“Vou responder mas a outras perguntas, as que eu sei de você. É uma pena você fazer perguntas e ser a gente a responder. Só topo se você escrever. É a alegria maior você escrever sobre a gente. É uma festa, é como subir uma escada inteira...sem pisar nos degraus.” (Maria Bonomi)
As entrevistas realizadas para a Fatos e Fotos/ Gente seguem o mesmo padrão da Manchete, principalmente no que tange à urdidura do texto, marcada pelos monólogos interiores, pelas figuras de linguagem, pelas interrupções das falas e pelas inovações lingüísticas, sobretudo nos textos introdutórios.
Vejamos a apresentação de sua primeira entrevistada Elke Maravilha46:
45 Jesuíta naturalizado brasileiro, Oscar González Quevedo, o padre Quevedo, nasceu em Madri em 1930. Licenciado em
Humanidades pelo Curso Superior de Estudos Clássicos de Salamanca (Espanha), em Psicologia e Filosofia pela
Universidade de Comillas (Espanha) e doutor em Teologia pela Pontifícia Faculdade Teológica de São Paulo. Especializou- se em parapsicologia, dedicando-se ao estudo das relações entre religião, ciência e fé. Publicou entre outras: A face oculta
da mente (1964); O que é parapsicologia !980) e Antes que os demônios voltem (1989).
46 Elke Georgievna Grunupp, Elke Maravilha, como é conhecida, nasceu em Leningrado, 22 de fevereiro de 1945. Com seis
anos, mudou-se com a família para o Brasil, em Itabaira do Mato Dentro — MG. Elke Maravilha é atriz, intérprete musical, apresentadora, modelo, professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras, incluindo o latim. Já trabalhou como
Quando telefonei marcando um encontro em minha casa, às nove e meia da manhã, perguntei:
“Você é pontual?”
Respondeu-me logo com voz macia: “Sou mineira, nunca perco um trem.”
Apareceu-me ela com um vestido longo de cetim branco, com pala de brocados, sobrancelhas raspadas e pintadas de quase vermelho até as têmporas. Ela é linda e se finge de tola, quando na verdade é muito inteligente e criativa. Cria suas próprias roupas que, se parecerem malucas, não importa: têm uma grande beleza exótica. Tudo a enfeita.
(Revista Fatos e Fotos/Gente, p.40, 26 dezembro 1976)
Quando Clarice atribui à voz de sua entrevistada a qualidade de macia, ocorre o deslocamento semântico tão utilizado pela Clarice ficcionista conforme foi constatado no segundo capítulo. O macio, que está relacionado ao tato, aqui é transposto para adjetivar a voz, que, metaforizada, é tocada fisicamente pela entrevistadora.
A polissemia é suscitada também com a expressão “quase vermelho”, uma cor que não existe, e, que, portanto, engendra diversas interpretações. Notamos ainda, que já no texto introdutório ocorre o diálogo entre a entrevistadora e a entrevistada. O diálogo na apresentação do entrevistado caracteriza a maioria das entrevistas para a Fatos e Fotos/Gente, como se Clarice lançasse mão de falas do entrevistado para descrevê-lo. Em alguns casos, as falas no texto introdutório chegam a se confundir com as falas do diálogo propriamente dito, como ocorre na entrevista com Mário Soares47 publicada no dia 02 de janeiro 1977, cujo texto introdutório chega a ocupar quase metade da entrevista, e é finalizado com as alocuções do entrevistado:
bancária, secretária trilíngue e biliotecária, além de ter sido a mais jovem professora de francês da Aliança Francesa e de inglês da União Cultural Brasil-Estados Unidos. Começou a carreira de modelo aos 24 anos com Guilherme Guimarães. Aventurou-se em 1972 na televisão como jurada no “Cassino do Chacrinha”.
47 Mário Alberto Nobre Lopes Soares, nascido em Lisboa no dia 7 de dezembro de 1924, licenciou-se em Ciências
Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1951 e em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Fundador do Partido Socialista de Portugal em 19 de abril de 1973, Mário Soares foi Ministro dos Negócios Estrangeiros de maio de 1974 a março de 1975. Em março de 1977 iniciou o processo de adesão de Portugal à CEE (Comunidade Econômica Européia), e subscreveu, como Primeiro Ministro, o Tratado de Adesão em 12 de julho de
[...]
Chamei-o de Vossa Excelência, título que por direito lhe cabia. Cortou-me a fala dizendo que não o chamasse assim. “Como o chamo?” — perguntei. Resposta: “Mário.” Deu-me esse privilégio e eu o aceitei.
