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Hva slags utgifter har kommunene?

3 Hva slags utgifter og hvor mye?

3.1 Hva slags utgifter har kommunene?

A partir do término da segunda Guerra Mundial, o planeta viveu um crescimento econômico extraordinário, acompanhado de grandes transformações sociais e culturais, período chamado por Hobsbawm (1995, p.257) de Era de Ouro, com destaque para os anos 1950-70. Nesse período, a título de uma sintética mensuração quantitativa da produção de riquezas desse ciclo histórico, observa-se que a produção industrial quadruplicou e o comércio aumentou dez vezes em todo o planeta.

Dos anos 1980/90 em diante, o mundo assistiu a outro ciclo econômico marcante, cuja influência da tecnologia cibernética está intimamente relacionada à Era da Globalização, ainda em pleno desenvolvimento. Porém cabe ressaltar que as bases da revolução social e cultural vivenciadas neste período recente estão alicerçadas naquela fase do capitalismo tardio, a Era de

Ouro, como Hobsbawm a chamou, sobremaneira nos anos 1950-70.

As explosivas taxas de crescimento dos setores secundário e terciário da economia mundial realimentaram o aumento do êxodo rural, movimento social de longa duração do sistema capitalista, gerando, assim, o fenômeno demográfico que o historiador inglês, mencionado acima, chamou de morte do

campesinato, designando a queda brusca da participação da mão-de-obra rural

no conjunto total da população. Esse fenômeno foi vivenciado, durante aquele período, sobretudo nos países desenvolvidos e mesmo em países atrasados economicamente, como o Brasil, cujo boom industrial atingiu seu auge na década de 1970 e onde a população rural declinou de 64% do total registrado, em 1950, para 44%, em 1970, e chegou a 17%, em 2005 (IBGE).

Do ponto de vista social, há ainda três aspectos fundamentais que caracterizam a Era de Ouro e que acarretam a formação de uma cultura urbana comum de compartilhamento global cada vez mais influente nas décadas posteriores:

1) A disseminação dos bens de consumo e midiáticos (geladeira, televisão, carro, discos, etc.) no cotidiano das camadas médias, inicialmente, e do estrato mais baixo, em seguida, possível pelo alargamento da produção, apoiado na revolução tecnológica do período e na otimização dos insumos das matrizes energéticas - petróleo e eletricidade;

2) A expansão da escolarização num movimento de massa, com destaque à esfera do ensino de nível superior (universitário);

3) A transformação da estrutura da família:

a. alteração profunda do papel social de gênero;

b. ascensão da mulher no mercado de trabalho e no meio escolar;

c. aceitação de práticas e partilha civis de pares homossexuais; 4) E a configuração de cultura e de identidade juvenil.

Essa revolução social e cultural revelou uma diversificação de valores e comportamentos sociais consolidada na criação de novos hábitos e usos da cultura, a partir dessa segunda metade do século XX – uma reformulação de valores sociais, que atinge o referencial do ethos de compartilhamento comum, e também uma transformação de caráter universal, que aponta para o alvorecer da era planetária (MORIN, 1995), com a característica ocidentalização moderna do mundo. Paralelamente a esse aumento da complexidade da vida social urbana em âmbito mundial, oriundo do desenvolvimento da base material do sistema capitalista, assiste-se ao avanço cada vez maior da midiatização e mercantilização da cultura.

O processo de entrelaçamento entre a cultura e a comunicação de massa torna-se tão profuso, nesse período, que, muitas vezes, os termos são colocados, equivocadamente, como sinônimos, ao anunciar sua total unicidade.

Afinal, a cultura contemporânea deve ser lida como resultado de mediações

sociais e individuais, historicamente, constituídas a partir do compartilhamento

global de instituições que compõem as sociedades complexas, como o trabalho, a escola, a família, a religião, o Estado, etc., e jamais a partir da exclusividade de sua produção material e cultural massiva.

Como será discutido à frente, no capítulo 4, O gênero road movie: origem,

formato e filmes de referência, o cinema moderno das décadas de 1950 e 1960

cria uma nova estética que reflete essa mudança de mentalidade dos novos tempos, percebida claramente na filmografia da nouvelle vague francesa, do cinema independente norte-americano e da nova Hollywood, especialmente aquela representada pela geração sexo-drogas-rock'n'roll (BISKIND, 2009), vertentes que deverão mediar intensamente a formação do gênero filme de estrada, exemplificado de modo modelar em Sem destino (Easy rider, Dennis Hopper, 1969).

