Del II: Teoretisk tolkningsramme
Kapittel 3. Et moralfilosofisk perspektiv
8. Hele mennesket
Ao final do Livro 5, arrematando o primeiro terço da obra, Ovídio relata outro episódio enfocando a questão da narrativa, situado na última subdivisão do primeiro terço do poema, constituído pelo conjunto de histórias referentes às vinganças dos deuses, a sublinhar-lhes a injustiça. O poeta apresenta Minerva no Monte Hélicon, lar das Musas hesiódicas, em conversa com uma delas, que lhe descreve o encontro recente com as toscas – stolidas – donzelas, filhas de Píero, rei da Emácia (v. 302). As presunçosas Piérides, teriam desafiado as Musas quanto a seus talentos poéticos e estas, não sem certo constrangimento – na versão da própria –, teriam aceitado competir. As Musas heliconídeas63 são descritas pelo narrador como doctas sorores (v. 255): segundo Anderson, estas, enquanto cantoras exemplares, possuem o trunfo considerado ideal pelos poetas romanos contemporâneos, isto é, são eruditas na tradição alexandrina (Anderson 1997: 521).
A Musa então relata como a moça que lhes propusera o desafio – sem nem tirar a sorte com as irmãs, a denotar agressividade –, entoa seu canto ao som da harpa. É a Musa heliconíade que relata o canto da Piéride, em apenas treze versos (5.319– 31). O discurso narrativo da deusa, quase todo não mimético, comunica que o canto da Piéride versara sobre a batalha mitológica dos deuses contra os gigantes, conferindo a estes honra imerecida e aos deuses um papel pouco digno, beirando o ridículo, pois descreve como haviam fugido para o Egito e se disfarçado sob formas enganosas de vários animais – em tentativa de etiologia, traço pretensamente calimaquiano –, para escapar de Tifeu64. O fato de que a Piéride é descrita a narrar viesadamente matéria hesiódica – a gigantomaquia –, destaca sua tentativa de
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Segundo as fontes mais antigas, o lugar das Musas era na Piéria, ao norte do Monte Olimpo, e no próprio monte: estas estão associadas aos vates da Trácia, Orfeu, Tâmiris e Museu; a região parece ter sido o seu primeiro lar. Um segundo grupo, mais ao sul, na Beócia, as Musas do Monte Hélicon, são identificadas por Hesíodo com as Musas do Olimpo e da Piéria, talvez por alguma conexão subjacente entre as duas regiões, mas possivelmente porque o jovem poeta achasse a associação conveniente, como um meio de enaltecer a própria reputação, pois descreve-se como pastor no monte em questão (OCD s.u. Muses).
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Em Apollod. 1.6.3, os deuses fogem para o Egito em pânico, tomando a forma de animais (em ref. ao teriomorfismo egípcio) (OCD s.u. Typhon).
subverter a poesia das Musas do Hélicon. O mesmo episódio, com o viés convencional, ou seja, abertamente favorável aos deuses, já fora recontado sucintamente pelo narrador no início do poema (1.151–62).
Anderson (1997: 529) esclarece que a gigantomaquia era um dos mitos mais conhecidos na Grécia e os nomes dos participantes bem como os episódios das batalhas variavam de acordo com suas diversas representações, sendo que, em geral, Zeus, Hércules, Posídon e, mais tarde, Atena, eram os protagonistas. Este mito, nos seus primeiros estágios, parecia representar a tópica da tribo que busca destronar os deuses; em estágio cultural posterior, a luta da civilização contra a barbárie ou, de modo mais geral, a ordem uersus a desordem. Segundo sugere Anderson, poderiam representar, mais especificamente, Atenas contra as hordas persas ou, ao tempo de Ovídio, a Roma augustana contra o seu passado egoísta e autodestrutivo. Ao enobrecer os gigantes e escarnecer dos deuses, então, a Piéride – conforme o relato da Musa –, teria praticado uma patente inversão de valores, facilmente perceptível pela audiência de Ovídio. Convém notar, entretanto, que os deuses nas Metamorfoses também não comparecem como personagens dignos de respeito e que a Piéride em questão está a desenvolver certos temas já abarcados pelo próprio autor (Anderson 1997: 529).