“Nunca vivemos propriamente um caos. Tivemos alguns problemas, próprio aliás de uma revolução, mas temos que reconhecer que, apesar de todas as transformações econômicas e sociais realizadas, tudo se processou sem derramamento de sangue e com um mínimo de violência. Nunca, portanto, vivemos uma situação de caos, felizmente. Hoje, temos uma democracia institucionalizada. E com separação de poderes, com os órgãos de soberania todos eleitos, livremente.”
Quanto às colônias, Mário respondeu:
“Houve um movimento de descolonização e Portugal reconheceu o direito à independência de todas as suas antigas colônias. Estas são hoje estados soberanos e livres. Portugal deseja estabelecer com eles relações mais estreitas e cordiais, na base do respeito mútuo e do princípio de não-interferência nos mútuos negócios internos.”
A primeira fala do entrevistado, em que ele pede que o chame pelo primeiro nome, revela uma pessoa, a despeito de sua posição política, acessível. A fala conseguinte está deslocada, pois, por não ter sido precedida por uma pergunta, ficou fora do contexto. Já a próxima é contextualizada na entrevista de fato, que se inicia abruptamente, sem uma primeira pergunta. Aliás, nota-se que nas entrevistas para a Fatos e Fotos /Gente, há uma maior ousadia no tocante à quebra de normas gramaticais, principalmente na retextualização das falas dos entrevistados, que, ao longo da entrevista, ora são assinaladas entre aspas, ora precedidas por travessão
Outra entrevista, com Maria Bonomi48, publicada no dia 20 de junho de 1977, apresenta igualmente um texto introdutório curioso, principalmente, quanto à sua tessitura:
1985. Foi Primeiro-Ministro de Portugal nos períodos: entre 1976 e 1977, em 1978 e entre 1983 e 1985. Foi Presidente da República de 1986 a 1991, no primeiro mandato, e cumpriu o segundo mandato de 1991 a 1996.
48 Pintora, gravadora e cenógrafa brasileira, Maria Bonomi nasceu na cidade de Meina, Itália em 1935. Iniciou seus estudos
em desenho e pintura com Yolanda Mohalyi. Em 1955, como aluno do Lívio Abramo, aprendeu técnicas de gravura em madeira, e participou da III Bienal de São Paulo, como a mais jovem expositora com duas pinturas: Retrato I e Catedral. Bonomi conheceu Clarice Lispector nos Estados Unidos, em Washington, em meados da década de 50, quando foi convidada pela União Pan-Americana para expor suas gravuras. A gravadora morava em Nova Iorque, na época, como
“ESTOU derrubando limites. É uma fuga para dentro, se você quiser. Dá medo Clarice. É quase brincar com a morte — diz Maria Bonomi. Ela é jovem, forte, vital, franca como um cavalo de fina raça de corrida. Na gravura, porém, ela é implícita, isto é, não extravasa o intimismo de sua arte. Gosto de Maria,o que não é novidade, já que sou madrinha de seu filho, Cássio. Maria, apesar de ser bem adulta e consciente de si própria e dos outros, tem um sorriso inimitável de criança. Ela sabe se divertir. Ela acha graça.
“Chego a achar a dor maravilhosa, às vezes a dor de não estar em sobressalto permanente, e mil bondades e loucuras estourando dentro da gente, mas, sobretudo uma grande busca de essência, ao fim do ornato, do bordado, do supérfluo, um encaminhamento definitivo para a verdade comigo mesma, com as coisas e o mundo.
Imprescindível considerarmos a maneira pela qual a entrevista foi elaborada, a partir de uma carta de Maria Bonomi enviada à Clarice Lispector, cujo início segue a seguir.49 Apesar de longo, o trecho a ser transcrito a seguir é de suma importância para que haja um confronto efetivo entre a entrevista e a carta:
bolsista da Columbia University. Em 1960 fundou, com Lívio Abramo, o Estúdio da Gravura. Seus trabalhos mais
expressivos são xilogravuras, dentro de uma linha abstrata e lírica.
49 A carta foi publicada em Correspondências , obra que inclui 129 cartas, que cobrem quatro décadas da vida de Clarice,
dos anos de 1940 até pouco antes da morte da autora. A saber: Correspondências. org. Teresa Monteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 312-316.
