1960-1964 - A Manha no Última Hora
Com o crescimento da importância de S.Paulo no cenário nacional, havia ali uma efervescência cultural proporcional ao surto de de- senvolvimento econômico — a industrialização do pós- guerra —, e com certeza também havia uma recepti- vidade grande para jornalis- tas, intelectuais e artistas na província emergente. Assim, assistimos nos anos 40, 50 e 60 um aumento do inten- so intercâmbio cultural entre S.Paulo e Rio, em todas áre- as culturais; intercâmbio este, amplificado com o apa- recimento da televisão.
Com o “bafafá” que hou- ve no Rio, o fechamento do Partido, o crescimento do sentimento anti-comunista, a guerra fria; o Barão muda- se para S.Paulo. Desde os anos 40 ele já vinha amadu- recendo a idéia, junto com Guevara, de fazer um alma- naque do A Manha, pois os
dois acreditavam que seria um bom negócio. Com a aju- da de amigos, ele se esta- belece e consegue, através de um hábil trabalho de ven- das de publicidade, fazer o primeiro Almanhaque, o Al- manhaque para 1949.
Essa velha idéia, burilada por alguns anos, fez Guevara trazer da Argentina al- guns colaboradores, talentosos desenhistas, os quais seriam o embrião da grande equipe que ele criou para Samuel Wainer no Última Hora, três anos depois. Entre eles estava Molas, um argentino, que criou os mascotes, em personagem de qua- drinhos, para os times de futebol do Rio: o Popeye para o Flamengo, o Pato Donald para o Botafogo, etc; e um uruguaio, o Lan, consagrado como figura típica do Rio, é o nosso cartunista da mulatas.
O Almanhaque é, em primeiro lugar, uma sátira e uma paródia dos almanaques franceses, canadenses e norte-americanos, tais como o Reader Digest’s, que inun- daram o mundo no pós-guerra, e alguns ainda continuam a ser publicados, caso do exemplo supra citado. Mas também há um cunho de originalidade na abordagem da dupla Barão-Guevara e, Fortuna afirmava que o primeiro Mad do Harvey Kurtzman (que foi quadrinizado no final da década de 60 e está ai nas bancas ainda) tem a mesma fórmula (paródia humorística) dos Almanhaques, entretanto começa a ser publicado no ano de 1962, indicando o pioneirismo do Barão no nonsense impresso. E o Almanhaque foi um grande sucesso e rendeu ao Barão a possibilidade de reeditar o A Manha, agora na versão São Paulo-Rio. De maneira inconstante, o
jornal nunca mais adquiriu a mesma periodicidade sendo publicado por ele mesmo até 1959. E, saiu de 1950 a 1954 ilustrado exclusivamente por Otávio; apesar de, no exemplo abaixo — a primeira edição paulista —, nos remeter ao traço de Molas.
Nestas edições prescindimos do requinte de Guevara e os cabeçalhos foram elaborados por Otávio; imagino que sob orientação do Barão, por que nos remetem às versões anteriores e, os elementos que foram incorporados nesta fase, se man- tém posteriormente com o “retorno” (ou visitas esparsas) de Guevara de 1955 a 59. A troca de Designer trouxe um novo aspecto para o jornal, mas não o alterou em linhas gerais, senão que o simplificou, atendo-se a alguns elementos que o consa- graram no passado. Pela juventude de Otávio, a plástica do jornal também foi altera- da e burilada, com felizes resultados, como veremos adiante.
A caricatura do persona- gem Barão de Itararé apa- rece pela primeira vez de corpo inteiro e em destaque ao lado do título, anuncian- do a direção não mais de Apporelly e sim do próprio Barão. A brincadeira do pri- meiro A minúsculo, ampliado para acompanhar o M maiúsculo de Manha volta, as- sim como o subtítulo “órgão de ataques... de riso” retorna à cena numa fonte sem serifa manuscrita. Uma fonte serifada manuscrita e itálica compõe o título, lembran- do uma caligrafia estilizada sobre uma linha imaginária oblíqua.
