• No results found

Historie til Rosenberg

3. CASEBESKRIVELSE

3.1 Historie til Rosenberg

O leitor 3 lembra da sua experiência de leitura na fase da infância e início da adolescência:

Nasci e vivi minha infância e início de adolescência numa cidade interiorana do RN onde não havia escola destinada a crianças antes dos sete anos. No interior, naquele tempo, não era fácil encontrar livros e o material didático da escola era precário, mas, na condição de estudante, sempre cumpria com as tarefas exigidas cotidianamente em sala de aula. Sempre gostei de estudar, mas a escola não me traz lembranças aprazíveis de leitura, pois os professores não a incorporavam ao universo do ensino. Algo que deveria fazer parte deste universo mantinha-se à parte. Tinha que aprender longe do lúdico e de forma descontextualizada, não havendo, assim, contribuição para estimular o gosto pela leitura. Durante o primeiro e o segundo grau não lembro de ter lido por obrigação nem tampouco de frequentar biblioteca. Existia uma, mas era um lugar onde ninguém entrava. Não foi, portanto, na escola que me apaixonei pelos livros.

No início do enunciado, o leitor 3 deixa marcado que nessa fase o seu contato inicial com a leitura não acorreu de forma positiva e que, portanto, não foi na escola que ele se apaixonou pelos livros. Primeiramente, porque no lugar onde morava não existiam escolas para alunos com menos de sete anos de idade e, em segundo lugar, não era fácil encontrar livros. Apesar disso, ele diz que sempre gostou de estudar. Lembra que quando cursou o ensino médio não leu por obrigação, ou seja, não recebeu orientação dos professores sobre quais textos deveria ler, e ressalta que não frequentou a biblioteca, a qual até existia, mas ninguém entrava.

[...] lembro ter vivenciado as minhas primeiras experiências de leitura através do universo dos quadrinhos, que, com a sua linguagem gráfica e todos aqueles recursos usados para dinamizar as histórias e definir as emoções das personagens, muito me encantava.

Nesse trecho, observamos que a leitura de quadrinhos, na fase da infância, marcaram o leitor 3 de forma positiva no seu contato inicial com a leitura. Lembramos que esse tipo de material de leitura foi comum também nas experiências de leitura do leitor 1 e do leitor 2, como podemos ver nos trechos iniciais do enunciado 1 e do enunciado 2. Portanto, compreendemos que nesse trecho emerge a voz da leitura desvalorizada pela cultura oficial.

No relato sobre a experiência de leitura na adolescência, o leitor 3 mostra o que ocorreu:

O tempo foi passando, a adolescência chegando e surgiu o desejo de novas leituras. Por influência de minha avó materna, fui despertando para a leitura de romances. Ela lia apaixonadamente e a partir daí manifestou-se o desejo de penetrar também naquele mundo que a embevecia e cujo encanto eu também terminava participando. Diante desse despertar para a leitura de romances, lembro muito bem o primeiro que li, foi Pássaros Feridos, de Mecellouch Colleen, best-seller da época, que tratava da história do padre que se apaixonara por uma menina. Envolvi-me com a trama, viajava na história. Depois veio Se houver

amanhã, de Sidney Sheldon, que falava a respeito de uma

moça que trabalhava em um banco e foi acusada de roubo, foi presa, cumpriu pena e quando saiu passou a fazer o que nunca tinha feito: roubar. Essa história me fez refletir um pouco a respeito dessa situação. Desde então, comecei a despertar para um mundo de viagens inusitadas, surpreendentes e prazerosas. Mergulhava na leitura que me conduzia a universos fantásticos, viajava conduzida pela imaginação a lugares nunca antes visitados. Um mundo novo magicamente foi aberto e penetrei no fascinante mundo dos livros.

Nesse relato, o leitor 3 mostra que a sua experiência de leitura, na fase da adolescência, ocorreu de forma positiva, porém não foi na escola, mas sob a influência de um membro de sua família: a avó materna, que lia romances. A imagem do modo apaixonado com que a sua avó realizava as leituras dos romances acabou influenciando o leitor 3. Assim, sua leitura predileta, nessa fase, passou a ser a de romances, denominados de best-sellers à época. Aqui, emergiu a voz da esfera familiar, a voz da leitura de livros desvalorizados pela cultura oficial.

A seguir, o leitor 3 apresenta como ocorreu a sua experiência de leitura na fase adulta:

Ao terminar o segundo grau casei, tive dois filhos: Junior e Daniele, lindos bebês que passaram a ser a minha vida e muito contribuíram com a minha formação como leitora. Aos três anos começaram a estudar e passei a ter a manhã “livre”. Esse tempo logo se tornou insuficiente, pois, depois de cumprir com as obrigações, poucas horas sobravam para minhas leituras. Dividia-me entre a leitura e as tarefas de casa. As horas passavam depressa, não havia outro remédio senão fechar o livro, mesmo diante de tanta curiosidade com o que ia acontecer. A leitura fazia- me deslocar da rotina cotidiana para o mundo da fantasia. Meus filhos foram crescendo e, através deles, passei a realizar leituras que não fiz na época “devida”. Conheci Bagdá com Aladim, fui à terra do nunca com Peter Pan, refleti a respeito da mentira com Pinóquio e, assim, através deles, fui participando daquele mundo mágico. Percorri caminhos desconhecidos que só a leitura me possibilitaria trilhar. Meus filhos fizeram-me sonhar e desejar saber mais, pois a leitura me permitia vislumbrar outras perspectivas além do meu cotidiano. Sem perceber eles iam interferindo na minha formação enquanto leitora, pois, participando da formação deles, li: Sonho de uma noite de

verão, Pequeno Príncipe, Odisseia, As mil e uma noites,

depois as obras clássicas da literatura brasileira, e a partir daí fui cada vez mais me interessando pela leitura.