Clarice: que bom ouvir de você. Olga ligou e passou-me as perguntas. Vou responder mas às outras perguntas, as que eu sei de você. [...] E olhe, poderia telefonar mas não o faço por covardia. Sei como anda a tua lucidez nesses dias e justamente nesses dias não posso (perdoe) me machucar mais ainda. É uma fuga
para dentro se você quiser, é o encontro de grande amor, sabe, [...] ...Estou derrubando limites que acho impossível terem existido, estou entrando em outra
dimensão desta vez. E sem rede de proteção. Dá medo Clarice, é quase brincar
com a morte pois se alguma coisa falha a morte é tão certa (e há tantos tipos de
morte que aquela comum nem será necessária) que poderei continuar vivendo mas terei que saber e dizer que estou morta. [...] Estou nessa Clarice, com 41 anos e em plena descoberta, pode? Chego a achar a dor maravilhosa, às vezes a dor de não
estar, um sobressalto permanente, e mil bondades e loucuras estourando dentro da gente mas sobretudo uma grande busca da essência. Isto tem sido este tão
primeiro e último amor. Uma tremenda busca da essência, o fim do ornato, do
bordado, do supérfluo, um encaminhamento definitivo para a verdade comigo mesma, com as coisas e o mundão. (grifo nosso)
Se compararmos a carta com a apresentação da entrevistada constatamos que as falas de Maria Bonomi sofreram alterações, foram rearticuladas a partir de um outro fio condutor. Bonomi não diz exatamente “Estou derrubando limites. É uma fuga para dentro, se você quiser. Dá medo Clarice. É quase brincar com a morte”, a fala reúne fragmentos da carta. Sob uma nova ordem, ganham novos significados, conduzidos pela lógica da narradora.
O estudo da entrevista em cotejo com a carta enviada por Maria Bonomi nos permite supor que, assim como a entrevistadora, também a entrevistada não é um interlocutor real e biográfico, mas, aqui, inscreve-se enquanto linguagem, construída a partir da intenção da autora, produtora de signos.
Circunscrita textualmente sob os signos jovem, forte, vital, franca como um cavalo de fina raça de corrida, Maria Bonomi diz, no presente, não mais escreve em tempo pretérito. Para esta Maria Bonomi derrubar limites é como uma fuga para dentro, quase brincar com a morte.
Faz-se necessário pontuarmos, aqui, a comparação com o cavalo, que, mais uma vez, evoca a linguagem clariciana literária, principalmente em A cidade sitiada, em que, segundo Olga de Sá, “ os cavalos e a moça provinciana e bairrista são ainda os últimos vestígios de São Geraldo, que, em breve mudará de nome.” (2000 : 245)
[...] E em breve a perturbação causada por Lucrecia foi esquecida. Assim como a população já deixara de acusar os cavalos.
Estes, agora despercebidos pelo hábito, eram no entanto a força sorrateira sobre S. Geraldo. E também Lucrecia, ignorada pela Associação.
A moça e um cavalo representavam as duas raças de construtores que iniciaram a tradição da futura metrópole, ambos poderiam servir de armas para um seu escudo. [...]
(CIDADE SITIADA, 1998, p.22)
Importante salientar que Aparecida Nunes reitera a imagem do cavalo como figura recorrente nos textos fictícios de Clarice Lispector ao analisar uma das colunas femininas de Clarice Lispector, em que a colunista, sob o pseudônimo de Tereza Quadros, aconselha sua leitora a tratar suas costas como se tratam os pêlos dos cavalo:
Trata-se, pois, de uma dica de beleza até simples, cujo ritual para sua execução não exige produtos caros ou outras complicações: apenas água, sabão e força. Mas a aproximação das duas partes do corpo — costas de mulher e crina de cavalo — unidas num só método — o da escovação — pela maneira como o discurso foi criado, pode chocar. [...]
Quanto a voz da escritora, vale ressaltar que os cavalos — sobretudo os selvagens — são imagem recorrente nos texto de Clarice Lispector. (2006, p.167)
Quanto aos diálogos das entrevistas, tal qual na Manchete, são permeados pelos monólogos interiores, assinalados, na sua maioria, por parênteses, como é possível observar na entrevista com Jece Valadão50, publicada no dia 25 de abril de 1977:
50 Jece Carvalho Valadão nasceu em Cachoeiro de Itapemirim — ES em 1930. Ator, produtor e diretor cinematográfico,
criou um tipo que lhe deu grande popularidade: o de machão e cafajeste. Trabalhou em vários filmes, Rio Zona Norte, Boca
E hoje? O que significa o cinema para você?
“Hoje para mim, cinema é oxigênio, sem o qual não consigo viver.”
(Qual é meu oxigênio? pergunto-me eu e a resposta é um silêncio desolador.)
