O grupo “Nós, Por Exemplo”, chamado de tropicalistas pelos entrevistados, esteve em Fortaleza, em outubro de 1967. Cláudio Pereira revelou que os jovens do Gruta teriam-se envolvido pelo caráter de brincadeira, anárquico do “tropicalismo”; orgulhando-se das paródias nas passeatas que faziam, da molecagem, do clima festivo nos bares, usando a música contra a ditadura; num certo sentido, apropriando-se do lúdico na tentativa de romper ou amenizar o radicalismo heróico da esquerda, daí a satisfação em receber o “tropicalismo”.
Os “tropicalistas” vieram a Fortaleza a convite do NEUP (Núcleo dos Estudantes
Universitários do Piauí) e do Gruta, por intermédio de Noronha, vice-presidente do DCE da Universidade Federal do Ceará, convidando-os por ser amigo de infância, em Teresina, de Torquato Neto. Torquato se dispôs a vir e trouxe o Capinan e Gilberto Gil. Os “tropicalistas” almoçaram no restaurante universitário, conversaram e fizeram um show que, no dizer de Cláudio, “sacudiu a cidade” e ainda comentou sobre o Gruta e “tropicalismo”:
O Gruta veio antes do tropicalismo. (...) Quem trouxe pela primeira vez o Gilberto Gil ao Ceará foi o Gruta aliado ao Neup. (...) O Caetano nessa época era tão pouco conhecido, ele aparecia muito no programa de extrema direita do Flávio Cavalcante, que era reacionário. Aí a gente, eu tinha raiva do Caetano. Então, nós trouxemos Gilberto Gil, Capinan e Torquato Neto. (...) A gente tinha uma empatia com o tropicalismo.81
Francis Vale relata assim a vinda dos baianos e o show em Fortaleza:
(...) Existia aquele negócio dos festivais; as pessoas estavam todas ligadas através da televisão. (...) Caetano na hora “H” se desculpou, porque estava com ensaios. (...) Eu vi esse show, o Gil com o violão, tocou, o Torquato falou menos porque era caladão. Essa foi a primeira, depois o Piti, que fez parte do grupo “Nós por Exemplo”, era um grupo teatral musical de Salvador que vinha do CPC.82
Foto do encarte do CD: Torquato Neto – Todo dia é dia D. Colecionave. Distribuído por Universal Music, sob licença Dubas & Música.
81 PEREIRA, Cláudio. Op. Cit., p. 12-13. 82 VALE, Francis. OP. Cit., p. 7.
Os depoimentos chamam atenção em duas medidas: Cláudio, por se mostrar orgulhoso, ao afirmar que o Gruta foi anterior ao “tropicalismo”, e Francis, por referir-se a Piti. De fato, Cláudio não é o único; Augusto Pontes, árduo defensor do “Pessoal do Ceará” como movimento afirmou: “o Ceará teve uma evasão maior, como dizia: os baianos jogam tênis; Gilberto Gil, Caetano Veloso. Aí tinha o Torquato Neto que apareceu, era piauiense. Os cearenses eram muitos, era um álbum duplo”.83
Augusto Pontes. O Povo, Vida & Arte. 30 dez. 2005, (Capa).
Augusto Pontes tenta imprimir uma homogeneidade, um certo equacionamento e pioneirismo ao movimento musical cearense, recorrendo ao discurso de “identidade”, de pioneirismo do cearense em relação ao Brasil. Por outro lado, na Universidade Federal da Bahia existia uma sintomática efervescência cultural com a participação de grupos, como relata Caetano Veloso:
Nunca foi, em nenhum nível, obscuro para mim que o grupo coeso ao qual eu pertencia era formado por nós quatro, acontecesse o que acontecesse. Eu sentia assim desde o Teatro Vila Velha. Por um lado, Tom Zé, Alcivando Luz, Djalma Correia, Perna Fróes, Piti, Fernando Lona, e, por outro, Alvinho, Duda, Waly, Roberto Pinho, e, depois, Rogério, Agrippino, Guilherme, Torquato e Capinan, eram colegas ou amigos, amados e admirados, às vezes uns mais que outros, mas sem que significassem o que nós quatro significávamos para mim. Duda e Waly e Torquato e mesmo Rogério foram meus amigos num grau de intimidade que minhas ralações pessoais com Gil ou Gal nunca atingiram.84
Caetano revela claramente que os baianos não apenas “jogavam tênis” mesmo porque também eram muitos, contudo unidos e próximos com significações diferentes no que se refere ao desejo de potência de cada um e o sentido de aonde pretendiam chegar, todavia, assim como Francis Vale, Caetano Veloso faz referência a Piti como integrante do grupo baiano. Muito significativamente, Fagner relatou sobre o sentido de grupo, de movimento e da importância de Piti em Fortaleza:
(...) Não existia movimento, existia um grupo de pessoas que se reunia, mas cada um fazendo sua música, sua parte, mas nada de grupo. (...) Baiano em Fortaleza foi o Piti trazido pelo Aderbal; Piti tinha estourado na Bahia no movimento dos tropicalistas, Caetano, Gil...ele ficou um pouco de fora da parada, aí veio ao Ceará; (...) Esse foi o cara que mais me ensinou
