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In document KIRKENE I LANDSKAPET (sider 68-73)

4. 1 A Macrobiótica em Portugal: Condições de Emergência e Divulgação

O objectivo desta parte do trabalho é, sobretudo, o de permitir um enquadramento relativo à emergência e divulgação da macrobiótica em Portugal. Pretendo, assim, perspectivar historicamente este fenómeno e dar conta das circunstâncias que envolveram a produção social de um tipo específico de consumo e de orientação na vida. Julgo que esta contextualização histórica se afigura relevante, na medida em nos permite aceder a um espaço social de germinação e proliferação de perspectivas que acabarão por ter repercussões relevantes em termos sociais. Relevantes, em primeiro lugar, pelos efeitos ao nível das transformações dos hábitos alimentares, mas também, e concomitantemente, pelas repercussões ao nível dos cuidados terapêuticos, dado que a macrobiótica incorpora, claramente, essa vertente. Estes dois aspectos (comida e terapia), suportados por um conjunto de concepções específicas sobre os alimentos, o corpo, a saúde, a doença e até o mundo, darão lugar, em Portugal, como noutros contextos, a um conjunto de acções que contribuirão para criar novos dinamismos sociais e introduzir inovações sociais e culturais.

A cadeia de pessoas, lugares, produtos, saberes e significados, criada a partir da macrobiótica, gera um tipo de dinamismo específico no espaço português. Ainda que possa ter ligações com estruturas pré-existentes, como as que promoviam o naturismo e vegetarianismo, há uma dinâmica nova que importa perceber. A movimentação observada, resultante da circulação de ideias, entendimentos, produtos e acções, caracteriza-se, na verdade, por um tipo de realizações que tem semelhanças com o que se verificou em países como a França ou EUA. Começa por haver um contacto com o tipo de proposta defendido pela macrobiótica; surgem alguns indivíduos (por vezes marcados por uma história de doença) que decidem adoptá-la e que experimentam os seus benefícios; segue-se um período de implementação e diversificação das vias através das quais se materializa um novo produto social: sessões de informação e promoção, publicações, aulas de cozinha, restaurantes, produção e circulação de bens

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alimentares, consultas de orientação alimentar e estilo de vida, procedimentos terapêuticos, etc.

Para que esta materialização ocorresse e dela decorressem efectivas transformações sociais, algumas com efeitos disruptivos - pelo menos em relação às práticas alimentares preponderantes -, foram necessárias condições sócio históricas particulares. Da mesma forma que a generalização do consumo de açúcar ou o aumento do consumo de soja, analisados por Mintz (1985; 2008), necessitaram de um quadro histórico, económico e cultural particular, também a alimentação macrobiótica só se pode expandir devido a um contexto favorável de acolhimento. É certo que, no caso da macrobiótica, a acção de agentes concretos, como Ohsawa, foi fundamental para que a macrobiótica se pudesse expandir, mas é de notar que a primeira passagem de Ohsawa pela Europa (no início da década de 1930) não nos surge descrita como tendo gerado uma movimentação significativa em torno da macrobiótica neste continente. Só mais tarde, a partir da década de 1950, se observa um movimento de entusiamo (entusiasmo relativo, claro) por esta proposta, surgindo um conjunto de actividades que tornam a macrobiótica mais expressiva.

Nesta última fase, tal como atrás referi, países como a França, ou os EUA, caracterizavam-se pela existência de um quadro social e cultural que terá sido mais favorável ao acolhimento da macrobiótica. Movimentos como o da Beat Generation, de reacção ao materialismo e tecnocracia (Roszak, 1970); de fascínio pelo Oriente; de retorno à Natureza; de celebração do self (Heelas, 1999); de recusa de uma certa ordem social e de procura de soluções fracturantes e alternativas, parecem ter sido efectivamente favoráveis ao desenvolvimento de propostas algo exóticas como a macrobiótica (Kotzsch, 1985; Belasco, 2007 [1989]). Conjugada com estas manifestações de contracultura, ter-se-ia mesmo desenvolvido, de acordo com Belasco (ibid.), uma «contracozinha», que, sintonizada com os movimentos ecologistas e de defesa da agricultura biológica, procuraria soluções que fossem simultaneamente sustentáveis, saudáveis e conscientes. Por outro lado, estes movimentos, não sendo em muitos aspectos absolutamente pioneiros - a celebração da natureza e a preocupação com o regime alimentar têm uma longa História, como já vimos -, reactivam alguma literatura e orientações do passado e criam um espaço onde propostas alternativas como a macrobiótica podem encontrar alguma afinidade.

