5 Drøfting og anbefalinger
5.2 Hvordan kan samordningsutfordringene løses?
Os processos de produção editorial sofreram significativos impactos nos últimos anos, entre outros motivos, pelas possibilidades oferecidas pelas ferramentas e redes digitais. Nesse contexto, os mais importantes aparatos são o computador, que se configurou como um dispositivo capaz de concentrar a maioria, senão todas as etapas de produção editorial, e a in- ternet, hoje consolidada como o principal meio de circulação e mesmo produção de projetos editoriais digitalizados.
Um dos impactos mais significativos do computador e da internet na sociedade con- temporânea tem acontecido sobre o mundo do trabalho. Castells (2003) aponta uma maior ex- pectativa de produtividade e competitividade como tendência de uma “nova economia” foca- da na inovação e alavancada pelas tecnologias digitais. Esta nova dinâmica, aponta, está rela- cionada a uma “desagregação do trabalho” tal qual se constituiu na fase industrial do capita- lismo (p.119).
Nas diferentes redes editoriais pode ser identificada hoje uma tendência de diluição ou mesmo ao apagamento das fronteiras entre diversos tipos de intervenção sobre o texto, as- sim como de eliminação e/ou fusão de etapas de tratamento do mesmo. Muniz Jr. (2010), após ressaltar que, no Brasil, “revisor e editor correspondem a categorias pouco estáveis”, ressalta 53
Conforme Burke (2003, p.89), “as enciclopédias e suas categorias podem ser consideradas expressões ou incorporações de uma visão sobre o conhecimento e, de fato, uma visão do mundo”. Neste sentido, a
Encyclopédie é reconhecida como um projeto símbolo do Iluminismo e um porta-voz dos ideais que culminaram
que, “com as novas formas de organização da produção, as atribuições se tornam mais fluidas, e o profissional da área converte-se em um trabalhador flexível, multitarefa” (p.272). O rear- ranjo dessas atividades profissionais, aponta o autor em Muniz Jr. (2008), está diretamente li- gado ã “integração de empresas editoriais a grandes conglomerados de mídia”, o que levou as editoras a adotarem padrões, modelos e metas baseados cada vez mais na otimização de pro- cessos que permitam aumento de lucro (p.9)54.
Relatando as mudanças no processo de edição de livros nos últimos anos, Bueno (2005) identifica uma “irrupção da auto-edição”, isto é, do cumprimento de um crescente nú- mero de etapas pelo próprio autor ou por poucos profissionais, o que culmina no esvaziamen- to ou mesmo na eliminação do trabalho de tratamento de textos. Como indica Salgado (2007), “existem atualmente muitos cursos do tipo 'faça você mesmo' e sítios na internet que dão 'di- cas de autoria'”, o que reflete “a atual multiplicação de tipos de autores e de publicações e, em geral, apresentam-se como um chamado ã participação” (p.180). Os corretores de estilo e pre- paradores de originais foram os primeiros profissionais a desaparecer no “massacre de espe- cialistas” descrito por Bueno (2005). Entre outras consequências, nota-se a concentração de atividades sobre o editor, o que, segundo esse autor, coloca seriamente em risco a qualidade editorial dos produtos.
Nesse contexto, a produção editorial de livros, marcada historicamente por um ritmo menos acelerado e um cuidado maior com a qualidade do produto a ser impresso, parece se aproximar de rotinas de produção mais enxutas e rápidas, como a jornalística. É o caso do edi- tor de livros, que, ainda que tenha um ritmo de trabalho e objetivos diferentes do editor de produtos noticiosos, tem seu papel aproximado desse profissional mais generalista. Como as- sinala Ribeiro (2007, p.11) ao comparar as atividades nas duas redes de produção, “no jorna- lismo, o editor tem tarefa bem mais ampla do que na publicação de livros, salvo casos em que o editor das obras seja o executor delas em todas as etapas (algo que se tornou especialmente possível depois do computador)”. A caracterização do trabalho do editor jornalístico chama a atenção pela diversidade de funções:
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Uma das consequências, aponta Muniz Jr (2008), é que “todos os tipos de profissional (tradutores, preparado- res, revisores, designers, diagramadores, ilustradores, fotógrafos, e em alguns casos editores, coordenadores de produção e assistentes editoriais) estão sob regimes precários ou alternativos de trabalho” (p.9).