83 PONTES, Augusto. Op. Cit., 2003, p. 14. 84 VELOSO, Caetano. Op. Cit., p. 145.
violão. Eu fiquei fascinado, ele tocava um violão fantástico e eu ficava a noite toda ouvindo o Piti tocar no bar do Anísio. Eu só não gostava muito porque ele batia e arranhava todo o meu violão. Foi através do Piti que eu aprendi muitas das posições que eu toco ainda hoje. A gente no Ceará não tinha uma coisa mais expansiva, explosiva como o Piti. Tinha o Cirino que era um violão muito bonito, mas um violão mais acadêmico. O Piti não, vinha com uma postura rítmica muito em cima do violão do Gil. Então, essa parada do Piti no Ceará teve uma importância pra mim, eu fiquei colado no Piti. Realmente o Piti foi a pessoa que me sinalizou para um violão diferente, eu pesquei muito do Piti.85
É importante observar que, por essa época, na Bahia, esses jovens artistas formaram um grupo chamado “Nós, Por Exemplo”, portanto ainda não existia o “tropicalismo”. Por outro lado, Fagner revela que não havia homogeneidade no que se refere à concepção de movimento entre o “Pessoal do Ceará”. Diferentemente de Augusto Pontes, mais velho, fundador do CPC em Fortaleza, engajado no projeto do artista, produtor de uma arte política. Fagner era
secundarista, certa vez revelou que estava fazendo serenata quando soube da morte do ex- presidente Castelo Branco, não dando nenhuma importância ao fato. Portanto, os significados políticos eram distintos.
Fica claro que o show dos “tropicalistas”, como se referem os entrevistados em Fortaleza, ficou marcado pelo caráter experimental, laboratorial e estético, todavia no que se refere à musicalidade, à forma de tocar, ao swing, à maneira desinibida de cantar, tenha sido Piti ou Gil, por intermédio de Piti, como Fagner se referiu. Sobre a forma de Piti tocar Ricardo Bezerra comentou:
O Piti foi importante demais para o pessoal daqui. Ele era um excelente compositor, excelente letrista e tinha um pique que ninguém segurava. Ele tocava violão com uma caixa de fósforo na mão direita, fazendo swing. O que batia nas cordas era a caixa de fósforo. As cordas do violão do Piti duravam pouquíssimo; e o violão todo arranhado.86
Todavia, não foi encontrado nenhuma reportagem, nota ou trecho de jornal sobre a estada dos “tropicalistas” em Fortaleza. Sobre isso, Cláudio Pereira destacou: “Eu me lembro de que eu fui ao jornal, se não me engano “Correio do Ceará”, fazer a reportagem, o jornalista anotou tudo e não saiu uma linha no jornal”.87 Por outro lado, Francis Vale afirmou que Piti veio à Fortaleza para apresentar seu show “Girândola” e teve Teti como vocalista. No jornal do dia 3 de julho de 1968 foi encontrada uma reportagem intitulada: “Compositor Baiano Traz Show”.
O compositor baiano Piti que participou do “Grupo Baiano” com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros, se encontra em Fortaleza, a convite do grupo “Capela Sistina” para uma série de apresentações da música popular brasileira. Seu programa prevê amanhã as 17:30 no Iate Clube uma apresentação durante o desfile de debutantes; sexta-feira na boate Meia Noite; sábado as 23 horas no Ideal Clube e domingo no Teatro José de Alencar um show intitulado “Girândola” do qual também participam artistas locais. “Girândola” é um show com duração de 90 minutos, composto com base na moderna música popular brasileira e será apresentado ao público cearense com a participação de Rodger Rogério,
85 FAGNER, Raimundo. Op. Cit., p. 6-7. 86 BEZERRA, Ricardo. Op. Cit., p. 10. 87 PEREIRA, Cláudio. Op. Cit., p. 13.
Teti, Socorro Pinto, Ana Lúcia Pompeu e outros artistas do movimento universitário do Ceará. Piti dentro de sua programação, comparecerá na sexta-feira a Gazeta de Notícias para um debate sobre música popular brasileira com redatores deste matutino e convidados especiais.88
Piti. Gazeta de Notícias, 3 jul. 1968, p. 1.
Nesta oportunidade, vale observar a censura branca feita pelo jornal, omitindo a presença do grupo “Nós, Por Exemplo”, e contraditoriamente as elites recebiam Piti em seus espaços de lazer como no Iate Clube, no Ideal Clube e no próprio Teatro José de Alencar.