É importante salientar que, para que exista uma melhor compreensão do presente é necessário voltar o olhar ao passado e perceber a construção dos processos que formam o
todo que somos hoje. Nesse intuito, pretendo nesta pesquisa sobre os saberes de vida no litoral, onde se focaliza a memória sobre a luta do povo do mar de Canto Verde, devo voltar ao passado, mirando-o com olhos de agora.
Ao trazermos os saberes de vida e experiência dos que se constituem sujeitos da
luta pelo lugar e cultura de Canto Verde, que possui uma histórica resistência pelo direito de permanecer em suas terras, buscamos a narrativa de moradores como Almeida (2014). Afirma a autora, em seu texto intitulado “A autoafirmação das Africanidades na Prainha do Canto
Verde: tirando o véu da invisibilidade da negritude”, a ideia de que esta aldeia de pescadores [Canto Verde] surgiu aproximadamente em 1850, quando negros libertos por um senhor de engenho por nome João Félix, em uma comunidade vizinha chamada Campestre da Penha, resolvem se instalar no território perto dali, à beira-mar para ali viverem da pesca.
Segundo os nossos avós esta comunidade começou a ser habitada no século XVIII, no período da libertação dos escravos que trabalhavam nas terras de um senhor de engenho num povoado vizinho hoje chamado Campestre da Penha. Estes ao serem libertos vieram morar nas terras onde mais tarde veio a ser chamada de Prainha do Canto Verde. Em conversa com os moradores mais velhos foi reconstituído que o casal Joaquim “Caboclo” Fernandes do Nascimento Girão (1853-1949) e a Maria da Conceição “Filismina” deram vida a doze filhos que constituem o núcleo original da comunidade [...]
E tudo começou quando “Zé Cariri” casou com Dona Chica Benvinda, irmã do Joaquim “Caboclo”, que junto com a esposa Filismina construíram a primeira casa de taipa na praia; então Zé Cariri logo depois veio morar aqui também, e Joaquim com Filismina tiveram 12 filhos dos quais descendem muitos moradores daqui, como Dona Josefa, Seu Teles e tia Joaquina, que são filhos do casal que ainda sobrevivem aqui. (Pescador, 68 anos de idade).
Ainda, segundo os nativos e encontrado esse fato no livro Nossa História3 (1998, p. 24) “um dos primeiros moradores da comunidade foi Raimundo Canto Verde. Ele e sua família eram escravos de um senhor de terras no Campestre da Penha e trabalhavam na agricultura; quando foram libertados vieram morar aqui”. O primeiro morador da vila, como visto acima, se chamava Raimundo Canto Verde, que Almeida (2014) refere ser o mesmo Joaquim Caboclo, que gerou os inícios do povoado. Também é sabido e registrado como história local, que o nome da comunidade se denomina de Prainha do Canto Verde por conta deste morador primeiro chamar-se Raimundo Canto Verde.
Aqui, os mais velhos contava que não tinha ninguém, aí depois foi que chegou esse tal de Raimundo Canto Verde para morar aqui. Tem gente que diz também que há muito tempo ele pescava por aqui, morava no Campestre e pescava aqui. Depois ele veio ser morador, dizem que foi depois que os escravos dessa região foram soltos,
3 O livro “Nossa História” foi elaborado por alunos e professores da Escola Bom Jesus dos Navegantes com a
assessoria do Instituto Terramar. Ele era utilizado na escola como instrumento pedagógico para conscientização e alfabetização das crianças tendo como base a história da comunidade.
ele veio. Dizem que o nome da nossa comunidade é Prainha do Canto Verde, porque como o nome dele era Raimundo Canto Verde, quando as pessoas vinham pra cá diziam: vamos para a praia do Canto Verde, que era a praia do Raimundo Canto Verde. Eles foram das primeiras famílias daqui, eles eram os caboclos que acho que usavam esse outro nome por lá. (Geraldinho).
Segundo ainda os relatos dos mais velhos foram possíveis reconstituir as primeiras famílias que habitaram Canto Verde.
O povo por aqui e os mais antigos contam que foi Joaquim Fernandes do Nascimento, mais conhecido como Joaquim Caboclo (1853-1949), casado com Filismina Maria da Conceição o mais puxado pra trás, no tempo; “Zé Cariri” e a senhora “Chica Bemvinda”, irmã de Joaquim Caboclo essas são consideradas as famílias originárias da comunidade. Joaquim Caboclo e Filismina geraram doze filhos que tempos depois passam também a ter suas famílias e o povoado passa a crescer.
