• No results found

Handlingsvegring eller handlingsverning?

In document Den alvorlige kreftsyke pasient (sider 74-77)

6. DISKUSJON

6.3 Handlingsvegring eller handlingsverning

6.3.1 Handlingsvegring eller handlingsverning?

Tudo recomeçou nos anos que se sucederam à minha aposentadoria da Secretaria de Estado de Educação, acolhendo o desafio da Prof.ª. Beatrice Laura, da Universidade Católica de Brasília. É importante mencionar que o tema da Monografia apresentada para obtenção do título neste mesmo curso foi Criatividade, materializando e nomeando, talvez, pela primeira vez, por estar em um ambiente acadêmico, a inquietação que me moveu durante os anos de trabalho em busca de algo. Foi nesse espaço que comecei a me envolver nas leituras direcionadas e na exploração sistemática da literatura clássica da área da criatividade. Essas leituras agiam como uma lâmpada direcionada ao meu passado em sala de aula.

Era preciso seguir na trilha do sonho declarado à Prof.ª. Beatrice. Ingressei no Mestrado, participando da seleção, em primeiro momento, para a área que estive envolvida nos últimos oito anos de trabalho: altas habilidades/superdotação. Nesse contexto se deu a segunda experiência de ruptura. Desde o esboço do projeto senti-me frequentemente induzida

a manter-me em linha com um conjunto de teorias e conceitos que me provocavam uma sensação de que „o mundo ia permanecer parado‟, como se de todos os lados estivesse lendo as mesmas ideias, apenas escritas de forma diferente. Estando em um nível de conhecimento teórico e de pensamento ainda bastante incipiente para identificar o que estava acontecendo, o que me tocava de mais concreto era o sentimento de angústia e inquietação por defender pressupostos que sustentavam uma ausência, um vazio, que me impulsionava desde a entrada na sala de aula pela primeira vez, em 1979.

Em determinado momento deparei-me com as disciplinas ministradas pela prof.ª. Maria Cândida, cujos pressupostos, materializados na postura dela como docente, começaram a fazer sentido. Alguma coisa me tocava de maneira diferente. A sensação era de estar engajando-me em um movimento muito bem fundamentado de libertação do pensamento. O que me tocou de forma diferente, vinha ao encontro de algo que eu sempre busquei sem saber que existia. Percebi que o ser humano é, de fato, “um vivente, em busca de sentido, situado no tempo, consciente de sua finitude e existindo na relação: relação com a natureza, com o outro, com ele mesmo e com sua transcendência possível”, e que “a negação da complexidade humana desconsidera o sentimento, a imaginação simbólica, o sentido, o oculto, a memória e a história” (PAUL, 2005, p. 75). Na verdade, eu compreendi, naquele contexto, que a razão do vazio era a negação da complexidade humana estampada nas práticas que me incomodavam na escola e na academia. Entretanto, apesar de ter perdido todo o élan para a pesquisa na linha de pensamento que estava realizando, porque tudo já não fazia mais sentido, mantive-me fiel e dedicada à orientadora.

Curiosamente, por via da mesma palavra – confiança – vi-me diante desta orientadora vivenciando uma experiência ao mesmo tempo negativa e positiva de ruptura. Felizmente, culminou com uma experiência de fluxo, lançando-me em um contexto que se tornou um divisor de águas neste terceiro ciclo de minha trajetória.

Na ocasião da realização de dois eventos acadêmicos muito próximos, optei pela Conferência Internacional sobre os Sete Saberes para uma Educação do Presente, realizado em Fortaleza – Ceará, em 2010, deixando de participar do evento da área para a qual estava direcionada a primeira pesquisa. Apesar de estar devidamente justificada e de ter organizado com muito cuidado e responsabilidade a minha substituição na exposição oral para o outro evento, parece que a troca não foi considerada a mais adequada. No retorno, vi-me diante da justificativa da (falta de) confiança para o rompimento dos laços humanos e acadêmicos que me vinculavam à pesquisa anterior.

Só mais tarde compreendi que a „falta de confiança‟ estava intimamente associada a um ato de „infidelidade epistemológica‟ que, inconscientemente, eu havia cometido. Isso só reforçou a concepção anterior da existência de comunidades científicas, e comunidades fechadas, e de que algumas delas eram tomadas por constituídas de tal modo que não poderíamos romper determinadas fronteiras. Com essa atitude, vi-me desamparada a seis meses de finalização do prazo para concluir o Mestrado, na situação de encontrar outro orientador e, certamente, de elaborar um novo projeto de pesquisa. O primeiro impulso e providências foram no sentido de desistir do sonho, sobretudo porque não havia condições práticas viáveis de conciliar aquele prazo com a possibilidade de iniciar um novo projeto.

