2. THEORETICAL BACKGROUND
2.4. Historical overview of Norwegian curricula of the English subject
A Igreja Bola de Neve foi fundada em 1999 pelo pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, 34 anos, surfista, formado em propaganda e marketing e pós-graduado em administração39. Inicialmente, em 1994, era um segmento da Igreja Renascer em Cristo, que desenvolvia atividades evangelísticas para atrair jovens e promovia vários eventos, festas, campeonatos de jiu-jitsu e capoeira, evangelismo nas praias e pistas de skate, peças de teatro e shows “gospel”. As reuniões dirigidas a grupos que praticavam esportes radicais foram se expandindo e separaram-se da instituição evangélica que as abrigava. Houve, pois, uma dissensão que resultou no surgimento da Igreja Evangélica Bola de Neve.
Seu fundador40 insiste em afirmar que não saiu da Renascer por causa de alguma divergência ou discórdia. Parece preocupado em mostrar que não rompeu com a antiga igreja. Tenta convencer o espectador de que não se opôs à direção espiritual de seus líderes nem desrespeitou a autoridade que Deus lhes concedeu. Segundo seu relato, sempre honrou seus pastores; nunca se rebelou contra eles. Porém, teve que se afastar da congregação da qual fazia parte, em virtude de algumas mudanças, que não especificou. Reitera que obteve o consentimento da Igreja Renascer para se desvincular da instituição e construir uma outra denominação com uma mensagem específica para o público jovem.
Pretendia atingir a geração dos esportes radicais através de uma linguagem especial, menos formalizada. Criou uma imagem própria capaz de seduzir um grupo específico. Acompanhou a tendência de especialização, diferenciação e segmentação das agremiações evangélicas que definem o perfil do público que almejam alcançar e desenvolvem estratégias peculiares para atingi-lo41. No mercado saturado de ofertas pentecostais, o pastor Rina, como é conhecido, teve a ousadia e perspicácia de escolher um segmento pouco prestigiado e explorado pelas igrejas evangélicas. Decidiu dirigir seu discurso religioso a surfistas, skatistas, fisiculturistas, lutadores de jiu-jitsu e esportistas de modo geral.
39 Dados extraídos do Jornal Folha de São Paulo, de 14 de dezembro de 2003.
40 Depoimento do pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira no website da Igreja Bola de Neve Church –
www.boladeneve.com
Iniciou seu projeto com um pequeno grupo que fez campanhas de oração e vigílias no monte para obter de Deus a “consagração”. Realizou os primeiros cultos no auditório de uma empresa de artigos de surfwear, com capacidade para 130 pessoas. Não havia muita estrutura no local para a realização de celebrações religiosas, mas o pastor conseguiu conduzir a situação. Em uma reunião, percebeu que não havia suporte para apoiar a bíblia. Avistou ao longe uma prancha de longboard, que pertencia à loja. Resolveu convertê-la em púlpito, o que se tornou a marca da congregação. De acordo com o pastor, foi “um acaso que ajudou a compor a identidade da igreja” 42. Desde então, o seu crescimento é ininterrupto e confirma o nome que recebeu. O novo grupo evangélico “hardcore” 43, formado por jovens de 15 a 30 anos, cresce como uma bola de neve. Em três anos, entre 2000 e 2003, a igreja cresceu 1100%44, passando de 250 para três mil membros em todo o país.
42 Fragmento do texto redigido pelo pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, extraído do website da Igreja
Bola de Neve Church – www.boladeneve.com
43 É desse modo que o pastor define a identidade dos membros da igreja. 44 Dados obtidos da Revista Época, de 28 de Julho de 2003.
A quantidade de adeptos tem se expandido tanto que está sendo difícil para a igreja acompanhar estatisticamente os novos números, que se alteram com freqüência. Os líderes mostram-se assustados com essa rápida expansão, que se expressa claramente nos cultos apinhados de jovens. Não há espaço suficiente para acomodar as novas pessoas que se juntam ao “rebanho”. Não há lugar vazio. As passagens encontram-se obstruídas. Pessoas com crachás e rádios de comunicação tentam organizar os fiéis nos poucos lugares disponíveis. Mas muitos ficam desconfortáveis. Os pastores parecem despreparados para enfrentar esse súbito crescimento. Lançaram uma campanha para arrecadar fundos com o intuito de construir uma nova sede, muito maior do que a atual. Abriram uma conta bancária e os fiéis são estimulados a fazer doações. Aqueles que não podem contribuir financeiramente são convidados a levar para a igreja a maior quantidade de latinhas de refrigerante, as quais são decoradas e transformadas em cofres de moeda com o logotipo Bola de Neve. Esses produtos são vendidos na loja da igreja, e o valor arrecadado é destinado ao projeto de ampliação do templo. A necessidade de um espaço físico maior tem preocupado os pastores, que abordam constantemente essa questão em suas pregações.
