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além de descrição superficial, onde prevalece a técnica. A descrição densa leva em consideração as variadas estruturas conceituais e significativas que moldam as ações humanas. Assim, o que interessa não é apenas interpretar ou explicar os fatos isolados, mas dos conjuntos em que se constroem.

Nessa pesquisa, com a concepção etnográfica realizamos uma descrição sobre o jeito e modo de viver dos comunitários de Canto Verde, bem como sua organização social, cultural e histórica, onde procuramos perceber detalhes a partir do envolvimento com os sujeitos e seu cotidiano. Desse modo, dialogamos com os elementos da etnografia também considerados por André (2009, p.28),

A etnografia é um esquema de pesquisa desenvolvida pelos antropólogos para estudar a cultura e a sociedade. Etimologicamente etnografia significa ‘descrição cultural’. Para os antropólogos, o termo tem dois sentidos (1) um conjunto de técnicas que eles usam para coletar dados sobre os valores, os hábitos, as crenças, as práticas e os comportamentos de um grupo social; (2) um relato descrito resultando do emprego dessas técnicas. (ANDRÉ, 2009, p. 28).

Etnografia significa “descrição ou estudo cultural” e em acordo com o que diz Triviños (2008, p. 121), o papel do etnógrafo “não é tanto estudar a pessoa, e sim apreender das pessoas”. Nesse caminho buscamos apreender as pessoas, e a partir disso a cultura delas, o jeito de viver, os processos construídos de luta e resistência ao longo do tempo e descrever esse cotidiano, sendo elas o principal objeto de análise.

Desvelar os resultados dessa escritura é nosso caminho.

2.4.2. O cenário da pesquisa

O lócus da pesquisa foi a Reserva Extrativista da Prainha do Canto Verde, comunidade que é gestada oficialmente por uma equipe do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade)um local considerado de território federal. Por isso, para que um pesquisador possa desenvolver um trabalho de investigação nesse espaço é necessário realizar primeiramente uma inscrição no SISBIO1 (Sistema de Autorização e Informação em

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O Sisbio – Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade, foi implementado em 2007 com o objetivo de permitir aos pesquisadores, a solicitação à distância de autorizações para a realização de pesquisas e a coleta de material biológico em todo o território nacional, sobretudo aquelas com espécies ameaçadas, em unidades de conservação federais ou cavernas. Desde sua implementação, graças a seu formato automatizado, interativo e simplificado, o Sisbio melhorou significativamente o atendimento e a prestação de serviços junto aos pesquisadores e a interação entre estes e os gestores. Atualmente, há 29.744 pesquisadores cadastrados no sistema. Fonte: http://www.icmbio.gov.br/sisbio/

Biodiversidade) colocando em um relatório online os objetivos, percurso metodológico, entre outros pontos importantes do seu projeto de pesquisa.

Após esse feito, uma equipe da comunidade, ou melhor, representantes do Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista compondo um grupo com comunitários, o chefe da Reserva Extrativista, representante do Conselho de Educação e da Universidade Federal do Ceará, que têm acentos no conselho, avaliam o tipo de pesquisa e se esta está viável ou não para ser executada em uma Unidade de Conservação, após essa análise é emitido um parecer que pode ser favorável ou não para o pesquisador. Caso a pesquisa seja aceita, recebendo este parecer o pesquisador fica apto a iniciar sua pesquisa de campo.

Antes do início da pesquisa foram realizados esses trâmites legais para que o projeto fosse analisado, e assim, a pesquisa pudesse ser realizada com base legal. Neste processo, o parecer foi favorável à execução do trabalho (número da autorização: 55442-1).

Em reunião do Conselho Deliberativo, quando eu ainda era conselheira representando a juventude da comunidade, ficou acordado que o pesquisador tem o dever de apresentar os objetivos de sua pesquisa em reunião do mesmo, tendo em vista disseminar a informação para que os moradores saibam o que o pesquisador está fazendo na comunidade. Outro ponto acordado entre os comunitários, é que após a conclusão do trabalho, o pesquisador deve voltar e apresentar seus resultados, deixando cópias de sua pesquisa.

Esses procedimentos objetivam mais cuidado com as pesquisas realizadas na comunidade, uma vez que pesquisadores já adentram a localidade sem que seus moradores soubessem quem é e no que procedia a sua pesquisa.

Por ser nativa de Canto Verde pude está presente em muitos momentos significantes como reuniões, eventos e sempre em contato com o cotidiano da comunidade. No entanto, iniciei a fundo a pesquisa, após a qualificação do projeto e o parecer favorável do SISBIO, isso a partir do mês de outubro de 2016.

O lugar da investigação se deu este na Reserva Extrativista da Prainha do Canto Verde, reitero, comunidade de pescadores e pescadoras que fica no município de Beberibe, estado do Ceará, a aproximadamente 110km da capital Fortaleza. Esta comunidade, como já citado neste trabalho anteriormente, tem uma história de luta e resistência pelo direito de permanecer em suas terras, porque especuladores imobiliários investem fortemente, desde a década de 80, suas forças e capital para tomar a terra dessa comunidade, com o objetivo de fazer daí local de lucro para suas empresas.

Assim, em todo esse tempo de luta, Canto Verde foi construindo uma história que possui sua exemplaridade e tem se tornando referência de organização para outras praias e comunidades que compartilham dos mesmos dilemas.

Portanto, o interesse nesse locus se deu a partir das minhas experiências de vida construídas nele, nativa que sou deste recanto do mundo. Por acreditar nesse jeito diferenciado de viver que a localidade em questão tem por compreender que é de extrema relevância dar voz a essa história e aos seus sujeitos, valorando e dando visibilidade a suas construções de saberes, é que tive Canto Verde como locus da minha pesquisa.

Sou sujeito também, desta pesquisa, e nela anotei minhas observações e lembranças, por meio do Diário de Campo, outro procedimento da investigação. Nativa dessa comunidade, como disse, desde criança estou junto à minha família e à comunidade como um todo, envolvida no processo da luta pelo lugar e vida em Canto Verde. Algumas vezes como membro da associação de moradores, outras vezes como professora da escola, outras como liderança juvenil, enfim, foram muitos e diversos caminhos que foram oportunizados a mim para trilhar caminhos em educação, aprendendo e compartilhando experiências na e com a comunidade.

Este vínculo com Canto Verde exigiu de mim, como pesquisadora, o exercício constante do distanciamento. Estranhar as situações mais comuns aos meus olhos, para que não passasse despercebido de mim detalhes relevantes, uma proposta que advinda do próprio modo etnográfico de olhar: pertencimento e estranhamento, esse duplo. Vivi este desafio, já que ao mesmo tempo em que pesquisei, fui pesquisada, já que estou inclusa como sujeito nesses processos.