O editor de jornais pode, quando cabível, preencher lacunas de texto, dar novos enfoques, corrigir e dinamizar frases e parágrafos, esclarecer e desenvolver explicações, dar títulos ou alterá-los, redefinir tamanhos de texto em função dos espaços fixados pela diagramação, lidar com o projeto gráfico (único) do jornal e até modificar a edição na última hora, se for o caso (RIBEIRO, 2007, p.11)
Segundo Soster (2006), com a informatização das redações, a partir dos anos 1980, “papéis até então usuais nas hierarquias das redações, caso do revisor e do subeditor, foram gradativamente extintos, ou fragilizados em sua importância, aumentando a responsabilidade dos repórteres sobre o resultado final das matérias” (p.36). Ainda segundo o autor, são hoje “pouco perceptíveis as fronteiras entre quem escreve e quem edita, diluindo a figura do editor, antes de primeira importância e facilmente identificável nas redações, a todo o corpo da redação”.
Este acúmulo de função deve-se, em grande parte, ã extinção de algumas funções, como o copidesque. Introduzido nas grandes redações brasileiras junto com os manuais de redação, no final dos anos 1950, este profissional ligado ã reescrita ganhou espaço junto com a tendência de padronização do texto (entre outros fatores, com a implementação do lead)55. A
eliminação do copidesque nas redações jornalísticas é um exemplo da crescente simplificação da rede de produção de jornais e está associada ao “enxugamento” no número e na diversidade de profissionais envolvidos.
Uma função ainda menos comum nas redações jornalísticas, especialmente no Brasil, é a do checador, que é o profissional responsável pela conferência da precisão das informações e dados contidos em uma reportagem, em geral após a edição final do texto. Segundo Sun (2007), o trabalho “é feito com consulta ao repórter e pesquisa em biografias disponíveis online ou em obras de referência”. Comum na impressa norte-americana, a checagem jornalística chegou ao Brasil no início dos anos 80, através da revista Veja. Esta revista semanal é, ainda hoje, uma das duas publicações que contam com esta função - a outra é a revista mensal Piauí (cf. SUN, 2007).
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Segundo Lustosa (1996), a copidescagem foi uma inovação trazida dos EUA, onde seria comum a existência de repórteres que dominam “pessimamente o idioma inglês”, exigindo a divisão de tarefas entre dois grupos de jornalistas: um que apura as informações e “outro que reelabora a narração dos fatos, transformando-a em notícia”. Para o autor, no Brasil, onde a qualidade do texto é exigida na contratação dos repórteres, houve dificuldade em entender a função dos copidesques, o que resultou em “conflitos entre eles e os repórteres, na medida em que promoviam alterações profundas nos textos, mudando até mesmo a essência da informação básica da notícia” (p.109).
O enxugamento dos processos editoriais mostra-se ainda mais intenso na produção voltada para a internet. Ainda na produção jornalística, repórteres ou redatores, por exemplo, têm grande autonomia nos sites noticiosos para realizar, sozinhos, “todo” o ciclo que envolve o jornalismo, “sem nenhum filtro aparente ou editores que desempenhem o papel de revisão e edição” (MARTINEZ, 2007, p.16). Assim, é cada vez mais comum, por exemplo, a “auto- publicação” de matérias, especialmente na produção voltada para a internet56.
Associada ã tendência de “auto-publicação”, a adaptação da produção jornalística para a internet - e de outras redes de produção, como a própria Wikipédia - foi duramente submetida ã possibilidade de publicação instantânea de uma informação e ao rompimento da lógica de ciclos periódicos em prol de um “deadline contínuo”. Como afirma Martinez (2007, p.15), “em menos de cinco anos de funcionamento da internet, aquela noção de ordem e de rotina produtiva ditada pelos meios industriais (...) foi subvertida pelo ritmo frenético do noticiário no ciberespaço”. Moretzsohn (2002) denomina esta tendência de “jornalismo em tempo real” e critica o “fetiche da velocidade” que impregnou as práticas jornalísticas contemporâneas (p.128).