Contudo, a confiança levou outra pessoa a assumir o risco de me acolher pelo simples carinho e respeito à condição humana de alguém que estava perdida no meio de uma estrada. Sem questionar ou pensar que poderia colocar em risco a própria reputação acadêmica por estar incluindo uma estudante desconhecida, ela simplesmente me estendeu a mão. Com o que considero a coragem dos sábios que não temem andar no escuro, ela se colocou disponível a orientar o projeto que me deixasse mais confortável no caminho que o desejo e a felicidade me conduzissem a seguir. Jamais havia escutado e vivenciado algo semelhante em um ambiente que não costuma ter foco no humano. Foi como retornar à fase da minha infância e sentir novamente a força daquela confiança dos meus pais na minha capacidade de atender a uma expectativa, apenas por ser uma filha muito amada. Uma confiança movida pelo amor- afeto, algo cultivado nas relações permeadas por um tipo de afeição que é mutuamente compartilhado de humano para humano.

Foi nesse momento que percebi a materialidade do pensamento de Pineau (1999, p. 27), o qual cabe repetir, aqui: “não fui eu que encontrei esse tema. Foi ele que me encontrou”. Buscando algo que estivesse minimamente interligado ao contexto da pesquisa anterior, fui lançada pela minha nova orientadora, a professora Maria Cândida Moraes, para uma questão- problema instigadora no terreno da criatividade complexa e transdisciplinar. Incorporada de uma sensibilidade e de uma perspicácia docente impressionante, ela me fez uma provocação. Este episódio ocorreu, depois de escutar com poucas palavras a resposta de uma pergunta, em outras palavras, formulada mais ou menos nos seguintes termos: o que te incomoda, como resultado da tua história de vida, a ponto de provocar o desejo de investigar e te fazer feliz? Aqui, eu posso dizer, hoje, que encontrei e percebi, mais uma vez, o sentido de buscar histórias de vida como técnica de geração de dados desta pesquisa.

A sensação imediata foi de que ela havia promovido um encontro ansiosamente esperado há mais de trinta anos. A imagem que descreve essa sensação é de alguém me introduzindo num espaço intensivamente desejado para viver uma história de paixão com um final feliz. Eu estava sendo colocada ao lado do objeto amado, de tal modo, que tudo, a partir daquele momento, começou a fazer sentido. Em síntese, utilizando uma linguagem messiânica, encontrei a luz.

Dominada pelo antigo entusiasmo e por uma energia inexplicável, engajei-me com um mergulho muito profundo no desafio de começar e concluir aquela etapa do sonho, em um prazo que já havia se reduzido a pouco mais de três meses. Eu precisava cumprir aquela etapa, naquele tempo previsto, para conseguir realizar o sonho declarado, e, ao mesmo tempo, não poderia desapontar a confiança da minha orientadora. Significava algo tão especial para mim que transcendia a questão temporal.

E foi com uma alegria e emoção imensuráveis que me deparei com a Professora Beatrice na porta da sala no final da minha defesa para me cumprimentar! Seus olhos brilharam, quando eu a lembrei daquela aula de anos atrás e disse que ela me provocou a estar ali!

Consegui entregar e realizar a defesa da dissertação no último suspiro do tempo determinado. Com esse estudo, avaliado pelo querido mestre de todos, Saturnino de la Torre, como um trabalho que “estava construindo as novas bases de uma nova ciência da criatividade” e que ele se sentia “ante uma obra gaudiana dentro da arte e ciência da

criatividade”, fui inserida num campo excepcional de novos conhecimentos conduzida por paradigmas que atribuíam sentido a toda a minha história de vida como professora e como pessoa.

No ano seguinte, participei da seleção para o doutorado. Era preciso seguir em frente, porque o tempo estimado estava se esgotando. Curioso, que, exceto por estar descrevendo, aqui, naquele momento eu não me dava conta da existência de uma meta ou tempo, só sentia um forte impulso movendo-me para frente. Procurei nas opções uma área na qual eu pudesse de alguma forma dialogar com a criatividade, porque não queria me afastar do meu objeto, depois de lhe ter sido apresentada anos depois. Descobri a expertise. Depois de ler algumas publicações para conhecer o terreno, percebi que oferecia um campo vasto para um debate frutuoso e contestador com a criatividade, já que vislumbrava um conflito epistemológico entre os dois construtos. Além disso, percebi semelhanças entre algumas características comuns às teorias da expertise e aquele impulso das equipes com as quais trabalhei para a busca do melhor desempenho, entre outras situações que corresponderiam ao estudo e prática deliberada.

