Os dados gerados por meio da aplicação dos questionários ao diretor geral - responsável por lutar pela garantia das condições básicas necessárias ao desenvolvimento do processo educativo dos alunos atendidos pela instituição -, e aos professores de Língua Portuguesa - responsáveis pelo desenvolvimento das práticas letradas, entre elas aquelas relativas ao letramento digital -, confrontadas com a observação “in loco” para se conhecer as verdadeiras condições físicas disponíveis na escola, permitem que se conclua que há na instituição, de fato, dois espaços específicos (O LI e a Sala Multimídia) com as condições básicas, para a realização de atividades voltadas ao desenvolvimento do letramento digital.
Destaca-se que o constatado, na observação in loco, em relação ao quantitativo de computadores, coincide com o informado pelo Diretor, que disse que existem 19 computadores, o que é fato, considerando que há um para uso exclusivo do responsável pelo local. Também está correto o que foi informado por um pouco mais da metade dos professores, já que 1/3 deles disse que há 18 computadores, o que devem ter informado com base naquilo que está disponível para os alunos e outros dois docentes disseram haver 19, certamente incluindo aquele utilizado pelo responsável pelo local. Mas, como já foi destacado quando da descrição dos dados dos questionários, um docente informou um quantitativo bem superior ao que realmente existe e outros três não souberam responder, o que pode indicar falta de familiaridade com o espaço.
Assim, considerado que o LI conta com apenas 09 (nove) CPUs, cada uma das quais ligadas a 02 (dois) monitores, isso permite o atendimento individualizado a 18 alunos, a 36 alunos, no caso de realização de atividades em duplas, e até a 54 alunos, na hipótese de atividades em trios. Estas duas últimas possibilidades, por exemplo, além de propiciarem a realização de atividades com o conjunto da turma, também permitiriam o trabalho em grupo e colaborativo, este último que vem sendo estimulado, no contexto da sociedade digital, pelas condições que esta oferece, além de ser uma situação que contribui para a mediação pedagógica (MORAN, MASETTO e BEHRENS, 2011), que pode ser canalizada para o desenvolvimento do letramento digital.
Todavia, ainda se apreciando as possibilidades de utilização dos equipamentos em duplas e trios, reconhece-se que, diante da grande quantidade de alunos atendidos na escola, por turno, deveria haver um número bem maior de computadores no LI. A quantidade existente, por exemplo, é igual a que o ProInfo disponibiliza para escolas com número bem menor de alunos, ou seja, o MEC, ao determinar a distribuição dos equipamentos, não se deu conta de estabelecer diversos quantitativos de acordo com o número de alunos atendidos pelas escolas, contrariando o que prevê a LDBEN (BRASIL, 1996) sobre a necessidade de garantia de insumos mínimos para o desenvolvimento do processo de construção do conhecimento. Mas o número de equipamentos existente não inviabiliza o trabalho da escola, uma vez que, embora as condições físicas sejam uma preocupação que aparece nos PCNEM (BRASIL, 2006), todavia, nos PCNEM+ (BRASIL, 2002), é
destacado que nem sempre as escolas com mais recursos são as que têm realizado as melhores experiências educacionais.
Ressalta-se que, conforme fica evidente nas próprias fotos, que fazem parte do relatório, apenas um lado do espaço é utilizado, ficando várias mesas ociosas, podendo receber mais computadores.
Outro aspecto a considerar é quanto à velocidade da Internet disponível na escola, apenas 2 Megabytes, o que é insuficiente para atender a toda a demanda, conforme consta do relatório. Como quase todos os alunos dispõem de
smartphones, no horário do intervalo, por exemplo, a maioria acessa a rede,
deixando a conexão lenta. Há a necessidade de a direção lutar por uma conexão com maior velocidade. Mas isso não inviabiliza, obviamente, a utilização do laboratório. É importante registrar que a disponibilidade de rede Wi-Fi dá a possibilidade aos professores de usarem a Internet na própria sala de aula, podendo, por exemplo, realizarem atividades diversas no âmbito do letramento digital.
Pode-se observar, a partir da análise dos dados dos questionários, que não há um alinhamento na maioria das respostas (quantitativo de computadores, capacidade de atendimento do local, serviço de monitoria pelos alunos, controle do uso efetivo do espaço, utilização deste pelos alunos em horário diverso daquele em que estudam, realização de levantamento estatístico da utilização do espaço, etc.). Esse fato sugere falta de familiaridade de parte dos professores com o LI, que é realmente, conforme deu para observar, subutilizado.
Segundo acentuou a própria funcionária, com a Sala Multimídia, o LI tem sido pouco utilizado. Porém, pelas conversas informais que se teve com sujeitos diversos da escola, também se constatou que essa sala igualmente não é tão utilizada, para por exemplo, uso da lousa digital. Embora tenha sido realizada uma formação para uso desta, um recurso moderno e que pode muito dinamizar o processo educativo, principalmente por sua interface com o computador, todavia, parece não ter havido a apropriação necessária por boa parte dos docentes, de modo que, no início do segundo semestre do ano em curso, a equipe diretiva realizou outra capacitação para uso dessa ferramenta.
Em relação ao serviço de suporte e manutenção dos equipamentos, destoam as informações dadas pelo diretor, que afirma se tratar de algo moroso, e o que foi dito pela funcionária do espaço, para quem o serviço é bastante ágil.
Certamente, isso tem a ver com o entendimento que cada um deles possui desses termos: “ágil” e “moroso”.
É bom destacar que, embora o diretor e alguns professores tenham afirmado que é realizado registro da utilização do espaço, a funcionária responsável pelo local disse que existe um instrumento próprio para isso, todavia ele não vem sendo utilizado. Também chama atenção o fato de não se ver no LI nenhum material afixado sobre organização de uso do espaço ou mesmo relativo à ambientação.
Portanto, o fato de o LI, pelo que se constatou ser pouco utilizado, talvez se explique, tendo em vista o abordado no contexto anterior, o fato de os multiletramentos e o letramento digital não terem sido ainda incorporados sistematicamente ao currículo da escola, a despeito do prescrito e orientado nos documentos do contexto prescritivo/orientativo externo.
De qualquer forma, procurou-se explorar, nos instrumentos de geração de dados, informações possíveis sobre a utilização do LI, incluindo desde as condições físicas até os registros e levantamentos estatísticos do uso do espaço por alunos e professores. Essa opção deveu-se ao entendimento de que todos esses elementos favorecem o despertar do interesse do docente para explorar os recursos disponíveis na escola e, no caso aqui, em específico, tudo aquilo que leva ao aperfeiçoamento do letramento digital (conforme MARTIN, 2008) dos alunos, em consonância com uma concepção de letramento formal que considera as práticas sociais dos discentes, segundo o que preveem as DCNEM (BRASIL, 1998) e os PCNEM (BRASIL, 2006).
Na sequência, a fim de se buscar compreender as razões para o pouco uso desses espaços tão importantes para o desenvolvimento das práticas letradas, dentro da perspectiva requerida pela sociedade moderna, focar-se-á no contexto da formação docente.