Portugal, apesar do isolamento a que o regime ditatorial pré -1974 o votara, não ficará completamente alheado a estes dinamismos sociais. Os movimentos estudantis da

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década de 1960 e o período pré-revolucionário que se viveu desde então até Abril de 1974 evidenciaram claramente não apenas um desejo de mudança social, mas também a penetração de um ideário favorável a diversos tipos de experimentação social. Ainda que a macrobiótica tenha surgido em Portugal, no final da década de 60, como um programa rígido de orientação social, em alguns aspectos conservador - como nas representações em termos de género, na defesa das hierarquias, na crítica à sujeição ao hedonismo, materialismo e tecnocracia -, propunha um projecto de transformação individual e social que não era totalmente incompatível com a efervescência e vontade de mudança que se vivia no momento. Se, por um lado, a macrobiótica oferecia uma proposta de disciplina do corpo e da vontade, por outro, prometia um Homem mais livre, sem doenças, capaz de ousadas realizações e de um nível de consciência, que representavam, para alguns, não apenas uma espécie de evolução em termos humanos mas também uma possibilidade de aperfeiçoar os sistemas sociais. Para além destes aspectos, a macrobiótica surgia aliada à defesa de um modo de produção de alimentos (modo biológico e de fraco processamento) que entusiasmava pessoas mais sensíveis às questões ecológicas, e que desejavam também novas formas de intervenção social. Este período, na sua abertura a novas ideias e experimentações sociais – onde se inclui a comida, o corpo, os procedimentos de cura e os estilos de vida -, surge assim como contexto favorável à expansão da macrobiótica.

Os elementos que apresento, seguidamente, estão longe de recriar por inteiro o processo relativo à emergência e disseminação da macrobiótica em Portugal. Haverá sempre dados a acrescentar e outros que serão alvo de discussão. Em todo o caso, e ainda que não constitua objectivo fundamental deste trabalho a apresentação de uma história da macrobiótica em Portugal, foi empreendido um esforço de contextualização que julgo que permitirá compreender o modo como foi sendo acolhido e promovido esse novo produto social que é a macrobiótica.

Os dados em que me baseio, para a apresentação desta breve e possível história da macrobiótica em Portugal, resultam essencialmente de entrevistas e conversas estabelecidas com “informantes privilegiados”: ex-dirigentes da Unimave e praticantes de alimentação macrobiótica de há longa data80. Nesta tarefa de reconstrução de segmentos de um passado recente, procedo a esse exercício imprescindível que é o

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Uso a expressão “informantes privilegiados” no seu sentido mais comum, ou seja, refiro-me a indivíduos que, pelas suas trajectórias pessoais e pelos cargos que ocuparam na direcção de instituições ligadas à macrobiótica, acabaram por ter um conhecimento profundo da macrobiótica praticada em Portugal. Refiro-me também a praticantes com um longo convívio com a prática macrobiótica.

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cruzamento de dados do terreno. Os elementos que apresento não permitem, só por si, um cruzamento totalmente satisfatório de informações, mas constituem, ainda assim, um contributo com algum significado para uma visão mais esclarecida sobre o que foi a macrobiótica em Portugal.

Os dados recolhidos permitem situar o surgimento da macrobiótica em Portugal, com actividade visível, nos finais dos anos 60, na cidade de Lisboa. De acordo com Kotzsch (1985: 225), por volta de 1968, um português, que não identifica, teria regressado a Portugal, vindo de França, e teria aberto um pequeno restaurante no centro de Lisboa, onde começara a cozinhar arroz integral com uma pequena quantidade de vegetais. Esta proposta gastronómica, inspirada na macrobiótica de Ohsawa, terá decorrido da oportunidade que tivera em França de contactar com a macrobiótica. Assim, na sequência da inserção deste tipo de pratos nas ementas daquele restaurante, ter-se-á criado uma clientela com entusiasmo suficiente para organizar uma cooperativa que viria a constituir em Portugal uma das realizações ligadas à macrobiótica com maior expressividade: a Unimave (Centro Macrobiótico Vegetariano, S.C.A.R.L). Kotzsch (1985) associa Jacinto Vieira, que se teria curado de doença grave, à constituição dessa cooperativa. Ainda a propósito de «começos», Francisco Varatojo aponta o ano de 1975 como data de “começo do movimento macrobiótico”81

. Todavia, de acordo com Kotzsch e alguns dos entrevistados, o início de actividades com ligação à macrobiótica terá sido anterior a essa data.

Certo é que, numa primeira fase, seria claramente na cidade de Lisboa que se dinamizariam actividades com vista à divulgação e promoção dos princípios ligados à macrobiótica. Os restaurantes, a venda de produtos, as palestras, os cursos, as consultas, a criação de uma cooperativa, são marcos que ocorrem nessa cidade, centro a partir do qual circularão ideias que defendem que os alimentos afectam a nossa saúde e que a macrobiótica nos pode levar a uma melhor compreensão e transformação do mundo.

De acordo com dois dos ex-presidentes da Unimave que entrevistei (José Oliveira e Carlos Campos Ventura82), uma das figuras de referência para compreender o aparecimento e divulgação da macrobiótica no nosso país foi José Galamba, um dos primeiros importadores de produtos macrobióticos. José Galamba terá tido problemas

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Varatojo, Francisco «História da Macrobiótica

http://www.fototelas.com.pt/historia_da_macrobiotica.htm [Acesso em 20/12/06].

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José Oliveira, na casa dos setenta, é actualmente professor de yoga e terapeuta de shiatsu e Campos Ventura, na casa dos cinquenta, é naturólogo.

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de saúde e, ao tomar contacto com a macrobiótica, em Espanha, acabou por adoptar essa prática alimentar, promovendo a sua divulgação no nosso país. Nos finais dos anos 1960, princípios dos anos 70, trouxe a Portugal um palestrante espanhol, justamente com a intenção de dar a conhecer este tipo de alimentação. Francisco Varatojo recorda que “a primeira palestra sobre macrobiótica em Lisboa foi proferida pelo Dr. Vicente Ser (…) um discípulo de George Ohsawa”83

. Esta palestra terá sido, segundo Campos Ventura, muito importante, pois terá gerado um movimento de interesse por esta prática alimentar. A partir de José Galamba, mas também de Abel Trancoso e outros, ter-se-á constituído um núcleo de pessoas interessadas pela macrobiótica, que procuraram informar-se mais com vista a seguir essa orientação alimentar e filosófica. A «Cereália», empresa que Galamba criara e se dedicou desde logo à distribuição de produtos alimentares associados à macrobiótica, viria a permitir que alimentos pouco conhecidos no nosso país - algas, tamari, miso, ameixa umeboshi, etc. - ficassem disponíveis no mercado português.

Para José Oliveira (ex-presidente da Unimave), os livros foram também um elemento de grande relevância na divulgação dos princípios macrobióticos. Recorda que travou conhecimento com a macrobiótica através de um cartaz que falava da macrobiótica e de um livro de George Ohsawa, que encontrara num centro de yoga:

Um dia estava em casa do [nome], que dava aulas de yoga em casa, fui lá para me inscrever no yoga e vi lá um cartaz que falava da macrobiótica. Entretanto, olhei para o lado e vi que tinha lá um livro do George Ohsawa, peguei no livro e comecei a ler aquilo. O homem falava no todo… todo à esquerda, todo à direita, yin/yang, e eu até nem liguei àquilo do yin/yang, mas do todo, o que é que este gajo quer dizer com o todo? Foi aí que despertei para a macrobiótica.

Um marco significativo na divulgação da macrobiótica em Portugal terá sido o surgimento do restaurante «A Colmeia», na Rua da Emenda, em Lisboa, nos finais dos anos 1960, rapidamente tornado num lugar onde não só se serviam refeições macrobióticas, mas também onde as pessoas se reuniam e debatiam assuntos ligados a esta prática alimentar e seus princípios orientadores84. Segundo um dos meus informantes, cozinhava neste restaurante “uma senhora conhecedora da macrobiótica

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Varatojo, Francisco «História da Macrobiótica

http://www.fototelas.com.pt/historia_da_macrobiotica.htm [Acesso em 20/12/06].

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Kotzsch (1985) não menciona especificamente este restaurante, mas é bem provável que a ele quisesse aludir quando o referiu como ponto a partir do qual começou a ser divulgada a macrobiótica em Portugal.

