Os integrantes do grupo focal acessam os mais diversos tipos de conteúdo. Eles citaram canais de en- tretenimento, de fora do Brasil, conteúdos relacionados ao mundo automotivo, gastronomia, dança, etc. Quando questionados sobre porque preferem o YouTube como plataforma de conteúdo audiovi- sual eles responderam que a variedade de conteúdo, a possibilidade de assistir a qualquer hora e lugar e também a linguagem com que os vídeos são produzidos são fatores importantes. “Na TV se você vai para um programa de comédia, quase todos têm um ‘roteirinho’ a ser seguido. No YouTube não. Cada um faz do seu jeito”, diz uma das entrevistadas. O espírito do faça você mesmo também é citado como forma de analisar a linguagem presente na plataforma. “Você produz, você faz, você edita.”
A informalidade e o tom de conversa também aparecem como elementos que eles buscam no YouTube. “É bem mais conversado do que a televisão. A TV às vezes tem um diálogo mais formal, mais em ter- ceira pessoa. No YouTube o cara fala com você”. Outro entrevistado complementa: “essa é a base. Você entra e se sente conversando com a pessoa”. A possibilidade de ter conteúdo focado nichos também aparece como característica presente na linguagem. Ao citar um canal de uma youtuber direcionada ao público feminino uma entrevista diz: “ela sabe que está falando mais com meninas, então ela fala ‘Olá, meninas!’. É como se ela estivesse mesmo falando com você”.
Do ponto de vista técnico a pesquisa mostrou que já não vale mais tanto aquela ideia que existia no começo do YouTube de que o conteúdo é mais importante que a qualidade de gravação do material. “Se está ruim [tecnicamente], eu já tiro. Não me incomoda selfie, se a qualidade estiver ótima e o cara souber filmar, eu fico vendo até o final. Agora, quando eu entro e vejo que é gravação de celular, tipo uma música de show, já tiro na hora. Incomoda muito”. A maioria deles também prefere ver os vídeos em alta resolução e quem vê na televisão opta que o conteúdo seja em 4k.
Ainda do ponto de vista de linguagem, os integrantes do grupo focal percebem muita diferença do que é produzido por quem sempre esteve no YouTube e de quem veio de meios de comunicação tra- dicional. Eles encaram que quem vem da televisão não usa a linguagem adequada, que, no geral, eles ainda usam as características da TV. “É a mesma coisa que aquele cara que faz o mesmo conteúdo para Facebook e Instagram. São coisas diferentes. A TV ainda não sacou isso. Quando as emissoras vão para o YouTube é a mesma coisa. Eles não pegaram a essência”. O inverso também aparece. Os entrevistados não gostam quando alguém do YouTube vai para um meio tradicional. “Eles parecem outras pessoas. Perde a graça. É bizarro como eles se transformam. Acho que eles têm que seguir o roteiro, né? Então eles não falam palavrão, têm que entrar na piada do programa, não é a piada deles”.
Com relação a isso outro entrevistado faz uma afirmação que resume bem essa diferença de lingua- gem. “O YouTube não é a TV do futuro. O YouTube é o YouTube. Não tem que transformar uma coisa na outra”.
3.1. Influenciador Digital no Youtube: alguém que vende produtos
Quando questionados sobre o que é um influenciador digital do Youtube, naturalmente, a conversa fluiu para a relação com a publicidade e com as marcas. Já de cara a resposta que aparece é que o in- fluenciador é alguém que vende produtos. “É o cara que fortalece marcas. Começou muito com essa coisa de as marcas darem prêmios, darem caixa, darem produtos”. Um dos entrevistados chega a citar um amigo dele que é considerado um influenciador digital. “Acho que até passa do limite, ele chega a ser chato. Ele é só isso. Tudo é só marca, marca, marca. Mas funcionou. Se as marcas patrocinam ele é porque deu certo”.
O bombardeio de propaganda incomoda os entrevistados. “A pessoa acha que eu sou burra e que só porque tem uma marca ali eu vou consumir aquilo. A publicidade há muito tempo deixou de ser aquela coisa ‘compre, compre, compre’”. Outra participante complementa: “me incomoda quando eu começo a assistir achando que vai ser um videozinho normal e aí eu vejo que no final tem um ‘compre não sei o quê’”. O excesso é que gera insatisfação por parte dos entrevistados. “O problema é quando
a cada dois minutos ele para o conteúdo para puxar alguma coisa da marca. Isso vai quebrando o con- teúdo e faz perder o interesse”.
Eles preferem quando a publicidade aparece de forma sutil, dentro de um tema. “Por exemplo: vou falar do meu cabelo. Você começa a assistir ao vídeo, está falando que o meu cabelo está seco, com as pontas duplas. Ele dá dicas de como resolver. Aí você vê lá embaixo o patrocínio”. Outro exemplo é dado por um dos entrevistados que gosta do nicho automotivo. “Meus vlogueirinhos do segmento automotivo têm uma sacada muito boa. Eles fazem publicidade que parece algo muito natural. Por exemplo: na oficina, eles falam onde estão e mostram fazendo serviço no carro, sem ficar aquele negó- cio maçante”.
Outro exemplo aparece quando os entrevistados usam a relação com as marcas para aproveitar e dis- cutir determinados assuntos. Um deles cita um vídeo da escritora e vlogueira Jou Jout quando ela participou de uma ação de uma empresa de cervejas. “Era sobre descontruir os paradigmas que a propaganda de cerveja normalmente constrói. A Jout Jout tem normalmente esse público, de tentar desconstruir. Aí ela fala: olha gente, me pagaram para eu colocar esse negócio no vídeo. Ela está sendo completamente franca”.
Os entrevistados consideram que a internet vive um momento em que é preciso repensar essa rela- ção entre as marcas e os influenciadores. “Tem que ser muito criativo. Você constrói a tua influência olhando para a câmera, falando com uma pessoa como se ela fosse teu amigo e no fim sai um pacote de Omo1 das costas e ele fala: compre Omo. Isso não funciona. Não é como a TV”.
O grupo focal considera que o influenciador só vai ser procurado pelas marcas se tiver credibilidade pelo tipo de conteúdo que ele produz. “A marca não vai se entregar para qualquer pessoa Tem um histórico a construir. O influenciador digital é uma pessoa que constrói a sua credibilidade com o con- teúdo, com as técnicas e com a linguagem dele”. É a partir disso que o produtor de conteúdo passa a causar maior impacto. “Aí ela está realmente influenciando, está chamando a atenção das pessoas para um ponto”.
3.2. Estilo de vida, identificação e conteúdos pessoais
Passada a primeira discussão sobre o que o influenciador faz, o grupo focal avança para a definição de influência. A resposta que aparece é que ela está muito relacionado ao estilo de vida do influenciador. “É o cara que tem uma credibilidade, aquele estilo de vida dele se torna algo desejável”. Para exem- plificar uma das entrevistadas cita Felipe Neto, que foi um dos primeiros no Brasil a se destacar com produção de vlogs. “Para ele ser considerado influenciador digital ele tem que fazer as pessoas almeja- rem aquele estilo de vida que ele tem, aquela casa que ele tem, aquele cabelo ridículo que ele pinta. É ir muito além de venda”. Mas essa identificação não aparece necessariamente com relação a um status social. É também direcionada a visão de mundo. “A maneira que ela pensa é como eu penso. [Ao citar uma vlogueira] Quando ela chega para falar de alguma coisa relacionada a sociedade é exatamente como eu penso também”. Essa questão aparece também em outras falas. “Todas pessoas que eu assisto