1. Perfil biográfico de Robert Graves
5.4 Fin del exilio: vuelta definitiva a Deià (Mallorca) 1946-1985
DA TRANSIÇÃO
A seleção natural atua apenas pela conservação das modificações vantajo- sas; cada nova forma, sobrevindo numa localidade suficientemente povoada, ten- de, por conseqüência, a tomar o lugar da forma primitiva menos aperfeiçoada, ou outras formas menos favorecidas com as quais entra em concorrência, e termina por exterminá-las. Assim, a extinção e a seleção natural vão constantemente de acordo. Por conseguinte, se admitimos que cada espécie descende de alguma força desconhecida, esta, assim como todas as variedades de transição, foram exterminadas pelo fato único da formação e do aperfeiçoamento de uma nova forma.
Mas porque não encontramos nós freqüentemente na crosta terrestre os restos destas inumeráveis formas de transição que, segundo esta hipótese, devem ter existido? A discussão desta questão encontrará melhor lugar no capítulo relati- vo à imperfeição dos documentos geológicos; limitar-me-ei a dizer aqui que os documentos fornecidos pela geologia são infinitamente menos completos do que se crê ordinariamente. A crosta terrestre constitui, sem dúvida, um vasto museu; mas as coleções naturais provindo deste museu são muito imperfeitas e têm sido reunidas além disso com longos intervalos.
Como quer que seja, objetar-se-á sem dúvida que devemos encontrar certamente hoje muitas formas de transição quando muitas espécies próximas habitam uma
mesma região.
Tomemos um exemplo muito simples: atravessando um continente de norte a sul, encontra-se ordinariamente, com intervalos sucessivos, espécies muito pró- ximas, ou espécies representativas, que ocupam evidentemente pouco mais ou menos o mesmo lugar na economia natural do país. Estas espécies representati- vas encontram-se muitas vezes em contato e confundem-se mesmo umas com outras; pois, à medida que uma se torna cada vez mais rara, a outra aumenta pouco a pouco e acaba por substituir a primeira. Mas, se nós compararmos estas espécies onde elas se confundem, não são em geral tão absolutamente distintas umas das outras, por todas as particularidades de conformação, como o podem ser os indivíduos tomados mesmo no centro da região que constitui o seu habitat ordinário. Estas espécies próximas, na minha hipótese, descendem de uma ori- gem comum; durante o decorrer das suas modificações, cada uma delas deve ter- se adaptado às condições de existência da região que habita, deve ter suplantado e exterminado a forma original semelhante, assim como todas as variedades que formam as transições entre o seu estado atual e os seus diferentes estados ante- riores. Não se deve esperar encontrar atualmente, em cada localidade, numerosas variedades de transição, posto que devam ter existido e que possam estar aí en- terrados no estado fóssil. Mas porque se não encontram atualmente, nas regiões intermediárias, apresentando condições de existência intermediárias, variedades ligando intimamente umas às outras as formas extremas? Eis uma dificuldade que me embaraçou durante muito tempo; mas pode explicar-se, creio eu, até certo ponto.
Em primeiro lugar, é necessário evitar concluir que uma região foi contínua durante longos períodos, porque assim o é hoje. A geologia parece demonstrar- nos que, mesmo durante as últimas partes do período terciário, a maioria dos con- tinentes eram divididos em ilhas nas quais as espécies distintas podiam formar-se separadamente, sem que as variedades intermediárias pudessem existir nas zo- nas intermediárias. Em seguida a modificação na forma das terras e as alterações climatéricas, as superfícies marinhas atualmente contínuas devem ter existido muitas vezes, até uma época recente, num estado muito menos uniforme e muito
menos contínuo que ao presente. Mas não insisto sobre este meio de evitar a difi- culdade; julgo, com efeito, que muitas espécies perfeitamente definidas são for- madas nas regiões estritamente contínuas; mas creio, por outra parte, que o esta- do outrora dividido de superfícies que não fazem hoje mais do que uma, represen- tou um papel importante na formação de novas espécies, sobretudo nos animais errantes que se cruzam facilmente.
