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Del III: Metode og Analyse

Kapittel 4. Metode – refleksjon og mening

5. Hvordan forstår vi det vi ser?

Nos últimos cinquenta anos o interesse por este episódio mudou, de questões relativas à sua seriedade como afirmação acerca do embasamento filosófico das metamorfoses, e de suas implicações augustanas ou antiaugustanas, para questões de gênero e intetextualidade, ou seja, como Ovídio assimila, comenta e reescreve a tradição épica precedente. Segundo Hardie (1995), o significado do episódio de Pitágoras reside mais no âmbito da poética do que no da filosofia, no que denomina "a construção de uma história literária dentro do texto" (Hardie 1995: 212). Para ele, o discurso de Pitágoras no livro 15 de Metamorfoses envolve uma perspectiva que inclui toda a épica latina até o tempo de Ovídio. Myers defende que o discurso sugere um microcosmo do poema todo, ao combinar elementos mitológicos e elementos ligados a diversos saberes antigos (Myers 1994: 133); Segal, na trilha destes vieses, sugere que, no discurso de Pitágoras, Ovídio não apenas procura inserir-se na tradição

épica e afirmar-se como vate, mas também reflete, de modo lúdico, more suo, sobre a dita tradição – em mais uma instância de lasciuire. Isto ele faz, em parte chamando a atenção para as contradições existentes entre a perspectiva do seu Pitágoras lucreciano e aquela presente no seu próprio poema. Ovídio não projeta meramente sua própria

persona poética em Pitágoras, mas faz de Pitágoras outra persona poética, a qual

manipula com o mesmo engenho lúdico com que manipula tudo o mais na tradição (Segal 2001: 64–5).

Ao explorar as discrepâncias entre seu próprio modo de narrativa mitológica (que tem Calímaco e Virgílio como principais modelos), e a voz filosófico-didática de Pitágoras (com seus ecos de Empédocles e Lucrécio)77, Ovídio destaca a original mescla dos diversos tipos de poesia hexamétrica em seu poema.

Desta maneira, o que pode parecer irrelevância jocosas, falta de habilidade ou até fracasso em Pitágoras, como voz didática persuasiva, é na verdade uma indicação das limitações de qualquer e cada modo retórico (no caso em questão a diatribe filosófica e seu desenvolvimento na poesia didática) e assim nos convidam a comparar e contrastá-lo com os outros modos retóricos e narrativos apresentados no poema em seu todo (Segal 2001:65).

Ainda segundo Segal, a forte presença de Lucrécio no episódio é, talvez, menos surpreendente que a do próprio sábio grego, em parte porque Lucrécio é um dos principais modelos de epos didático em latim para Ovídio e em parte porque ambos têm muitas afinidades em termos de sua matéria. Ambos poetas enxergam a condição humana com base em um arcabouço universalizante, que se estende por todo o tempo e todo o cosmos. Tanto Lucrécio como Ovídio (enquanto a voz que narra as

Metamorfoses) se ocupam com o problema da permanência em um mundo instável,

com os corpos sujeitos à mudança e – embora de maneira muito diferente –, com o sofrimento decorrente deste estado de coisas lábil e precário. O colorido lucreciano presente em Metamorfoses, entre outras coisas, fornece o pano de fundo contra o qual é permitido ao leitor apontar o caráter distintamente ovidiano deste mundo em transformação. Em contraste com as leis impessoais que regem o universo de

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Ao escrever DRN, quanto ao modo, Lucrécio aproxima-se da tradição épica hesiódica, o modo de Hesíodo (acima, pág. 39). Quanto à matéria, a exposição de doutrinas mais estritamente filosóficas ou científicas em metro épico, seguiu a tradição de poetas científicos como Empédocles e Arato,

de particular importância para acessar a influência em sua obra de escritores anteriores (Costa 1984: xiii).Poeticamente falando, sua maior influência foi Ênio, considerado o grande homem da poesia latina, mesmo no tempo de Lucrécio.

Lucrécio, a metamorfose no mundo de Ovídio é geralmente irreversível, irracional, imprevisível e inesperada; ela tem lugar mais no âmbito do mito do que na natureza, embora as metamorfoses etiológicas no poema contribuam para esbater esta distinção (Segal 2001: 66).

A presença de Lucrécio na obra é substancial no episódio da criação do livro 1; menos previsível, talvez, mas não de todo surpreendente, são os ecos da grande peste em Atenas, na história de Éaco sobre a peste em Égina, no livro7; no episódio de Esculápio, no 15; e a presença dos simulacra de Lucrécio no mito de Narciso, no 3. A questão que permanece, segundo Segal, é por que Ovídio colocaria o seu "Lucrécio" na persona de uma voz cuja doutrina – a sobrevivência da alma e do caráter na metempsicose – é antitética a um pressuposto fundamental da filosofia lucreciana, ou seja, a dissolução imediata da alma em seus átomos constituintes após o advento da morte do corpo. Uma possível resposta seria que a discrepância entre elocução e matéria no discurso de Pitágoras reflete a atitude de admiração possivelmente ambivalente da parte de Ovídio para com seu grande predecessor na épica latina: Lucrécio (Segal 2001: 66–7).

Ovídio sobrepõe seus dois predecessores didáticos – Virgílio e Lucrécio – de modo a nos recordar como quão diversamente a mesma matéria pode ser trabalhada em diferentes modelos literários. Sua atitude de emular Lucrécio, contradizendo-o ao mesmo tempo em que o segue muito de perto – oppositio in imitando – chama atenção para a construção da persona poética do próprio autor (Segal 2001: 70 e 77).