Apenas um traço grosso em meio tom forma a caixa em volta do nome A Manha (provavelmente feito com letraset, arrematado com nanquim) aplicado no fundo bran- co, com a caricatura e uma bandeirinha do lado direito (onde o texto começa com uma caligrafia e termina com tipos sem serifa); preenchendo toda a largura da caixa de colunas do jornal. Abaixo, encerrado entre dois fios retos e finos (1 ponto +ou-), o número, a data e o ano da publicação alinhados e centralizados, completam o cabeçalho. Acima do cabe- çalho, é retomada a manchete principal da edição ou o reca- do do Barão. A presença do desenho do Barão, com barba e óculos, meio de pijamas, camiseta, etc, dá o tom do persona- gem, que, a esta al- tura, já tinha uma imagem super cris- talizada na memória do público. Os velhos cola- boradores cariocas, no caso ao lado, o saudoso Nássara (Charge à direita da capa e ampliada sobre a mesma no exemplar datado de março de 1952), continuavam cola- borando com Aporelly na Pauli- céia.
Em outubro daquele mesmo no ano, Otávio promoveria uma mudança no cabe- çalho, chegando a um dos mais interessan- tes resultados ao usar quase todos elemen- tos de mudança destes através da história do jornal.
A primeira letra A do título sobe para a linha de cima, o subtítulo pula para dentro do conjunto principal num balão. A fonte numa letra moderna, itálica e caligráfica, dão grande movimento a tudo. A caixa de fundo texturizada com linhas paralelas re- alça o título, que se apresenta em outline com sombra, utilizando o branco como cor sólida do tipo. À direita mantém-se a cari- catura do Barão com a plaquinha informan- do a sua própria direção também em letras
brancas vazadas no fundo preto chapado deste retângulo. Arrematando, ao pé, um fio grosso (2 ou 3 pontos), os dizeres de praxe alinhados e centralizados e em fonte “Times”. A idéia de selo é retomada, mas com uma volumetria inédita e interessan- te, talvez um pouco exagerada em dimensões, mas nem por isso incompatível ou comprometedor — porém menos versátil. O resultado é uma composição alegre e pertinente, que mostra todo o talento de Otávio.
Nessa fase, temos a impressão de que o sucesso de vendas de banca e de publicidade determinaram a periodicidade do jornal e parece que o Barão só pensa- va em outro número quando o dinheiro da edição anterior havia se esgotado. FI- GUEIREDO (op.cit) afirma que o A Manha pára de circular em 1952, mas mostra-
mos que isso não é verdade, pois saíram números de 1950 a 1959, alternando a parceria entre Guevara e Otávio, e sempre mantendo uma linguagem moderníssima.
Em 1955, foram editados dois Almanhaques, o do primeiro semestre em parce- ria com Guevara e equipe, e o do segundo semestre em parceria com Otávio, prin- cipalmente (este número, na verdade, saiu no começo de 1956). Desde 1949, Gue- vara vivia numa ponte área entre Rio e Buenos Aires (entre o Última Hora e o Clarín), e este ritmo intermitente do Barão coadunava-se com a rotina do talentoso amigo. O sucesso do primeiro Almanhaque alavancou as publicações de Apporelly por cin- co anos (1949/54). Em 1950, o Barão trabalhou na Folha da Manhã de Otávio Frias, dirigindo um caderno especial que se chamava Folhinha da Manhã, dirigido ao públi- co infanto-juvenil.
Pelas conversas que tivemos com Otávio, soubemos também que o Barão fazia um programa de rádio em S.Paulo e ele aparece, num desenho de Otávio, na última página do Almanhaque 1955 - Segundo Semestre falando num microfone num, es- túdio de rádio — parece que haviam propagandas pelas ruas do centro de S.Paulo, nas proximidades de seu escritório na Rua Quirino de Andrade, com displays em tamanho natural da caricatura do Barão, anunciando o programa —, mas não temos maiores detalhes sobre esta atuação, nem sabemos que estação de rádio era essa; demandando uma pesquisa complementar para maiores esclarecimentos.
