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Tverrfaglig samarbeid

In document Den alvorlige kreftsyke pasient (sider 66-73)

6. DISKUSJON

6.2 Tverrfaglig samarbeid

O homem contemporâneo vive uma intensificação da experiência de ruptura, ao mesmo tempo em que se encontra em plena transformação o modo como esta experiência o afeta: é a relação do homem com o caos o que está em jogo nesta transição [...] libertar a subjetividade da tutela do terror em relação ao outro e ao caos, passa, necessariamente, pela conquista da possibilidade de experimentá-los (ROLNIK, 2002, p. 14).

No ano seguinte, fase inicial da adolescência, cursando o 1º ano do Magistério ou Curso Normal em nível médio, ocorreu um episódio que me marcou de tal modo que esta passou a ser a lembrança mais presente que tenho desse período da minha vida. A professora de uma determinada disciplina passou como tarefa de casa escrever uma redação com o título “E, finalmente, ela veio...”. Ao serem corrigidas as redações, ela detectou que 99% dos alunos atribuíram à palavra “ela” a volta de um amor perdido, escrevendo, de forma unânime, sobre uma situação de namoro. Mas, havia uma única redação que chamou a atenção, porque “ela”

tratava-se da chuva no Nordeste, com um extenso número de páginas, descrevendo o sofrimento de um povo pela falta de água. Eu havia realizado uma pesquisa sobre a situação do Nordeste, em livros que tinha em casa e complementando com leituras na biblioteca, já que na época não existia computador acessível. Além disso, fiz várias perguntas à minha avó que, apesar de pouco escolarizada, nasceu no Piauí, tendo vivido todo esse sofrimento na pele. Talvez, justamente as suas histórias tenham me motivado a escrever sobre esta situação. Como resultado, o trabalho apresentava dados numéricos e uma argumentação consistente sobre os problemas causados pela falta da chuva durante anos naquela região. As histórias que a minha avó contou deram um tom especial de fidedignidade às informações.

Como consequência, minha mãe foi convocada para uma reunião, na qual estavam presentes os membros da direção da escola, a respectiva professora e uma psicóloga. Nesta reunião, o modo como o assunto foi abordado, parecia colocar em dúvida a autoria da redação, ao explicarem que os pais não poderiam fazer o trabalho de casa dos filhos. Demonstrando ignorar, de imediato, qualquer possibilidade de que eu havia feito o trabalho, questionaram a minha mãe, afirmando que aquela redação não poderia ter sido escrita por uma aluna de apenas 14 anos, que sequer havia concluído o 1º ano do curso. Mesmo depois de minha mãe explicar que eu era a filha mais velha, os outros irmãos ainda crianças, e que, em nenhuma hipótese haveria mais alguém em casa com a escolaridade necessária para ter escrito aquele trabalho, e nem amigos, já que havíamos chegado há pouco tempo em Brasília, decidiram por encaminhar o texto para „análise da letra‟, a fim de verificar a autenticidade dos traços da escrita. Embora eu estivesse presente naquela sala, em momento nenhum me foi permitido o direito de expor meus argumentos, de tentar demonstrar de algum modo a minha condição de ter feito aquela redação, pelo menos narrando os procedimentos que realizei.

Depois de determinado tempo, as mesmas pessoas, de posse do resultado da análise e de observações do meu desempenho em sala de aula, convocaram minha mãe novamente, desta vez, para reparação do equívoco cometido pela professora. Foi constatado que, de fato, a redação era de minha autoria. O equívoco foi resolvido, mas o impacto dos danos causados pela falta de confiança daquela professora na autenticidade do meu texto, apenas porque estava bom e diferente do restante da turma, provocou rupturas profundas na minha trajetória escolar e pessoal. Passei a procurar fazer tudo que me era designado ainda com mais exagero no refinamento, não sei bem por que razão.

Em Paul (1999), identifiquei-me com a questão das rupturas, quando ele as relacionou com experiências que perturbam o que antes se mantinha em estado de certa continuidade.