Aqui era duna, céu e mar. E se vivia da pesca, era de onde se tirava a vida. Os homens iam para o mar, as mulheres consertavam o peixe, os meninos cresciam junto de um e de outro, ajudando. Era o tempo das agulhinhas. Não havia escola nem outra coisa. Era há muito tempo atrás. (Iaga).
Algum tempo depois chegam outras famílias na localidade como os Quinin, os Dantas, os Firminos e Correrias, advindas de comunidades vizinhas, que por necessidades de sobrevivência se instalaram no lugar, pelas facilidades que o mar proporcionava. Juntos, esses também passam a fazer parte das famílias que passam a construir suas vidas na comunidade da Prainha do Canto Verde. Isso, segundo Dona Josefa, (na comunidade chamada por todos de Tia Zefa) a moradora mais antiga da comunidade, filha de Joaquim Caboclo e Filismina. Com ela:
As pessoas nesse tempo era do Córrego do Sal, Campestre da Penha e começaram a passar aqui pela praia, andar pela praia, né, passaram a dar conhecimento e fazer casa. Nesse tempo as casa tudo era de palha, palha de coqueiro, que a gente fazia para morar... Aqui não tinha coqueiro nesse tempo, a gente tinha que comprar no Campestre; depois que o pessoal começou a plantar muito coqueiro aí”. (Tia Zefa, filha das primeiras famílias de Canto Verde, 90 anos de idade).
Para conseguiram outros alimentos como coco, farinha e legumes para compor a alimentação, os antigos moradores de Canto Verde realizavam trocas com os moradores de comunidades vizinhas, como Jardim, Campestre da Penha e Córrego do Sal. Diz Tia Zefa: “Aqui nós trocava muito também na Semana Santa era farinha, coco, muita melancia, batata que as pessoa trazia pra nós; aí nós dava peixe. Tinha essa troca”.
A vida desses moradores de Canto Verde era contada sempre se referindo à pesca:
Havia muito peixe... Era uma fartura, muito lagosto, que às vezes as pessoas nem queriam. Quando era tempo de inverno era tanto siri nessa praia... Aqui não dava pra ninguém morrer de fome não porque no mar, na praia tinha muita coisa. A gente só não tinha costume de plantar, diziam que a terra era ruim e o vento forte. Nem sei direito, mas a gente não plantava muito, não era costume. Aí partia a coisas que a
gente tinha com o pessoal que plantava das outras comunidades, aí tava todo mundo bem. Era assim. Hoje aqui o povo já planta e tem muita coisa no quintal, mas também não tem mais a fartura na praia como tinha antes (Chico Rosa, pescador, 69 idade).
Figura 13 - Josefa Fernandes do Nascimento (Tia Zefa), moradora mais antiga da Prainha, filha das primeiras famílias que habitaram a chamada Prainha do Canto Verde.
Fonte: Márcia Lima
O primeiro fato histórico documentado na comunidade é a viagem da chamada Jangada 7 de setembro, que partiu da Prainha do Canto Verde em 24/08/1928 com destino à Belém do Pará, tendo como intuito chegar à Belém no dia 07 de setembro de 1928, dia da proclamação de República. Após três paradas realizadas pela tribulação, os mesmos alcançam o objetivo de chagar a Belém no dia 07 de setembro.
Vários jornais da época, como o Jornal O Povo noticiaram o acontecimento em 29/08/1928 sobre os três bravos pescadores de Canto Verde: Bernardino Fernandes do Nascimento, filho de Zé Cariri (mestre de pesca, viveu de 1896 a1955); José Isidoro dos Santos, o “Deca” e Joaquim Fernandes do Nascimento. A tripulação realizou a viagem em uma jangada de piúba4.
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A jangada chamada de pau ou piúba, segundo pescadores entrevistados na comunidade, era feito por troncos de uma madeira chamada piúba que era trazida da Amazônia para o Ceará. Os rolos de pau chegavam desmontados em terra e os pescadores juntavam uns nos outros, fazendo a jangada. Ela não tinha proteção para chuva, era somente o casco, a vela e alguns apetrechos como banco, remo bolina, entre outros. Era uma embarcação bem mais vulnerável.
Figura 14 - Jangada de Piúba ilustrada por uma criança de Canto Verde, após ouvir as histórias dos pescadores, no momento da pesquisa.
