A revisão da literatura realizada objetivou analisar criticamente as possibilidades e os desafios do m-learning para o desenvolvimento de competências empreendedoras. A escolha das definições apresentadas no Quadro 13 trata de elementos que, no entendimento da autora, abarcam questões que podem contribuir para o desenvolvimento do trabalho, entre elas:
a) o contexto, que é um elemento que está explícito nas definições de competências, de m-learning, da aprendizagem situada e na pedagogia da autonomia adotadas no estudo;
b) a inter-relação e integração dos conhecimentos, habilidades e atitudes que estão diretamente ligadas a uma questão-chave apresentada na definição de m-learning, que é a mobilidade dos aprendizes;
c) as affordances que propiciarão o entendimento do caráter relacional da interação - usuário e tecnologia, bem como a consideração de possíveis limitações e desafios da modalidade m-learning para o desenvolvimento de competências.
Quadro 13 – Síntese dos Principais conceitos adotados no estudo
Competência
A competência consistirá na intervenção eficaz dos indivíduos nos diferentes âmbitos da vida, especialmente, na sua capacidade ou habilidade para realizar tarefas ou atuar frente a situações diversas de forma eficaz, em um determinado contexto, nas quais se mobilizam, ao mesmo tempo, e de maneira inter-relacionada, conhecimentos, habilidades e atitudes. (ZABALA; ARNAU, 2010, p. 37).
Competências Empreendedoras
Competências empreendedoras envolvem um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que, quando desenvolvidos e colocados em ação pelo indivíduo, de forma integrada e inter-relacionada com o seu contexto (especialmente empresarial), permitem que ele crie um novo empreendimento, ou que contribua para o crescimento e sucesso de seu negócio.
M- Learning
M-learning (aprendizagem com mobilidade) faz referência a processos de aprendizagem apoiados pelo uso de TICs móveis e sem fio, cuja característica fundamental é a mobilidade dos aprendizes, que podem estar distantes uns dos outros e também de espaços formais de educação, tais como salas de aula, salas de formação, capacitação e treinamento ou local de trabalho. (SACCOL; SCHLEMMER; BARBOSA, 2011, p. 25).
Desafios do M- learning
Os desafios do m-learning são de ordem tecnológica e econômica (superação de questões de acessibilidade, das limitações de interface dos dispositivos móveis etc.); - de ordem epistemológica e pedagógica (o uso de uma nova tecnologia nos processos de ensino e aprendizagem não garante por si só inovação educacional); de ordem contextual e social (atenção às regras de conduta e etiqueta ao local ou evento no qual se encontra o aprendiz). Affordances
Entende-se por affordances o caráter relacional da interação - usuário e tecnologia, compreendendo as relações entre as propriedades de uma intervenção educativa, da tecnologia e o comportamento do usuário em um determinado contexto. (KIRSCHNER, 2002).
Aprendizagem Situada
A aprendizagem compreende a pessoa em sua totalidade (social e histórico-cultural), na sua relação com a comunidade em que se situa, e não como um ser que se sujeita ao papel de receptor de um corpo de conhecimento sobre fatos relacionados ao mundo.
Pedagogia da Autonomia
É a busca da autonomia do aprendiz. É compreendido como um processo resultante do desenvolvimento do sujeito, que se relaciona ao fato dele tornar-se capaz de resolver questões por si mesmo, de tomar decisões sempre de maneira consciente e pronto para assumir uma maior responsabilidade e arcar com as consequências de seus atos.
Fonte: Elaborada pela autora.
As definições apresentadas no Quadro 13 dão o embasamento teórico para a Figura 1. O mapa conceitual gerado (Figura 1) busca demonstrar o argumento de que pode ser estabelecida uma relação entre o m-learning e o desenvolvimento de competências empreendedoras. E, por meio dessa relação, conhecer e analisar as affordances dessa modalidade de aprendizagem, embasada na perspectiva de aprendizagem situada. (FREIRE, 1996; LAVE; WENGER, 1991).
