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Del III: Metode og Analyse

Kapittel 4. Metode – refleksjon og mening

7. Databearbeiding

Como todos os mitos analisados neste trabalho, é possível argumentar que o mito de Ceix também encerra uma dimensão programática. Para que se entenda sua importância nas Metamorfoses, é importante reiterar que o livro 11, no qual é narrado, constitui um livro de transição dentro do poema, uma transitio entre duas eras: tempo mítico e o tempo histórico. Como nas tessituras de Minerva e Aracne, a transitio entre estes tempos também é rendida por Ovídio de maneira inteligente e sutil, de modo que mal se perceba o que é mito do que é narrado como realidade histórica.

Após o episódio da morte de Orfeu – ainda no tempo mítico – e o episódio do rei Midas – tempo lendário mas também histórico (cf. p. 107) – o narrador relata a construção dos muros de Tróia por Laomedonte, no limiar da história. Em seguida, o narrador deixa de progredir, para relatar, retrocedendo ao tempo mítico, a união de Peleu com Tétis – cujo fruto futuro, Aquiles, haveria de protagonizar o primeiro acontecimento notadamente considerado como histórico pelos antigos: a guerra de Tróia. Antes, porém, o poeta narra a ida de Peleu a Tráquis e a história de Ceix: o mito, em Ovídio, representa a própria transição: é o mito da passagem. O mesmo mito, na versão hesiódica, tinha lugar indiscutivelmente no tempo mítico – o casal

recebe a punição implacável dos deuses pela presunção de comparar-se a eles (como as muitas histórias relatadas, grosso modo, no primeiro terço do poema). Nas

Metamorfoses, o mito tem lugar em outro tempo. O narrador está em vias de retomar

o tempo histórico no final do livro 11, com a morte de Éaco, irmão de Heitor e de Páris, antes da guerra. A partir do livro 12 o poeta começa, de fato, a trabalhar a história.

Voltemos ao mito em tela. O fulcro do mito – Ceix e Alcíone – está

estruturado em 3 partes: aquela que se inicia com a separação do casal e aumenta em intensidade até tempestade e a morte de Ceix no naufrágio, o primeiro clímax; aquela da intensa tormenta emocional de Alcíone que cresce em intensidade até atigir o clímax final: o reconhecimento da morte do marido, seu próprio salto para a morte e a metamorfose. A separar as duas passagens está a parte central, em que é relatado o que ocorre na esfera divina. Esta parte, em que se destaca a passagem na morada do Sono, representa uma queda abrupta na curva da intensidade, ocasionando um sensível amortecimento da tensão. É como se o tempo na terra fosse suspenso, a dar uma pausa para que mortais, e leitores, respirem, enquanto o narrador se detem na ambiência aconchegante e diáfana das paragens sobrenaturais.

Conforme vimos, na parte inicial inicial do mito como um todo o herói, Ceix, rei de Tráquis, tem papel de destaque. A chegada de Peleu a seu reino, a história do irmão e da sobrinha (em que a desmedida punição divina pela presunção humana é narrada como o fora nos livros anteriores de Metamorfoses), o episódio do lobo, todos concorrem para caracterizar o personagem central como um herói diferenciado, adepto da pietas e de disposição pacífica, não guerreira, já nos moldes da épica helenística. Alcíone comparece de modo pontual neste preâmbulo, já caracterizada como componente pronunciadamente elegíaco.

Na parte principal do mito de que tratamos neste item (Ceix e Alcíone – ou melhor, a parte de Alcíone), o herói épico despede-se da esposa e parte em expedição naval– topos da épica tradicional – para consultar o oráculo de Apolo em Claros, pois teme ainda a punição divina. Alcíone, que rouba a cena a partir desse ponto, em discurso marcadamente elegíaco, revela toda sua ansiedade até desfalecer ao vê-lo partir; depois, retorna, abandonada, a seus aposentos.

O ponto que gostaria de defender aqui, é que o poeta constrói estes

personagens como alegóricos, a representar os dois gêneros principais – o épico (o herói e sua nave) e o elegíaco (a amante abandonada), os quais mescla – aliado a, ora

elementos da tragédia, ora da sátira – para compor seu próprio epos.

Ovídio notabilizou-se na poesia elegíaca e sua matéria predileta sempre fora o Amor – foi o poeta responsável por elevar a elegia ao patamar da épica; com

Metamorfoses adentra, de fato, o gênero épico, ao compor em hexâmetros – porém, o

faz à sua maneira, compondo uma épica entretecida de fios de matizes diversos, principalmente o elegíaco. E Ovídio escolhe alocar o mito de Ceix bem na transição do tempo mítico ao histórico, de modo a ilustrar esta passagem no âmbito da poesia épica – da crença em um mundo regido pelos amores e pelas vinganças dos deuses (o tempo narrado grosso modo, no primeiro terço da obra), para a crença em um mundo intermediário, o mundo que admite heróis e heroínas (o terço central) e, por fim, para o mundo dos mortais, homens e mulheres entregues aos próprios recursos (o último terço da obra, a parte histórica118).

E é no início desta terça parte da obra, na transição entre tempos ilustrada no mito de Ceix, que se encontra registrado o estado de coisas – em sua origem – que viria conformar, no futuro, a própria visão de mundo do poeta. A concepção responsável por sua postura de poeta possuidor de engenho e arte próprios; por seu domínio pleno e consciente sobre o poema que compõe; e pelos poderes, na qualidade de poeta, que tem a seu dispor, de tecer destinos.

