“Por epifania, ele entendia uma súbita manifestação espiritual, que surgia tanto em meio às palavras ou gestos mais corriqueiros quanto na mais memorável das situações espirituais. Acreditava fosse tarefa do homem de letras registrar tais epifanias com cuidado, pois elas representam os mais delicados e fugidios momentos da vida.” (James Joyce – Stephen Hero)
O termo epifania origina-se do grego e significa epi = sobre e phaino = aparecer, brilhar; epipháneia = aparecer, brilhar (Sá, 2000, p. 168)57.
Na definição religosa, epifania é uma manifestação divina. O Cristianismo nomeia a “Festa da Epifania”, quando o menino Jesus dá-se a conhecer aos Reis Magos.
Conforme consta no Dicionário de Teologia Bíblica de Johannes Bauer citado por Olga de Sá, a epifania é um conceito central do mundo hebreu:
56 Antônio Carlos Callado nasceu em Niterói — RJ, em 1917 e morreu no Rio de Janeiro — RJ em 1997. Romancista
destacado pelo engajamento político e social de suas obras. Autor de: Assunção de Salviano (1954), A madona de cedro (1957), Quarup (1967), Bar Don Juan (1971) e Reflexos de baile (1976). Após Memórias de Aldenhouse (1988), publicou
O homem cordial e outras histórias (1993), coletânea de contos escritos por durante cinco décadas. Para o teatro escreveu
Pedro Mico (1956) e Cidade assassinada (1957). Algumas de suas reportagens políticas foram publicadas em livros, destacando-se No tempo de Arrais (1964). Entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1994.
57 É interessante observar nesta passagem do livro a definição religiosa do termo e comparação desta com as epifanias
Por epifania se entende a irrupção de Deus no mundo, que se verifica diante dos olhos dos homens, em formas humanas ou não humanas, com características naturais ou misteriosas que se manifestam repentinamente, e desaparecem rapidamente.
(BAUER apud SÁ, 2000, p. 168)
Importante o conhecimento dos significados religioso e místico da epifania, pois, conforme pondera Olga de Sá, uma das primeiras estudiosas de Clarice a relacionar, com efeito, a epifania na obra clariciana com a epifania de James Joyce e a epifania religiosa, tais acepções têm reflexo no sentido literário.
Há na entrevista com Padre Quevedo um trecho que podemos interpretar como um momento epifânico da entrevistadora:
Agora vou lhe fazer uma pergunta delicada (ou atrevida): alguns dos fenômenos ocorridos entre os santos da igreja católica podem ser pura parapsicologia?
Claro. Por exemplo, as vozes que Joana D’Arc ouvia. Mas uma coisa é por exemplo, a cura de uma paralisia funcional e a ressurreição de um morto. É natural a levitação a dois ou cinco metro, mas seria milagre uma ascensão por cima das nuvens etc.
Interrompo por um instante a entrevista para dizer que, do interior do branco e vasto edifício do Retiro dos Padres, ouvi de repente belíssimas vozes humanas em canto gregoriano. (...)
Clarice interrompe a entrevista porque ouve, de repente, belíssimas vozes humanas em canto gregoriano. A epifania constitui “uma realidade complexa, perceptível aos sentidos, sobretudo aos olhos (visões), ouvidos (vozes) e até ao tato.” (SÁ, 2000, p.168).
O momento em que a entrevistadora ouve as “belíssimas vozes humanas” é repentino e a interrupção é realizada “por um instante”. Segundo o Dicionário, com vimos, a irrupção divina se manifesta repentinamente e desaparece rapidamente.
Convém notar que a entrevistadora afirma ouvir as belíssimas vozes paralelamente às observações de Padre Quevedo acerca dos fenômenos ocorridos entre os santos da igreja católica, em especial, as vozes ouvidas por Joana D’Arc.
Os elementos epifânicos estão presentes na ficção de Clarice Lispector e perpassam toda sua produção literária, conforme observa Olga de Sá, por intermédio da “visão transfigurada, pelo deslumbramento da beleza mortal e pela contemplação”
Apesar de, diferentemente de Joyce, Clarice nunca ter se utilizado da palavra epifania, esta é apontada como um dos elemento-chaves na leitura das obras claricianas.
Seria um nunca mais acabar, se apenas alinhássemos todas as epifanias de beleza dos livros de Clarice: os cavalos brancos, a pantera, o vento, os amantes, enfim, todos os intervalos da vida que a preenchem e dela transbordam. (SÁ, 2000, p.199)
Benedito Nunes corrobora a recorrência do termo epifania na obra clariciana ao pontuar o descortínio silencioso como a experiência interna dos personagens de Clarice, em momentos de pausa contemplativa, que proporcionam “um saber imediato arraigado à percepção do estado bruto”. Outrossim, o autor correlaciona a palavra glória à epifania no romance A maça no escuro.
