5 Seniorpolitikk og tilrettelegging
6.3 Hvor mange vil jobbe fulltid og ta ut full pensjon?
Nas línguas que em geral nos são familiares (nomeadamente, as línguas românicas e ger- mânicas), distinguem-se duas vozes: a voz activa e a voz passiva. A categoria gramatical voz é um componente do sistema verbal que se realiza ou por flexão do verbo ou por recur- so a um verbo auxiliar – ser, em português, e seus equivalentes noutras línguas – agregado a uma forma não finita do verbo principal (o particípio passado). Os valores deste subsis- tema (da “voz”) têm a ver com interdependências entre, por um lado, as funções sintácti- cas (em especial, as funções de sujeito, complemento directo e agente da passiva) que cer- tos constituintes (particularmente nominais) recebem na frase e, por outro, diferentes fun- ções semânticas que lhes estão associadas (como as funções de ‘agente’, de ‘paciente’, de ‘beneficiário’, de ‘lugar’, etc., as quais designam diferentes modos de intervenção nas situações por parte das entidades para as quais remetem os constituintes em causa). Em português, pode-se descrever a variação de voz nestes termos sintéticos: na voz activa, os sintagmas nominais que remetem para agentes (ou equiparáveis, para o efeito) recebem a função de sujeito, enquanto os que remetem para ‘pacientes’ (ou equiparáveis, para o efei- to) assumem a função sintáctica de complemento directo (os estudantes assinaram a car-
ta); diversamente, na voz passiva os denotadores de pacientes assumem a função de sujei- to, determinando a concordância do verbo, e os denotadores de agentes são introduzidos pela preposição por, com a função sintáctica tradicionalmente designada ‘agente da passi- va’ (a carta foi assinada pelos estudantes).
Além das vozes activa e passiva, as línguas do mundo apresentam várias outras vozes (por exemplo, a média, a antipassiva, a causativa ou a circunstancial). Presume-se que a voz média existia em proto-indo-europeu e é conhecida de línguas atestadas como o sânscrito, o islandês e o grego antigo. Nesta última língua, a ocorrência da forma de flexão verbal de voz média dependia de o sujeito da frase apresentar certas características relativas ao papel das entidades relevantes na situação descrita. Resumem-se em seguida algumas dessas características, dando-se, para cada caso, frases portuguesas a que poderiam corresponder construções médias em grego clássico.
• O sujeito, em vez de obedecer ao molde típico em que corresponde a um ‘agente’ (ou comparável), é de facto um ‘paciente’ (portanto, um pseudo-agente); a morfologia do verbo no que respeita à voz não seria nem a voz activa (típica dos sujeitos agentes) nem a voz passiva (típica dos sujeitos pacientes), mas antes a voz média.
(118) Os livros venderam bem. (119) A carne assou muito depressa. (120) Este fato veste muito bem. (121) Este tecido lava bem.
(122) O branco suja com muita facilidade.
• O sujeito não representa nem propriamente um agente que desencadeia ou controla uma situação nem propriamente um paciente sobre o qual actua uma entidade exterior, mas antes uma entidade que, dito metaforicamente, tem um carácter intermédio, está ‘no meio’; segundo alguns autores, seria este carácter distinto das entidades relevantes em relação tanto a agentes como a pacientes que justificaria o surgimento do epíteto ‘média’ para classificar a morfologia empregue (segundo outros – cf. Ernout e Thomas 1964: 201 – o qualificativo tem antes a ver com a percepção da voz média como ‘intermédia’ entre a voz activa, de que é próxima pelo sentido, e a voz passiva, de que é próxima pela morfologia).
(123) Os astros movem-se.
(124) A muralha deslocou-se para Sul.
• O sujeito é beneficiário da situação, por oposição à ausência desse estatuto:
(125) Sacrifiquei um cabrito [por uma razão que não me envolve primariamente].ACT.
(126) Sacrifiquei um cabrito [em meu benefício]. MÉDIA
• A situação não se realiza exteriormente ao sujeito e a partir dele, orientada para outra entidade, tendo antes a ver com o domínio estrito do próprio sujeito.
(127) Ele puxou da espada. (128) Lavo as mãos.
O latim não tinha voz média. Assim sendo, as construções gregas médias eram traduzidas em latim pela voz passiva, com a particularidade de se obterem construções de tipo passi- vo, mas em que era impossível a expressão de um agente da passiva:
(129) Astra mouentur. Os astros movem-se.
[SENTIDO PASSIVO:os astros são movidos por alguma entidade não expressa]
[SENTIDO MÉDIO:os astros estão em movimento, sem intervenção de um agente]
Em alternativa à morfologia passiva para exprimir as construções que em grego eram médias, o latim vai progressivamente admitir a voz activa com pronome reflexo (num pro- cesso que coincide com a rarefacção da morfologia passiva, substituída pela construção passiva analítica, com verbo auxiliar da passiva):
(130) Astra mouentur. (131) Astra se mouent.
