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1.3.1 Os antigos e a arte da guerra

O termo “estratégia” tem a sua origem na palavra grega strategia. Surgiu no seio dos militares para liderar exércitos e definir um plano de acção tendo em vista um determinado objectivo. Segundo Virgílio de Carvalho (1986:11-14), a estratégia pode definir-se como a arte e a ciência de conceber, desenvolver, organizar e utilizar meios para realizar objectivos, vencendo resistências e oposições. Tem a ver com a mobilização de recursos para realizar objectivos num ambiente ou cenário hostil. Por conseguinte, estratégia é o conjunto dos meios e planos a disposição do poder político e militar para atingir um objectivo previamente estabelecido.

Na implementação de uma estratégia, tem-se em conta a táctica, que é a forma de execução, bem como os meios a utilizar de modo a alcançar os objectivos preconizados. A táctica e a estratégia estão interligadas e só têm efeito quando accionadas em conjunto.

A História revela que, ao longo dos séculos, se têm destacado diferentes figuras cujo pensamento estratégico tem servido de paradigma em épocas distintas com início na Antiguidade em que se destacam, entre outros, estrategas como o chinês SunTzu (544 a 456 a.C.), notabilizado pela obra A Arte da Guerra, elaborado algures entre os séculos III -V a.C. Na Grécia Antiga, Tucídides (460 a 395 a.C.) ficou célebre pela obra “A História da Guerra do Peloponeso” na qual teoriza sobre o equilíbrio do poder. Mais tarde seguiram-se outras duas épocas que reflectem a evolução do mundo, nomeadamente a Moderna e a Contemporânea.

1.3.2 Os modernos e a nova visão do mundo

Quanto aos estrategas da Idade Moderna, têm uma nova visão do mundo e as suas teses reflectem as mudanças que entretanto se operaram na Europa entre a

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Antiguidade Clássica e o Renascimento. A Idade Moderna é caracterizada por grandes estratégias transoceânicas que interligam o mundo – Europa, África, América e Ásia.

Nicolau Maquiavel (1469-1527), no manual político O Príncipe dedicado ao seu

mecenas Lourenço de Médicis, refere estratégias sobre o modo como um príncipe deve conquistar e manter um principado. É uma obra que traz ao debate a questão do poder entre a esfera política e a moral. Posteriormente, Thomas Hobbes (1588-1679) ficou célebre pela obra Leviatã, uma criatura mitológica inspirado na Bíblia e que representa um monstro marinho. A partir dessa figura, o autor constrói a ideia de anarquia da comunidade internacional sem um poder central. Este estratega é tido como o primeiro grande teórico do Estado soberano e uma das figuras fundadoras da escola realista.

Na transição da Idade Moderna para a Contemporânea, destaca-se Immanuel Kant (1724-1804), considerado uma figura entre o realismo e o idealismo devido à sua posição quanto à soberania nacional e ao dever. Entre outros aspectos, Kant celebrizou- se com as obras Para a Paz Perpétua (1795) e Metafísica dos Costumes (1797) na qual equaciona a guerra preventiva e a mudança coerciva de regime.

1.3.3 Os contemporâneos e a estratégia global

Clausewitz (1780-1831), com a obra Da Guerra, composta por oito livros, reflecte o conflito que devastou a Europa do seu tempo e o paradoxo entre a democracia e a guerra. O pensamento dominante de Clausewitz, que se tornou transversal na sociedade internacional, é a expressão “a guerra é a continuação da política por outros meios”.

O amadurecimento da estratégia ao longo dos tempos foi uma superação da etapa anterior. Nesta fase, verifica-se um conjunto de princípios e normas estabelecidos pelos estadistas e que estão na génese da reorganização política e social da Europa. Destacam-se Woodrow Wilson (1856-1924) com uma visão estratégica direccionada para a reconstrução da Europa. O seu pensamento assenta em três discursos que prenunciaram o plano americano para o mundo: League to Enforce Peace, em 1916;

Peace without Victory, em 1917; e W.Wilson’s Fourteen Points, todos centrados na paz

mundial após a Primeira Guerra. A estratégia de Wilson deu lugar a doutrina “wilsoniana”, que serviu de base para a criação da Liga das Nações, cujo objectivo era garantir a independência política e a integridade territorial dos grandes e pequenos Estados. Esta formulação serviu de base para a criação da Organização das Nações Unidas.

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Na mesma época, evidencia-se Winston Churchill (1874-1965), a quem se deve a ideia da criação dos “Estados Unidos da Europa” como forma de ultrapassar os flagelos da Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, criou a divisão geoestratégica da Europa, sintetizada no conceito de “cortina de ferro”. Considerava Churchill que uma cortina de ferro estava a descer através do continente europeu. De um lado, ficava o Ocidente, e do outro, a Europa Central e Oriental, nomeadamente Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia cujas populações ficariam na esfera de influência soviética, sob controlo de Moscovo, o que de facto viria a suceder. O pensamento de Churchill esteve na base das relações de poder entre o Ocidente e o Leste durante o período da Guerra Fria, que terminou com a crise do socialismo no final dos anos 80.

O novo Quadro europeu levou Jean Omer Monnet (1888-1979) a dar continuidade ao pensamento, enunciado por Churchill, de uma Europa Unida. A estratégia elaborada por Monnet consistia num processo de integração em que as rivalidades fossem ultrapassadas através da cooperação e da integração dos Estados. A sua grande estratégia reflecte o maior projecto de construção geopolítica do pós-guerra, que foi a Comunidade Económica Europeia, actual União Europeia. É um projecto que engloba 27 Estados do Ocidente e do Leste Europeu, o que faz desta iniciativa uma das maiores estratégias da comunidade internacional delineada no século XX.

Num outro espaço geográfico, o da Ásia, destaca-se Mao Tsé-Tung (1893-1976) inspirado na teoria marxista-leninista, a partir da qual delineou as estratégias políticas e económicas, que ficaram conhecidas como maoismo. É nestas formulações ideológicas que se encontra o fundamento da Revolução Cultural que causou grandes transformações, levando à criação da República Popular da China, da qual Mao Tsé- Tung se tornou líder no período entre 1949 - 1976. Os seus ensinamentos estratégicos - militares serviram de inspiração a diferentes actores de outras regiões geoestratégicas onde ocorreram algumas guerras revolucionárias, como em África e América Latina. Nesta ordem de ideias o legado de Mao constitui um vasto léxico de ensinamentos políticos e económicos e de grandes estratégias, que se reflectem actualmente no plano consolidado da ascensão geopolítica da China.

É com este entendimento que, olhando para os três períodos analisados, podemos constatar como a estratégia foi decisiva na articulação de projectos, os quais tiveram grande impacto, não só para delinear estratagemas no sentido de vencer guerras, como também para esboçar planos que serviram de base à construção de uma Europa

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Comunitária e de outros projectos em outras partes do mundo. Mudanças na conjuntura, na correlação de forças, nas lideranças ou nos regimes configuram sempre a existência de estratégias.

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