Você é uma pessoa interessada em problemas sociais, enfocando sempre o lado marginal de nossa vida?
[...]
A chanchada é um meio de vida ou um estado de espírito? (Por mim, é um meio de ganhar dinheiro explorando os sentimentos chamados baixos do povo.)
Respondeu, evasivamente:
“A chanchada representou uma fase do cinema brasileiro, por sinal muito importante.”
[...]
Você é dado a fossas? E como sai delas?
“Nunca entro em fossas, sempre dou a volta por cima. Por isso não conheço nenhuma fórmula de sair delas.”
(Pensei: mas “dar a volta por cima” não é exatamente um meio de sair delas?)
As duas intervenções posteriores às respostas do entrevistado sugerem que a entrevistada confidencie ao leitor, exclusivamente, o “subterrâneo de sua mente”, sem qualquer obediência à normalidade gramatical (MOISÉS, 1974, p.145). Já quando posicionado na pergunta, o monólogo mescla-se ao diálogo, tornando ambíguo o interlocutor da frase, se o leitor ou o próprio entrevistado.
Outro exemplo, na entrevista com a artista plástica Fayga Ostrower51:
[...]
do mundo (1991), na minissérie Memorial de Maria Moura (1994), entre outras. Estreou no teatro com Mulher sem pecado, de Nelson Rodrigues (1957). Dirigiu e interpretou O matador profissional (1969).
51 Fayga Otrower nasceu em Lódz — Polônia em 1920. Desenhista naturalizada brasileira, viveu na Alemanha de 1921 a
1933, quando veio para o Brasil. Fixando-se no Rio de Janeiro, estudou em A. Leskoscheck, C. Oswald e A. Levy. Pratica xilogravura, gravura em metal, litografia, serigrafia, aquarelas, além de elaborar capas e ilustrações de livros e disco, padronagem de tecidos e esmaltação de metal. Inicialmente tratou de temas sociais, passando depois para o abstracionismo informal. Ganhou vários prêmios entre eles: Grande Prêmio Nacional de Gravura na Bienal de São Paulo (1957), Grande Prêmio Internacional de Veneza (1958), etc.
— É como na arte literária, exatamente. E que conselho você daria a um artista principiante?
— Acho muito difícil dar conselhos. Só poderia perguntar ao jovem por que ele
quer ser artista. Se é por questões de carreira ou de dinheiro ou de status, não vale a pena. Existem outros caminhos mais rápidos e também mais satisfatórios, para esses casos, mesmo no sentido de uma afirmação interior por um trabalho realizado. Se, porém, for por uma necessidade interior de sensibilidade e de potencialidades específicas, então acho que ele deverá prosseguir. Aliás, neste caso ele o fará de qualquer modo, independentemente de conselhos. E também ele encontrará a coragem de enfrentar os problemas materiais e espirituais, os problemas consideráveis de marginalização em nossa sociedade e que existem no caminho artístico. (É também o que de um modo geral digo quando me pedem conselhos sobre como ser escritor.)
Novamente, a entrevistadora, pelo monólogo interior, se expõe, tal qual nas entrevistas para a revista Manchete. Em entrevistas com pessoas do meio literário, a exposição da entrevistadora é mais explícita, como com Lygia Fagundes Telles52, quando pergunta: “Para mim a arte é uma busca, você concorda?”, ou com Rubem Braga53, na fala “Também eu evito ao máximo ter que me reler, e fico espantada quando encontro pessoas que leram um livro meu várias vezes. Como vai se chamar o livro?”, ou com Ferreira Gullar54, quando expressa suas impressões sobre o Poema Sujo:
52 Nascida em São Paulo — SP em 1923, Lygia Fagundes Telles teve sua primeira publicação na coletânea Porões e
sobrados de 1938. O segundo livro, também de contos, Praia Viva, foi publicado em 1944. Em 1949, iniciou uma
colaboração semanal, sob o título de Crônicas do planalto, para o suplemento Letras e Artes de A Manhã. Ainda nesse ano, lançou sua terceira coletânea de contos, O cáctus vermelho. A partir de então, sua produção literária é intensa,
compreendida pelas obras: Ciranda de pedra (romance, 1955), Histórias de desencontro (contos, 1958), História
Escolhidas (contos, 1961), Verão no aquário (romance, 1963), O seminário dos ratos (ficção, 1977), A disciplina no amor ( fragmento, 1980), Mistério (2º ed., 1981), As horas nuas (romance, 1989), A estrutura da bolha de sabão (contos, 1991),
Papoulas em feltro negro (contos, 1993) e A noite escura e mais eu (contos, 1995).