Fonte: Márcia Lima
O finado Raimundo Aderaldo comprava as madeiras de piúba e vinha na costa, e o navio soltava a madeira no mar e os pescadores iam juntando na praia quando encalhava, a madeira era trazida pelas ondas do mar e quando chegava na beira da praia o povo pegava. Depois juntava os cinco paus, amarrava e faziam a jangada. Trazia a madeira em cima do navio cargueiro que vinha de viagem e traziam em cima que era para soltar. Aí ele saía.
Tinha no Iguape, o finado Dimar no Uruaú que era um homem rico, aí comprava dez, doze jangada, e vinha os paus contados deles. Comparação, se uma jangada fosse dez paus, aí vinha 100 paus para eles. Se o Raimundo Aderaldo tivesse vinte jangadas, aí vinha 200 paus pra ele. Era contada assim, porque uma jangada era 6 paus, cada jangada, as vezes eles compravam mais porque precisava de uma membura e de um borda, que ficava mais ruim, aí eles trocavam.
Então eles soltavam no mar, não tinha como o navio encostar no seco, soltava a madeira. O navio começava a soltar desde Fortaleza, passava no Iguape, e vinha nas outras praias soltando. O finado Raimundo Aderaldo soltava lá no Pontal do Maceió e encalhava toda na costa e nós juntava. Era desse jeito. Aí eu quisesse comprar uma jangada, aí no finado Raimundo Aderaldo. Se quisesse comprar uma jangada boa, aí eu ia lá no finado Raimundo Aderaldo e escolhia da primeira madeira. Eu alcancei jangada de piúba já no final, pesquei pouco tempo em jangada de piúba. (Chico Rosa, pescador, 68 anos de idade).
E o pescador descreve a jangada de piúba primeira embarcação dos moradores, tradição e história na pesca artesanal traz ainda todo um modo de se pescar e de se conviver com o mar.
A jangada de piúba era a remo. A jangada de piúba tinha que ser dois meios mais finos, dois bordos mais grossos e duas memburas, nem era grosso, nem era fino. Era feita de seis paus. Os paus não era amarrados, eles faziam os travos, que alguns chamavam de berrugas, tinha os travos que era pra furar os buracos das tapiba, aí furava os paus e colocava os travos. E pra ela não se abrir eles colocavam os arrochos, tinha os arrochos atrás ali.
No tempo que pescava jangada de piúba, que tinha muito peixe na costa, muito serra, de tudo tinha muito. No tempo de anzol, aí eles começavam a pescar mês de outubro, que era o mês da safra, aí pegava outubro, novembro, dezembro, janeiro, aí pronto, eles despregavam a jangada, faziam uma latada de palha e colocavam as jangadas debaixo, que era para enxugar, para quando fosse no outro ano pegar para pescar de novo na mesma época. Eles guardavam nessa época para não estragar a jangada na chuva, porque era no inverno, aí quando passava o inverno usavam de novo.
E quando não estava pescando na jangada de piúba, eles pescavam em botes pequenos de remo. Fazia de timbaúba e molungu, quemúfazia eram os moradores daqui mesmo. Traziam essa madeira da Serra do Félix, Saldinho e Umburanas, tinha pé de timbauba, tinha pé de molungú, então eles compravam a raís, e lá traziam de carga aí faziam os botinhos. Do mesmo jeito que faziam a jangada de piúba, eles faziam o botinho de timbaúba, só que era mais pequenos porque era pra remar. Era feita das raízes.
Antigamente as linhas de pescar eram feitas de fio, filha, quando a gente ia fazer as linhas, era uma festa, o povo aproveitava para beber, conversar, fazendo as linhas. Depois pintava com tinta de cajueiro. Tirava a casca do cajueiro botava no fogo e quando ela estava bem vermelha colocava as linha dentro, quando tirava ela ficava preta e roupa do pescador do mesmo jeito. Era pintada pra não se acabar logo, porque as linhas ralavam muito na embarcação, aí pintada demorava se acabar, então tendo a tinta conservava ela. Olha minha filha, a roupa do pescador ficava parecido com couro de um boi, eles colocavam na tinta e protegia a gente da chuva, porque nesse tempo não tinha nada proteger da chuva, ai eles usavam muitas roupas pintadas, quando não eram de mangues eram de cajueiro. Era uma realidade diferente, quando eu alcancei não tinha náilon, tudo era os pescadores que faziam mesmo (Chico Rosa, pescador, 68 anos de idade).