No Brasil, a perspectiva das novas identidades culturais pode ser flagrada, em parte, na obra do Cinema Novo, do Cinema Marginal e do cinema jovem de apelo popular do período. Mas tal mediação na formação do gênero filme de estrada, no cinema brasileiro contemporâneo, só será perceptível a partir de

Bye Bye Brasil (Cacá Diegues, 1979) e, notadamente, na produção Pós-

Embrafilme, como em Terra Estrangeira (Walter Salles, 1995), Árido movie (Lírio Ferreira, 2006) ou O céu de Suely (Karim Ainouz, 2006). O filme de estrada possui outras variantes de significado social e cultural que devem ser consideradas e que serão refletidas no referido capítulo.

Gilles Lipovetsky (2004) vem denominando, recentemente, esse período histórico pós-1950 de hipermodernidade, em detrimento do termo pós-

modernidade. O autor caracteriza esse atual período da história da

humanidade a partir dos seguintes apontamentos de transformações do espaço e tempo social:

[...] rápida expansão do consumo e da comunicação de massa, enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares; surto de

individualização; consagração do hedonismo e do psicologismo;

perda da fé no futuro revolucionário [...] (LIPOVETSKY, 2004, p. 52).

Para o filósofo francês, conhecido pelas obras A era do vazio (1989) e O

império do efêmero (1989), a chamada pós-modernidade, assim denominada

por ele à época, sobretudo nos anos 1980/90, tem como paradigmas o

efêmero, a sedução e a autonomia subjetiva. Porém, sem negar esses

apontamentos, vem reavaliando essa terminologia, conceituada também por autores como Lyotard (1993), Jameson (1996) e Harvey (1989), entre outros, como o melhor modo de definir tal período histórico contemporâneo.

Justifica que, ao reexaminar o espaço social desse alvorecer do novo milênio, vê que os paradigmas da primeira modernidade continuam sendo exatamente os mesmos do período pós-1950, ou seja, o mercado, a eficiência técnica e o

indivíduo (LIPOVETSKY, 2004). Mas, evidentemente, há uma qualidade

diferenciada no modo como esses elementos são disseminados, ampliados, nessa segunda era moderna ou hipermoderna.

Há uma nítida tendência à frouxidão do poder disciplinar das instituições sociais – família, escola, Estado, etc. –, um movimento de embaralhamento de identidades coletivas e individuais que acaba por desenhar, às vezes, modos de vida mais livres, lema tão caro à modernidade, mas também por acolher o caótico, o atomizado, a ventania insana de sentidos.

O cenário social hipermoderno é ainda caracterizado por uma sociedade do

medo (BAUMAN, 2003), sendo atravessado pela problemática socioeconômica

trazida pelo modelo do capitalismo conservador que marcou as décadas de 1980 e 1990, refletindo o aumento da violência urbana, com estatísticas assustadoras do ponto de vista do crescimento de índices de assaltos, sequestros e homicídios. Tal quadro ajuda a justificar essa sensação de falta de segurança generalizada, experimentada pelas populações viventes, especialmente nas metrópoles hipermodernas, esse espaço social mergulhado em incertezas de toda ordem.

Frente a esse ambiente, muitas vezes hostil, de sociabilidades, a busca pelas identidades coletivas, a revalorização do comunitarismo, da religiosidade, de elos coletivos mais estáveis e compartilhados de forma harmônica configuram- se como resposta ao caos que se instala. Nota-se uma tendência social na direção da busca da unidade perdida. A meu ver, a ética volta a ser uma preocupação que circula em várias formas de comunicação e efetivação (especialmente a partir da década de 1990), abrangendo desde a coisa pública até o modo de organizar o consumo por parte das empresas, dos mecanismos de regulação da sociedade civil. Os anos 2000 são caracterizados por uma crise do referido modelo econômico socialmente conservador, que muitos chamam de neoliberal, adotado nas duas décadas anteriores, muitas vezes, como o canto dos cisnes dos novos tempos – Estado mínimo, privatização, desregulamentação, morte da história, fim das ideologias e outras cantilenas. Nesse cenário, a questão da identidade cultural torna-se potencialmente política. Mas há de se colocar a mudança de qualidade nesta questão apontada pelo autor de A era do vazio:

