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Dezembro de 1968 Rádio Assunção

Auditório da Rádio Assunção (Antigo Colégio Jesus, Maria, José) Fortaleza.

Música Compositor

1ª Eliminatória

Tempo de Ciranda Braguinha e Dedé Evangelista

O Santo Sérgio Pinheiro

Menino Jangadeiro Maria Neusa

A História do Rapaz que Olhou para os Balões e perdeu as Meninas de

Vista Ricardo Bezerra e Luis Fiúza

Ensaio de Carnaval Fernando Frota

Andante Rodger Rogério

Veja Piti

Se eu Pudesse Íris Bustamonte

Emigração Kleber Ventura

Canção do Medo Laércio Menezes

Tema de Chuva J. José

Mensagem à Cidade ---

Andanças Piti

Esquina Predileta Rodger Rogério

Dança do Torem Lauro Benevides

Encabulada Braguinha e Dedé Evangelista

Folha Caída Íris Bustamonte

O Não Desistir da Esperança Izaira Silvino

Vou Lutar José Joaquim Oliveira

Sinos da Capela Alberto Machado Dias

Samba Não Dá José Wilson Rocha

Eterna Vidraça Jorge Melo

Passarada Edson Távora

Se Na Praça Sérgio Pinheiro 101

É interessante notar que, na relação das duas eliminatórias do jornal “Gazeta de Notícias”, não aparece a canção “Esquecimento”, de Ricardo Bezerra e Luis Fiúza, que está entre as doze composições gravadas no disco. Em verdade, esse festival foi envolvido por uma série de querelas como o motivo do seu nome e sobre a sua final. Para Aderbal o motivo seria o fato da Rádio Assunção ser a última do dial, enquanto para Izaíra Silvino o “grupo J. Aquino”, teria financiado o evento daí o nome, “Festival Aqui no Canto”. Em relação à sua final, ouvi uma série de relados como o de Rodger Rogério:

Os militares pressionaram. A censura pediu para ver todas as letras, aí o Aderbal levou. (...) Uma música do Edson Távora e do Dedé Evangelista, “Transeunte”. O camarada quando viu, disse: O que é isso? O que quer dizer “transeunte”? Não pode passar, isso é um código?102

Outros relatos interessantes são os de Dedé Evangelista e Fausto Nilo. Dedé partilha da idéia de que não era a intenção do Festival fazer classificação e premiação, mas escolher as doze melhores músicas que seriam gravadas, no entanto, sobre sua final comentou: “Na minha memória, foi exatamente interrompido pelo AI-5103, que foi decretado em 13 de dezembro, a final iria ser depois desta data, aí não houve o Festival”.104 Ainda sobre a final, Fausto Nilo comentou o seguinte: (...) “No “Festival Aqui no Canto”, eu fui do júri, quem ganhou foi o Piti, que era um baiano. (...) Eu o tinha visto no Teatro Vila Velha”.105

A gravação da canção “Luzia do Algodão”, de Raimundo Fagner e Marcus Francisco no disco ainda rendeu uma contenda entre Fagner e Aderbal. Vale a pena citar o longo depoimento de Fagner sobre esta questão:

Ele, Aderbal não gostava de mim, fez tudo pra...ou não gostava ou eu não estava preparado pra cantar, pra gravar; acho que tem um tempo. Eu lembro que quando eu gravei o disco de bolso até gravar o primeiro LP, a

101 Eliminatórias do “Festival Aqui” terminam amanhã. Gazeta de Notícias, Fortaleza, 8 e 9 dez. 1968. 102 Id.Ibidem., p. 11-12.

103 AI-5, Ato Institucional nº 5 foi imposto pelos militares numa sexta feira 13 de dezembro de 1968 dando

plenos poderes ao presidente: fechar o Congresso Nacional; as Assembléias Estaduais e Municipais por tempo indeterminado; cassar mandatos; suspender direitos políticos; acabar com as garantias do Hábeas Corpus; confiscar os bens e exilar por dez anos os adversários do regime civil-militar.

