsa foi providencial. Permitiu a Anísio incorporar-se aos que, na década de 20, pretenderam mudar a educação no Brasil. No Ceará surgira Lourenço Filho, pregando a Escola Nova. Em Pernambuco, Carneiro Leão batia-se pela Escola Única. Abgar Renault começara em Belo Horizonte. No Rio de Janeiro e em São Paulo Fernando de Azevedo lançava sementes de uma revolução educacional. Na Bahia, o governador Góes Calmon, inesperadamente, nomeou Anísio Teixeira, jovem de 23 anos, diretor-geral da Instrução. Foi um terremoto. Inquieto, ele mexeu em tudo. O país renovava-se. Em São Paulo, a Semana de Arte Moderna de 1922 prenunciou a Revolução de 1930, que abriu novos caminhos. Por eles passaria Anísio Teixeira.252

Na segunda viagem, em fins de 1928, teria como resultado mais notável o título de Master of Arts, concedido em 1929, pela faculdade Teacher’s College,253 da Universidade de

Columbia, Nova Iorque, após dez meses de estudo. Anísio dedicou-se inteiramente aos estudos. De manhã, frequentava aulas com especialistas da área de formação de professores, da saúde e de relações internacionais; à tarde, permanecia nas bibliotecas, onde aprofundava as leituras e pesquisas. Ao mesmo tempo, por meio de cartas, acompanhava os trabalhos da Diretoria de Instrução Pública da Bahia.

Na universidade, Anísio teve seu primeiro contato com a filosofia de Dewey e Kilpatrick — este professor de Filosofia da Educação. O encontro com Dewey — convém reiterar — foi decisivo: influenciou sua produção bibliográfica e embasou suas proposições defendidas ao longo da vida. Em seu pensamento, encontrou arrimo para seus projetos de criar um sistema educacional para o Brasil. Segundo Viana Filho, na bagagem do mestre

251 TEIXEIRA, Anísio S. Pequena introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a transformação

da escola. Rio de Janeiro: ed. UFRJ, 2007c, p. 34. Ao se referir aos Estados Unidos, Anísio usava

frequentemente o adjetivo jovem em oposição à Europa — o velho continente.

252 VIANA FILHO, 2008, p. 12.

253 O original do diploma de Master of Arts (mestre em Artes), datado de 5 de junho de 1929, encontra no

Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cf. Anexo 6.

recém-formado, “[...] não retornaria uma verdade revelada e eterna. Em seu lugar viria o livre exame e a inquebrantável vontade de pesquisar e rever na procura de uma verdade, que sabia transitória, e por isso mesmo incessantemente buscada e abandonada”.254

Cremos que Anísio não imaginava o poder daquela experiência. Além de marcá-lo decisivamente, proporcionaria um novo enraizamento, ou seja, o abandono — como citado — de suas crenças jesuíticas em nome de sua descoberta como estudioso e filósofo da educação. Em sua primeira estada nos Estados Unidos, ele escreveu um “diário de bordo”. De volta, produziu um relatório contando as experiências educacionais e fragmentos da história pessoal vivenciada. O texto versa ainda sobre o funcionamento de instituições escolares e ideias de Dewey. Em 1928, o texto foi republicado com o título de Aspectos americanos da educação

— anotações de viagem aos Estados Unidos em 1927.255 Mignot e Gondra indicam que esse

“diário de bordo” é uma escrita de intimidade produzida por um dirigente do aparelho estatal em busca de referências para sua ação como homem no exercício de uma função pública. Como tal, registrou o significado de um ideário filosófico-educacional para Anísio. Uma medida estaria na forma mesma do texto: a frase de abertura e o primeiro substantivo que a compõe: John Dewey.

Nome próprio [o de Dewey] que representa um universo intelectual, uma assinatura, uma marca, um ponto de vista, uma forma de reflexão à qual Anísio presta homenagem, assumindo sua adesão e disposição em ampliar o auditório social deste autor. Para o intelectual baiano, o norte americano era a expressão do filósofo que mais agudamente traçara as teorias fundamentais da educação, não cabendo a nenhum outro um “lugar tão saliente na sistematização da teoria moderna de educação.256

Esses autores atestam que o encantamento pela filosofia de Dewey não impediu Anísio de ler outros teóricos da educação moderna. Ele fez estudos úteis para compreender e fazer comparações com a teoria de Dewey. “Nesta direção, são as contribuições de Froebel, Hegel e Herbart que são debatidas, como forma de aparecer diferenças entre elas e as vantagens das formulações de Dewey”. Para Anísio, a diferença maior entre eles é que Dewey não via a educação como “preparo para a vida” porque era “a própria vida”. Daí que educar seria um

254 VIANA FILHO, 2008, p. 44. 255 TEIXEIRA, 2006a.

256 MIGNOT, Ana Chrystina Venâncio; GONDRA, José Gonçalves. A descoberta da América. In: NUNES,

Clarice (Org.). Aspectos americanos de educação & anotações de viagem aos Estados Unidos em 1927. Rio de

processo permanente de reconstrução da experiência. “[...] a única constância da vida moderna consiste em seu constante movimento” — diria ele.257

São frequentes as passagens no relatório com concepções de Dewey sobre educação como “processo de crescimento”, como “processo inteligente de vida”, como processo de “reconstrução e reorganização da experiência”, de modo a “[...] aumentar-lhe e ampliar-lhe o sentido e, assim, conseguir mais larga habilidade para dirigir o curso de subsequentes novas experiências”.258 Anísio afirmava sua concordância com o pensamento de Dewey ao ver a

educação como processo permanente: “[...] reconstruímos a nossa experiência e perpetuamente nos ajustamos ao meio essencialmente móvel e dinâmico da vida humana. A estabilidade da educação, como a estabilidade da vida moderna, se mantém em constante movimento”.259