Eu sonho com o dia em que não haverá ninguém sentado no chão. Eu não quero que ninguém fique mal acomodado. Eu desejo que todos fiquem sentados. Não quero ver ninguém em pé. Deus providenciará. É Ele quem está permitindo esse crescimento. Por isso, eu creio que Ele nos tirará daqui. Ele está nos empurrando daqui. (...) Deus está nos empurrando para fora desse templo. Não é questão de glamour. É pura necessidade. (...) Nós vamos edificar um templo. Não sei para quantas mil pessoas. Só sei que é para muita gente. (...) Eu quero começar um culto sem ver tanta gente sentada no chão. 45
O sucesso da igreja se deve à identificação do jovem com a imagem e propósito da instituição, à aproximação dos pastores, à informalidade dos cultos e à linguagem descontraída. Fazem parte da identidade da Bola de Neve a negação de alguns padrões tradicionais e a ruptura dos rituais religiosos, que sempre afastaram os adolescentes das congregações evangélicas. A religiosidade46 , que representa o conservadorismo e formalismo pentecostal, é alvo de ataque dos líderes religiosos. “Não louvem de forma
mecânica. O nosso louvor não segue uma liturgia, não é um ritual. Abaixo a apostasia, a frieza e a religiosidade” 47. Prega-se a liberdade de expressão espiritual e condena-se a
imposição de normas convencionais. Os pastores fazem questão de divulgar a notícia de que a igreja não está preocupada com dogmas e regras. De fato, a igreja não oferece restrição às vestimentas, às tatuagens, aos piercings, aos esportes radicais, em suma, à aparência do crente. Contudo, empenha-se em proibir o uso de drogas de todo tipo, a homossexualidade e o sexo antes do casamento. Embora apresente regras, procura mostrar ao público que não apóia a censura.
(...) sei que os dogmas da igreja tradicional afastam a moçada da religião. Criei um local em que todos se sentissem à vontade e
45 Discurso do pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira durante o culto realizado em 10 de fevereiro de 2005. 46 Termo bastante presente nas pregações da Igreja Bola de Neve, cujo significado está relacionado a um
conjunto de códigos convencionais e cerimônias tradicionais, rigidamente definido.
tivessem contato com a palavra de Deus48... (...) Não foi estratégia de marketing, ficou simplesmente a cara da liderança. Mas é claro que esse visual ajuda a quebrar estereótipos, principalmente daqueles que tinham aversão à igreja e à religiosidade. Aqui a identificação dos jovens com a igreja é muito grande, aqueles que estão pegando onda com eles no domingo são os mesmos que no sábado estão pregando ou estão na liderança da igreja49.
2. Organização da igreja
A expansão da igreja Bola de Neve reflete-se também no aumento do número de templos espalhados pelo território nacional e concentrados nas cidades litorâneas. Existem vinte e oito congregações, dentre as quais duas estão sediadas em outros países – Peru e Japão50. Pequenos grupos ainda embrionários já começam a surgir em Huntington Beach, na Califórnia, e no Havaí. A praia é o ambiente escolhido para realizar os eventos de evangelização, uma vez que pode agregar o surfe e a pregação. A igreja organiza festas litorâneas como o luau, realiza festival musical51 e inaugura barracas de praia pelo litoral brasileiro para evangelizar os leigos e garantir a integração dos fiéis. Convida-se a todos indiscriminadamente, sobretudo aqueles que não conhecem a “palavra de Deus”. São promovidos ainda campeonatos de surfe e skate, ocasião em que diferentes pessoas se unem
48 Entrevista concedida pelo pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira ao Jornal da Tarde, dia 06 de janeiro de
2003.
49 Entrevista realizada com o pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, publicada pelo Jornal Último Segundo,
em 2002.
50 Segundo o website da Igreja Bola de Neve, os templos estão localizados nas seguintes cidades e países: São
Paulo (capital), Boiçucanga, Peruíbe, Itanhaém, Mogi das Cruzes, Santos, Praia Grande, Mongaguá, Ubatuba, Caraguatatuba, Guarujá, Atibaia, Bertioga, Indaiatuba, Rio de Janeiro (capital), Niterói, São Gonçalo, Cabo Frio, Salvador, Itacaré, Itabuna, Florianópolis, Laguna, Balneário de Camburiu, Curitiba, Porto Alegre, Peru e Japão.
