A religião judaica é uma religião do martírio, conforme argumenta Bousset-Gressm citado por Strathmann. Aqui a palavra martírio é usada como se entende na atualidade, no sentido dos sofrimentos suportados por alguma pessoa para manter a fidelidade às Tradições e à Lei e, algumas delas, chegam ao ponto de perder a vida por seus ideais. Ela nasce do
martírio dos fiéis no tempo dos Macabeus e continua até a época do Rabino Akiva – que é martirizado por não obedecer às ordens do domínio romano – que se alegra com sua
morte, pois pode realizar com isso o seu desejo de amar a Deus com toda a sua alma97.
96 Cf. COENEN, Lothar. Testemunha, Testemunho. In COENEN, Lothar et BROWN, Colin (Editores). DITNT.
2ª ed. V. 2. São Paulo: Edições Vida Nova, 2000. p. 2507.
97 Cf. STRATHMANN, Hermann. In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.
Esse sentido ainda não atinge plenamente o conceito de mártir alcançado nos tempos primitivos do cristianismo.
Não se pode negar, porém, que o desenvolvimento desse conceito advindo da Tradição Eclesiástica tenha seu princípio nos mártires Macabeus, tanto que eles pertencem ao Martirológico cristão, mesmo que este documento tenha sido mais plenamente desenvolvido posteriormente98.
O conceito do sofrimento ligado à ação de dar testemunho da fé até à morte e a grande estima que o martírio possui, como se entende hoje, eram muito divulgados no judaísmo, em especial, e isso pode ser percebido no Livro dos Macabeus. Apesar disso, destaca-se que os termos gregos comuns ao “testemunho” não são utilizados para os heróis de guerra. Segundo Brox, citado por Coenen, o Antigo Testamento e o judaísmo posterior não são a origem do termo “mártir” como este é entendido na história primitiva do cristianismo e também não se encontra neles nenhuma relação real entre profetas e mártires99.
A experiência dos sofrimentos vividos por amor às Tradições e à Lei alcança seu momento mais terrível durante a perseguição de Antíoco IV Epifanes e é natural que, naquele tempo e ao longo da história judaica, um novo renascimento do fervor religioso se veja ligado a uma forte repressão que desafia a coragem daqueles que são coagidos a abandonar a fidelidade e a obediência à lei, mas que afrontam esse fato de maneira resoluta a ponto de suportar os suplícios que se lhes oferecem por esse ato100.
O primeiro livro dos Macabeus narra os fatos com uma grande objetividade (cf. 1Mc 1 e 2). O segundo apresenta a força com a qual as vítimas afrontam a carnificina e
sua obediência à Lei que vence todo tormento. O quarto livro, enfim, conforme o espírito do Helenismo, se utiliza da descrição dos martírios sofridos pelos Macabeus que apontam para a
98 Cf. STRATHMANN, Hermann. In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.
Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1306.
99 Cf. COENEN, Lothar. Testemunha, Testemunho. In COENEN, Lothar et BROWN, Colin (Editores). DITNT.
2ª ed. V. 2. São Paulo: Edições Vida Nova, 2000. p. 2507.
supremacia da razão sobre a paixão. Esse último apresenta como que uma antologia de exemplos do Antigo Testamento, começando por Abel e se desenvolvendo em exemplos de comportamento que deve ter o mártir (cf. 4Mc 18,11s)101.
Nesse sentido, segundo Adriano, o ideal do homem piedoso passa a ser não mais uma vida longa, honrosa e feliz, mas a fidelidade às convicções de fé de seus pais como testemunho do Deus único, o que pode exigir a sacrifício da vida. A figura da testemunha que passa pelos sofrimentos e pela morte se transforma também na figura do herói do judaísmo102.
Este foi um lento processo: a alteração na conceituação de testemunha cruenta que passa, então, a ser identificada como um mártir. O motivo do martírio era a Lei e fundamentalmente a fé no Deus único que rejeita toda idolatria. Assim, o mártir se torna um representante do povo que sofre a morte para expiar o pecado dos outros e obter a paz103.