Figura 1 – Mapa conceitual do estudo
O m-learning é considerado, neste estudo, uma modalidade de aprendizagem para viabilizar o desenvolvimento das competências empreendedoras, apoiadas pelo uso de tecnologias móveis, sustentado pela abordagem da aprendizagem situada. (LAVE; WENGER, 1991). E a Pedagogia da autonomia (FREIRE, 1996), gerando aos aprendizes um conjunto de possibilidades para aprendizagem, tais como: troca de informações, compartilhamento de ideias, experiências, acesso a uma vasta gama de recursos e materiais didáticos, etc. (FERREIRA et al., 2012) e que serão identificadas e analisadas pelas affordances encontradas no estudo. Porém, foi construído com os EIs, a partir do entendimento do seu contexto e necessidades, as verdadeiras potencialidades do m-learning para o desenvolvimento de competências empreendedoras.
A aprendizagem com mobilidade tem em sua principal caracterização a consideração do contexto do aprendiz (FROHBERG; GÖTH; SCHWABE, 2009), possibilitando aprender “in situ”. Westera (2011) considera como contexto o ambiente no qual o aprendiz se encontra, por exemplo: trabalhando, atendendo a clientes, sendo que as conexões de internet e dispositivos móveis permitem que os aprendizes superem as restrições de tempo e local. (KAKIHARA; SORENSEN, 2002).
Por isso, considerar o contexto (ambiente real de trabalho) para o desenvolvimento de competência é o que se destaca quanto ao potencial da aprendizagem com mobilidade (m- learning), o que pode ser essencial para o desenvolvimento de competências empreendedoras, de forma que um pequeno ou microempreendedor, por exemplo, não só possa aprender sem ter que se distanciar de sua atividade empresarial, como usar as suas próprias vivências como matéria prima essencial para uma aprendizagem contextualizada.
Isso tudo alinhado ao contexto autêntico da Aprendizagem Situada (LAVE; WENGER, 1991) que considera esse ambiente rico para o desenvolvimento das atividades com situações práticas, com atos sociais, com aplicações de uso do conhecimento, permitindo ao aluno a reflexão sobre suas ações. (HUNG; CHEN, 2001). Ainda, na perspectiva da pedagogia da autonomia (FREIRE, 1996), o contexto significa considerar o conhecimento que o aprendiz traz consigo, em razão de toda sua história social e cultural.
Considerando o potencial do m-learning como possibilidade para o desenvolvimento de competências empreendedoras, são apresentadas as seguintes proposições do estudo:
a) proposição 1: As affordances do m-learning ampliam as oportunidades de desenvolvimento de competências empreendedoras de empreendedores individuais com relação aos métodos tradicionais de ensino (em sala de aula ou de treinamento);
b) proposição 2: Existem diversos desafios do m-learning para o desenvolvimento de competências empreendedoras de empreendedores individuais, é necessário estabelecer estratégias para superá-los;
c) proposição 3: O m-learning é uma modalidade educacional viável para o desenvolvimento das competências empreendedoras de microempreendedores individuais, ao possibilitar que o indivíduo aprenda, com autonomia, em seu contexto (realidade de trabalho).
Essas três proposições abordam possibilidades relacionadas à utilização do m-learning para o desenvolvimento de competências empreendedoras. Espera-se desenvolver essas proposições empiricamente neste estudo para melhor compreender as affordances e os desafios do m-learning em espaços organizacionais.
O mapa conceitual proposto neste trabalho ilustra o entendimento de que a Aprendizagem Situada e a Pedagogia da Autonomia serviu de base para práticas na modalidade de m-learning, que deve ser realizado em um contexto autêntico, viabilizando o desenvolvimento de competências empreendedoras, gerando affordances que irão contribuir para compreender as relações entre as propriedades de uma intervenção educativa, da tecnologia e o comportamento do usuário em um determinado contexto (KIRSCHNER, 2002), além de permitir conhecer as possibilidades e os desafios do m-learning.
O próximo capítulo versará sobre a metodologia adotada para o desenvolvimento deste estudo - Design Science Research.
3 METODOLOGIA DE PESQUISA
Neste capítulo apresenta-se a descrição dos procedimentos metodológicos desenvolvidos no estudo. O objetivo é demonstrar a estratégia escolhida para a execução do projeto e explicitar cada uma das etapas estabelecidas pelo método – Design Science Research.