51 Em 2005, a Igreja Bola de Neve realizou o “Festival Novos Talentos”, do qual participaram 16 bandas, cujo
repertório musical era variado, com ritmos de reggae, pop, rap e rock.
para assistir à competição e participar dela, o que favorece os trabalhos evangelísticos. O objetivo desses eventos é criar espaços descontraídos para atrair jovens e assegurar o processo de conversão.
Excursões para praias e programas de ecoturismo acontecem todos os anos. Exemplo desses encontros é a “Barca de Floripa”, um misto de retiro espiritual e atividades esportivas, que ocorre no litoral de Santa Catarina no feriado de Corpus Christi. Em 2005, a igreja fretou oito ônibus para transportar, até o local da festa, 390 fiéis de todas as sedes Bola de Neve do Brasil. Durante a programação, que inclui campeonatos de surf, futebol masculino e feminino, luau e shows de música, ocorreram também noivados, casamentos, reconciliações amorosas, batismos e até conversões. Durante o dia, os jovens aproveitavam o sol e a praia para o lazer e a prática de esportes, enquanto à noite participavam dos cultos, conhecidos como Conferência Profética.
Os campeonatos de surfe correspondem à maior atração da Igreja Bola de Neve para conquistar novos adeptos. Em 2005, foi realizado, com o apoio da Federação Paulista de Surf, o primeiro Circuito Oficial de Surf Bola de Neve, no qual estavam inscritos 78 atletas profissionais, alguns deles pastores. A competição foi dividida em três categorias: Open, Bola de Neve e Longboard. Após a apresentação dos surfistas, uma banda evangélica divertiu a platéia e contribuiu para aumentar o número de novos convertidos. Além dos eventos, os meios de comunicação também são importantes instrumentos de evangelização. Embora possua um modesto aparato comunicativo, a igreja consegue atingir os segmentos jovens com um programa diário na Rádio Musical FM e uma revista esportiva distribuída gratuitamente no litoral brasileiro. A Revista Crista, que possui uma pequena tiragem de 10.000 exemplares, apresenta matérias de saúde, esportes radicais, músicas “gospel” e religião.
A igreja, porém, não se preocupa apenas com o evangelismo. Os jovens que se convertem precisam ser acolhidos. É necessário acompanhá-los em sua nova trajetória a fim de que não se desanimem nem se desviem do caminho. Como os pastores não podem “cuidar” pessoalmente de cada “ovelha”, foi desenvolvida uma estratégia especial para manter os novos convertidos ligados à igreja: a formação de células, reuniões menores que ocorrem nas residências dos fiéis. Cada célula possui um líder submetido a um supervisor. Nesses pequenos encontros, há uma breve pregação acompanhada por discussões mais interativas. As pessoas debatem sobre determinado tema a partir da Bíblia. Em seguida, há uma espécie de confraternização. Os jovens comem alguns lanches que eles mesmos levam e conversam sobre diversos assuntos. As células52 espalharam-se por todas as regiões de
52 Há na capital paulistana as seguintes células:
I. Zona Norte – Bom Retiro, Brasa I, Brasa II, Brasa III, Brasilândia, Casa Verde, Casa Verde Alta, Edu Chaves, Freguesia do Ó I, Freguesia do Ó II, Freguesia do Ó III, Imirim, Inajar, Itaberaba I, Itaberaba II, Jardim Vista Alegre, Jardim Almanara, Jardim França, Jardim Guarani, Jardim Peri, Jardim São Paulo, João Paulo, Limão I, Limão II, Mandaqui, Morro Grande I, Morro Grande II, Parada Inglesa I, Parada Inglesa II, Penteado, Peri Alto, Santana, Tucuruvi, Vila Amália, Vila Guilherme, Vila Maria, Vila Mazzei (37 células). II. Zona Leste – Aricanduva, Ermelino Matarazzo I, Ermelino Matarazzo II, Ermelino Matarazzo III, Itaquera, José Bonifácio, Móoca I, Móoca II, Penha, Sapopemba, Tatuapé, Vila Carrão, Vila Ré (13 células).
