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Hovedfunn fra erfaringsmøtene

In document Kartlegging av levekår i Skien (sider 33-38)

2. Data og metode

3.1 Hovedfunn fra erfaringsmøtene

Começa mais um dia de trabalho na associação das rendeiras. A coordenadora que mora logo em frente a sede da associação chega primeiro e vai logo abrindo o grande salão. São 8h da manhã, o sol já está alto e o trabalho na associação precisa continuar. A coordenadora abre todas as janelas, organiza as cadeiras, arruma as almofadas, espana a vitrine e expõe as peças. Ela me convida para entrar e sentar e pede que fique à vontade. Depois de algum tempo o telefone toca, ela atende e faz anotações, me parece algum tipo de encomenda. Depois de quase 40 minutos que entramos duas rendeiras chegam, procuram suas almofadas e banquinhos, conversam sobre algum material que não estão encontrando, organizam o papelão e os espinhos de mandacaru que usam para prender os fios, outras já utilizam alfinetes. Elas conversam sobre uma festa religiosa que está sendo organizada, depois iniciam seus trabalhos. Tudo está calmo, o tilintar dos bilros quebram o silêncio que se forma. Depois de uma hora já transcorrida desde que foi aberta

a associação começam a chegar algumas jovens. Elas entram conversando muito, falam de um curso de informática que está sendo organizado na cidade. A coordenadora me chama para ver o trabalho dessas jovens rendeiras, elas estão aprendendo novos pontos trazidos da Alemanha por duas jovens estrangeiras interessadas em aprender a técnica utilizada aqui. Trançaram gravuras de animais da região. Enquanto observo o trabalho dessas jovens elas já se organizam nas almofadas. O tempo passa rápido! O fluxo de pessoas na associação vai aumentando. Algumas rendeiras chegam com seus filhos e filhas e mostram para as companheiras os pequenos bicos de renda que as crianças produziram. Essas mães ensinam às filhas a arte da renda. Todos trabalham muito nesse dia, pois precisam entregar uma encomenda de toalhas de bandeja (Diário de campo, 29 de março de 2004).

O conhecimento do artesão, geralmente é passado de mãe/pai para filhos, tio/tia para sobrinhos, parentes. Antes, os pais, principalmente as mães para as filhas no caso da renda de bilro e trançado com a palha, destinavam certa quantidade de horas por dia para ensinar seu ofício de artesã aos filhos, determinando que estes parassem para escutar e exercitassem seu aprendizado. Entretanto, nem todos os jovens queriam tornar-se artesãos, mas acabavam obedecendo e, muitas vezes, executavam as tarefas a contragosto. Uma das rendeiras agora mãe e instrutora das filhas relata:

Nasci aqui e cresci aqui na comunidade, conhecendo todo mundo. Foi uma infância normal. Eu aprendi a fazer renda ainda na infância, minhas irmãs, minha avó. Minha mãe apreendeu com minha avó e tinha aquela preocupação de ensinar a gente, fazer aqueles trabalhos, principalmente a renda que a renda é uma coisa tradicional que vai durar muitos anos. Aí ela dizia: olhe, agora você vai fazer aqui sua renda, você só vai sair daqui quando terminar esse papelão [...] e a gente aprendia [...] na época eu tinha muita preguiça de fazer aquele trabalho. E às vezes eu chorava e dizia: Ah! Eu não agüento mais [...] (risos!!) Criança, pensa sempre em brincar! “Mas só vai brincar quando terminar sua tarefa”, ela dizia! E eu já de pequena fui tendo aquela responsabilidade, com aquela tarefa e tudo. E quando eu fiquei mocinha com 15 anos, meu pai morreu e eu fiquei só com minha mãe e aí a gente começou mesmo a trabalhar [...] logo em seguida minha mãe morreu também e eu fiquei órfã com 17 anos. Por isso, eu vejo a importância de está ensinando pros filhos [...] (artesã da associação 1).

Candido caracteriza a família e a educação de tempos atrás (década de 40 e 50) moldando uma família extremamente patriarcal, demonstrando a sujeição dos filhos mesmo depois de casados e a imposição e controle, principalmente, do pai sobre a força de trabalho familiar. Descreve:

Dizem eles que antigamente o filho se dirigia ao pai de olhos baixo e lhe obedecia a vida toda. Devia observar em relação a ele uma série de normas de etiqueta, entre as quais sobressai, na referência constante dos testemunhos, não cruzar o seu caminho nem passar pela sua frente, estando ele parado. Segundo João Chagas não havia brutalidade porque não era preciso: os pais governavam os filhos com o olhar até ficarem homens. Mas se saia do trilho os castigos eram severos, menos por ocasião da Quaresma, quando havia

anistia geral. Nesse período, conta Nhá Maria, os pais cortavam varas, deixando-as bem à vista dos filhos depois de preparadas, isto é, sapecadas e untadas. Quando eles reinavam, apontavam para eles e diziam para esperarem até Sábado da Aleluia – dia do ajuste de contas [...] Depois de casados os filhos continuavam freqüentemente morando nas casas dos pais, e isto prolongava a sujeição. Hoje, esta ainda é acentuada, mas os homens já não se submetem tanto em questões de casamento e iniciativa econômica nem ficam a vida toda ao sabor dos pais [...] Os meninos desde cedo ajudam os pais na faina da lavoura, mas apenas quando apresentam certo vigor físico, aos treze ou quatorze anos, recebem o peso total do serviço do eito. (2003, p.312;315).

