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7 Homesteading: Private property rights established by clearing

‘Para mim, a idéia de entrevistar um padre pareceu-me coisa difícil. Mas logo concluí que, atualmente, os padres, em sua maioria, se encontram a par dos problemas do nosso tempo.” (Clarice Lispector – Fatos e Fotos/Gente)

Realizadas a cerca de um ano da morte de sua autora, as entrevistas de Clarice Lispector certamente apresentam algumas mudanças. No que tange à escolha dos entrevistados, observamos algumas semelhanças e diferenças em comparação aos Diálogos Possíveis com Clarice Lispector.

Em alguns casos, Clarice não apenas entrevista novamente pessoas entrevistadas para a revista Manchete como também chega a aproveitar trechos das entrevistas já publicadas. É o que ocorre com os diálogos realizados com Hélio Pelegrino, Carlos Sciliar42, Iberê Camargo43 e Vinícius de Morais.

A entrevista com Hélio Pellegrino publicada no dia 14 de fevereiro de 1977 é extremamente parecida com a publicada no dia 19 de julho de 1969, salvo algumas diferenças a serem pontuadas a seguir.

O texto introdutório, apesar de quase idêntico, sofreu algumas pequenas alterações, como, por exemplo na primeira frase, “Escolhi Hélio Pelegrino para um diálogo perfeitamente possível [...]”, no lugar de “possível”, o adjetivo foi trocado para “legal”. Logo, o texto é reescrito da seguinte forma “Escolhi Hélio Pelegrino para um diálogo perfeitamente legal [..]” (grifo nosso).

Ademais, foi eliminado na segunda publicação todo o trecho final da apresentação do entrevistado a ser reproduzido aqui:

[...] Perguntei ao Dr. Ivã Ribeiro, psicanalista como Hélio, e trabalhando em salas contíguas, o que achava de meu entrevistado. Disse: “Custou-me e ainda custa desaprender e resistir ao fácil ofício de fazer frases. Com o tempo me convenci de que a frase pode transformar coisas vivíssimas em bichos empalhados. Além disso, a pessoa de Pelegrino, não são suas opiniões mas quem êle é e procura incessantemente a cada hora vira a ser. Quase não convivemos, quase não nos freqüentamos, mas nunca ele é o ausente para mim e espero que eu nunca seja para ele.”

Recomendo aos leitores que leiam essa entrevista pois só aparentemente é difícil.

42 Pintor, desenhista e gravador brasileiro, Carlos Sciliar nasceu em Santa Maria — SC em 1920. Estudou com Gustav

Epstein, em Porto Alegre. Transferindo-se para São Paulo em 1940, ligou-se à Família Artística Paulista. No Rio de Janeiro, a partir de 1943, conviveu intensamente com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, que exerceram grande

influência sobre seu trabalho. Convocado pela FEB, foi combatente na Itália até 1945. Residiu em Paris entre 1947 e 1950. Retornando ao Brasil, foi um dos fundadores do Clube de Gravura de Porto Alegre (1950) e fixou residência no Rio de Janeiro (1956). Sua obra centra-se nas paisagens e naturezas-mortas inspiradas no cubismo de Cézanne.

43 Pintor, gravador e desenhista brasileiro, Iberê Camargo nasceu na cidade de Restinga Seca —RS em 1914, lugar onde

veio a felecer em 1994. Estudou no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro em 1942, onde iniciou-se na gravura, orientado por Guinard. Em 1947, recebeu o prêmio de viagem no Salão de Arte Moderna; aperfeiçoou-se na Europa com De Chirico e

[...]

Já as perguntas e as respostas permanecem as mesmas, inclusive, são mantidas as três interrogativas recorrentes na maioria de suas entrevistas: “O que é o amor?”, “Qual a coisa mais importante do mundo?”, “Qual a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?”. Porém, é acrescentada uma pergunta final na Fatos e Fotos/Gente, em que Clarice Lispector pede um poema a seu entrevistado:

— Hélio, me dá um poema! 44

(Hélio riu muito porque se lembrou de um fato que passarei agora a narrar: um grupo de jovens escritores mineiros foi visitar o poeta Augusto Frederico Schmidt, na Orquima, uma das empresas desse poeta. Todos estavam emocionados, mas um entre eles não conseguiu abrir a boca para uma só palavra. Então, o Schmidt virou-se para esse que se chama Jacques do Prado Brandão e disse-lhe sem nenhum preâmbulo, à queima-roupa: Vamos, rapaz me dá o seu poema! Houve um rebuliço geral diante de uma tão inesperada intimação. Mas o Schmidt não recuou: Deixe de conversa e me dê o seu poema! Aí o Jacques do Prado Brandão muito sem jeito, meteu a mão no bolso e lhe deu um poema: Schmidt havia adivinhado certo.)

— Você me pediu um poema, Clarice? Pois aí está.

Arraial do Cabo

Para Sarah

O mar o mar escachoa — incessante ruído — o sol rasante arpoa

o dorso d’ouro deste touro o vento varre o rosto do tempo:

Eia!

corrimões de areia casamento

André Lothe.Inicialmente figurativista, filiou-se ao abstracionismo na década de 60, destacando-se, nessa fase, a série

Carretéis, gênese de sua produção mais recente.

