A coleta dos dados da investigação foi realizada através de entrevistas semi- estruturadas que possibilitaram, por meio de um diálogo espontâneo, a descrição das manifestações fundamentadas nas experiências vividas pelos entrevistados, constituindo-se em fonte riquíssima de informações.
O instrumento de pesquisa foi organizado para atender os seguintes objetivos:
♦ obter dados sobre a atuação do pedagogo ou do licenciado no contexto profissional;
♦ identificar, no contexto estudado, como o pedagogo cria condições favoráveis ao desenvolvimento da aprendizagem auto-regulada junto aos trabalhadores; ♦ compreender quais são as ações realizadas pelo pedagogo que permitem
fortalecer os processos de aprendizagem auto-regulada junto aos trabalhadores no contexto profissional;
♦ identificar e compreender as ações relacionadas à construção da aprendizagem auto-regulada desenvolvidas pelos pedagogos em espaços educativos não-escolares;
♦ identificar e compreender as competências e estratégias de planejamento presentes no trabalho que o pedagogo realiza em suas atividades;
♦ identificar e compreender as competências de execução e de utilização das estratégias pedagógicas no contexto de atuação do pedagogo;
♦ identificar e compreender a existência de competências de auto-avaliação das atividades desenvolvidas no espaço organizacional.
3.1.1.1 A entrevista: método de recolha dos dados
Considerou-se, nesta pesquisa, as características inerentes a este tipo de estudo e as dificuldades daí resultantes (em termos da pouca ou quase inexistência de fundamentação teórica sobre a atuação dos pedagogos em espaços não-escolares e sobre a aprendizagem auto- regulada). Justifica-se a opção pela metodologia qualitativa, por ser a mais apropriada para auxiliar na coleta de informações, que possibilitassem o mapeamento e o entendimento das
competências e atribuições do pedagogo e na verificação se eles contemplam em suas ações questões subjacentes ao construto da teoria da auto-regulação da aprendizagem.
A vantagem oferecida pela entrevista semi-estruturada reside na possibilidade de desenvolvê-la através de um esquema básico (mais livre), não necessitando de uma aplicação rígida, o que permite ao pesquisador fazer as adaptações necessárias no momento em que realiza a coleta de dados (LÜDKE & ANDRÉ, 1986). Uma das mais importantes fontes de informação para o estudo de caso “são as entrevistas”, que podem assumir formas diversas, preferencialmente, “conduzidas de forma espontânea”, pois permitem que se “indague respondentes-chave sobre os fatos de uma maneira, que se peça a opinião deles sobre determinados eventos” (YIN, 2001, p. 112). Pode-se pedir ao respondente que apresente sua própria interpretação sobre certos acontecimentos e pode-se usar essas proposições como base para o entendimento da pesquisa. Durante a realização das entrevistas, referendada por Lüdke & André (1986), foi preciso cuidar de alguns pontos importantes a respeito do universo do entrevistado, tendo uma escuta atenta, procurando estimulá-lo para que se desvelasse e revelasse em seus depoimentos as experiências, as expectativas, as percepções e os sentimentos, sem maior preocupação com a forma como estava sendo dito ou com a quantidade de informações disponibilizadas.
A opção da entrevista semi-estruturada permitiu construir um roteiro de entrevista que foi utilizado não de forma rígida, mas como meio para favorecer a recolha mais específica sobre o assunto investigado. As questões foram previamente elaboradas e serviram como pontos de referência. A ordem prevista no esquema não foi de fato seguida, porque, após cada resposta, era introduzida uma outra pergunta de forma a contribuir para a fluidez do diálogo. Buscou-se, portanto, através da entrevista, o entendimento e a compreensão da atuação do pedagogo, pretendendo também verificar se em sua atuação ele revela preocupação e envolvimento com a aprendizagem auto-regulada. A fim de melhor perceber estas questões, não se teve a preocupação de seguir à risca o roteiro da entrevista, mas se teve a preocupação extrema de fazer perguntas que pudessem desvelar o fenômeno estudado, consoante com os objetivos do estudo (FONTANA & FREY, 1994). Este tipo de abordagem estimula a busca da síntese entre a experiência vivida e a experiência pensada e, para tal, torna-se essencial levar o entrevistado a pensar sobre o assunto em questão.
Embora se considere que a presença de gravadores pode, em algum momento, inibir ou interferir nas falas dos participantes, optou-se por utilizá-lo para uma reprodução mais fidedigna e para evitar lapsos de memória. Ao realizar a entrevista no local escolhido, criou-se a oportunidade de fazer observações diretas que servem de fonte de evidências,
principalmente no que diz respeito ao ambiente de trabalho (YIN, 2001). A entrevista é especialmente adequada para “análise do sentido que os atores dão às suas práticas e aos conhecimentos com os quais se vêem confrontados: os seus sistemas de valores, as suas referências normativas, as suas interpretações de situações conflituosas ou não, as leituras que fazem das suas experiências, etc.” (QUIVY & CAMPENHOUDT, 1992, p. 194).