104 EVANGELISTA, Dedé. Op. Cit., p. 5. 105 Id. Ibidem., p. 12.

Elis pedia para eu segurar, que a minha voz ainda estava em formação. Eu demorei pra formar a minha voz, ao longo dos anos eu venho formando a minha voz. Se você pegar vários discos, ela vem mudando. (...) O Aderbal não entendia de música, era um grande incentivador. Ele, com razão, claro que eu não gostei na época e muito tempo depois... tirei um sarro, vinte anos depois, trinta anos...foi um momento desagradável, peguei ele de surpresa. Falei em um show no Rio que ele foi o meu grande incentivador, pois ele me barrou, quando fui gravar minha primeira música e depois disso nunca parei de cantar, por conta de tanto apetite que eu fiquei. Talvez se ele tivesse deixado eu cantar naquela época, com a minha voz feia do jeito que ele era, ficasse registrada, eu desistisse da profissão. Então, eu agradeço ao Aderbal por ele ter me barrado ao gravar. Agora, a maneira que ele me barrou é que eu não gostei. Ele marcou um dia e quando eu cheguei, já estava gravada pela Izaíra. Ao mesmo tempo em que a Izaíra merecia gravar. Era uma pessoa que eu gostava muito, que ficou na minha história. Tínhamos uma relação estreita, ela era minha professora de canto. Depois nos encontramos na noite, e ela foi a primeira pessoa que gravou música minha. Então, o saldo da história é muito positivo.106

Sobre a questão envolvendo Fagner e a gravação, Aderbal relatou:

Anos depois, eu encontrei o Fagner, e ele espalhou que ele não cantou no Festival porque eu achava que ele não cantava bem. Ele que não se considerava cantor. (...) Eles foram atrás de uma cantora. A cantora se apresentou com eles do dois do lado. O Fagner não cantou, quem cantou foi uma menina chamada Lúcia que tinha uma forma diferente de voz. O Fagner teve que procurar outra cantora...eu não sei bem se foi assim.107

O Festival foi uma promoção da Rádio Assunção cearense; Diretório Acadêmico de Arquitetura; Diretório Acadêmico Elvira Pinho; Orgacine e Eletro-Alencar (Rio, Niterói, Fortaleza). Num total de 150 inscrições, sendo 48 julgadas e 12 classificadas para o disco que foi gravado no Estúdio Orgacine-Fortaleza e fabricado pela CIA Industrial de Discos, Rio de Janeiro – gb. A capa foi concebida por Antônio José Brandão; arranjos de Marçal, tendo como músicos: piano, Marçal; violão, Josué; bateria, Barbosa e baixo, Edson.

Organizado por Aderbal Freire-Filho

106 FAGNER, Raimundo. Op. Cit., p. 8-9. 107 Id.Ibidem., p. 20-21.

Aderbal terminou a entrevista quase recitando ou interpretando o que ele próprio havia escrito na contra-capa do disco com uma máquina de datilografar do estúdio no Rio de Janeiro, no fatídico final de ano de 68. Vale a pena o texto original.

Um pouco de Folclore sobre o festival aqui. No mais são todos artistas que não dispensam apresentação. E nem todos são artistas ou são todos artistas, mas nenhum vive de artista que é ou vive de outra coisa ou faz como Brandão que fez a capa e não faz mais nada até ser arquiteto e deixar dessa mania de festival, festival aqui porque? Aí, o Piti que é baiano entusiasmado está no festival, porque o festival é aqui e aqui tanto pode ser em Londres como na Bahia, mas esse foi no Ceará. (...) me meteram nessa e minha filosofia é de uma ortodoxia renitente, agora agüentar um festival. (...) Agora o disco você deve comprar se é pra isso que você está lendo aqui sobre o festival. (...) Se não fosse a consciência adquirida de que festivaleiro é antes de tudo um forte, puxa que luta e você ouvindo o disco pensando uqe é só bom e bacana, é agora... (...) festival existe, quem inventou não fomos nós. Tai o melhor disco do ano, ouça lá... aqui no caso é o Ceará entendido?108