Se observamos a distribuição atual das espécies sobre um vasto território, vemos que são, em geral, muito numerosas numa grande região, que depois se tornam de repente cada vez mais raras sobre os limites desta região e que termi- nam por desaparecer. O território neutro, entre duas espécies representativas, é pois geralmente muito estreito, comparativamente ao que é próprio a cada uma delas. Observamos o mesmo fato fazendo a ascensão de uma montanha; Alphon- se de Candolle fez notar com que rapidez desaparece por vezes uma espécie al- pina comum. As sondagens efetuadas à draga nas profundezas do mar fornecem resultados análogos a E. Forbes. Estes fatos devem causar alguma surpresa à- queles que consideram o clima e as condições físicas da existência como os ele- mentos essenciais da distribuição dos seres organizados; porque o clima, a altitu- de ou a profundidade variam de maneira gradual e insensível. Mas se pensarmos que cada espécie, mesmo no seu centro especial, aumentaria imensamente em número sem a concorrência que lhe opõem as outras espécies; se nós pensarmos que quase todas servem de presa às outras ou lutam entre si; se nós pensarmos, enfim, que cada ser organizado tem, direta ou indiretamente, as relações mais íntimas e mais importantes com os outros seres organizados, é fácil compreender que a extensão geográfica de uma espécie, habitando um país qualquer, está lon- ge de depender exclusivamente das mudanças insensíveis das condições físicas, mas que esta extensão depende essencialmente da presença de outras espécies com as quais se encontra em concorrência e que, por conseguinte, ou lhes serve de presa, ou a ela servem de presa. Ora, como estas espécies são por si mesmas definidas e se não confundem por gradações insensíveis, a extensão de uma es- pécie qualquer dependendo, em todos estes casos, da extensão das outras, tende a ser por si mesma nitidamente circunscrita. Além disso, sobre os limites do seu
habitat, aí onde existe em menor número, uma espécie está extremamente sujeita a desaparecer em seguida às flutuações no número dos seus inimigos ou dos se- res que lhe servem de presa, ou ainda com as mudanças na natureza do clima; a distribuição geográfica da espécie tende então a definir-se ainda mais manifesta- mente.
As espécies vizinhas, ou espécies representativas, quando habitam uma região contínua, são ordinariamente distribuídas de tal maneira que cada uma de- las ocupa um território considerável e havendo entre elas um território neutro, comparativamente estreito, no qual se tornam de repente cada vez mais raras; as variedades não diferindo essencialmente das espécies, a mesma regra se lhes aplica provavelmente. Ora, no caso de uma espécie variável habitando uma região muito extensa, teremos de adaptar duas variedades a duas grandes regiões e uma terceira variedade a uma zona intermediária limitada que as separe. A varie- dade intermediária, habitando uma região restrita, é, por conseqüência, muito me- nos numerosa; ora, tanto quanto o posso julgar, é o que se passa entre as varie- dades no estado da natureza. Pude observar exemplos admiráveis desta regra nas variedades intermediárias que existem entre as variedades bem talhadas do gênero Balanus. Resulta também dos documentos que me transmitiram M. Wat- son, o Dr. Asa Gray e M. Wollaston, que as variedades ligando duas outras formas quaisquer são, em geral, numericamente menos numerosas que as formas que elas ligam. Ora, se podemos confiar nestes fatos e nestas induções, e concluir que as variedades que ligam outras existem ordinariamente em menor número que as formas extremas, devemos compreender igualmente por que as variedades inter- mediárias não podem persistir durante longos períodos, e por que, em regra geral, são exterminadas e desaparecem mais depressa que as formas que ligavam pri- mitivamente entre si.
Já vimos, com efeito, que todas as formas numericamente fracas correm mais risco de ser exterminadas do que as que compreendem numerosos indiví- duos; ora, neste caso particular, a forma intermediária está essencialmente expos- ta às invasões das formas muito próximas que a circundam de todos os lados. Há, além disso, uma consideração muito mais importante: é que, enquanto se execu-
tam as modificações que, pensamos nós, devem aperfeiçoar duas variedades e convertê-las em duas espécies distintas, as duas variedades que são, numerica- mente falando, as mais fortes e que ocupam um habitat mais extenso, têm gran- des vantagens sobre a variedade intermediária que existe em pequeno número numa estreita zona intermediária. Com efeito, as formas que compreendem nume- rosos indivíduos têm mais probabilidade do que as formas menos numerosas de apresentar, num tempo dado, mais variações à ação da seleção natural. Por con- seqüência, as formas mais comuns tendem, na luta pela existência, a vencer e a suplantar as formas menos comuns, porque estas últimas modificam-se e aperfei- çoam-se mais lentamente. É em virtude deste princípio, julgo eu, que as espécies comuns em cada país, como vimos no segundo capítulo, apresentam, em média, um maior número de variedades bem definidas do que as espécies mais raras. Para bem fazer compreender a minha opinião, suponhamos três variedades de carneiros, uma adaptada a uma vasta região montanhosa, a segunda habitando um terreno comparativamente restrito e acidentado, a terceira ocupando as planí- cies extensas que se encontram na base das montanhas. Suponhamos, além dis- so, que os habitantes destas três regiões empregam mil cuidados e inteligência para melhorar as raças pela seleção; as probabilidades de bom êxito são, neste caso, todas em favor dos grandes proprietários da montanha ou da planície e de- vem chegar a melhorar os seus animais muito mais prontamente que os pequenos proprietários da região intermédia mais restrita. Por conseguinte, as melhores ra- ças,da montanha e da planície não tardarão a suplantar a raça intermediária me- nos perfeita, e as duas raças, que eram na origem numericamente mais fortes, encontrar-se-ão em contato imediato, tendo a variedade desaparecido diante de- las.