Explica que elas provocam um movimento de energia, que precisa ser percebido, aprendido e acolhido no que é pertinente, tendo “os índices de rupturas subtendidos pelo arquétipo das mortes-nascimentos” (PAUL, 2005, p. 87). E, de fato, parece que a intensidade do impacto das nossas experiências é que nos leva a vivenciar o paradoxo do fenômeno morrer-renascer, o que, muitas vezes, pode permanecer no primeiro estágio, dependendo de algum componente da personalidade que tende para um ou outro polo. Labache e Martin (2008, p. 335) compartilham que:

Embora os modos de percepção e os processos de construção e de transgressão de fronteiras dependam muito das condições estruturantes prévias, eles podem também se dever, em alguns casos, em grande parte, a disposições dos atores, experiências educativas, acontecimentos desencadeadores pouco “previsíveis” e aos contextos variáveis nos quais os atores se inscrevem.

Frequentemente, nos deparamos com algumas fronteiras que temos de procurar ultrapassar, contornar ou transgredir (LABACHE; MARTIN, 2008). De algum modo, nesses momentos, percebo-me como alguém que as ultrapassa ou as transgride talvez impulsionada pelos paradoxos confiança-desconfiança e liberdade-obediência, que meus pais imprimiram em mim com o seu modo de educar. Neste contexto, entendo a „desconfiança‟, não direcionada a mim como uma filha que fosse capaz de decepcioná-los na educação recebida, mas, como um meio de garantir a minha „segurança‟ diante de um mundo que, na visão deles, poderia causar-me algum mal. Tratava-se de uma desconfiança generalizada, mais próxima da superproteção.

Sobrepondo uma analogia pertinente com o que Engel (1997, apud PAUL, 2005) aponta sobre os paradoxos nas rupturas epistemológicas, concordo que, para enfrentar o impacto negativo de rupturas como esta que me ocorreu, três atitudes são necessárias: podemos buscar dissolvê-las, resolvê-las ou absolvê-las. Entendo que escolhi a última atitude e segui em frente trazendo algumas „rasuras‟ que me atravessam até hoje.

Para Labache e Martin (2008), nossas narrativas (vidas) são assim mesmo, sempre permeadas de experiências de ruptura ou de estabilização – continuidade, para Paul (2005) –, as quais remetem a diferentes fronteiras, cujos níveis de dificuldade de ultrapassá-las podem variar de difícil a impossível, conforme as diferentes realidades das trajetórias. Essas fronteiras “às vezes desempenham um papel de “muralha” que protege de um risco [...] outras vezes representam um “fosso” a ser transposto em busca de escapatória” (LABACHE; MARTIN, 2008, p. 334). As marcas que atravessam a nossa história podem se incorporar de um sentido, que tende a ser positivo, de promoção para uns, ou negativo para outros: “essas

fronteiras não são dadas, constroem-se, ultrapassam-se e desconstroem-se no tempo e com o tempo” (LABACHE; MARTIN, 2008, p. 335).

Esse episódio ocorreu há cerca de 40 anos, mas permanece em estado morto-vivo, porém estabilizado. Percebi, com o decorrer dos acontecimentos, que confiança tornou-se um fator crucial para mim em todos os sentidos. Da infância até aquele episódio, somente como uma marca positiva, impulsionadora de promoção e felicidade. A partir do episódio, revelou- me uma dimensão potencialmente negativa, quanto aos efeitos causados. A confiança amorosa, autêntica e absoluta que se refletia positivamente das atitudes dos meus pais, desde a infância, agora se tornara o mesmo fator que fazia o mundo ruir à minha frente, toda vez que me deparava com uma situação na qual teria de expor algo que fosse produzido por mim, fosse por meio da fala, de um texto, de uma construção própria qualquer.

Assim, na minha percepção, dois grandes efeitos opostos acompanharam-me a partir daquela ocorrência: de um lado, a sensação de ter de atravessar um “fosso” profundo em situações que exigem exposição oral e argumentativa constituindo um bloqueio; de outro, desenvolvi uma confiança extrema na capacidade e no potencial dos outros, dos alunos e de professores com os quais convivi e trabalhei. Era como se trouxesse subjacente uma certeza intrínseca de que todos seriam capazes de explorar e oferecer o máximo de si. Remeto-me, aqui, a título de ilustração, a um ditado popular – “quem disso cuida, disso usa” –, para lembrar de que tendemos a acreditar naquilo que somos capazes de fazer.

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