No decorrer da entrevista, buscaram-se aproximação e interação com o entrevistado, permeadas de compreensão ativa, que permitissem ter acesso a alguns pontos relevantes e específicos dificilmente obtidos através de outras estratégias, como sentimentos, pensamentos e intenções. A entrevista permitiu a escuta do trabalho que é realizado pelo educador-pedagogo e pode-se retornar a ela sempre que alguma informação não tinha sido bem entendida. Ela não foi apenas um movimento de decodificação da elocução, mas possibilitou captar o sentido, a expressão do pedagogo que verbalizou suas experiências e vivências, as quais foram relacionadas com as demais entrevistas e depoimentos colhidos e com a própria trama complexa dos objetivos pretendidos. Ao iniciar a entrevista, foi combinado com o entrevistado que, se houvesse necessidade de maiores explicações sobre determinado ponto ou sobre alguma questão formulada, haveria a retomada tantas vezes quantas fossem necessárias. Em alguns casos, foi necessário retornar à pessoa entrevistada para novos esclarecimentos.
A entrevista oportunizou o diálogo, possibilitou ver o todo através das partes e as partes através do todo de forma a entender as ligações entre elas, evitando as pressuposições, muitas vezes, implícitas no questionamento. O diálogo transportou (entrevistado e entrevistador) para além do individual e do profissional; possibilitou a reflexão do contexto onde a atuação do pedagogo acontece; permitiu avançar rumo a modelos mentais compartilhados (SENGE, 2000); facilitou o entendimento do fenômeno pesquisado. Para o diálogo, utilizou-se o questionamento com a finalidade de ir além do que estava sendo falado, o que serviu para indagar a respeito das pressuposições e dos pensamentos que permeiam a atuação dos pedagogos; para esclarecer e expandir a compreensão sobre o fenômeno estudado. A intenção geral com o questionamento foi aprender mais, foi aprender sobre (ELLINOR E GERARD, 1998, p. 75), ressaltando que ele é a essencialidade para o investigador.
Como não se pode observar ou medir diretamente as dimensões existentes na auto- regulação nem se pode, mesmo perguntando objetivamente, obter uma resposta que defina com clareza como ela é entendida e aplicada, as entrevistas configuraram-se como um grande
apoio, pois, após rigorosa análise, foi possível emergir delas as dimensões que correspondem a cada fase, características e princípios existentes no construto desta teoria.
O processo de realização das entrevistas teve a seguinte sistematização: organização dos tópicos de um roteiro de entrevista (guião)17, contemplando os objetivos do estudo; escolha dos participantes; realização das entrevistas; análise das entrevistas realizadas; organização das unidades de significado, dispostas em uma planilha de análise; entendimento dos significados das unidades abstraídas; formação das dimensões de análise; triangulação dos dados coletados com os referenciais teóricos estudados, entremeados com as falas dos participantes e com os referenciais estudados; identificação das relações implícitas e explícitas das questões propostas. Nos anexos deste relatório de pesquisa, encontram-se os quadros de análise (planilhas) devidamente numeradas e identificadas, elas contêm as sínteses das análises, com os indicadores que emergiram da investigação.
Para elaboração do roteiro da entrevista, levaram-se em conta os seguintes aspectos: a) as questões formuladas foram concebidas com o objetivo de conhecer as competências e atribuições dos pedagogos nas organizações empresariais; b) verificação se os pedagogos entrevistados trabalham com propostas que levam em conta a aprendizagem e como isso é feito; c) as questões foram elaboradas a partir da literatura consultada: Almeida & Freire (2000), Bardin (1977), Morais (1999) e Bogdan e Biklen (1994). A estrutura da entrevista baseou-se: a) nas atribuições e competências, segundo Perrenoud (1999b), Alarcão (2001, 2003), Senge ( 1999, 2000, 2005 ), Meister (1999) e Veiga Simão (2002, 2004, 2005, 2006); b) nas dimensões, fases, princípios e características da abordagem da auto-regulação da aprendizagem, apontadas por Zimmerman (1989, 1990, 2000), Schunk (1989, 1990, 2000), Zimmerman & Schunk (1999), Pintrich (2000), Veiga Simão (2002, 2004, 2005, 2006), Lopes da Silva (2004); c) na colocação das questões de forma objetiva para que os pedagogos pudessem compreender com clareza o que se perguntava, de acordo com Almeida & Freire (2000), Bardin (1977), Lüdke & André (1986), Yin (2001) e Bogdan & Biklen (1994).
Nas entrevistas foram organizadas e sistematizadas questões relacionadas às atribuições, competências do pedagogo/licenciado e questões relacionadas às características, às fases e aos princípios da auto-regulação da aprendizagem presentes nas ações do pedagogo em espaços não-escolares. Elas foram divididas em quatro blocos, conforme mostra o Quadro 11.
QUADRO 11: QUADRO DA ENTREVISTA
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BLOCOS