53 Escritor e jornalista, Rubem Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim — ES em 1913 e morreu no Rio de Janeiro — RJ
em 1990). Considerado o mestre da crônica, Braga fez a cobertura da Revolução Consitucionalista (1932) para os Diário
Associados. No Rio de Janeiro, fundou o jornal Folha do Povo, em que defendeu a Aliança Nacional Libertadora, e o semanário Diretrizes, com Samuel Weiner. Foi correspondente de guerra na Europa em 1945 e embaixador em Marrocos de 1961 a 1963. Publicou O conde e o passarinho (1936), A borboleta amarela (1956), Ai de ti Copacabana (1960), A traição
das elegantes (1967), Recado de Primavera (1984) e As coisas boas da vida (1988)
54 José Ribamar Ferreira Gullar nasceu em São Luís do Maranhão — MA em 1930. Publicou Um pouco acima do chão, seu
primeiro volume de versos, em 1949, mas somente entrou em evidência em 1954, com o livro mais discutido de sua geração, A luta corporal. Participou de grupo ligado à poesia concreta, mas rompeu com o movimento, passando a
— Olhe, Gullar, no Poema Sujo você me fez sentir uma criança diante de uma selva ou de um altíssimo monumento. E quando você falou em “noites envenenadas de jasmim” — pois bem, senti-me de volta a Recife, que é minha terra.
Já, no que tange ao roteiro de perguntas, notamos algumas modificações, malgrado sejam mantidas as três perguntas recorrentes também nas entrevistas para a Manchete, O que é o amor?, Qual é a coisa mais importante do mundo? E Qual a coisa mais importante do mundo para uma pessoa como indivíduo?.
Na entrevista com Elke Maravilha, há a preocupação com a morte nas perguntas: “Você já pensou na morte?” e “Você tem pais vivos?”. A preocupação é retomada com na entrevista com Rubem Braga, com a interrogação: “Qual a sua atitude diante da morte?”. Já com o médico neurologista Dr. Abraham Akerman55, não é inscrita a pergunta, mas é
sugerida ao final da entrevista:
Sobre amor e morte, e medo de morrer:
“Meu querido pai era desde jovem spinozista. Como você deve saber, Spinoza era um jovem filósofo que vivia em Amsterdã e foi excomungado publicamente pela sinagoga. Minha filosofia é a dele. Quero, além disso, declarar que só existem na realidade três minorias oprimidas: o negro, o judeu e a mulher.”
constituir o grupo dos chamados neoconcretos, quando publicou o artigo Da teoria do não objeto (1950) e o ensaio Do
cubismo à arte neoconcreta. Outras obras: Poemas (1958); João Boa-Morte, cabra marcado para morrer (1962); Por você
por mim (1968); Dentro de uma noite veloz (1975); Poema sujo (1976); Na vertigem do dia ( 1980); Indagações de hoje (1989). É também autor de peças de teatro: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, com Oduvaldo Viana Filho (1966) e A saída? Onde fica a saída?, com Armando Costa (1967), e novela de TV: Araponga (1990). Foi presidente da Funarte (1992-1994).
55 Nascido em São Petesburgo (atual Leningrado) — URSS em 1908, Abraham Akerman foi renomado neurologista no
Brasil. Graduado pelas faculdades de Ciências e de Medicina da Universidade de Paris e assistente do Hospice de la Salpêtrière et de Bicêtre em Paris. Foi chefe do Serviço de Neurologia da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e professor do Departamento de Neuroftalmologia do Monte Sinai, da Universidade de Nova Iorque. Publicou trabalhos sobre esclerose em placas, discinesias, hematomas cerebrais espontâneos, tumores cerebrais, arterites temporais, epilepsias, entre outros.
Também nota-se uma maior recorrência de questões referentes à religião, como na entrevista com Antônio Callado56, em que Clarice pergunta ao seu entrevistado: “Quais suas
relações com Deus?”. Inclusive, já na entrevista com Elke Maravilha, Clarice pergunta se sua entrevistada é religiosa, se costuma rezar e se é supersticiosa. Sua entrevista com o Padre Quevedo não somente ratifica a preocupação com assuntos de cunho religioso como retoma a epifania, a certa altura da entrevista. Mas, antes de estudarmos de fato momentos epifânicos nas entrevistas, é preciso retomar o significado do termo epifania, e seu uso na literatura, mais especificamente na obra literária de Clarice Lispector.