Após troca de gentilezas, Minerva pede à Musa que recante, na ordem em que fora entoado, o epos que Calíope – Musa especialmente da épica e da eloquência, escolhida pelas irmãs para representá-las (no que seria o procedimento adequado) –, teria apresentado em resposta ao desafio das Piérides. Segundo a Musa, Calíope teria se levantado, os cabelos coroados de hera, e acompanhado com cordas o seu epos (5.341–661) – note-se, com toda a propriedade –, precedido por um breve hino à glória de Ceres (implicitamente contradizendo a narrativa da Piéride, que apresentara a Terra como inimiga dos deuses); o hino teria contido a seguinte proposição:
Illa canenda mihi est. utinam modo dicere possim
carmina digna dea! certe dea carmine digna est.(Met. 5.345)
É ela que devo cantar. Possam somente ser dignos da deusa as canções que entoar! Decerto a deusa é digna de ser cantada65.
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Calíope – sempre conforme sua irmã –, naturalmente não invoca deus ou Musa para inspirar seu canto, ela mesma define sua matéria. É de notar, no entanto, que a proposição é oferecida como o faria um poeta "inspirado", ou obrigado a cantar dada matéria inspirada por uma Musa (Anderson 1997: 533). Neste caso, no entanto, a autora do canto é a própria – fato que induz a divagações. Constata-se que Calíope canta como se inspirada e sabemos que, sendo ela a própria Musa, não poderia sê-lo; ou inspira-se a si mesma; ou deixa-se inspirar pela matéria que ela mesma se propõe a cantar, o que é basicamente a mesma coisa. Parece estar usando de uma fórmula. Isto concorre para dar visibilidade ao fato de a inspiração recebida pelos poetas ter se tornado, no decorrer do tempo, apenas uma tópica. Passa a ser um artifício, uma afetação talvez, cuja função seria velar a verdadeira origem do canto, ou seja, o engenho do poeta; ou que ela nada mais é do que este engenho, sob outro nome.
O epos de Calíope também é ambíguo, contendo características da épica tradicional e aspectos helenísticos. Segundo Ziogas, "a performance de Calíope é um
tour de force de poesia hesiódica". Seu canto é apresentado como um hino a Ceres,
celebrando a agricultura, para em seguida focar-se na matéria de Os Trabalhos e os
Dias (com que Hesíodo teria derrotado a épica guerreira de Homero em afamado
certame). E a narrativa propriamente dita inicia-se com a morte de Tifeu (5.346–61), passando para a paixão de Dite por Perséfone, reiterando desta maneira a transição da
Teogonia para o Catálogo (Ziogas 2009: 252).
Anderson é de opinião que o canto, reproduzido ipsis litteris por sua irmã (destarte um vero cantus, conforme conceitua Habinek, acima), causa certo desconforto por ser muito longo (315 versos) e complexo – tantas as histórias, algumas conhecidas, outras não –, e por sua estrutura narrativa carecer de foco e coesão. Ovídio, como faz em relação a muitas outras passagens do poema, confia na familiaridade da audiência com mitos antigos66, neste caso, o mito narrado no hino homérico a Deméter, que serve de base comparativa para a narrativa de Calíope. Segundo Anderson, o esquema estrutural:
...indica que a Musa não sabe como produzir uma narrativa de efeito; ela não se abstém de se envolver em histórias secundárias de metamorfoses, que nos distraem da suposta narrativa principal e apresentam aspectos pouco enaltecedores tanto de Ceres como de Prosérpina. Longe de ser apresentada como amorosa e maternal, a Ceres deste hino soa egoísta e leniente consigo mesma, rápida para punir os outros, inclusive uma criança tola. A Musa acaba por projetar sobre a deusa uma personalidade que
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Conforme demonstrado por S.Hinds em The Metamorphoses of Persephone. Ovid and the Self- Conscious Muse. Cambridge, 1987.
se adequa às suas próprias atitudes perversas e mesquinhas, um paradigma de deusa poderosa e vingativa que, em ação nas Musas, transformará as Piérides em gralhas malvadas e desafinadas. Assim, acabamos por questionar o veredicto das ninfas aquiescentes do Hélicon: foi uma vitória merecida da poesia? Não será talvez o poeta das Metamorphoses, Ovídio, em vez da Musa, quem coloca as questões acerca da verdadeira poesia e da autêntica divindade? (Anderson 1997: 526)
A patente falta de engenho por parte de Calíope no canto reproduzido pela irmã e oferecido por Ovídio ao leitor na voz do narrador de seu epos – Ovídio deixa em aberto que o cantus possa ser fiel –, corrobora o partido ovidiano de que a inspiração da Musa não é condição suficiente para propiciar a boa composição, mas, sim, o engenho do poeta. E é possível que o poeta tenha colocado o canto de Calíope a cargo da irmã da Musa em sua narrativa de modo a não ter que arcar pessoalmente com todo o ônus da inversão de valores que apresenta ao leitor.