Já cursando o doutorado, me chamou a atenção, na disciplina Metodologia II, as discussões sobre Filosofia da Ciência. Nas aulas o debate era intenso, assim como as provocações do professor-doutor Afonso Galvão, meu atual orientador, para que nos aprofundássemos, entre outras, nas questões relativas à metanarrativa da modernidade. Estimulados a mergulharmos em uma literatura instigante, esses debates suscitaram-me o desejo de compreender algo que me tocava de modo ainda muito incipiente, mas que parecia sinalizar para algum lugar de onde eu pudesse encontrar-me com esse „algo‟.

Fomos provocados, por fim, a pensar e escrever sobre as implicações do debate filosófico para a prática da pesquisa contemporânea. Nesse momento, também me dei conta da existência de uma vertente positivista da ciência, uma linha nada tênue que separa o pensamento da ação, que faz apologia da razão e da objetividade em detrimento da emoção e da subjetividade. O problema é que essas ideias foram tornando mais claro que aquele não era o paradigma que eu buscava e que fazia sentido para mim. Compreendi que as abordagens na pesquisa acadêmica estão especialmente situadas entre dois paradigmas que buscam caminhos opostos, induzindo-nos a uma visão e posicionamento meio radicais. Apesar disso, compreendi, mais tarde, que isso não deve, necessariamente, ser caracterizado como uma imposição de adesão extremista a um dos polos, passando ao extremo oposto de considerar que são perspectivas mutuamente excludentes.

As contradições que percebi nos princípios dessa ciência tradicional desafiaram-me a compreender o que tanto havia procurado e a conhecer que aquilo que fez sentido para mim era o paradigma de uma „comunidade científica‟ da qual eu desejava fazer parte. Tais contradições constituíam-se basicamente da imposição de um tipo de pensamento. Refletia-se para mim como um comportamento fetichista na ânsia de encontrar uma única verdade, ou, verdades por um único caminho, condição que me remetia àquela cultura de condicionamento, de submissão que percebia no início da minha trajetória docente (SÍVERES; RIBEIRO, 2015). Aquela visão “induzia-nos a um comportamento de ideologização em torno de determinado conceito de verdade científica” (SÍVERES; RIBEIRO, 2015, p. 154), cuja adesão a esse conceito implicava o desrespeito à pessoa imanente no sujeito e levava à reificação do objeto, por meio da aplicação de um determinado método que conduzia a essa suposta verdade.

Entendo que, à época, nada disso estava claro, assim como não havia me dado conta de que estava seguindo um caminho guiado por uma meta, ou um sonho que, mais tarde, foi declarado e delimitado por um período de tempo. Recordar-me anos depois de forma refletida induziu-me a uma tomada de consciência de muitos aspectos que estiveram subjacentes aos fatos sem que fossem percebidos concretamente. São „vistos‟ agora, olhando para trás, talvez porque me permitem contemplar uma história em sua totalidade, sem a fragmentação do tempo. Como diz Guimarães Rosa (2015), em seu poema “Olhar para trás”:

Olhar para trás após uma longa caminhada pode fazer perder a noção da distância que percorremos, mas se nos detivermos em nossa imagem, quando a iniciamos e ao término, certamente nos lembraremos do quanto nos custou chegar até o ponto final, e hoje temos a impressão de que tudo começou ontem. Não somos os mesmos, mas sabemos mais uns dos outros (ROSA, 2015).

A esse respeito, Langer (1953, p. 262) traz uma importante contribuição ao distinguir que recordar corresponde a um tipo específico de experiência em que as percepções são mais selecionadas. É diferente de vivê-las em tempo real, condição que traz uma “série de percepções visuais, sons, sentimentos, esforços físicos e reações minúsculas” que interferem em nosso processo reflexivo. Para o autor, a memória faz uma triagem desse material e o expõe na narrativa como um “extrato de passado vivido – muitas vezes, com uma intensidade e uma presença que a experiência do momento presente raramente possui” (p. 263).

In document Den alvorlige kreftsyke pasient (sider 74-77)