• No results found

O estudo sobre a aprendizagem auto-regulada, por ser um tema complexo e ainda impreciso, demanda que os educadores façam uma reflexão aprofundada sobre as práticas de ensino e de aprendizagem de forma a criar condições favoráveis ao desenvolvimento da aprendizagem regulada, dirigida e avaliada por ele, assumindo efetivamente um papel ativo em sua formação.

O educador que escolhe trabalhar na perspectiva da auto-regulação há de estimular o uso de estratégias de auto-regulação, iniciando pelo planejamento das ações que orientam o trabalho a ser desenvolvido, sem esquecer que a avaliação é um processo de permanente reflexão durante todo percurso.

A maior responsabilidade de ajudar os sujeitos a aprenderem recai sobre os profissionais da educação – o educador, o pedagogo. Estes, ao atuarem em escolas ou espaços

educativos não-escolares, precisam saber o que se aprende, como se aprende, quando e com que finalidade utilizar os conhecimentos a serem aplicados nas propostas educativas ou profissionais. Está implícito nesta ação que o educador pode planejar suas intervenções, pode organizar o trabalho a ser realizado e suas condições, pode também trabalhar os princípios subjacentes ao construto da auto-regulação.

No que tange à atuação dos professores, dos pedagogos no ensino de estratégias de regulação interna da aprendizagem, é mister pensar em proporcionar aos aprendizes propostas e práticas educativas que os estimulem e os encorajem na análise das tarefas de forma a atingirem seus objetivos (LOPES DA SILVA, 2004). Para tal, precisam atender, organizar e planejar passos que podem melhor articular o desenvolvimento das propostas estabelecidas. É importante que tenham condições de elaborar planos estratégicos que reforcem a atenção para a obtenção de soluções; que avaliem os resultados obtidos, adequando-os ou corrigindo-os, se ineficazes; que vivenciem situações de sucesso e de insucesso como momentos importantes para a aprendizagem.

Veiga Simão (2006) destaca que ainda é um desafio ter uma formação de professores que integre o ensino de estratégias de aprendizagem ao longo dos diversos anos de formação e que se preocupem em estimular a autonomia e o controle que o estudante pode desempenhar na aprendizagem auto-regulada. A auto-regulação expressa uma das preocupações da sociedade atual – a importância de os sujeitos agirem de forma reflexiva, consciente e deliberada. Para tal, é mister os professores ajudarem seus alunos a serem mais autônomos, estratégicos e motivados. O verdadeiro sentido da aprendizagem está implícito no conceito “aprender a aprender”, ele ultrapassa a questão da aprendizagem, pois implica como fazer para aprender. Saber como fazer para saber que equivale a aprender (VEIGA SIMÃO, 2004b).

A auto-regulação da aprendizagem não é uma capacidade mental, como a inteligência, nem uma competência específica. Ela é o processo autodirigido, através do qual os aprendizes transformam as suas capacidades mentais em competências (ZIMMERMAN, 2000).

O conceito de aprender a aprender pode referir-se tanto a aprender competências como a aprender conteúdos. Pode-se identificar “aprender a aprender” com a autonomia, pois ela representa a possibilidade que o sujeito tem de auto-regular o seu processo de estudo e de aprendizagem em função dos objetivos que pretende alcançar e das condições do contexto que determinam a conquista dos objetivos traçados (VEIGA SIMÃO, 2004b). Dizer ‘aprender a aprender’ representa mais do que aprender conteúdo, pois o que se aprende é fazer o

planejamento eficaz para realizar as aprendizagens. Pode-se também entender como “uma espécie de saber estratégico que se adquire com a experiência das muitas aprendizagens que realizamos ao longo de nossa vida e que nos permite enfrentar qualquer aprendizagem com garantias de êxito” (VEIGA SIMÃO, 2004b, p. 99). Ensinar a pensar requer um educador/pedagogo reflexivo, portanto alguém que pensa sua ação, que revê constantemente sua prática docente na e para uma nova ação (SCHÖN, 2000), que resolve problemas educativos e observa se suas estratégias de aprendizagem estão adequadas à condução dos objetivos propostos.

Para ‘ensinar e aprender’, o professor deve ter aprendido a aprender, estar disposto a investir esforços permanentemente no ato de aprender, ao mesmo tempo em que seleciona e organiza estratégias para ensinar. As estratégias utilizadas, tanto pelo educador como pelo aprendiz, são sempre intencionais, dirigidas para um objetivo relacionado com a aprendizagem. Através delas, pode-se processar, organizar o material que facilitará o ato de aprender. Estas estratégias são guias das ações. A utilização de estratégias requer um sistema de auto-regulação que se fundamente na reflexão consciente dos aprendizes ao resolverem problemas que vão aparecendo e ao tomarem decisões sobre a sua possível resolução numa espécie de diálogo consigo mesmo (VEIGA SIMÃO, 2004b).

Para que o sujeito seja autônomo no percurso da sua aprendizagem, supõe-se que ele domine um conjunto amplo de estratégias e que seja capaz de tomar decisões intencionais, conscientes e contextualizadas para dominar as aprendizagens perseguidas. Ninguém nasce com esta capacidade, ela é desenvolvida pelos procedimentos de gestão inerentes a cada um e pela interação com os outros.