Como era de se esperar – pois que em conformidade com o esperado, a ordem natural das coisas –, as Musas, segundo a narradora, foram julgadas vitoriosas pelas ninfas do Hélicon. Calíope ainda diz em discurso direto que, como se não bastasse terem sido derrotadas, as Piérides ainda se revoltassem ameaçadoramente, ela mesma anunciara a decisão de não refrear seu ressentimento e puni-las. É vingativa, como o fora Ceres em seu canto. A irmã segue relatando que as Piérides, então, zombam e escarnecem das palavras ameaçadoras de Calíope e são então transformadas em pegas, aves que produzem som estridente; e, mesmo na condição de aves, insistem na antiga tagarelice – uma forma de justiça poética – no viés das Musas. Este mito remete à história do aedo Tâmiris, relatada na Ilíada (2.595–600), já mencionada, ao mito de Coronis (Met. 2. 531–632), e particularmente a Hesíodo.
Segundo Anderson, o narrador não dá ênfase à personalidade das competidoras e centra a atenção basicamente nas narrativas, em particular no canto de Calíope, com suas metamorfoses digressivas (1972: 151); não obstante, o desafio às nove Musas feito pelas nove irmãs, as Piérides, ciosas de seu número, é reforçado pela seguinte advertência:
"desinite indoctum uana dulcedine uulgus / fallere ... ;" (Met. 5.308–9) "Parem de enganar o vulgo inculto pela melosidade vã"
que, antes de mais nada, alude à Teogonia:
ἴδµεν ψεύδεα πολλὰ λέγειν ἐτύµοισιν ὁµοῖα,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações.
O certame tem lugar no Monte Hélicon, local cujas associações poéticas já haviam sido bastante exploradas pelos poetas alexandrinos ao indicar sua filiação ao modo épico de Hesíodo, e Ovídio enfatiza o elemento hesiódico do lugar – a alusão à
Teogonia sugere que as Musas no mito são aquelas de Hesíodo; as jovens Piérides,
então, poderiam ser consideradas como pretensas Musas, rivais (cf. nota 63).
A advertência das Piérides, à primeira impressão, parece trair-lhes a desfaçatez. No entanto, é a Musa heliconídea que relata os fatos a Minerva – o que por si já introduz um elemento de desconfiança. E este elemento é potencializado quando o leitor se dá conta de que é a versão da Musa, sim, mas na voz do narrador do poema. E que por trás de tudo está Ovídio. De quem, afinal, e para quem, é a advertência? Sem dúvida, o leitor se depara com um confronto entre duas posturas poéticas, porém as posturas permanecem ambíguas.
Conforme Habinek (2005: 58–9), a história da rivalidade entre Musas e Piérides é uma entre várias no poema cujo foco reside na supressão de vozes rebeldes. Não parece ser por acaso que a história se encontra na posição que ocupa dentro da obra (final do primeiro terço do poema), em que, grosso modo, nos é dada a formação da ordem olímpica. O mito antecipa o silenciamento de Aracne, no início do livro 6, e ocupa posição estrutural análoga à do mito de Orfeu ao fim do livro 10 (final do segundo terço da obra) e início do 11. E também trata do poder e das limitações do canto. Em suas palavras,
Aparte qualquer significado político ou autobiográfico que queiramos impor a uma história de castigo divino tendo por motivo um cantar inadequado, tal como relatado pelo poeta exilado Ovídio, o episódio das Musas e suas rivais cristaliza em poucas centenas de linhas os elementos principais do sistema de performance verbal que caracteriza a cultura romana. Encontram-se implícitas na narrativa de Ovídio distinções entre o canto e a fala cotidiana, bem como diferenciações mais sutis, no domínio do canto, entre performances autônomas e derivativas, e entre aspectos ritualizados do canto e o desempenho ritual do canto levado em outros contextos. Distinções estas que, conforme veremos, caracterizam o sistema de performance oral romano dos seus primórdios em diante, sublinham as refexões romanas sobre o canto em suas origens, e fornecem marcos referenciais para a compreensão das disputas históricas pelo desempenho e, como consequência, pelo poder político e social no mundo romano. (Habinek 2005: 58–9).
Segundo Anderson, o processo da narrativa do episódio possibilitou a Ovídio introduzir uma opinião dissidente e deixar seus ouvintes em dúvida quanto à superioridade das Musas como poetas e como pessoas (Anderson 1997: 525). Ainda
que o próprio narrador ratifique que as mortais zombam da ameaça da Musa, Ovídio deixa que a dúvida permaneça – quanto a Calíope como especialista no canto, e quanto às Piérides: se eram realmente toscas e não souberam compor nem perder, ou se sua narrativa era de fato superior e se sentiram injustiçadas, no caso, com razão.