Nessa fase, casada e com dois filhos, o leitor 3 mostra que os seus filhos influenciaram na sua experiência de leitura, nas suas escolhas de leituras, apesar do pouco tempo que lhe sobrava para ler, devido às atividades domésticas que ele cumpria. Mostra uma perspectiva de leitura de prazer, de obras variadas, que vão da

literatura denominada infantil, passando por romances desvalorizados pela cultura oficial até romances valorizados pela cultura não oficial. Nesse trecho, duas vozes emergiram: a voz da cultura oficial e a voz da cultura não oficial, convivendo pacificamente.

A seguir, o leitor 3 mostra como se deu a sua experiência de leitura no curso de Letras:

Seduzida pela leitura resolvi estudar e enfrentei o meu primeiro vestibular para o curso de Letras e, contrariando todas as expectativas, passei. Os livros abriram-me as portas. Novas leituras, até então desconhecidas, surgiram, onde não apenas lia por prazer, mas com responsabilidade, com disciplina. Através da literatura, somada à leitura de textos teóricos, passei a ter acesso a uma leitura considerada mais complexa, que exigia repertório, releituras para que pudesse atingir um patamar de exigências e, assim, realizar uma leitura mais completa. Passei a ter contato com Eça de Queiroz em O crime do

Padre Amaro, onde o mesmo focaliza criticamente a igreja

e o celibato clerical; Incidente em Antares, de Érico Veríssimo; Capitães de Areia, com Pedro Bala pelas ladeiras da Bahia, de Jorge Amado; O quinze, de Rachel de Queiroz; Vidas Secas, de Graciliano Ramos, onde aquela família de retirantes na qual homem e animal eram tão semelhantes tocou-me bastante; e tantos outros.

Diante dessas novas leituras, uma que me causou impacto, pela sua complexidade, foi Macunaíma, a obra-prima de Mário de Andrade, onde Macunaíma, através do seu caráter, atribui aos brasileiros adjetivos como: preguiçoso, mentiroso, povo sem nenhum caráter; é um texto, segundo Mário de Andrade, carregado de “segunda intenção”. E, assim, através dessa leitura, me via a repensar leituras anteriores, se, também, apresentavam alguma segunda intenção. Tornei-me uma leitora mais crítica.

O leitor 3, no início do texto, mostra que as suas leituras no curso de Letras não se limitaram somente à leitura “por prazer”, pois ele lia “com responsabilidade”, “com disciplina”, atribuindo esses dois termos à leitura de literatura somados à leitura de textos teóricos, mostrando que entende as várias finalidades da leitura. Depois, apresenta uma lista de obras e autores, pertencentes à literatura valorizada pela cultura oficial, que leu durante o curso e conclui afirmando que, devido à experiência

de tais leituras, tornou-se uma “leitora mais crítica”. Então, nesse trecho se sobressai a voz da esfera educacional, a voz da leitura valorizada pela cultura oficial.

Por fim, o leitor 3 reflete acerca da sua formação acadêmica e da sua responsabilidade profissional como professor de leitura:

A formação acadêmica levou-me a refletir sobre o lado político-social brasileiro, procurar fazer análise crítica de algumas situações, posicionar-me como cidadã, alguém consciente da sua cota de participação social, passando a valorizar-se mais. E, assim, foi a minha trajetória como leitora, onde concluí que a leitura é uma viagem, onde temos sempre o desejo de ir mais longe, basta apenas abrir um livro e mergulhar na magia da palavra.

Agora, de volta deste rápido encontro com minhas leituras, me vejo a refletir sobre o meu presente, a minha responsabilidade como profissional, mediadora da formação de novos leitores.

Ele mostra que a formação acadêmica contribuiu na sua formação de cidadão, passando a ser um sujeito posicionado, consciente. Enxerga a leitura como uma “viagem” e associa esse tipo de leitura a leitura de livros. Portanto, a voz que se sobressaiu, no decorrer e no final do texto, ressaltada por seu autor, foi a voz da leitura de livros, advinda das diversas esferas da sociedade. Ao final do texto, mostra-se um profissional preocupado com a sua responsabilidade de formador de novos leitores. Compreendemos que esse sentimento de preocupação com a prática de ensino de leitura deveria ser partilhado por todos os profissionais de Letras, além de ter consciência de alguns compromissos que eles devem assumir na sua prática de ensino, como apontam as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Letras:

[...] O profissional de Letras deverá, ainda, estar compromissado com a ética, com a responsabilidade social e educacional, e com as consequências de sua atuação no mundo do trabalho. Finalmente, deverá ampliar o senso crítico necessário para compreender a importância da busca permanente da educação continuada e do desenvolvimento profissional (BRASIL, 2001, p. 30-31).

Por fim, observamos que as vozes sociais que emergiram dos três enunciados foram as da leitura valorizada pela cultura oficial e as da leitura não valorizada pela cultura oficial.

Essas duas vozes foram presentes nos discursos dos três leitores, embora em momentos diferentes. Destacamos que o período em que os três leitores cursaram a formação inicial é referente àquele em que a voz social da leitura valorizada pela cultura oficial se sobressaiu. Em outros momentos das experiências de leitura dos leitores, houve variação entre a leitura valorizada pela cultura oficial e a leitura não valorizada pela cultura oficial.