III. Zona Oeste – Alto da Lapa, Butantã, Central Park da Lapa, Cerro Corá, Granja Viana, Higienópolis, Jardim Panamericano/ Pombal, Jardim Bonfiglioli, Lapa I, Lapa II, Perdizes I, Perdizes II, Perdizes III,
São Paulo e encontram-se nos mais variados bairros, o que torna viável a participação de todos. No total, são 106 células. Elas se concentram mais na Zona Norte e estão em menor quantidade na Zona Leste. O bairro que possui mais células é Perdizes, onde se localiza a matriz da igreja.
3. Pregações
A linguagem desempenha um papel muito importante nas pregações, atraindo a atenção dos jovens e tornando acessível a mensagem. A informalidade caracteriza os sermões. O pastor faz uso de gírias e histórias comuns aos fiéis. Através da linguagem informal e espontânea, aproxima-se da platéia, encantada com o que ouve. Seu discurso divertido é de fácil compreensão. O público, durante a pregação, demonstra sua aprovação com risos e gritos. O entusiasmo toma conta da audiência. A resposta dos ouvintes anima o pregador, que procura transmitir com bom-humor e descontração a “palavra de Deus”.
Vários casos reais são contados de forma animada. As histórias são dramatizadas pelo pastor, que imita vozes diferentes e faz movimentos engraçados, simulando a situação apresentada à platéia. Os fiéis respondem à animação do pregador com palmas, gritos, assobios e gargalhadas. Mesmo nas ocasiões em que a mensagem é dura, o líder tenta suavizá-la, contando piadas. Define regras e apresenta prescrições com muita diligência, de modo amigável. Deseja criar um ambiente confortável para os jovens e converte a linguagem em seu instrumento mais eficaz. A comunicação com o público é direta e próxima. Exemplos da vida cotidiana são relatados. Passagens bíblicas são lidas e traduzidas para se adequar à realidade atual. Casos extraídos da bíblia servem de metáforas Perdizes IV, Perdizes V, Perdizes VI, Perus, Pinheiros, Piqueri, Pompéia I, Pompéia II, Parque São Domingos, Santa Cecília, Vila dos Remédios I, Vila dos Remédios II, Vila Leopoldina, Vila Madalena, Vila Zarti (28 células).
IV. Zona Sul – Aclimação I, Aclimação II, Bela Vista, Brooklin I, Brooklin II, Campo Limpo, Hípica - Santo Amaro, Interlagos I, Interlagos II, Ipiranga I, Ipiranga II, Jabaquara, Jardins I, Jardins II, Jardim Saúde I, Jardim Saúde II, Metrô Conceição, Metrô Saúde, Moema I, Moema II, Morumbi, Praça da Árvore, Santo Amaro, São João Clímaco, Vila Mariana, Vila Nova Conceição, Vila Olímpia, Vila Santa Catarina (28 células).
e alegorias para compreender os assuntos e problemas do mundo moderno. No final de cada sermão, que é cuidadosamente preparado, a linguagem assume um tom mais imperativo. Tenta-se estimular e persuadir o público a seguir as orientações da pregação.
Algumas temáticas são abordadas de forma recorrente. Fala-se com freqüência que o homem possui uma necessidade intrínseca de Deus, desejando-o ardentemente. Acredita- se que só a presença divina pode satisfazer as carências humanas. “Tu és a nossa satisfação
plena. Em Ti somos completos. Tu és a nossa necessidade. Precisamos só de Ti”53. Nas
pregações, estimula-se o cristão a buscar um maior conhecimento de Deus e estabelecer com Ele uma relação de intimidade54. Ressalta-se a condição humana de fragilidade carnal. Prescreve-se uma vida espiritual, marcada pela dependência absoluta de Deus, bem como pela submissão e obediência a Ele. Reitera-se a importância do arrependimento do crente e do perdão divino. Instrui-se o público a seguir os padrões de conduta cristã e imitar o comportamento e caráter de Cristo, descrito na Bíblia.
Além dos temas espirituais, abordam-se freqüentemente os estados emocionais e transtornos psicológicos, que caracterizam a vida moderna. A angústia, o estresse, a depressão, a ansiedade, a solidão, o medo, a síndrome do pânico e a insônia são considerados distúrbios afetivos cuja cura depende da ação divina. Deus, de acordo com esse discurso, é a solução para todos os problemas decorrentes do estilo de vida conturbado, próprio do mundo contemporâneo. Ele restabelece a saúde emocional e física do fiel e resolve os seus dilemas. Por isso, o cristão não deve se preocupar. A ele é recomendado confiar em Deus e esperar pacientemente por sua ação.