O desenhista Otávio (em entrevista publicada na apresentação da reedição do Almanhaque 1955 2o semestre, Studioma, S.Paulo, 1995) , também, trás outro es-
clarecimento que derruba a versão de FIGUEIREDO, a de que Apporelly pagava sempre suas contas. Provavelmente, FIGUEIREDO estava apoiado na versão de Arly Torelly (filho do Barão que sempre trabalhou com ele no Rio), seu principal depoente. Mas isso não é verdade, pois os colaboradores de suas publicações qua- se sempre trabalharam na base da amizade. Para nós isso não é demérito, pois o que ele fazia por milhões de brasileiros poderia muito bem ser respaldado no traba- lho de alguns compatriotas; que o faziam com muita honra, aliás. Ademais, todo mundo sabia disso e era mais um motivo de troça, pois, mesmo os credores, tinham prazer em lhe emprestar dinheiro a fundo perdido! FIGUEIREDO (op.cit.) recupera algumas dessas memoráveis histórias, as quais fariam inveja até aos irmãos Marx — outros tempos, outro humor! Para os interessados é só conferir: a “bondade” do Barão suplantava em demasia o detalhe material em sua atuação altamente huma- nista. Exceto, é claro, para aqueles que acham que o dinheiro está acima da ética, da verdade, da justiça, de Deus e do diabo. O Barão nunca se escondeu, e, ao ser inquirido não pestanejava, e se comprazia ao afirmar: “ Sou marxista sim, da tendên- cia Grouxo!”
E as mazelas financeiras do Barão, por perseguição política ou ideológica, não param ai e em S.Paulo ele também se valeu das amizades influentes com high society para sobreviver. Hoje, pessoas como Lila Byington, esposa de Paulo Egídio Martins, nos procuram para contar casos e passagens sobre a vida dele, engrossan- do o extenso anedotário do hilário fidalgo-de-araque. Uma passada de vista nas pu- blicidades dos Almanhaques nos dá um pano-
rama de seu trânsito amplo e irrestrito por to- das tendências políticas, passando por empre- sas de conhecidos comunistas a reconhecidos direitistas, como fazia anteriormente no Rio. Sua amizade com comunistas notáveis, tais como o pintor Cândido Portinari e o físico Mário Sheimberg, com certeza devem ter-lhe facili- tado a vida na paulicéia.
Sempre em dia com os acontecimentos do momento, a capa do Almanhaque 1955 primeiro semestre, premonitóriamente, trazia Jânio Quadros, o homem da vassoura, montado num jegue, a caminho do “Palácio do Catete”. Nesse número é repetida a frase “era só o que faltava...” (a frase foi introduzida no Almanhaque para 1949), também em caligrafia, na capa; e acompanharia o A Manha até sua última
versão no Última Hora nos começo dos anos 60.
Guevara apresenta as tarjas de cores chapadas em laranja e preto (a exemplo do número anterior) que definiriam o moderno estilo dos últimos números do A Manha, e mistura a tipologia sem serifa com caligrafia, dando um tom de intimida-
de, informalidade, jovialidade e irreverência à esta versão.
Os desenhos e fotos retocadas do miolo, realizados em sua maioria pelo próprio “Gue”, dividem a autoria com Molas, Pedro de Lara (que publicou no Estadão até o começo dos anos 70) e a jovem Hilde Weber, que alternava seus trabalhos de cerâ- mica com o bico de pena que lhe renderam o sustento até os últimos dias de vida. O projeto gráfico deste Almanhaque dividia as páginas em duas ou três colunas, conforme a conveniência das matérias, trazendo no topo o número da página nos cantos exteriores e dentro, do lado par Almanhaque 1955 e do lado ímpar, 1o semes-
tre. No pé vinham frases nonsense, relacionadas, em sua maioria, com a matéria ou a publicidade da própria página, divertindo os leitores rápidos e preguiçosos.
No Almanhaque de 1955 segundo semestre, Otávio redesenha o cabeçalho que satiriza a revista Manchete de Adolfo Bloch, com o M maior e em vermelho, já apresentado por Guevara na versão em preto e branco, na pg. 5, do Almanhaque anterior. E apresenta o desenho do monstro de 3 corações, o recém eleito Presiden- te Juscelino Kubischek (que era nativo da cidade de Três Corações em MG).
Neste Almanhaque é introduzida a segunda cor, que variava a cada caderno em combinação com o preto, sempre na linguagem tipográfica. Assumindo de vez a paródia dos Almanaques estrangeiros, o formato é reduzido (nos outros dois Alma- nhaques o formato é 21 X 28 cm e neste é reduzido para 14 X 21 cm), as matérias de variedades aumentam e as publicidades ganham um índice.