Os educadores/pedagogos podem oferecer ajuda, a qual é identificada por Veiga Simão (2004b) como “andaimar” (scaffolding) e envolve os sujeitos na busca da resolução de problemas. Ela incide sobre os ‘comportamentos’, através de discussões encorajadoras e da verbalização; sobre as ‘motivações’, pois estimula a avançar em suas metas; sobre a ‘metacognição’, que se desvela na capacidade cognitiva de cada sujeito, monitorado por si mesmo e com a ajuda dos outros.

Entre os vários processos existentes para “andaimar”, para auto-regular a aprendizagem do sujeito, Veiga Simão (2004b) apresenta:

a) processo metacognitivo - interrogação e auto-interrogação metacognitiva, o educador/pedagogo acentua passa a passo a explicação para a realização de uma tarefa e põe em ação o que se pensa, como se faz, por que se pensa e por que se faz. Para tal, utilizam-se guias de questionamentos básicos para que o aprendiz tome decisões de acordo com cada

tarefa e em cada contexto de aprendizagem. O objetivo é auxiliar os sujeitos a constituírem, através da reflexão, os seus guias pessoais;

b) questionamento - o educador faz perguntas, estimulando o sujeito a se questionar. Isto pode ser feito através da interrogação guiada (educador faz a pergunta integrando parte das respostas anteriormente fornecidas pelo sujeito); da interrogação retórica (educador faz as perguntas para as quais não espera a resposta, o que induz à reflexão) e do diálogo (educador discute uma tema conjuntamente com os sujeitos envolvidos no assunto), analisando, discutindo, argumentando as razões subjacentes às afirmativas ou negativas;

c) cooperação - é o partilhar com os outros as ações e as estratégias propostas para que possam aprender reciprocamente. O trabalho em grupo é co-orientado pelo educador/pedagogo e encarado como um espaço de troca de idéias, que pode auxiliar os demais a construírem suas estratégias pessoais.

d) atitude investigativa e estratégica de resolução de problemas - o educador leva o sujeito a questionar, a formular hipóteses, a experimentar, a confrontar e a interpretar resultados;

e) reconhecimento da tarefa - o professor analisa e/ou valoriza os procedimentos realizados pelos aprendizes;

f) plano individual de trabalho - o sujeito registra o plano de trabalho que vai fazer ou está fazendo, de forma a poder controlar o que já fez, o que falta fazer e o que ainda precisa ser feito;

g) portfólio - o sujeito organiza todo o material disponível sobre o assunto, valorizam-se buscas, fichamentos de livros e artigos, processos de investigação, opiniões, sentimentos despertados pelo assunto. É um processo pelo qual ficam registradas as construções feitas pelo sujeito. O portfólio é mais do que uma coleção de trabalhos realizados, pois, através da estratégia do educador, ele pode proporcionar uma avaliação reflexiva pela integração e articulação das diferentes etapas vividas.

Na perspectiva da aprendizagem auto-regulatória que vai em busca da aprendizagem reflexiva, o portfólio não consiste em mera compilação de trabalhos sem com o objetivo a que se destina. Ele é, antes de tudo, uma estratégia que permite aos estudantes refletirem e analisarem os seus processos de aprendizagem; tomarem consciência do seu processos e da forma como desenvolvem o auto-conhecimento; fortalecerem sua auto-estima. Ele é o registro do processo de aprendizagem dos educandos: o que eles aprenderam e como decorreu esta aprendizagem; como pensam, analisam, avaliam, sintetizam, produzem e criam e como interagem cognitiva, emocional e socialmente (VEIGA SIMÃO 2005c).

Rovina (2000) apresenta algumas características do portfólio como ferramenta de avaliação autêntica e destaca alguns pontos significativos:

♦ permite respeitar os diferentes tipos de aprendizagem e as diferentes maneiras de manifestar as competências pessoais;

♦ é uma estratégia que mostra paralelamente os processos e os produtos da aprendizagem;

♦ pode estimular a partilha entre os alunos;

♦ envolve o estudante de uma forma ativa e realista no processo de construção do conhecimento, na avaliação de seus avanços – sucessos e das suas práticas – dificuldades, e os partilha com o professor;

♦ permite a avaliação dos aspectos relevantes e constitui um bom mostruário do que o aluno sabe fazer, põe em jogo a capacidade de auto-reflexão.

Veiga Simão (2005) salienta que o portfólio tem sido muito utilizado, principalmente para auxiliar na avaliação do sujeito, por centrar-se na aprendizagem, não apenas no ensino. Os pressupostos e as possibilidades dessa utilização passam pela interação entre os métodos de ensino, o que possibilita maior diversidade de possibilidades no processo educativo.

Em síntese, entre os vários processos existentes para ‘andaimar’, para auto-regular a aprendizagem do sujeito, o educador, no decorrer da proposta de trabalho, ajuda o aprendiz a interiorizar os critérios de avaliação que emprega nas revisões com a finalidade de favorecer a auto-regulação da aprendizagem. A escolha de qualquer um destes instrumentos de trabalho promove a atitude de reflexão permanente no percurso da aprendizagem. Neste contexto de autoprodução, o sujeito assume um papel ativo e auto-regula seu processo de aprendizagem.