O tema do sofrimento, da crise humana, das lutas e dificuldades também é explorado. Fala-se muito do deserto, metáfora da dor, e da necessidade de enfrentá-lo. O deserto é uma situação inevitável e necessária, uma vez que prepara o crente para receber de Deus “suas promessas”. “A Bíblia fala muito sobre deserto como condição para se
53 Pregação do pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, no culto do dia 27 de janeiro de 2005.
54 “Cada cristão deve procurar com muito interesse conhecer, aproximar-se e ter mais de Cristo, já que o Senhor é uma fonte ilimitada de luz, brilho, força, cor, vida, revelação, conhecimento e conselho”
entrar na terra prometida” 55. Devem-se aceitar os obstáculos da vida sem desanimar. Os
pastores, em alguns sermões, mostram-se dispostos a encorajar e animar os jovens. Algumas pregações empenham-se em estimular a fé. Afirma-se que os milagres divinos são resultado da fé humana, a qual aproxima o homem de Deus.
Os fiéis ainda são prevenidos, de forma insistente porém sutil, da frieza espiritual e do perigo do pecado, o qual muitas vezes pode se instalar inadvertidamente, como se fosse algo inofensivo, no coração, no pensamento e no espírito do cristão. A idéia de impureza é reforçada nas advertências. Deus aparece como o único capaz de purificar o homem56. Os fiéis são convidados a adotar uma vida de renúncia. Deve-se renunciar, sobretudo, à “carne”. O “mundo”, como advertem os pastores, precisa ser repudiado. “Você deve buscar
a santidade, buscar algo novo, dizer não ao pecado. Você só precisa dizer não para as coisas erradas desse mundo, abandonar esse mundo” 57. Para enfrentar os desejos e evitar
o pecado, é prescrito ao cristão que se vigie sem cessar. O fiel deve examinar-se e analisar- se para “conhecer suas fraquezas, corrigir seus erros” 58 e precaver-se dos “prazeres da
carne”.
A conduta sexual dos jovens é alvo da preocupação dos pregadores. Essa temática é abordada de forma recorrente nas pregações, mas com muita sutileza. O líder religioso discute esse assunto com cuidado. Usa exemplos, cria situações, relata casos e conta histórias engraçadas que envolvem pecados sexuais. Faz observações e recomendações quanto aos perigos de uma sexualidade livre. É firme em suas colocações, mas utiliza uma linguagem descontraída que torna suave uma mensagem dura. As prescrições sexuais aparecem em muitos sermões, mas não são o foco principal. É uma questão indiscutivelmente importante, mas fica dispersa nos vários discursos. Às vezes, atravessa o culto inteiro. Há poucas pregações, no entanto, que tratam unicamente do comportamento sexual. A sexualidade está presente nas orientações, mas não chama atenção. A
55 Pregação presente no website da Igreja Bola de Neve, no link “mensagens”, que apresenta sermões
transcritos para que os fiéis possam posteriormente refletir sobre eles ou acessá-los, caso não tenham assistido ao culto.
56 “Deus quer te colocar perto dele, quer te limpar com o sangue do cordeiro, quer te livrar de todo pecado”
(Pregação da pastora Priscila no culto do dia 18 de junho de 2004).
57 Sermão apresentado pelo pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, no dia 31 de março de 2005. 58 Pregação da pastora Priscila no culto do dia 11 de novembro de 2004.
preocupação com o sexo aparece, mas não é tão notada como nas demais igrejas evangélicas. Em certas ocasiões, fala-se da vida sexual por vias indiretas, ressaltando a importância da santidade e da renúncia.
A mensagem da igreja Bola de Neve, portanto, não difere significativamente de outras denominações pentecostais. Contudo, a forma de veiculá-la a torna diferente para aqueles que a absorvem. O conservadorismo é disfarçado pelo uso de uma linguagem moderna. O discurso, em alguns momentos, apresenta um tom conservador, especialmente quando envolve a questão sexual, e parece incompatível com o formato que lhe foi dado.
“Seguimos a Bíblia. A diferença é que quebramos alguns dogmas, como a prancha no púlpito e as roupas. Eu, por exemplo, nunca uso terno. (...) Pregamos o evangelho puro, o que é pecado nas outras igrejas, é aqui também” 59.
4. Sexualidade
A posição da igreja em relação à sexualidade é clara: o sexo é proibido antes do casamento. A vida sexual deve restringir-se à relação conjugal, uma vez que o sexo não é apenas uma união física, mas uma comunhão espiritual que deixa marcas profundas no