O fato também foi noticiado no Jornal do Norte (Belém) e no jornal Vida Praiana, informativo oficial mensal da Confederação dos Pescadores do Pará, onde ressaltou que viram “a inesquecível bravura de Dragão do Mar no arrojo nordestino nos pescadores Bernardino Fernandes do Nascimento e seus companheiros” e destacou ainda “que é uma afirmação do valor e da coragem de boa gente praiana”.
A viagem foi patrocinada pela sociedade Brasileira de Estivadores da Borracha do Pará; e os bravos pescadores retornaram de navio em 1º de outubro de 1928. Bernardino é considerado uma das primeiras lideranças da comunidade e sua esposa Lorentina foi a primeira professora da comunidade.
O finado Bernardino fez a casa dele de telha; foi a primeira; quem fez as telhas foi um homem da Lagoa de Dentro, eu me lembro como se fosse hoje... dele fazer essa casa de telha. O finado Bernardino fez a casa dele para ensinar, para ele ensinar e para a mulher dele ensinar também; uma casa que era para um colégio e uma que era para morar.
Ele casou com a finada Lorentina que o papai também criava. Papai criou eles dois, finado Bernardino e finada Lorentina. Aí ela se fez de moça refeita, foi ensinar, a professora era ela. Finado Bernardino ia pro mar, nunca professor ensinou ele, nunca... Ele botava a cartilha no bolso e levava pro mar, lá ele tirava de noite, ele lia aqueles nomes tudim, aí quando chegava em casa ele ia pro papel. Nunca ninguém ensinou ele. (Tia Zefa, noventa anos).
Figura 15 - Informativo Mensal da Confederação das Colônias de Pescadores do Pará.
Fonte: Arquivos da comunidade. Vida Praiana, n. 4, I, Set/1928, p.7
Como a comunidade era praiana o primeiro espaço construído para a coletividade foi a Colônia de Pescadores, isso por volta de 1940, vejamos:
A colônia era uma casa de taipa que por muito tempo foi o lugar que os moradores se encontravam. Era tipo o centro comunitário de hoje, era o ponto de encontro, num tinha outro canto né? (Risos). Lá cuidava das coisas da gente pescador e também o povo fazia novenas, missas. Aí depois como aqui não tinha escola, começaram a usar a colônia para escola também. Mas sabe onde a colônia ficava? Ficava ali pela Caucaia, Zona Norte. Que depois a gente começou a chamar de Praia Veia [velha]. Essa Praia Veia foi a primeira Prainha, onde tinha tudo lá. As casas, as bodegas, os barracão, a vida era lá. Depois tudo foi levado pelas águas da Lagoa do Jardim. Se não me engano, foi em 74, foi um tempo de inverno bom, bom mesmo! Era muita chuva, e essa lagoa encheu tanto que estourou. E quando isso estoura menina não tem jeito não, vai direito para o mar. Veja as coisas da natureza. Não vai para nenhum outro canto né, quando estoura qualquer lagoa, ela pode tá onde tiver, vai para o mar. Aí nós morava na praia, então quando estourou veio pra cá. Aí destruiu muita casa e a colônia. Aí o povo com medo, se mudou aqui pra cima e hoje a maioria das pessoas moram aqui. Até que agora na Caucaia tem muita casa, né. Mas já teve essa Prainha lá embaixo. (Zé da Nega, pescador e compositor).
Vejamos pela fala do Zé da Nega que houve em Canto Verde dois tempos em relação ao espaço de morada dos prainheir@s, antes e depois do fato com a Lagoa do Jardim, comunidade vizinha à Canto Verde. E sobre momento Dona Zefa continua:
Nós tava dentro de casa quando ouvimos foi o rombo da água passando ali na casa; os galões d’água era da altura dessa casa... Foi de tarde, uma hora dessa... A água levou muita coisa, carregou casa de colônia, casa de escola, carregou tudo. Era muito peixe, muito cará... E a madeira de algumas casas foi bater no Piquirí. (Tia Zefa, filha das primeiras famílias de Canto Verde, 90 anos de idade).
Depois desse ocorrido, as famílias da comunidade ficaram sem escola, visto que o local utilizado havia sido arrastado pela enxurrada. Deste modo, alguns pais levaram seus filhos para estudar em comunidades vizinhas; outros pagavam alguém que já sabia ler para ensinar as crianças, e muitos ficaram mesmo sem estudar.