Portanto, as primeiras realizações deste tipo, com se, são realizações médias. Os casos de sujeito-beneficiário podem estar na origem de alguns usos ‘médios’ dos pronomes reflexos (obtendo-se, por exemplo, algo literalmente traduzível por sacrifiquei-me um cabrito). Noutros casos, o pronome reflexo pode ter resultado da percepção do sujeito como um (pseudo-)agente, por exemplo no equivalente de estes livros vendem-se bem. Trata-se de meras hipóteses.
A construção com se-médio vai dar origem a uma construção de valor passivo, quando o se passa a ser usado com verbos que não sustentavam a interpretação média, sendo até admi- tida a expressão do agente da passiva. Esta última possibilidade não se mantém livremente nos dias de hoje (ver exemplos (2)-(3) em Martins 2003).
Segundo o texto referido, no final do período medieval emerge uma nova estrutura com se, hoje identificada como construção de “se impessoal”. Isto aconteceu em espanhol, italiano e português e relaciona-se com o desaparecimento nestas línguas de uma forma de sujeito indeterminado, de valor pronominal, com origem num substantivo – em português, tratava- se de ome (ou outra variante gráfica), forma antiga de homem. O francês, por sua vez, man- teve o pronome com a mesma origem (on, que encontramos em on parle français), não tendo desenvolvido um se de valor indeterminado.
Sumariando, é este o sentido da evolução das construções com pronome se não reflexo (nem recíproco) em português:
I. Como herança directa do latim, estabelecem-se construções de valor médio: (132) Os astros movem-se.
(133) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. [Camões; ex. de Martins 2003] (134) Os problemas resolvem-se.
II. A construção média generaliza-se a verbos transitivos de vários tipos, já sem as restrições de significação envolvidas nas construções médias do grego, dando origem a uma construção que tem sido considerada de tipo passivo (com um dito ‘se apassivante’):
(135) As dívidas pagam-se. (136) Aceitam-se estagiários. (137) Dão-se referências.
(138) Primeiro, batem-se as claras em castelo.
(139) Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. (140) Estes andares não se vendem.
(141) Nestas reuniões, dizem-se muitos disparates. (142) Ouvem-se aqui coisas que não se compreendem. (143) Não se fazem perguntas indiscretas.
III. Possivelmente na continuidade do passo anterior, num processo de reanálise sin- táctica (inconsciente) por parte dos falantes, estabelece-se uma construção em que o elemento se adquire as características de um sujeito, com o qual o verbo concorda (no singular, obviamente). A total ausência do conceito caracterizador das construções passivas manifesta-se, por exemplo, na possibilidade de a cons- trução se fazer com predicados intransitivos e com verbos de complemento interno preposicionado.
(144) Sofre-se muito nesta região do mundo.
(145) É preciso que se chegue hoje a alguma conclusão.
LEITURA RECOMENDADA
Sobre a relação entre as CONSTRUÇÕES DE SUJEITO INDETERMINADOPRONOMINAL (i.e., rea-
lizado pelo pronome pessoal de terceira pessoa se) e as CONSTRUÇÕES (ditas) APASSIVAN- TES (com a tradicionalmente chamada “partícula apassivante” se), leia-se Martins 2003,
onde se sugere que estas últimas construções são, na língua actual, realizações do primeiro tipo (i.e., desujeito indeterminado pronominal) com a particularidade de apresentarem uma concordância excepcional do verbo, isto é, não com o sujeito (que, em tal análise, é o pro- nome se), mas com o argumento interno. Vejam-se algumas passagens deste texto (onde o que aqui se designa “sujeito indeterminado pronominal” e a “partícula apassivante” corres- pondem, respectivamente, a “se impessoal” e “se-passivo”):
“Construções com se com valor reflexo, recíproco (...) podem encontrar-se em textos latinos de diferentes épocas.” [p. 19]; “Sihler (1995: 374) põe a hipótese de que no Proto-Indoeuropeu (...) *se tenha sido, primitivamente, um pronome não reflexivo da terceira pessoa.” [p. 19, n. 1].
“A construção com se médio emerge em latim como resultado da proximidade semântica entre estruturas activas com se reflexo e as estruturas mediopassivas correspondentes (...).” [p. 20]
“A ambiguidade semântica de frases (...) que podiam ter uma interpretação passiva ou média (...) [leva] à emergência já em época românica primitiva da construção de se-passivo (originado em se-médio).” [p. 20]
“(...) surgem a partir do século XV e tornam-se mais frequentes no século XVI frases (...) sem concordância entre o verbo e o seu argumento interno, eviden- ciando a emergência de estruturas activas em que se (...) se encontra associado à posição de sujeito.”; “(...) a construção com se impessoal (...) [nasce] de um processo de reanálise da construção com se passivo.” [p. 21]
[Excertos de: Ana Maria Martins: 2003: “Construções com se: mudança e variação no por- tuguês europeu”, in Ivo Castro e Inês Duarte (orgs.), Razões e Emoção. Miscelânea de