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[não lhe ocorreu o nome] que todas as sextas-feiras dava uns jantares onde se discutia e falava da macrobiótica”. O seu proprietário, Abel Trancoso, juntamente com Nogueira e Gomes Ribeiro (criou a distribuidora Trigrama) viriam a fundar em 1972 a Unimave, organização que, como já disse, veio a ter um papel decisivo na expansão da macrobiótica.

Na verdade, faz até sentido ir mais longe e declarar que a História da Macrobiótica em Portugal só poderá ser compreendida se nos centrarmos na acção da Unimave. Esta cooperativa dedicou-se desde cedo a várias e importantes actividades: produção de produtos hortícolas e arroz integral biológicos; serviço de restaurante, venda de produtos usados na cozinha macrobiótica, cursos de cozinha; apoio alimentar a iniciados; seminários; colóquios e actividade editorial. Foi a partir da Unimave que se gerou, como também já referi, um movimento muito expressivo no sentido da divulgação da macrobiótica.

A ideia da criação da Unimave - uma cooperativa sem fins lucrativos com propósitos educacionais e culturais, que defendesse a “causa” macrobiótica - terá surgido ainda em 1971. Segundo Campos Ventura, a Unimave ter-se-á instalado em Caxias, na R. de S. Paulo, numas instalações que mais tarde terão ficado para a «Próvida», empresa do mesmo ramo. Seria depois registada notarialmente, e, em Fevereiro de 1972, abriria a sua sede em Lisboa, na Rua da Boavista. Posteriormente, nos finais dos anos 70, a Unimave abriria um novo estabelecimento em Lisboa, na Rua Mouzinho da Silveira, naquela que é apontada como “uma casa excelente”, e onde se viria a iniciar a importação directa de produtos alimentares. Importavam-se produtos a granel (sobretudo do Japão e dos EUA), que eram depois embalados e vendidos a retalho. Mais tarde surge uma nova “filial” em Lisboa, na avenida Barbosa do Bocage (Campos Ventura refere que terá fechado portas em 1998). Estes três centros dedicavam-se essencialmente a actividades como a restauração, venda de produtos, consultas e divulgação através de cursos e palestras. A abertura destes locais evidencia o interesse suscitado pela macrobiótica a partir dos anos 70.

Foi já no novo século (2001) que a Unimave, que durante 30 anos marcou a actividade da macrobiótica em Portugal, foi formalmente extinta. É inevitável atentar no percurso de três décadas desta cooperativa para melhor percebermos o processo da afirmação da macrobiótica em Portugal. Tendo começado com umas dezenas de sócios, cada um deles pagando uma quota de cerca de cem escudos, a Unimave viu crescer rapidamente o número de associados, atingindo os 7000 no início dos anos 1980, um

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dos quais o próprio Michio Kushi, figura cimeira da macrobiótica a nível internacional. A propósito deste desenvolvimento da cooperativa diz-nos Campos Ventura:

A Unimave cresceu logo muito depressa, começou com umas dezenas largas e chegou a ter uns 7000 sócios.[Esta adesão]deveu-se ao facto de logo em 74, dois anos e pouco depois de ter sido criada a Unimave, ter ocorrido o 25 de Abril. Houve um desbloqueio… politicamente, socialmente… Estas coisas começam a estar na moda, até porque se integram no espírito da ecologia e de uma revolução cultural e entre 76 e 80 são os anos de ouro da macrobiótica.

Ainda de acordo com Campos Ventura, a vinda regular de Michio Kushi a Portugal, a partir de meados dos anos 70, constituiria um estímulo significativo para a adesão à macrobiótica. A palestra de Michio Kushi na «Estufa fria», em 1975, é efectivamente lembrada como um momento marcante nas actividades ligadas à macrobiótica. O impulso dado por este promotor da macrobiótica proporcionaria uma maior abertura a um esquema de orientação que, até então, estava muito centrado em George Ohsawa. Na verdade, para muitos dos partidários deste tipo de alimentação, Ohsawa passara, gradualmente, a ser considerado “excessivamente rígido”.Para Francisco Varatojo “a principal diferença entre Kushi e Ohsawa é que Kushi tentou traduzir para a cultura ocidental a, às vezes intraduzível, cultura oriental”85.