O retorno de Guevara ao A Manha em 1955, brindou o leitor com um belo
desenho a quatro cores, de página inteira, na capa; onde o tema é Brasília — o projeto da nova Capital Federal —, onde os personagens procuram o Dr. Israel Pi- nheiro na barriga da onça, no cerrado do Planalto Central. O cabeçalho, parte do desenho, é muito simples e repete a fórmula anterior do A minúsculo ampliado e na mesma fonte geométrica de grossas serifas retangulares, tudo em negrito, redese- nhado à mão e vazado num retângulo vermelho, com dois pássaros sobrepondo-o levemente com as pontas de seus bicos. A melhor constatação que faço aqui é que realmente Guevara desenhavas as letras, copiando ou “inventando” formas novas e exclusivas para os cabeçalhos do A Manha.
Pela primeira vez este se apresenta inclinado, com a característica de selo, “mar- ca” ou logotipo, confirmando o A Manha, definitivamente, como espaço experi-
mental. A arte de Guevara, com aguadas em aquarela e bico de pena, parece que anunciavam o aparecimento da caneta hidrocor, muito usada pelos cartunistas atu- ais. Se atentamos para o processo gráfico utilizado, valorizaremos ainda mais a acui- dade do artista, pois tudo isso foi feito na tipografia, em cliché e a quatro cores (na mancha, como explicou o Sr. Nicolaiesvski). O excepcional neste desenho de capa são estas técnicas das cores na mancha, sem misturar as cores através de retículas, com o preenchimento em cores das áreas delimitadas pelos traços do desenho; como nos posteres xilográficos europeus do século XIX.
A linguagem que introduz grandes áreas de cor chapada, definindo e delimitan- do regiões, prepondera nesta capa de 27 de dezembro de 1956 (abaixo). O enqua- dramento da figura, debaixo para cima, ressalta bravamente a autoridade e a figura do Sr. Barão. A brincadeira com os tipos e estilos (variação de tamanho e família), a mistura com caligrafia e outros expedientes modernos, engajam o A Manha na
vanguarda da Arte Gráfica de seu tempo. O primeiro A minúsculo ampliado, mas mais baixo do que o M de manha é a fórmula do primeiro cabeçalho de 1926 (repe- tido outras tantas vezes anteriormente), e demonstra a intencionalidade e a coerên- cia de Gue. Isso também nos remete ao debate de Moholy-Nagy e seus companhei- ros de Bauhaus na proposta de eliminação das letras maiúsculas dos alfabetos: Gue- vara nunca se furtou de suas preocupações vanguardistas no debate sobre forma e função no Design. Encontrou seu laboratório numa publicação de Humor, alinhada com a esquerda perseguida — uma porteira aberta para desublimar a sua enorme criatividade sem amarras ou repressões.
Esta concepção de divisão do espaço em boxes e seções com re- tículas e fios de grossuras diversas é aplicada no projeto do Jornal da Tarde na segunda metade da déca- da de 60, que é até hoje o mais mo- derno jornal da imprensa diária bra- sileira em termos estéticos; o de maior legibilidade e o de melhor or- ganização visual. A Comunicação Vi- sual trazida pelo JT, do controvertido Rui Mesquita, é muito apreciada por seus assíduos leitores pela facilida- de de leitura e de localização facilita- da de seções e assuntos; demons- trando uma concepção infográfica do design. O formato conciso com que o jornal se apresenta no geral, sem- pre num ambiente resumido, super- ficial e digestivo, coaduna-se plena- mente com a linguagem telegráfica e o leitor preguiçoso ou ocupado. E cumpre a finalidade de dar conforto a esse leitor numa leitura realmente rápida e racionalizada, direta.
A alternância entre Guevara e Otávio, a partir dessa época, mostra o caráter pontual das edições do A Manha, sempre ligado a temas ou campanhas específi-
cas, sendo estas de caráter pessoal ou público. Também dá o tom de decadência e cansaço do velho Barão, mas ele não queria dar o braço a torcer e novas edições voltavam às ruas de vez em quando.
O “paulista de 400 dias”, ativista da API (Associação Paulista de Imprensa), não deu trégua a Jânio Quadros e sua vassoura movida a pinga e whisky, enquanto permaneceu em São Paulo. E sua militância, agora mais nos bastidores do que na linha de frente, o fez muito querido também na paulicéia.
Em termos estéticos, não existem mais mudanças significativas a serem apon- tadas, terminando por aqui a verve criativa do Barão e seus parceiros. Mas novos desenhistas, de novas gerações ainda frequentariam as páginas do A Manha, ago-
ra, por status e reconhecimento, pagando seu tributo a esse mestre do nonsense. Contudo, sua colaboração já estava mais do que realizada e nenhum jornal de humor sobreviveu durante tantas décadas, com tanto sucesso.