A narradora, que acompanha a trajetória de Martim, pode representar a realidade assim descortinada, por um encadeamento metafórico de termos — graça, harmonia, perfeição e beleza. Tais são os principais significantes dispersos que convergem, remontando ao significado fugidio de uma epifania, na palavra glória.(...) (1995, p.125)
Aliás, conforme pontua Luciana Stegagno Picchio, “toda tentativa crítica de apreender no seu todo, na sua amplitude e profundidade, o significado da obra de Clarice Lispector, tem desembocado, nestes anos, no termo-conceito de epifania” (1989, p.17). Segundo Picchio, a epifania se revela de diversas formas:
Epifania imaginativamente, como revelação através da escritura de algo essencial que inesperadamente se fixa e se torna visível. Epifania criticamente, terminologicamente, como aparição instantânea e transfiguradora, com explícita alusão à estética joyceana. Mas epifania, também, metaforicamente, como advento nas letras brasileiras, tão viçosas de ambientes e de folclores, tão marcadas pelo sol e pelo trópico, de uma escritura mais esquiva e discreta.
Assim como na obra literária, nas entrevistas, a epifania perpassa os diálogos, transformando-os definitivamente. É possível encontrá-la tanto na Fatos e Fotos/Gente, na revista Manchete.
Para ilustrarmos, citaremos um trecho da entrevista da Manchete, com Djanira, em que é indubitável o momento epifânico:
[...]
Ficamos em grande silêncio. Provavelmente mergulhadas ambas nas nossas vidas mútuas. Como não posso transmitir aos leitores a profundidade de nosso silêncio, preencho-o reproduzindo um poema de Djanira. Chama-se Viagem. E é assim:
Eu vi nas côresde marfim um elefante selvagem que viera das Índias oferecendo-me caminhos ondepoderia
perigosamente
fechar meus olhos e partir, partir. . .
Mas era pecado e viajei no pecado. Ao infinito viajei e perdi-me no tempo que era pecado.
O grande silêncio em que permaneceram pode também equivaler ao descortínio descrito por Benedito Nunes, o qual de tão profundo se desnuda em poesia. Aqui, tal qual na entrevista com Padre Quevedo, a epifania surge como aparição instantânea e transfiguradora.
Na entrevista com a pintora Flora Morgan Snell, última realizada para a revista Fatos e Fotos/Gente, publicada no dia 17 de outubro de 1977, pode-se destacar no texto introdutório alguns momentos epifânicos da entrevistadora:
[...]
O fotógrafo Marcos Vinício (que é também bom poeta) e eu fomos recebidos no ultra-suntuoso apartamento (Vieira Souto) por um mordomo devidamente fardado. Não reparei se usava luvas ou não. Ele, muito moço, parece imbuído de suas altas funções mas tem um olhar inocente. Lembrei-me de que nos livros policiais, especialmente de Agatha Christie, o assassino é quase sempre o mordomo. O mordomo da Sr.ª Snell é o oposto de um assassino: é um leve robot. Depois ouvimos o “boa-tarde” da Sr.ª Snell. Pelo que eu havia visto de suas pinturas vigorosas e de traços musculares eu imaginara uma voz de mezzo-soprano. Para a minha surpresa, a voz é de soprano lírica e o modo de vestir é ultrafeminino. Durante praticamente toda a entrevista não parou de sorrir. Estava vestida de gaze desmaiadamente lilás, os lábios lilases, as faces lilases, e a sua cabeleira louríssima é muito, muito alta. [...]
O “boa-tarde” da entrevistada, cuja voz é de soprano lírico e o modo de se vestir é ultra feminino, provoca o descortínio da realidade, “por um encadeamento metafórico de termos — graça, harmonia, perfeição e beleza”, nas palavras de Benedito Nunes, em que o lilás transforma-se em “desmaiadamente” lilás, e transborda das vestes para os lábios e as faces de Flora Morgan Snell.
Malgrado encontremos graça, perfeição e beleza nos momentos epifânicos, a epifania não se constitui apenas pelo belo, conforme frisa Olga de Sá:
Seus momentos epifânicos não são necessariamente transfigurações do banal em beleza. Muitas vezes como marca sensível da epifania crítica, surge o enjôo, a náusea. A transfiguração não é radiosa mas se faz no sentido do mole, do engordurado e do sentido. (2000, p.199)
Sob este prisma, a transfiguração, igualmente, traduz-se na pergunta da entrevistadora Clarice Lispector para Fayga Ostrower:
— Fayga, eu às vezes tenho náusea da palavra escrita. Isto só sucede
com a palavra escrita ou acontece também o mesmo ao artista plástico?
Da própria palavra escrita surge o nojo, como se o próprio momento de criação representasse a transfiguração pela epifania, como se a criação literária para a entrevistadora correspondesse, em certos momentos, a um cego mascando chiclete, semelhante ao do conto Amor, que, desencadeia na escritora uma náusea semelhante à da personagem, ao fixar seu “olho espiritual” neste cego mascando palavras, ajustado por “preciso foco de luz”, de maneira que olha-o e vê tal como ele é: uma epifania.58
58 Os termos “olho espiritual” e “preciso foco de luz” foram extraídos da obra Stephen Hero, de James Joyce: “Imagine
meus olhares sobre esse relógio como experiências de um olho espiritual, tentando fixar a própria mirada através de um preciso foco de luz. No momento em que o foco é ajustado, o objeto é epifanizado. Ora, é nesta epifania que reside para mim a terceira qualidade, a qualidade suprema do belo.” (apud Olga, 2000, p.172). Não obstante se falar em beleza na obra de James Joyce, no caso do cego mascando chiclete, a epifania ocorre pela náusea, porém, não deixa de ser vista pelo “olho espiritual”, a que James Joyce se refere.