Em 1975 esteve cá o Michio, na Estufa Fria, e acho que a partir daí toda a gente aderiu às suas ideias. As pessoas discutiam muito, porque eram muito yang, tinham que discutir umas com as outras, comiam ultra yang, sobretudo arroz integral, miso, muito sal, pouquíssima fruta, ameixa umeboshi, muitas algas, muito yang. O Ohsawa continuou a ser uma pessoa muito respeitada, mas o Michio convenceu-nos a todos, vinha cá uma semana por ano. [Campos Ventura]

A atmosfera de finais dos anos 1970 e as transformações ocorridas após 1974 parecem, na verdade, beneficiar novas propostas, mesmo em termos alimentares. Parece existir, efectivamente, uma coincidência temporal entre a turbulência social vivida após o 25 de Abril e o crescimento da actividade ligada à macrobiótica. Por outro lado, como refere Francisco Varatojo (ibid.):

Os finais dos anos 60 e o início dos anos 70 são um período de enorme crescimento para o movimento macrobiótico e de produtos naturais nos Estados

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Varatojo, Francisco «História da Macrobiótica

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Unidos e centenas de estudantes vindos de toda a América juntam-se aos Kushi, criando as bases para uma autêntica revolução no modo de vida americano. Esta revolução não terá sido tão autêntica ou pelo menos duradoura, como é sugerido, mas, efectivamente, parece ter-se gerado a partir dos Estados Unidos e dos Kushi um movimento cujos ecos serão notados em Portugal86. Alguns portugueses deslocar-se-ão aos Estados Unidos para fazerem a sua formação na área da macrobiótica, sendo esse o caso de Francisco Varatojo e Carlos Campos Ventura.

A Unimave, com os seus períodos “de ouro” e de decadência, parece acompanhar essas movimentações sociais. De uma situação de muito envolvimento e activismo nos anos 70, passou-se, porém, para um período de esmorecimento relativamente à defesa da “causa macrobiótica”, sendo sinal deste abatimento o encerramento dos estabelecimentos geridos pela Unimave.

Na fase de maior dinamismo, entre 1976 e 1980, a Unimave chegou a possuir um armazém em Odivelas e terrenos em Almoster, onde cultivava, de forma biológica, arroz integral, grão-de-bico e feijão azuki, entre outros produtos. “O feijão azuki dava- se lindamente” refere José Oliveira. “O sr. Vitorino e a família é que tratavam dos terrenos e nós íamos para Almoster aos fins-de-semana trabalhar, descascar e ensacar arroz. A máquina de descascar arroz avariava-se muitas vezes, já era velha, aquilo era uma inquietação… trabalhávamos muito”. A produção de arroz integral, alimento de referência na alimentação macrobiótica, constituía uma actividade inovadora. É ainda Campos Ventura, ex-presidente da Unimave, que refere “…dantes era proibida a comercialização do arroz integral. Havia um decreto qualquer que falava disso”87. Estes terrenos de Almoster, propriedade da Unimave, e onde se inovava na produção de produtos agrícolas associados à macrobiótica, acabaram por ser vendidos mais tarde, numa altura em que a crise já se instalara.

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Tal como já foi referido anteriormente, e agora relembro de forma sumariada, a partir de 1951, em Nova Iorque, Michio Kushi e Aveline Kushi começam a trabalhar juntos em prol da macrobiótica, a eles se juntando, em 1952, Herman Aihara (também discípulo de George Ohsawa). O casal Kushi e o casal Aihara (Herman Aihara e Cornelia Aihara) serão apontados como os principais dinamizadores da macrobiótica na costa Leste dos EUA nos anos 50. Posteriormente, em 1961, o casal Aihara muda-se para a Califórnia, onde funda um centro macrobiótico, e, em 1964, o casal Kushi, insatisfeito com Nova Iorque, muda-se para Boston, onde funda a East West Foundation, o restaurante Sanae, a primeira empresa de produtos naturais na América, Erewhon, a revista East West Journal e a distribuidora de livros Tao Books. Em 1978 é fundado o Instituto Kushi de Boston. Cf. Varatojo, Francisco «História da Macrobiótica» http://www.fototelas.com.pt/historia_da_macrobiotica.htm [Acesso em 20/12/06].

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Este facto aparece também referenciado por Manuel Sá Couto (1946), um diplomado pelo «Macfadden Institute of Physical Culture» (EUA), que menciona, no conjunto de dados que apresenta sobre nutrição, a superioridade do arroz integral por relação ao arroz polido e o facto de o arroz integral ser em Portugal

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