...na presente situação, a filiação identitária é tudo menos instantânea ou dada em definitivo; ela é, isto sim, um problema, uma reivindicação, um objeto de apropriação dos indivíduos. Meios de constituir-se e dizer o que se é, maneira de afirmar-se e fazer-se reconhecer, a filiação comunitária vem acompanhada de autodefinição e autoquestionamento... hoje, é preciso tornar posse daquilo que outrora se tinha naturalmente. Antes institucionalizada, a identidade cultural se tornou aberta e reflexiva, uma questão individual suscetível de ser retomada infinitamente (LIPOVETSKY, 2004, p. 95)

A identidade cultural, nesse sentido, torna-se projeto/processo de identificação, distanciando-se, assim, de uma condição essencial, estável, permanente que, muitas vezes, lhe é atribuída. Mas aqui cabe uma pergunta: é possível conceber a identidade coletiva que não seja como processo em construção permanente de significados, mesmo que o objeto de análise sejam comunidades extraídas do contexto social da primeira modernidade ou de períodos históricos anteriores?

A antropologia clássica nos informa que, nas sociedades arcaicas, a plasticidade cultural transcorre num tempo largo, no qual as identificações entre os atores sociais e o sistema simbólico também são muito mais perenes. Em tempos hipermodernos, o que se constata é que o movimento acelerado das coisas impele a memória, facilitando o simulacro, o desaparecimento do passado, da tradição. Mas os indivíduos em meio ao difuso e ao efêmero também estão em busca de referências de pertencimento coletivas ou particulares.

E, aqui, pensar na identidade como construção – individual e coletiva – é fundamental do ponto de vista de uma análise das ciências sociais, como discute Castels (2002) para tentar narrar o contemporâneo: na modernidade

tardia, a estruturação dos sistemas simbólicos é atravessada diretamente pelos

processos de individuação que se mostram cada vez mais complexos.

Há um movimento de fragmentação, protagonizada pelos sujeitos individualizados, evidenciados na emergente sociedade em rede, como denomina o sociólogo espanhol, para sintetizar o espaço social, de hoje, de países desenvolvidos ou participantes da economia globalizada e de base informacional. Apesar desse movimento, a identidade apresenta-se, ainda, como formadora de significação social fundamental:

Identidades são fontes mais importantes de significado do que papéis [sociais], por causa do processo de autoconstrução e individuação que envolvem. Em termos mais genéricos, pode-se dizer que identidades organizam significados, enquanto papéis organizam funções. (CASTELS, 2002, p. 23).

Especificamente em relação à sociedade informacional, o autor defende a ideia de que os significados sociais organizam-se em torno de uma identidade primária, uma identidade que estrutura as demais, autossustentável ao longo do tempo e do espaço. Ainda segundo Castels, existem três formas ou origens de construção de identidade que ocorrem sempre em contextos marcados por

relações de poder. São elas identidades legitimadora, de resistência e de projeto. A primeira é aquela articulada pelas instituições dominantes – Estado e

partir de atores sociais que se sentem em posição inferior ou desvalorizados pelo sistema simbólico dominante. As de projeto dizem respeito às novas

identidades, como o feminismo e o movimento homossexual, cujo objetivo de

articulação envolve a mudança das estruturas sociais.

A análise do gênero filmes de estrada pós-Embrafilme demonstra que essa produção simbólica ilustra abertamente esse cenário cultural contemporâneo, ora vinculado à representação das identidades de resistência – Terra

estrangeira (Walter Salles, 1995) – ou de projeto - Árido movie (Lírio Ferreira,

2006) e O céu de Suely (Karim Ainouz, 2006) –, ou por ambas as construções narrativas de pertencimento - Diários de motocicleta (Walter Salles) –, abordagem que se torna bastante compreensível, quando se considera o desenvolvimento econômico tão desigual que permeia as sociedades latino- americanas.