Acreditamos que esta longevidade do A Manha também tenha a ver com a
dinâmica apresentação plástica que este sempre ostentou. Se é verdade que o de- sign ruim leva o público à revolta, ao vandalismo e à depredação (pelo menos, é a crítica que se faz aos orelhões da telesp, por exemplo: se chove o usuário se molha; faz mais barulho dentro do que fóra, etc, etc), na Arte Gráfica o equivalente seria o encalhe da publicação, refletindo uma baixa venda direta (de leitores não assinan- tes, ou seja, da venda avulsa nas bancas de jornal). E isso nunca houve com o ”úni- co quintaferino que sai aos sábados”, tendo sempre seu sucesso garantido.
Isso nos mostra que aqueles que perdem seu tempo valori- zando e copiando as criações norte-americanas e japonesas, que, por sua vez, copiaram qua- se tudo dos europeus, estão enganados — grassaram na pi- lhéria do aperfeiçoamento, pois as idéias que tiveram, alheias lhes foram. O foco de nossa memória deve ser nítido, recor- rendo-se a outros expedientes quando não há alternativa. Mes- mo sabendo que a Arte Gráfica, tendencialmente, alimente-se de suas próprias tradições, copian- do e recriando o arquiconhecido. Sem xenofobismos, o exem- plo cubano nos mostra que mes- mo sob severo embargo, uma nação é capaz de suplantar o ostracismo e produzir Cultura e Ciência de alto nível, original e de ponta. Outrossim, cairemos nas armadilhas mais banais. Meu alerta é para coisas obs-
curas. Má fé? Sim, esta é a tônica do sistema do Tio Sam nas suas relações internacionais, como fri- sou o escritor Gore Vidal (de nacio- nalidade norte-americana) recente- mente. E como disse Fidel Castro em uma entrevista para a Folha de S.Paulo em 2002, “Esta democra- cia que aí está não interessa ao povo cubano... que detesta ser en- ganado”.
Por isso, paciente leitor, não seja enganado e não se engane. Antes atirar ao fogo da lareira es- tas mal traçadas abobrinhas, vire- se e mire-se no exemplo criativo da nossa nobreza tupiniquim: pode abrir a porteira, que deste chiquei- ro sai porco sim. Porcaria por por- caria, ficamos com a nossa mes- mo e sem inveja da deles por ser ela maior, viu.
Brincadeiras e ironias à parte (me perdoe a academia), quero auferir o verdadeiro valor da memória cultural e, é claro, quando esta é realmente rele- vante: para apurar o discernimento e não embarcar nas vigarices que, mes- mo à custa de fortes náuseas, muitas vezes somos obrigados a engolir.
A passagem final do Barão pelo Última Hora, de novo, mostrou fôlegos insuspeitos em seu retorno ao Rio, em 1960. Ali ele publicou até 1964: até 1962 com materiais inéditos e depois com materiais antigos do A Manha e
dos Almanhaques.
Em 1963, viajou para Pequim, com passagens por Praga e Moscou, a con- vite do governo Chinês. Logo depois, perde a sua quarta esposa, Aida Cos- ta; a qual tem uma morte trágica ao atear fogo às vestes em plena praia do Flamengo em 65. Em 1964 ainda tem forças para depor na Justiça Militar a favor dos integrantes da missão comercial Chinesa, todos acusados de tentar matar Carlos Lacerda: mais uma imundície plantada pela imprensa marrom para “puxar o saco” dos milicos, vergonhosamente desmascarada em público, no Tribunal, e que atrapa- lhou as relações comerciais do Brasil com o maior mercado consumidor do planeta: os chineses eram todos diplomatas… pessoas cultas e bem formadas, e falavam um português perfeito.
Sempre de paletó, colarinho aberto e tênis conga, o hilário, barbudo e velhinho humorista dedica-se aos seus horóscopos biônicos e aos quadrados mágicos com afinco e solidão no final dos anos 60. Seu retorno ao Rio, em 1960, seria definitivo, onde reside até 1971, quando faleceu. Mas sua obra vive e sobrevive a aculturação, nos dando o melhor e o mais patriótico dos exemplos.