A leitura dessa obra de Anísio260 permite afirmar seu fascínio pelos Estados Unidos já em sua primeira viagem, com a convivência com o povo, a frequência à universidade e a compreensão da estrutura educacional. Para ele, o espírito daquela civilização era extraordinário. Coexistiam prosperidade e idealismo assentados em uma tradição democrática sólida e uma renovação permanente. Tradição democrática que não só provia o “reparo do indivíduo [...] [com] oportunidades econômicas e educativas”, mas também o preparava para a “vida social”. Mais que uma “nova e precária prosperidade”, há um “novo idealismo” — diria Anísio. “Um idealismo robusto e sadio que pode confortar as inteligências mais inquietas de vida nobre e fina para a humanidade”.261

Impressionado com a concepção integradora da filosofia de Dewey, Anísio salientou que este foi o filósofo que conseguiu mostrar e esclarecer o engano existente nas teorias educacionais, baseadas nos dualismos de trabalho e lazer, prática e atividade intelectual, individualismo e associação, cultura e profissão. Ele entendia que nessa filosofia tais dicotomias não existiam, uma vez que a educação é, ao mesmo tempo, teoria e prática, trabalho e lazer, cultura e profissão, no movimento incessante da vida do homem e da vida social.262 Em 1955, convidado a escrever um artigo sobre a teoria lógica de Dewey para a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Anísio explicava que

257 MIGNOT; GONDRA, 2006, p. 15. 258 TEIXEIRA, 2006a, p. 47.

259 TEIXEIRA, 2006a, p. 48. 260 TEIXEIRA, 2006a.

261 TEIXEIRA, Anísio S. Pequena introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a transformação

da escola. Rio de Janeiro: ed. UFRJ, 2007c, p. 25; 27.

A filosofia, para John Dewey, é um esforço de continuada conciliação (ou reconciliação) e ajustamento (ou reajustamento) entre a tradição e o conhecimento científico, entre as bases culturais do passado, ameaçadas de outro modo de dissociação e estancamento, e o presente que flui, cada vez mais rápido e rico, para um futuro cada vez mais precipite e amplo, ou seja, entre o que já foi e o vir a ser, de modo a permitir e até assegurar integrações e reintegrações necessárias do velho no novo, já operante quando não ainda dominante — e isso, tudo isso, por meio de uma crítica pertinente e percuciente, que distinga, selecione e ponha em relevo os elementos fundamentais da situação ou do momento histórico, no propósito, sempre, de formular (ou reformular) não tanto verdade como perspectivas, ou sejam, interpretações, valorizações e orientações que nos guiem a ventura da civilização e da própria vida.,263

Nesse artigo, Anísio apontava que a lógica ou teoria do conhecimento de Dewey funda-se no exame do processo de adquirir o conhecimento. E como o homem adquire o conhecimento? Segundo ele, “Dewey não parte do conhecimento como um produto acabado, para indagar de sua validez ou se sua possibilidade, mas dos fatos crus da existência: que faz e como faz o homem para obter o conhecimento?”. Para Anísio, “Se for possível descrever a experiência humana do conhecimento, aí se deverão encontrar os elementos para uma teoria dessa experiência, isto é, a teoria da investigação, da busca do conhecimento, que seria a própria lógica, no seu objetivo último”.264

Ancorado na prescrição de Dewey — buscar o conhecimento somente pela investigação —, Anísio afirma que “[...] nenhuma instrução verdadeira se processa senão por intermédio do desenvolvimento de uma atividade, ou, para empregarmos uma palavra mais precisa, senão por intermédio da experiência”.265 A ideia de experiência foi um aprendizado

central da filosofia de Dewey. Tornou-se conceito recorrente em estudos e projetos de Anísio.266 Ressaltamos, por exemplo, os princípios adotados no projeto original do Centro Educacional Carneiro Ribeiro (CECR), que indicava o ato de pensar, investigar e, experimentar como fases indispensáveis do processo do pensamento e do conhecimento. No dizer de Anísio,

263 TEIXEIRA, Anísio S. Bases da teoria lógica de Dewey. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Rio de

Janeiro, v. 23, n. 57, p. 3–27, jan./mar. 1955, p. 3.

264 TEIXEIRA, jan/mar. 1955, p. 4. 265 TEIXEIRA, 2006a, p. 59. 266 TEIXEIRA, 2006a, p. 61–2.

Só pela experiência podemos nós entrar em contato com os conhecimentos, só pela experiência podemos vir a pensar. Experiência é, em si, o ato de fazer alguma coisa e sofrer dessa coisa uma certa reação. É um processo ativo e passivo. A experiência é educativa quando nos leva à reflexão, a pensar. Pensamento é o discernimento da relação ou das relações entre o que experimentamos fazer e o que acontece em conseqüência disso. É essa a parte cognitiva da experiência, a interpretação do seu elemento inteligente. É isto que faz da experiência um processo de inquérito, de investigação, o que, por outro termo, quer dizer um processo de pensamento.

Consciente de que a efetivação da teoria de Dewey requeria atividade e experiência como condição sine qua non para o processo educacional, Anísio concluía que o aprender se associava com o “o valor dos conhecimentos” adquiridos em uma experiência, que “[...] está subordinado à sua utilização em novas experiências, em novos processos de pensamento”. Em suas palavras,

Na teoria da educação americana, pensar é o método de ensino inteligente. As crianças devem ser postas em contato com uma real situação de