Lucrécio parece optar por um procedimento análogo no De rerum natura. Segundo Sedley, muitas são as passagens da obra que remetem à obra de Empédocles,

Da Natureza, aferidas com variados graus de precisão, sendo que, calcula-se, as 500

linhas que restam de sua obra representam apenas cerca de um décimo de sua produção. A reverência de Lucrécio por Empédocles fica evidente no peã laudatório (1.716–41) com que prefaceia sua crítica à teoria empedocliana (e aristotélica) dos quatro elementos78: a água, a terra, o ar, e o fogo – cuja presença (como o mar, a terra, o céu e as estrelas e o sol) pode ser atestada no proêmio do poema (acima à pág. 27). Naturalmente, Lucrécio opunha-se também à teoria da transmigração da alma. Sua dívida filosófica para com Empédocles devia-se basicamente à teoria dos elementos físicos imutáveis e à rejeição da visão de mundo teleológica (Sedley 2007: 60).

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Diferentemente de Aristóteles, que adotou sua visão, Empédocles era de opinião que essas formas de matéria eram imutáveis.

E Lucrécio, no seu proêmio, ainda segundo Sedley, não presta homenagem a Empédocles pelo conteúdo filosófico de sua obra: ao mencionar com aprovação suas descobertas no peã supracitado (1.732–3), expressa o respeito de um epicurista pelo trabalho dos filósofos pré-socráticos em geral, não apenas de Empédocles, louvando sua disposição de procurar causas físicas – em oposição a causas teológicas – para explicar os fenômenos cósmicos. Sedley defende que Lucrécio admira Empédocles de outra maneira: pela forma hexamétrica de sua obra – um epos. É como antecedente literário que o emula.

Há, de fato, muitas correspondências entre os dois poemas. Seus títulos mantêm marcada semelhança; ambos são dedicados a amigos; e ambos, a dada altura, invocam a Musa Calíope. A hipótese de Sedley é de que o proêmio de Lucrécio é, e foi designado para ser, uma emulação ao proêmio do poema físico de Empédocles, Da

natureza das coisas que são (outra variante do título). Seu objetivo teria sido

estabelecer, de saída, o manto poético grego preciso que ele desejava envergar. Em seu manifesto poético (1.921–50) e na sua apreciação da linhagem de Ênio (1.117–26) mostra-se tão interessado em declarar sua afiliação literária quanto os outros poetas romanos de seu tempo (Sedley, 2007: 72).

Ovídio, por meio de justaposições aberrantes de citação direta, exageros quase paródicos e inversão fundamental do sentido, não somente comenta acerca de seu lugar na tradição épico-didática, mas também sobre sua própria técnica de imitação ou emulação literária. A estratégia poética utilizada no episódio de Pitágoras, segundo Segal, seria armar um jogo de espelhos perturbador – verdadeiramente um mise en

abyme – em que ele procede analogamente ao modo com que Lucrércio emula Empédocles, revertendo o procedimento, ao mesmo tempo em que clama para si, enquanto vate, um posto da mais alta dignidade (Segal 2001: 77).

Poder-se-ia aventar que o Pitágoras lucreciano de Ovídio – uma vez que lucreciano apenas na forma – fosse uma maneira às avessas, lúdica, de emular o Lucrécio empedocleano.

Conforme Segal, é característico de Ovídio que, no processo de apropriação, ele trate esse mesmo processo de maneira lúdica, e o revele mesmo enquanto brincadeira, pois tem ciência de que a matéria com que lida, como vate, constitui-se, em última instância, de ficta – fabricações. Ele permite a seu Pitágoras ascender ao patamar de um vate empedocleano-eniano-lucreciano, com seu modo elevado de exposição, apenas para furar o balão com a verdade aguda de que poetas trabalham

com mera ficta: não são mestres da verdade, mas fornecedores de fabricações – estão mais para mestres da invenção do que para mestres da verdade (2001: 78). A persona poética de Pitágoras, no livro 15, se faz ventríloquo de Lucrécio, o poeta austero por excelência – usa sua elocução como veículo para expor o reverso de sua doutrina. Ao passo que Lucrécio (livro 6), comenta as maravilhas do mundo natural com espírito cético, para derrubar a possibilidade de causas sobrenaturais ou da providência divina, Pitágoras, nas Metamorfoses, se deleita com o encanto das histórias mitológicas e com as fabricações dos poetas por si mesmas. Quando usa do discurso lucreciano para investir contra as falsidades dos poetas:

O genus attonitum gelidae formidine mortis, quid Styga, quid tenebras et nomina uana timetis materiem uatum, falsi terricula mundi? (Met. 15.153–55)

Ó raça atônita de pavor da morte gélida, / por que temeis o Estige, as trevas e palavras vãs, / matéria de vates, os terrores de um mundo inexistente?

Ou levanta a questão da credibilidade poética –

...nisi uatibus omnis / eripienda fides... (Met. 15.282–83) a menos que aos vates toda / credibilidade deva ser negada

suas assertivas concernentes à transmigração das almas minam a autoridade da

persona poética que adotou (Segal, 2001: 78-9). E, com mais este jogo entre realidade

e ficção, alinha-se mais uma vez com aquele considerado o pai da poesia didascálica, Hesíodo, que relata em seu proêmio (p. 81) a fala das Musas: "sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos".