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In document Norske husholdninger i forandring (sider 38-41)

O posicionamento dos anarquistas em relação a “Revolução” de 1930, foi diferente do tomado em relação a sedição militar de 1924. Neste

138 FONTES, Ida. “Aproveitemos a Lição!” in A Plebe. São Paulo, 09 de abril de 1927. 139 “A Lei Celerada” in A Plebe . São Paulo, 06 de agosto de 1927.

acontecimento os anarquistas, apesar de reconhecer o apoio popular a queda das oligarquias e vislumbrarem esta derrubada como positiva, optaram por realizar a crítica no sentido de que esta seria apenas mais uma troca de governantes e, portanto, estaria em desacordo com os princípios professados pelos anarquistas. Neste sentido, o posicionamento coletivo dos anarquistas foi o de não participar de forma alguma deste movimento, anulando-se politicamente em um momento de efervescência política no país.

Durante o mandato de Washington Luiz vão se formando cada vez mais partidos oligárquicos oposicionistas e agrupamentos das lideranças tenentistas no exílio. Dentre os tenentes acorda-se elevar o nome de Luis Carlos Prestes como a maior liderança do movimento para que a liderança não fosse pulverizada entre muitos pequenos líderes. A cisão das cúpulas oligárquicas vai dar um peso maior para a formação da Aliança Liberal, fortalecida graças à problemática da sucessão presidencial, que colaborará para a acentuação dos conflitos existentes entre a situação e a oposição.

Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, chefe do governo de Minas Gerais, pretende manter o acordo tácito entre São Paulo e Minas em relação à questão sucessória. Washington Luiz havia sucedido o mineiro Artur Bernardes e agora chegara à vez de Minas Gerais voltar ao poder. Por outro lado, Washington Luiz pretende indicar Júlio Prestes para continuar a sua política.

Antonio Carlos vendo a situação da sucessão presidencial caminhar para a escolha de Júlio Prestes começa os entendimentos com o Rio Grande do Sul para apresentar um nome gaúcho a sucessão, buscando forçar a saída de Júlio Prestes da disputa. Assim, em junho de 1929 se estabelece uma aliança entre Minas e Rio Grande do Sul que indicaria o nome ou de Getúlio Vargas ou Borges de Medeiros para presidente. 140

140 Getúlio escreve uma carta a Washington Luiz anunciando a decisão esperando que este desse apoio a sua candidatura, o mesmo faz Antônio Carlos. Washington Luiz responde insinuando a Getúlio que desista de seu intento. A situação, representada pelo Partido Republicano Paulista, ratifica a candidatura de Júlio Prestes.

O programa eleitoral da Aliança Liberal, que havia definido seu nome em 02 de agosto, tinha como pontos, a defesa do voto secreto, anistia aos revoltosos, reforma eleitoral, etc.

Enquanto desenvolve a campanha, Getúlio propõe a Washington Luiz a escolha de um outro nome para resolver o impasse, o que não é feito. São Paulo obtém apoio de todos os Estados excetuando-se os da Aliança.

Nas eleições as fraudes acontecem para os dois lados e Júlio Prestes vence Getúlio Vargas com mais de 200 mil votos de diferença.

Depois da eleição e do fracasso nas urnas, alguns líderes do movimento oposicionista que aglomerava oligarquias dissidentes, chefes revolucionários do tenentismo, parcelas da população urbana da pequena burguesia, profissionais liberais, etc., como o próprio Borges de Medeiros do Rio Grande do Sul, desaconselha um movimento armado contra o governo federal. Getúlio Vargas também reconhece que deve se submeter ao resultado proclamado pela junta apuradora.

No entanto, o candidato à vice-presidência na chapa de Getúlio Vargas, João Pessoa, é assassinado no Recife, por motivos pessoais, em 25 de julho de 1930, dando ensejo a que os grupos mais radicais da Aliança Liberal denunciassem esta morte como um ato político, reavivando o movimento revolucionário que estava em franco declínio.141

São Paulo, Minas e Bahia são contra o movimento antilegalista, na maioria dos outros Estados as forças locais vencem os legalistas. No final de outubro, dia 24, o Palácio do Catete é cercado por tropas e o presidente é considerado prisioneiro, se entregando aos generais em seguida. Getúlio Vargas chega a capital federal dia 30 de outubro sendo empossado “provisoriamente” no governo no dia 04 de novembro.142

“A queda de Washington Luiz é motivo de delirantes manifestações do povo: multidões saem às ruas, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador e em centenas de outras cidades. Edifícios públicos são tomados; O País, O Correio Paulistano e outros jornais são saqueados. As manifestações se repetem, tomando caráter não só de desabafo espontâneo, mas político. A resposta das novas autoridades — Junta Governativa ou Governo Provisório — é imediata. As

141 Em agosto de 1930 depois do esforço de Oswaldo Aranha, Borges de Medeiros, antes contra o desencadeamento do processo revolucionário, resolve aderir a revolução. Intensificam-se então os preparativos militares. Adiando-se de agosto para outubro o movimento militar, que estoura no dia 03. O exército mantém-se em sua maioria legalista, as forças oposicionistas contam com apoio de forças públicas estaduais, de tropas coronelísticas e um pequeno número de quadros militares do exército. A oficialidade é composta pelos tenentes revolucionários.

142 CARONE, Edgard. A República Velha: II Evolução Política (1889-1930). São Paulo, Difel, 1983, passim

prisões e advertências mostram que o sistema permanece.”143

O movimento operário, após a vitória dos oposicionistas em 1930 e a queda da oligarquia paulista, começa a se reorganizar, com a abertura de associações, a publicação de periódicos, manifestos, realização de greves e protestos contra o governo federal durante os primeiros anos de 1930.

Não temos nenhuma avaliação feita pelos anarquistas do ocorrido durante o movimento de 1930. Mas avaliações posteriores foram feitas e por elas podemos ter uma idéia, se bem que filtrada pela a experiência dos primeiros meses e anos do governo provisório de Vargas, que pode nos apresentar os posicionamentos de parte dos anarquistas.

Martins Garcia escreve um texto em 1931 analisando o posicionamento da "Federação Operária de São Paulo em face dos últimos acontecimentos político-militares", se referindo ao movimento que culminou na ascensão de Getúlio Vargas ao poder.

Fazia a ligação da luta antioligárquica na América Latina com a ascensão do imperialismo americano, para ele, embora estes movimentos tivessem caráter político-militares, eles refletiam um caráter essencialmente econômico e social, pois buscavam uma independência econômica da tutela estrangeira.

Argumentava que o nacionalismo tinha sido a bandeira dos revolucionários e que era um nacionalismo que buscava remodelar a organização social e os sistemas político-econômicos dos países americanos.

Afirmava que o proletariado não tinha a lucrar com esses novos sistemas, mas que a massa trabalhadora, passiva e inquieta, se mostrava interessada pelos movimentos armados e pelos problemas que as afetavam.

O domínio oligárquico de mais de 400 anos no Brasil trouxe como conseqüência o nacionalismo acompanhado de um programa de remodelação social que levou do movimento armado do forte de Copacabana em 1922 a vitória de outubro de 1930, segundo ele

Garcia afirmava que o povo paulista vibrou de entusiasmo quando teve notícias da deposição do governo oligárquico, mas estes movimentos que

obedeciam a uma orientação política não poderiam reverter em benefícios às classes trabalhadoras.

A FOSP diante da situação tinha que manter uma atitude digna e a altura das suas responsabilidades. Não poderia pactuar com nenhum dos lados em luta porque cairia numa quebra de princípios, nesse sentido, se viu "obrigada a silenciar em face dos acontecimentos, porque, se se pronunciasse de qualquer forma, creio sinceramente, serviria de alvo a elementos suspeitos para explorar este movimento."144

Por isso, a FOSP, que congregava a maioria do operariado industrial de São Paulo, segundo Garcia, não declarou greve geral, pois não era momento para precipitações e o que estava em jogo era a reputação da FOSP, como entidade revolucionária ante o mundo inteiro.145

Podemos perceber por este texto de Martins Garcia, que os anarquistas congregados em torno da FOSP, entendiam que o movimento revolucionário de outubro de 1930 refletia aspirações nacionalistas, antioligárquicas e até, em certo sentido, antiimperialistas, que se iniciaram no Brasil com a sedição militar de julho de 1922 e culminou com a derrubada da oligarquia.

O povo, apesar de não ser beneficiado pela troca de governo, na visão destes anarquistas, acompanhou o desenrolar do movimento e vibrou com a deposição das oligarquias, mas a FOSP, não podia declarar greve geral e participar dos acontecimentos, pois estaria caindo em quebra de princípios e abrindo um flanco para elementos estranhos aos sindicatos e trabalhadores influenciados pelos anarquistas agirem. Além disso, caso se posicionasse a FOSP poderia perder o prestígio revolucionário que possuía não só no Brasil como com organizações operárias e anarquistas de outras partes do mundo.

Para manter os princípios e o prestígio, e proteger-se dos ataques de inimigos nas suas fileiras, os anarquistas se anularam. Mantiveram a coerência, sem dúvida. Se o movimento ia resultar em uma simples troca de governos o melhor a fazer era não participar dele, de acordo com esta posição.

144 GARCIA, Martins. "Federação Operária de São Paulo em face dos últimos acontecimentos político- militares"in O Trabalhador . São Paulo, Junho de 1932

Aqui não foi possível a utilização dos argumentos de Malatesta, usados por ocasião do movimento militar de julho de 1924 em São Paulo, quando os anarquistas buscaram o general Isidoro Dias Lopes propondo a formação de batalhões civis de anarquistas e escreveram uma moção para os chefes do movimento, argumentando que se os anarquistas não tinham forças para fazer uma revolução que fosse só deles, deveriam transformar o movimento existente no mais deles possível.

Ao contrário da conjuntura de 1924, quando o movimento operário e a atuação dos anarquistas vinham de um período de refluxo, mas mantinham uma certa atividade, mesmo com as perseguições, deportações, prisões, etc., em 1930 os anarquistas já tinham passado por todo o período de Estado de Sítio de Bernardes, com todas as suas terríveis conseqüências, mais o período de Washington Luis quando não se conseguiu estabelecer uma plena, ou ao menos necessária reorganização sindical. Escaldados, os anarquistas se abstiveram, utilizando as suas justificativas teóricas necessárias para este momento. Ao absterem-se mantiveram a pureza dos princípios, mas deixaram de influenciar (ou ao menos tensionar), por pouco que fosse, o rumo dos acontecimentos.

Souza Passos faz em 1933 uma avaliação sobre os "revolucionários" de 1930. Para ele a par de muitos que utilizaram a Revolução de 1930 para satisfazer as suas ambições políticas, existiam alguns que eram revolucionários convencidos de que era hora, de fato, para mudar o país, e assegurar aos cidadãos as mínimas liberdades.

Além disso, também era hora de tentar solucionar os problemas econômicos que seriam, na visão destes revolucionários, segundo Passos, fáceis de solucionar, bastaria ter boa vontade.

Alguns destes tiveram as rédeas do poder nas interventorias, outros ocuparam cargos em ministérios ou chefaturas de polícia, e tanto uns quanto os outros, salvo aqueles que foram derrubados, desistiram do intento de mudar o país deixando esta tarefas para outros.

Assim, o que os anarquistas previram logo após a revolução de 1930, ou seja, que esta com o tempo transformar-se-ia em uma nova opressão ocorreu,

não porque os anarquistas fossem adivinhos, segundo Passos, mas porque os mesmos observavam os fatos históricos.146

O Ateneu Libertário de Cultura Social publicou em 1931 uma dura crítica ao governo estabelecido com a revolução de outubro. Diz que os "revolucionários" que tanto gritaram contra a truculência de Artur Bernardes, tanto na Câmara como na Imprensa, assim como contra o "absolutismo" de Washington Luis, até pegarem em armas contra o mesmo, estão em vantagem em relação às medidas despóticas e tirânicas.

Os anarquistas afirmavam durante os acontecimentos, segundo o texto, que a obra do novo governo seria semelhante a dos outros, enquanto o povo aclamava os novos chefes da revolução.

"conhecíamos a obra de todos eles, afirmava o texto, e sabíamos que todo o fraseado da demagogia dos Getúlios, dos Luzardos, dos Collor e dos Aranhas, não passavam de um anzol para melhor conquistarem postos de dominação."147

Logo após vencerem a luta, os novos governantes fecharam as organizações operárias, expulsaram militantes, impediram comícios, "quando não realizado pelos seus partidários", e criaram o Ministério do Trabalho, para facilitar a exploração por parte das empresas capitalistas nacionais e estrangeiras.O texto terminava afirmando que as idéias deveriam ser combatidas com idéias, a violência com violência.

Portanto, a postura dos anarquistas em relação a “Revolução” de 1930, foi, na prática, não intervirem na situação de forma alguma, e na análise, defender a queda da oligarquia, mas criticar o novo governo que se estabeleceu.

In document Norske husholdninger i forandring (sider 38-41)