Para resumir, creio que as espécies chegam a ser assaz bem definidas e a não apresentar, em momento algum, um caso inextricável de formas intermediá- rias.
1º) Porque as novas variedades se formam muito lentamente. A variação, com efeito, segue uma marcha muito lenta e a seleção natural nada pode, até que se apresentem diferenças ou variações individuais favoráveis, e até que se encontre,
na economia natural da região, um lugar que melhor possam preencher alguns dos seus habitantes modificados. Ora, estes novos lugares produzem-se apenas em virtude de mudanças climatéricas muito lentas, ou depois da emigraÇão aci- dental de novos habitantes, ou talvez, e numa escala maior, porque, modificando- se lentamente alguns dos antigos habitantes, as antigas e as novas formas assim produzidas atuam e reagem umas sobre as outras. Resulta disto que, em todas as regiões e em todas as épocas, devemos encontrar apenas poucas espécies apre- sentando ligeiras modificações, permanentes até um certo ponto; ora, é este cer- tamente o caso.
2º) Porque as superfícies hoje contínuas, devem ter uma época comparativamente recente, existindo como partes isoladas sobre as quais muitas formas, mais parti- cularmente entre as classes errantes e aquelas que se copulam para cada ninha- da, puderam tornar-se assaz distintas para ser consideradas como espécies re- presentativas. Neste caso, as variedades intermediárias que ligam as espécies representativas à origem comum deviam algumas vezes existir em cada uma des- tas estações isoladas; mas estas cadeias foram exterminadas pela seleção natu- ral, de tal maneira que se não encontram mais no estado vivo.
3º) Logo que duas variedades ou mais se formaram em diferentes partes de uma superfície estritamente contínua, é provável que as variedades intermediárias se formassem ao mesmo tempo nas zonas intermediárias; mas a duração destas es- pécies deve ser de ordinário muito curta. Estas variedades intermediárias, com efeito, pelas razões que já demos (razões tiradas principalmente do que nós sa-
bemos sobre a distribuição atual de espécies muito próximas, ou espécies repre- sentativas assim como a das variedades reconhecidas), existem nas zonas inter-
mediárias em menor número do que as variedades que elas ligam entre si. Esta única causa bastaria para expor as variedades intermediárias a um extermínio a- cidental; mas é, além disso, quase certo que devem desaparecer ante as formas que ligam à medida que a ação da seleção natural se faz sentir mais; as formas extremas, com efeito, compreendendo um maior número de indivíduos, apresen- tam em média mais variações e são, por conseqüência, mais sensíveis à ação da seleção natural, e mais dispostas a um melhoramento ulterior.
Enfim, considerando agora não um tempo dado, mas o tempo tomado no seu todo, deviam certamente existir, se a minha teoria é fundada, inumeráveis va- riedades intermediárias ligando intimamente umas às outras as espécies de um mesmo grupo; mas a marcha única da seleção natural, como temos feito tantas vezes lembrar, tende constantemente a eliminar as formas parentes e os fuzis in- termediários. Poderia encontrar-se a prova da sua existência passada apenas nos restos fósseis que, como tentaremos demonstrá-lo no capítulo subseqüente, ape- nas se conservam de uma maneira extremamente imperfeita e intermitente.
DA ORIGEM E DAS TRANSIÇÕES DOS SERES ORGANIZADOS TENDO UMA CON-