Entretanto, atualmente nota-se que esse aprendizado vai se definindo de modo informal, dado a presença constante dos filhos nas associações. Desde pequenos os filhos acompanham os pais e vão familiarizando-se com as técnicas e conhecimentos necessários à arte da produção artesanal. Quando estão em condições de produzir começam a ajudar os pais na fabricação das peças e introduzem-se espontaneamente nas associações. A necessidade de ajudar na renda familiar é um dos fatores que mais vem estimulando o aprendizado e a inserção dos jovens no trabalho artesanal apresentado aqui. Os jovens relatam: “Quando eu entrei não sabia, mas minha mãe já trabalhava, aí sempre eu estava ali [...] eu comecei desde pequena a ajuda-la na produção [...] eu aprendi com a minha mãe” (jovem da associação 3); “Quando eu entrei na associação também já sabia fazer, porque minha mãe me ensinou, ela me levava e fui aprendendo com ela” (jovem da associação 1).

Principalmente no trançado com a palha a atividade é desenvolvida envolvendo de forma eminente a família, numa produção familiar e comunitária. É o que evidencia o seguinte depoimento aliado as minha observações:

Aqui é minha grande família, eu, Ritita minha filha, Renato, meu filho, aquela é minha cunhada, minha comadre ali. O resto aqui tudo é vizinha: Francisca, Iraci [...] aqui o resto é tudo de casa, que até sábado e domingo elas estão aqui [...] é tudo de casa, Iraci e Irenilde, falta só trazer a rede, Raquel do mesmo jeito, Francisca [...] aí nunca estou só, tudo é família [...] agora as outras ali já estão se envolvendo também. O genro que está chegando também é da família, já está envolvido [...] (Coordenadora da associação 2).

A família aparece aqui como unidade econômica e se encarada pelo ângulo da economia a reprodução das gerações se constitui através dos laços de solidariedade e das relações entre os mais novos com os mais velhos. Na família a solidariedade é construída por laços afetivos, pelos rituais de convivência impressos pela organização cotidiana: a hora das refeições, os encontros e diálogos que nascem nas atividades domésticas, no compartilhar dos mesmos espaços. Segundo Dowbor “a solidadriedade é marcada pela panela, pelo fato de um grupo sobreviver em torno do mesmo fogão de cozinha. [...] a sobrevivência das sucessivas

gerações, no passado, dependia vitalmente da solidariedade familiar, e depende ainda em grande parte nas sociedades modernas.”(2005, p.293).

A economia familiar que se desenvolve por meio de trocas entre as gerações, de modo eminente nas zonas rurais, ocorria nas sociedades tradicionais e ainda hoje se pensarmos que metade da população mundial dedica-se à atividade agrícola, numa agricultura familiar, onde se organizavam diversas formas de divisão do trabalho, entendendo a família como espaço não só de reprodução social, trazendo o trabalho e o ofício como continuidade entre gerações, mas como espaço de reelaboração de práticas, resgatando e criando novas formas de articulação do trabalho. O referido autor acrescenta a essa análise a lógica oposta presente nos modelos modernos e urbanizados de organização do trabalho e das relações no trabalho:

É essencial entender que o espaço da família era um espaço onde se faziam coisas juntos, como era o caso das comunidades. O desaparecimento dessa dimensão da organização social gera uma sociedade de indivíduos que rosnam uns para os outros na luta pelo dinheiro e esquecem que a qualidade de vida é uma construção social. Vencer na vida, da forma como nos apresentam diariamente na televisão, é um processo de guerra contra os outros, e resulta em morarmos num condomínio caro e cercado de guaritas. É o sucesso. (Id.,Ibid., p.303).

O trabalho proposto pelo projeto de modernidade é, inicialmente, desvinculado da família e separado por sexo e idade, endereçado exclusivamente ao homem, articulado num espaço onde a família não pode entrar. Paulatinamente a luta pela emancipação e valorização da mulher vai reeditando esse modelo como espaço também feminino, e que na contemporaneidade ainda é construído sob a forma de um mercado machista, endereçando à mulher trabalho de segunda ordem, ou seja, funções de subordinação e salários menores se comparados à remuneração masculina. Nesse modelo de trabalho organizamos nossas vidas para o trabalho e não o trabalho para nossas vidas, no sentido da construção de uma vida com qualidade.

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