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Helse

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2. Data og metode

4.4 Helse

O trabalho e as práticas sócio-educativas dos grupos de produção estão estreitamente vinculados ao conceito de práxis, como expressão entre o pensar e o agir, princípio essencial no desenvolvimento de processos contra-hegemônicos.

Gramsci avançou decisivamente ao aprofundar os estudos iniciados por Marx acerca da concepção dialética da educação e da cultura. Segundo Gadotti, Marx coloca todo o peso da transformação social na infra-estrutura, mesmo tendo este autor compreendido que infra- estrutura e superestrutura estabelecem entre si uma relação dialética, portanto, de ação

recíproca. No entanto, é Gramsci que enfatiza a superestrutura como elemento essencial no processo de transformação. Enquanto Marx institui o trabalho como princípio educativo, “Gramsci institui a hegemonia como essência da relação pedagógica” (1998, p.139).

Gramsci entende que é a partir da consolidação da consciência política que se faz por meio da ação educativa que os indivíduos podem estabelecer processos de contraposição ao modelo hegemônico. Entende, portanto, que a tomada de consciência não é espontânea, natural, mas cultural; não vem de fora, de uma classe elitizada, mas precisa nascer no seio do povo. Assim, esse intelectual precisa ser entendido como intelectual orgânico, o intelectual- trabalhador, não aquele que pensa em contraposição ao trabalho manual, mas aquele que constrói um pensamento novo a partir da crítica a ação e exploração no trabalho. Para Machiocci:

O intelectual organicamente ligado ao proletariado, novo cimento entre infra e superestrutura, nasce, repetimos, de uma transformação do velho modo de pensar e conhecer, e seu ser intelectual – enquanto especialista – se desdobra em um ser político, transformando sua ação em um engajamento vivido totalmente na ação histórica, que ele realiza enquanto intelectual e militante (MACHIOCCI, 1976 apud GADOTTI, 1998, p.141).

É nesse sentido que Gramsci afirma que todos os homens são potencialmente intelectuais, mas nem todos assumem essa função: “são intelectuais porque, independentemente de sua atividade intelectual, adota uma visão do mundo, uma linha de conduta deliberada e contribui portanto para defender e fazer prevalecer uma certa visão do mundo para produzir novas maneiras de pensar”(GRAMSCI, 1985, p. 7-8). Propõe assim uma revolução moral e intelectual e não a revolução armada, distanciando-se de Lênin quando este propõe a ditadura do proletariado. O conceito de hegemonia de Gramsci tem lugar na sociedade civil, enquanto a concepção de ditadura do proletariado pertence à esfera política, pela tomada do poder. A contra-hegemonia /hegemonia de Gramsci surge pelo consentimento social no sentido de legitimação das idéias que representam determinada perspectiva de mundo, conceitos e propostas de organização social.

Ainda para Gramsci a forma ético-política da sociedade é composta pela união entre sociedade civil e política, divididas apenas metodologicamente, pois ambas, para o autor constitui uma unidade dialética, onde consenso e coerção se alternam tomando como elemento mantenedor de um lado as forças coercitivas e de outro os intelectuais, cuja função é garantir a manutenção da sociedade por meio do consenso. Gramsci, combate a idéia de formação espontânea e vai propor a escola unitária como formação necessária a composição do novo trabalhador-intelectual numa educação pública, gratuita e igual para todos:

A escola unitária ou de formação humanista – entendido este termo, humanismo, em sentido amplo e não apenas em sentido tradicional – ou de cultura geral, deveria se propor a tarefa de inserir os jovens na atividade social, depois de tê-los levado a um certo grau de maturidade e capacidade, à criação intelectual e prática e a uma certa autonomia na orientação e na iniciativa [...]. A escola unitária requer que o estado possa assumir as despesas que hoje estão a cargo da família, no que toca à manutenção dos escolares, isto é, que seja completamente transformado o orçamento da educação nacional, ampliando-o de um modo imprevisto e tornando-o mais complexo: a inteira função de educação e formação das novas gerações torna-se, ao invés de privada, pública, pois somente assim pode ela envolver todas as gerações, sem divisões de grupos ou castas (GRAMSCI, 1985, p. 121).

Nesse sentido, a formação desse trabalhador, segundo o autor, é construída nas múltiplas instâncias das esferas sociais, não é somente objeto da escola, mesmo enfocando sua importância. O trabalhador-intelectual precisa fortalecer sua identidade social, resgatando um saber que é próprio da cultura pertencente ao seu grupo. Os indivíduos são compreendidos como produtores de cultura, como construtores de sua realidade social.

Diante desse enfoque e do potencial contra-hegemônico presente nas organizações e grupos populares, podemos identificar os grupos de produção aqui analisados como experiências que se contrapõem ao modelo de produção hegemônico, mais ainda como esfera política, espaço de participação e de formação da sociedade civil.