A ideia de um testemunho ou de uma testemunha que derivem de convicções particulares que não podem ser constatadas não é conhecida no Antigo Testamento nem em qualquer lugar no judaísmo. No uso rabínico, o termo
dy[ihe
(hē îd) se aproxima do que é apresentado como a atividade didática dos rabinos e é relacionado com a expressão “proclamar”. Filão de Alexandria e Flávio Josefo seguem o uso jurídico grego104.No entanto, ainda no sentido de desafiar as ameaças impostas a alguém, Flávio Josefo descreve com admiração os essênios que fazem isso para não amaldiçoar o legislador ou comer qualquer coisa de ilícito. Eles não apresentam em seus sofrimentos qualquer lamento, mas se apresentam sorridentes, argumentando que os tormentos os purificarão. Assim, os rabinos Judas e Matias e os seus quarenta discípulos morreram pela lei de seus pais105.
101 Cf. STRATHMANN, Hermann. In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.
Brescia (Italia): Paideia, 1970. pp. 1307-1308.
102 Cf. ADRIANO, José. Testemunho e Martírio nas Sagradas Escrituras. RCT, São Paulo, Ano II, n. 08,
pp. 19-40, jul./set. 1994. p. 23.
103 Cf. ADRIANO, José. Testemunho e Martírio nas Sagradas Escrituras. pp. 23-24.
104 Cf. COENEN, Lothar. Testemunha, Testemunho. In COENEN, Lothar et BROWN, Colin (Editores). DITNT. 2ª ed. V. 2. São Paulo: Edições Vida Nova, 2000. p. 2507.
Esse ideal foi mantido também na Tradição Rabínica entre os célebres doutores das épocas antigas ou recentes. Nesse contexto, pode-se tomar, como exemplo, a atitude do rabino Akiva durante a rebelião de Shimmon Bar-Kosiva, que ocorreu por volta do ano de 135 d.C. e que levou à extinção do Estado judeu. Ele era um rabino que possuía uma alta estima pelas tradições antigas e pela observação da lei106.
Mesmo com o tratamento poético das narrações sobre esse evento e da representação idealizada das crônicas, resta o fato de que jamais são aplicados aqui os termos (martys), (martyrein) e (martyria). Para o (martys) cristão é sempre implícita também a ideia de que o testemunho é dado por qualquer pessoa em uma atestação
a outra. Para o mártir do judaísmo não se trata disso; este vem valorizado em função do ideal farisaico do homem piedoso para o qual partir ou morrer pela lei é a obra
religiosa por excelência107.
Nesse sentido, somente se a palavra “mártir” é entendida no sentido genérico de qualquer pessoa que sofre por suas convicções é que ela pode ser aplicada aos heróis Macabeus na observância da Lei e da fé. Mas ainda difere do que apresenta o conceito cristão de mártir108.
Filão de Alexandria, como foi dito, não apresenta nenhuma diferença ao uso comum de (martys), (martyrein) e (martyria); estes são usados no campo jurídico para se referir às testemunhas nos processos e nos contratos pela atestação de fatos ou acontecimentos de experiência geral, pela convalidação de opiniões externadas ou de uma verdade sustentada pelas palavras de alguém109.
Também em Filão, o termo (martyrion) tem como regra geral a objetividade e a concretude. Assim, uma citação usada pelos escritores, nesse entendimento, deve mostrar
106 Cf. STRATHMANN, Hermann. In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.
Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1309.
107 Cf. STRATHMANN, Hermann. p. 1310. 108 Cf. STRATHMANN, Hermann. p. 1310. 109 Cf. STRATHMANN, Hermann. p. 1311.
exata uma ou outra afirmação ou qualquer outra realidade que sirva como prova. Nesse autor ainda não se encontra algo de específico que se possa introduzir sobre o que será desenvolvido na Comunidade Cristã Primitiva110.
Se se entende o judaísmo como a religião do martírio, poder-se-ia complementar que ele é uma religião do testemunho. Segundo Pikasa, os judeus são testemunhas de uma presença de Deus e por Ele são enviados. Se eles não tivessem mantido esse testemunho já teriam desaparecido como ocorreu à maioria dos povos e culturas do seu tempo e dos séculos VII ao III a.C. Por transmitirem um testemunho de Deus, renovam-se e seguem existindo como um povo que quer ser promessa e avançar para o futuro111.
110 Cf. STRATHMANN, Hermann. In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.
Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1310.
111 Cf. PIKASA, Xabier. Testimonio (Judaismo e Cristianismo). In PIKASA, Xabier et AYA, Abdelmumin. DTR. Espanha: Editora Verbo Divino, 2009. p. 1125.