Alcíone adentra a história com seu discurso elegíaco e, a partir daí, passa a personagem principal do mito, usurpando o protagonismo que naturalmente seria do herói, herói por cujo nome o mito é conhecido. O viés passa a ser o feminino, característica importante do epos do período helenístico.

Assim que Ceix em sua nave deixa o porto, ocorre o jogo (comentado à p. 137) entre as perspectivas dos protagonistas, a simbolizar o quanto épica e elegia estão intimamente ligados no epos ovidiano: enquanto Ceix em sua nave, o componente épico, parte em jornada mar afora, Alcíone, componente elegíaco, se incumbe do papel da mulher abandonada, em elocução adequada. Na arriscada travessia, a nave – metáfora para o poema (ver pp. 58–60) que, inclusive, deixa o porto a acolher as brisas que chegavam, ou seja, a inspiração –, acaba por naufragar em meio à tempestade, rendida pelo poeta em passagem de elocução marcadamente – exageradamente até – épica. E trágica: o herói morre.

Apesar de que, tanto na versão hesiódica do mito, como na tempestade que

118

Juno manda a Eneias na Eneida, o motivo ser sempre a vingança divina, não se pode dizer o mesmo acerca do episódio no mito de Ovídio. O poeta desconsidera a

presunção do casal da versão mais antiga – sequer a menciona –, e apresenta a pietas como virtude saliente de ambos os protagonistas. A tempestade aqui é simplesmente acontecimento natural. E Ceix padece, épicamente, e morre – náufrago. Não escapa como Odisseu, ou como Eneias, mas morre como o homem comum que passou a ser o herói do epos de molde calimaquiano. O naufrágio da nave com o herói a bordo, desta maneira, poderia estar a representar o fim do gênero épica tradicional – a épica

guerreira, na tradição homérica.

Ovídio aloca na parte central da história a passagem que transcorre na esfera dos divinos – sua função narrativa é neutralizar a violência da tempestade precedente e preparar o leitor para a comoção sofrida por Alcíone que se seguirá. Mas não se trata somente disto. Segundo Otis (2010: 258), a cena agradável, pictórica e sutilmente lúdica da morada do Sono contrasta com a situação de desespero de Alcíone de modo sugestivo: o poeta usa do âmbito agradável e fantasioso dos divinos e suas tramas para acentuar a crueldade e o amargor presentes na esfera humana, largada à própria sorte:

A justaposição de atmosferas e elocuções, a violência e destrutividade da tempestade mais a comoção da esposa abandonada, frente o cenário engenhosamente sutil da morada do Sono com a ação indiferente e desapressada dos deuses, destaca de maneira admirável a diferença entre as duas visões de mundo, duas concepções acerca da relação entre deuses e homens. Os deuses não pensam nos homens como os homens pensam neles. O justiçamento divino, do tipo que ocorre em Virgílio é sugerido, mas apenas para ser revertido e negado (Otis 2010: 258).

Neste mito, a motivação para a série de ocorrências narradas não tem ligação com os deuses: ela é vaga, aleatória, simplesmente natural – apesar das crenças dos humanos.

Juno, a quem Alcíone é descrita a cultuar ardorosamente, é a própria imagem da indiferença: quer se livrar o quanto antes da mortal funesta. Delega a Íris a

incumbência de pedir a Sono que solucione o problema. O deus, por sua vez, também se recusa a tratar diretamente da questão, e elege um sonho para fazê-lo. Ou seja, o contato entre deuses e mortais deixa de ser por meio de ações diretas e concretas, e passa a se dar por meio do sonho – nada mais vago e longínquo.

Alcíone surge, então, novamente como protagonista. Sua situação relativa aos deuses é exposta pelo narrador na fala de Morfeu, quando este – apenas sonho, falsa sombra do marido – revela a ela que Ceix morrera, e que todas as suas preces de nada

haviam adiantado: nil opis, Alcyone, nobis tua vota tulerunt. A passagem ilustra a nova condição do homem no mundo, que começa a ser percebida na transição dos tempos: ele está só. A atuação de Éolo, nula, indicando total indiferença em relação à própria filha, contribui para corroborar a interpretação; mesmo que no encerramento do mito lhes houvesse garantido bom tempo – ou não teria sido bem assim? O mesmo se pode dizer da atitude dúbia de Lúcifer, depois do naufrágio, quando entretece as faces de densas nuvens: tristeza ou mero fenômeno natural?

A intensidade da narrativa aumenta até o final, quando Alcíone revê o marido e se dá a "re-união": a metamorfose dos dois em um tipo de ave – o alcíone. Da mesma forma, para o poeta, épica e elegia não estão separados, mas se fundem no seu

epos renovado: a metamorfose poética das Metamorfoses na qualidade de epos. Na

primeira parte o herói naufraga e morre; na segunda, Alcíone, distante dele, padece igualmente e morre em vida. Mesmo separados, os dois estão juntos – duas vidas em uma – a atração mútua os levando a trilhar o mesmo caminho. E, ao final, se unem na metamorfose, metamorfose responsável também pelo epos ovidiano.