44 Na maioria das entrevistas da revista Fatos e Fotos/Gente, as perguntas eram grafadas em negrito para serem

entre gaivota e vento

Arraial 2/1/77

Nota-se que a data do poema de Hélio Pelegrino valida a data da realização da entrevista, aproximando-a da data de sua publicação.

Já a entrevista com Carlos Scliar, publicada no dia 21 de março de 1977, sofreu significativas alterações em comparação com a do dia 8 de junho de 1968. O texto introdutório da segunda publicação é iniciado com a linha-fina da primeira entrevista: “Gostaria que meus quadros incutissem esperança e força a todos.”, que é extraída da fala de Sciliar: “[...] O que eu desejaria era conseguir que meus quadros fossem uma espécie de esperanto e incutissem esperança e fôrça a todos.” Porém, é diferente do primeiro, não somente na estrutura quanto na linguagem, uma vez que introduz falas da entrevistadora e do entrevistado durante a descrição de Carlos Sciliar.

As primeiras seis perguntas são diferentes, com novas respostas. Já as sétimas pergunta e resposta são exatamente iguais às da Manchete, e, a partir destas inicia-se uma espécie de reelaboração do primeiro diálogo, em que se repetem as mesmas respostas, porém, em certos momentos, inscritas no discurso indireto ou com as falas do entrevistado entre aspas. A entrevista é finalizada com as três perguntas “Qual é a coisa mais importante do mundo?”; “Qual é a coisa mais importante para uma pessoa, como indivíduo?” e “O que é o amor?”; e as respostas permanecem as mesmas das publicadas em 1968.

Como é possível observar nesta entrevista com Sciliar, por intermédio do reaproveitamento da entrevista publicada anteriormente, Clarice inova ainda mais na linguagem, retextualizando um mesmo diálogo de várias maneiras, ora no discurso direto, ora no discurso indireto, ora precedido por travessão, ora entre aspas.

É o que ocorre também na entrevista com Iberê Camargo do dia 18/04/77, cujo reaproveitamento da entrevista do dia 01/02/69 reduz-se a apenas duas perguntas e respostas e ao texto introdutório, que é iniciado já com uma fala do entrevistado publicada na linha-fina da primeira entrevista. A descrição de Iberê Camargo é bem parecida em ambos os textos:

Um homem alto, um pouco curvo, olhar manso, pele morena, o ar ascético de um monge: eis diante de mim Iberê Camargo, um dos nossos grandes pintores.

(LISPECTOR, C. Diálogos Possíveis com Clarice Lispector. Revista Manchete, Rio de Janeiro, ano 16, n. 876, p.44, 01 fev. 1969)

— Criar um quadro é criar um mundo novo — disse-me o pintor Iberê Camargo. É um homem alto, um pouco curvo, olhar de grande mansidão, pele

morena, ar ascético de monge: Iberê Camargo, um dos nossos grandes pintores.

[...] (LISPECTOR, C. Revista Fatos e Fotos/Gente, Brasília, ano 16, n. 817, p.42, 18 abril 1977, grifo nosso)

Exceto a eliminação do dêitico “eis” seguido por “diante de mim”, que transmite espacialidade à entrevistadora e ao entrevistado, a descrição é quase a mesma, as alterações são sutis e não influenciam na fluência do texto.

No tocante às novas perguntas, vale ressaltar o acréscimo da questão acerca da religiosidade de seu entrevistado:

[...]

— Você é religioso?

— Acho que sou um pouco místico e sensual. [...]

A preocupação com a religião surgirá novamente na entrevista com Vinícius de Morais publicada no dia 12 de setembro de 1977, mas desta vez, Clarice pergunta se a religião de seu entrevistado é a “beleza da mulher”. Nesta entrevista, apenas duas perguntas são bem parecidas com as publicadas no dia 12 de outubro de 1968, porém todas as respostas são diferentes, o que permite ao leitor a investigação sobre as mudanças de opiniões do entrevistado durante o intervalo de tempo entre uma entrevista e outra.

O tema religião não se limita apenas às perguntas. Passa a pautar também a escolha dos entrevistados. Não por acaso, Clarice entrevista o parapsicólogo Padre Quevedo45 para

Fatos e Fotos/ Gente do dia 02 de maio de 1977. Todas as interrogativas, sem exceção, perscrutam sobre a parapsicologia e fenômenos parapsicológicos. Ao final da entrevista, é reiterado o interesse sobre o assunto pela pergunta: “Eu, uma simples mulher, poderia provocar estados parapsicológicos?” ao que o entrevistador responde: “Como qualquer pessoa eventualmente”.

No mais, o perfil de seus entrevistados não se modificou muito, estendendo-se desde personalidades do meio artístico e cultural até políticos como o primeiro-ministro de Portugal, Mário Soares. A maioria dos entrevistados era conhecida da escritora, inclusive quando integrante do meio literário, como Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles e Rubem Braga.