No que concerne aos saberes58 construídos nos grupos de produção, desenhados nas

interações, nos processos de organização das experiências, na gestão diária e nos momentos de formação mais direta dos grupos podemos apresentá-los e subdividi-los em: a) saber da prática social, identificado como o conjunto de conhecimentos, habilidade e atitudes que são produzidos pelos grupos sociais em determinada situação e espaço historicamente construído no todo social, que vem dar conta dos seus interesses; b) saber da formação, entendido como as aprendizagens que perpassam momentos formais de estudo, compondo um conjunto de conhecimentos construídos nos espaços de formação planejada, seja pelas instituições externas ao grupo (Universidades, SEBRAE, SESCOOPI/OCEPI) ou mesmo, pelo próprio grupo nos momentos de organização de cursos formadores; e, ainda, c) o saber da experiência que tem origem na prática cotidiana dos grupos de produção, saberes construídos na profissão de artesão, podendo refletir tanto a dimensão da razão instrumental, que implica um saber- fazer, as habilidades e técnicas, como a dimensão da razão interativa ou comunicativa que

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Inspirado nos estudos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa coordenado pelo Prof. Phd. Jacques Therrien e pela Profª Dra. Maria Nobre Damasceno, da Universidade Federal do Ceará – UFC, acerca dos saberes e prática social do educador, em parceria com o grupo de pesquisa da Universidade de Laval – Canadá, sob a coordenação dos Profs. Phds. Clermont Gauthier e Maurrice Tardif.

possibilita construir saberes referentes a própria convivência (participação, julgamento, tomada de decisões, atitudes frente a acordos e/ou conflitos, visão acerca da sociedade e sua situação de classe, etc.).

O conceito de saber aqui trabalhado como categoria de pesquisa diz respeito ao produto das racionalidades presentes nas esferas sociais, tanto a racionalidade instrumental (mundo sistêmico) como a racionalidade interativa (mundo da vida), presente no trabalho desses grupos, nas suas ações diante das necessidades e desejos que compõem o fazer social.

Os sujeitos constroem esquemas de aprendizados construídos nos espaços sociais que são confrontados mediante novas experiências e assim, colaboram na formação e constituição tanto do seu agir com o mundo como no seu pensar o mundo, ou seja, colabora na transformação de si mesmo, na transformação das relações com os outros e com o meio que o cerca.

O papel da formação seja na consolidação do trabalho artesanal nas cooperativas, seja na própria organização e gestão das experiências é reconhecido pelos integrantes dos grupos. Estes atribuem tanto a educação formal, como a cursos esporádicos do qual participam papel relevante no crescimento do próprio organismo coletivo. Apresentam essas oportunidades como aproximação entre o que elaboram e o conhecimento organizado pela sociedade: “os pontos de trançado são conhecimentos daqui, do povo, vai passando de mãe pra filho, mas tem muitos cursos que ajudam a gente a aperfeiçoar [...] a gente aprende a botar preço nos produtos, teve um curso que ajudou muito, melhorou nossa forma de organizar” (artesã da associação 3).

Os saberes, considerados saberes da formação, são aqueles construídos nas experiências de formação organizadas pelo próprio grupo ou por organizações externas. São percebidos na capacidade de formulação e construção de conceitos, na sistematização de conhecimentos empíricos, no uso de novos instrumentos, tais como os registros em livros-caixa, o uso da página na internet para divulgação, a aprendizagem de novas técnicas ligadas ao trançado com a palha e renda, enfim, aprendizagens construídas em processos formais de ensino. O depoimento da rendeira expressa essa formação: “nós tivemos um curso com duas alemãs, elas ensinaram a gente novos pontos de renda, renda feita lá na Alemanha e a gente ensinou o nosso pra elas” (artesã da associação 1). A foto abaixo foi feita por uma jovem que aprendeu novos pontos de renda e apresenta seus trabalhos, fruto de trocas com outras culturas:

FOTOGRAFIA 19 – Aprendizagens fruto de trocas com outras culturas - Animais bordados em renda de bilros

Os saberes da experiência estão em todo lugar, permeando as ações dos indivíduos nos grupos, vão desde atitudes de solidariedade, parceria, trocas até processos de organização e gestão das associações. Nascem da participação, da presença diária, do envolvimento nos planejamentos, na organização dos cursos até as aprendizagens que surgem ao ministrar esses cursos. Uma jovem fala de sua trajetória como instrutora: “agora eu já estou ajudando a organizar os cursos, tem momentos que sou eu que dou aula, tem a coordenadora lá pra ajudar se eu não fizer direito [...] venho aprendendo muito.” Continua, “ah! Aprendi a organizar a aula, sei que tenho que ir mostrando com calma, repetir, ajudar os outros jovens [...] também falo um pouco da profissão de artesão, digo logo que não é fácil, mas é diferente porque você trabalha em grupo” (jovem da associação 3).

Os saberes construídos nas interações e no trabalho em grupo geram oportunidades para o confronto entre aquilo que a sociedade apresenta como legítimo e aquilo que os jovens do meio popular vivenciam e elaboram como experiência de vida, por isso mais forte porque é concretamente construído, possui raízes na prática e no grupo com o qual construiu laços.

O homem e a mulher como sujeitos de seu contexto são essencialmente seres dialógicos, construtores de linguagem, características enfatizadas nos estudos de Paulo Freire. O referido autor construiu uma visão de sujeito arraigada na idéia de Ser que pensa, produz e conhece, portanto sujeito ativo, histórico, sujeito de interações. Os indivíduos como parceiros, elemento da coletividade que é essencial na fundamentação do seu fazer, da sua ação, que vive em interação constante com o meio, consigo mesmo e com o outro na construção de si mesmo, enquanto “ser inacabado”, e ainda, na construção da realidade que o cerca.

Esse sujeito pensante e atuante, desenhado tão bem por Freire ao longo de suas obras, compositor de saberes, nega a visão pessimista que cerca o pensamento reprodutivista e ainda, evidencia a necessidade de articulação crítica, de construção de um saber fundamentado em embasamentos teóricos, próximos e construídos a partir do saber da experiência, mas comprometido com sua sistematização científica e articulada pelo processo educacional – um fazer “política cultural” embasado nos recursos científicos e tecnológicos, organizados e sistematizados a partir da conscientização do homem e da luta pela verdadeira libertação.

CAPÍTULO VI

7. Um refazer que exige crítica constante: a economia solidária como proposta de

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