A partir do contexto apresentado neste capítulo, podemos afirmar que, executados através de diferentes operações, os constantes processos de reescrita de um texto no ambiente wiki não são apenas um meio de construção de sua textualidade negociada, mas principalmente constituem uma característica fundadora de um projeto como a Wikipédia. O potencial desenrolar de uma negociação em torno do texto, acreditamos, está diretamente ligada ã proposta editorial que rege a Wikipédia.
Podemos afirmar que um texto wiki, mais intensamente que os textos produzidos em outros contextos, é potencialmente fruto de constantes e intermináveis processos de reescrita, assim como de constantes mudanças de sentido de caráter micro e/ou macroestruturais. Neste sentido, apesar das iniciativas que visam aproximar sua rede de produção da perspectiva 56
Estudos sobre a rotina produtiva de portais noticiosos brasileiros, como os realizados por Jorge (2007) e Barbosa (2003), confirmam este cenário. Pereira (2004), ao mapear o funcionamento do CorreioWeb, identificou que o trabalho do “jornalista sentado” - termo cunhado por Erik Neveu para designar um profissional mais afim ao tratamento de textos do que ã apuração de informações – “é solitário e independente. Praticamente não há interferência externa de editores ou da chefia na produção do jornalista” (p.3). Como forma de compensar a crescente “horizontalização” das relações entre repórteres e editores, Stepp (2009) identificou novas formas de edição adotadas nas redações norte-americanas, como a edição por um colega próximo, a edição posterior ã publicação de uma notícia ou o envio do material para um editor para conferência e publicação através de um sistema que permita pré-visualização.
constituída historicamente na produção de livros e enciclopédias (como o “Estaleiro”57 e os “Wikiprojetos”58), a dinâmica da Wikipédia parece se diferenciar fundamentalmente do modelo caracterizado, entre outros elementos, pela divisão formal de tarefas, pela linearidade dos processos e, mais recentemente, pela simplificação das etapas de tratamento do texto.
Santos (2006), partindo de uma terminologia proposta por Roger Chartier, afirma que “Ordem do Livro é diferente da Ordem da Internet” (p.2). Na primeira Ordem, baseada no papel, a informação é mais escassa e o esforço é para controlar um ambiente marcado pela estabilidade. Por outro lado, “em um sistema de informação de características infinitas” como a Ordem da Internet, “a informação se caracteriza então pelo ato criativo gerado na relação dos elementos” (p.6). É desta relação entre elementos em processo de criação que começaremos a tratar no próximo capítulo.
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O “Estaleiro” é “um centro de manutenção da Wikipédia lusófona”. Dividido em seções que constituem “as frentes de trabalho”, reúne listas de artigos mínimos, esboços, para Reciclagem e Revisão etc. Mais informações em http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Estaleiro. Acesso 20 fev. 2011.
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Editores interessados em um tema comum podem se reunir em torno de um WikiProjeto, que é “uma área onde pode-se coordenar e organizar a escrita de artigos”. Entre as atividades possíveis através de um Wikiprojeto estão “desenvolver critérios, realizar trabalhos colaborativos, manter uma listagem de coisas a fazer, e servir como um fórum (...)”. Mais informações em http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:WikiProjeto. Acesso 20 fev. 2011.
3 PRODUÇÃO COLABORATIVA NA INTERNET
A edição de textos mediada por dispositivos digitais (computadores, em especial) conectados via internet vem adquirindo, nos últimos anos, especificidades significativas em relação aos modelos de produção editorial constituídos, especialmente ao longo do século XX, com base na plataforma impressa. As tecnologias digitais como suporte para a produção, edição e publicação de textos abriram novas possibilidades para o autor, para os demais participantes da rede editorial e para o leitor-agente, afetando, consequentemente, as relações entre eles e as operações de reescrita ãs quais são submetidos os textos. Os impactos deste rearranjo de funções e processos são identificáveis inclusive nas redes tradicionais de produção editorial, como discutiremos ao final deste capítulo.
Neste contexto, a possibilidade de um mesmo material linguístico ser modificado por diferentes editores conectados em rede, que juntos podem editar um texto de forma contínua, insere a Wikipédia e outros produtos editoriais baseados na World Wide Web em um modelo mais amplo de produção, caracterizado pelo trabalho colaborativo e pela criação de bens comuns de acesso livre, como discutimos a seguir.