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La historia corta

In document Robert Graves y Mallorca (sider 93-109)

2. Historias cortas de color local

2.1 La historia corta

Parece absurdo ou impossível, eu o reconheço, supor que a seleção natural pudesse formar a visão com todas as inimitáveis disposições que permitam ajustar o foco a diversas distâncias, admitir uma quantidade variável de luz e corrigir as

aberrações esféricas e cromáticas. Quando se afirmou pela primeira vez que o Sol é imóvel e que a Terra gira em torno dele, o senso comum da humanidade decla- rou falsa a doutrina; mas sabe-se que o velho ditado: Vox populi, vox Dei, não se admite em matéria cientifica. A razão diz-nos que se, como é certamente o caso, se pode demonstrar que existem numerosas gradações entre um olho simples e imperfeito e um olho complexo e perfeito, sendo cada uma destas gradações van- tajosa ao ser que a possui; que se, além disso, o olho varia algumas vezes e que estas variações são transmissíveis por hereditariedade, o que é igualmente o ca- so; que se, enfim, estas variações são úteis a um animal nas condições variáveis da sua existência, a dificuldade de admitir que um olho complexo e perfeito possa ser produzido pela seleção natural, posto que insuperável para a nossa imagina- ção, em nada contradiz a nossa teoria. Não temos mais de nos ocupar em saber como um nervo pôde tornar-se sensível à ação da luz, como não temos de nos ocupar a procurar a origem da vida dele; todavia, como existem certos organismos inferiores sensíveis à luz, se bem que se não possa descobrir entre eles vestígio algum de nervação, não parece impossível que certos elementos do sarcode, de que são formados em grande parte, possam agregar-se e desenvolver-se em ner- vos dotados desta sensibilidade especial.

É exclusivamente na linha direta dos ascendentes que devemos procurar as gradações que têm trazido os aperfeiçoamentos de um órgão numa espécie qualquer. Mas isto é quase impossível, e somos forçados a dirigir-nos a outras espécies e a outros gêneros do mesmo grupo, isto é, aos descendentes colaterais da mesma origem, a fim de ver quais são as gradações possíveis nestes casos em que, por casualidade, algumas destas gradações fossem transmitidas com poucas modificações. Além disso, o estado de um mesmo órgão em classes dife- rentes pode incidentalmente lançar alguma luz sobre os graus que o levaram à perfeição.

O órgão mais simples a que se possa dar o nome de olho, consiste em um nervo óptico, cercado de células pigmentares, e coberto de uma membrana trans- parente, mas sem lente nem qualquer outro corpo refringente. Podemos, demais, segundo M. Jourdain, descer mais baixo ainda e encontrarmos então grupos de

células pigmentares parecendo representar o órgão da vista, mas estas células são desprovidas de nervos e repousam simplesmente sobre tecidos sarcódicos. órgãos tão singelos, incapazes de qualquer visão distinta, podem servir apenas para distinguir a luz da obscuridade. Em algumas artérias, determinadas pequenas depressões na camada de pigmento que cerca o nervo são, segundo o autor que acabamos de citar, cheias de matérias gelatinosas transparentes, compostas de uma superfície convexa semelhando a córnea dos animais superiores. M. Jourdain supõe que esta superfície, sem poder determinar a formação de uma imagem, serve para concentrar os raios luminosos e tornar a percepção mais fácil. Esta simples concentração da luz constitui o primeiro passo, e até mais importante, pa- ra a constituição de um olho verdadeiro, suscetível de formar imagens; basta en- tão, com efeito, ajustar a extremidade nua do nervo óptico que, em alguns animais inferiores, é profundamente escondido no corpo e que, em alguns outros, se en- contra mais perto da superfície, a uma distância determinada do aparelho de con- centração, para que a imagem se forme sobre esta extremidade.

Na grande classe dos articulados, encontramos, como ponto de partida, um nervo óptico simplesmente coberto de um pigmento; este último forma algumas vezes uma espécie de pupila, mas não há aí nem lente nem vestígio de aparelho óptico. Sabe-se atualmente que as numerosas facetas que, pela sua reunião, constituam a córnea dos grandes olhos compostos dos insetos, são verdadeiras lentes, e que os cones interiores encerram filamentos nervosos muito singularmente modifica- dos. Estes órgãos, contudo, são tão diversificados nos articulados, que Müller ha- via estabelecido três classes principais de olhos compostos, compreendendo sete subdivisões e uma quarta classe de olhos simples agregados.

Se refletirmos em todos estes fatos, muito pouco destrinçados aqui, relati- vos à imensa variedade de conformação que se nota nos olhos dos animais inferi- ores; se lembrarmos quanto as formas atualmente vivas são pouco numerosas comparativamente às que são extintas, já não é difícil admitir que a seleção natu- ral pudesse transformar um aparelho simples, consistindo num nervo óptico reco- berto de um pigmento e composto de uma membrana transparente, em um ins- trumento óptico tão perfeito como o possuído por qualquer indivíduo que seja da

classe dos articulados.

Quem admitir este ponto não pode hesitar em ir mais longe, e se encontra, depois de ter lido este volume, que a teoria da descendência, com as modifica- ções que traz a seleção natural, explica um grande número de fatos de outra ma- neira inexplicáveis, deve admitir que a seleção natural pôde produzir uma confor- mação tão perfeita como o olho de uma águia, ainda que, neste caso, não conhe- çamos os diversos estados de transição. Tem-se objetado que, para que o olho possa modificar-se por completo, ficando um instrumento perfeito, é preciso que seja a sede de muitas alterações simultâneas, fato que se considera como irreali- zável pela seleção natural. Mas, como tentei demonstrá-lo na minha obra sobre as variações dos animais domésticos, não é necessário supor que as modificações são simultâneas, contanto que sejam muito ligeiras e muito graduais. Diferentes formas de modificações podem também tender para um mesmo fim geral; assim, como o fez notar M. Wallace, «se uma lente tem um foco muito curto ou muito lon- go, esta diferença pode corrigir-se, quer por uma modificação da curva, quer por uma modificação da densidade; se a curva é irregular e os raios não convergem para um mesmo ponto, todo o melhoramento na regularidade da curva constitui um progresso. Assim, nem a contração da íris, nem os movimentos musculares do olho são essenciais à visão; são unicamente progressos que podem juntar-se e aperfeiçoar-se em todas as épocas da construção do aparelho». Na mais alta divi- são do reino animal, a dos vertebrados, podemos partir de um olho muito simples, que consiste, no branquióstomo, apenas num pequeno saco transparente provido de um nervo e cheio de pigmento, mas desprovido de qualquer outro aparelho. Nos peixes e nos répteis, como o faz notar Owen, «a série das gradações das es- truturas dióptricas é considerável». Um fato significativo, é que mesmo no homem, segundo Virchow, que tem uma tão grande autoridade, a magnífica lente cristalina se forma no embrião por uma acumulação de células epiteliais alojadas numa ruga da pele que afeta a forma de um saco; o corpo vítreo é formado por um tecido embrionário subcutâneo. Contudo, para se chegar a uma justa concepção relati- vamente à formação do olho com todos os seus maravilhosos caracteres, que não são todavia ainda absolutamente perfeitos, é preciso que a razão vença a imagi-

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