4. RESULTAT
4.3 H YTTEUTVIKLING
As dificuldades na leitura do espaço sempre se mostraram relevantes. Ele é colocado como extensão para as coisas, distância entre pontos ou até mesmo intervalos abstratos e, muitas vezes, sua utilização cobre uma variedade tão ampla de objetos e significados que procurar conceituá-lo implica uma tarefa árdua. Segundo Kant (1996, p. 75), sua noção procura dar conta da forma de todos os fenômenos dos sentidos externos, pois é visto como a “condição subjetiva da sensibilidade unicamente sob a qual nos é possível a intuição
externa”. Na acepção kantiana, o espaço é visto como um container, premissa de influência newtoniana na qual a ideia de “espaço-nível” ou de “espaço-continente” é anterior ao conjunto das relações humanas.
Mas não é assim para a geografia. Segundo Santos (1996, p. 120), “o espaço que nos interessa é o espaço humano ou o espaço social” e ao tentar conduzir a discussão a essa abordagem, a noção kantiana de espaço como mero receptáculo das coisas se apresenta pouco abrangente. Isso se dá, entre outros motivos, porque uma visão social dentro dessa perspectiva compreenderia o espaço somente como “um reflexo da sociedade, uma tela de fundo onde os fatos sociais se inscrevem à vontade, na medida em que acontecem” (SANTOS, 1996, p. 126).
Ora, um espaço social pensado como mero pano de fundo traz consigo uma passividade, um vazio que, de fato, não existe. Uma conclusão embasada nessa reflexão deduziria, no máximo, que as relações sociais e suas contradições se dão sobre uma base neutra, inerte e apolítica. Ao contrapor tal definição, Santos (1996, p. 128) defende a ideia de que o espaço é “um fato social, uma realidade objetiva”. Como um resultado histórico das relações e das práticas sociais, ele adquire uma significação autêntica e se impõe ao indivíduo e às coisas, atribuindo-lhes um sentido.
Desse modo, o espaço deve ser “considerado como uma instância social”, ou seja, “a essência do espaço é social” e tal como se apresenta, ele contém as instâncias econômicas, políticas e culturais-ideológicas; assim como cada uma delas o contém (SANTOS, 2008, p. 12). A partir dessa apreensão, conclui-se que o “espaço socialmente construído compreende o conjunto de elementos materiais transformados pelas práticas econômicas, apropriadas pelas práticas políticas e constituídas em significações pelas práticas culturais- ideológicas” (BARRIOS, 1986, p. 19). Como os processos sociais só se realizam quando assumem uma forma espacial, não existe dinâmica econômica, política ou cultural que prescinda do espaço. Da mesma forma, o espaço é também o acúmulo das dinâmicas supracitadas num contexto histórico.
Pensar o espaço na contextura das práticas sociais é conceder-lhe uma vivência efetiva. Essa espacialidade, uma construção socialmente elaborada e rica em relações contraditórias, se apresenta quando o ser humano projeta a si mesmo na natureza. Tal projeção se dá através do trabalho, mais especificamente do trabalho organizado coletivamente ao longo dos processos históricos: o trabalho social. Portanto vemos o espaço “como um produto histórico e social das relações que se estabelecem entre a sociedade e o meio circundante. Essas relações são, antes de mais nada, relações de trabalho dentro do processo produtivo geral da sociedade” (CARLOS, 1992, p. 15).
Mas é inconcebível imaginar um sistema produtivo que não traga dentro de si as bases para sua própria continuidade. Pensar numa situação deste tipo significaria conceber
os meios de produção e as forças produtivas como sistemas absurdamente curtos, incapazes mesmo de estruturar valores estratégicos. Sabemos que isso não corresponde à verdade: os meios de produção e as forças produtivas se fazem resistentes justamente por realizarem no seu processo produtivo as condições para sua reprodução. Assim, as próprias relações sociais de uma determinada configuração de acumulação elaboram os meios que reproduzirão as suas necessidades e valores. É bom deixar claro que o termo produção deve ser interpretado de duas maneiras: aquela em seu sentido estrito, a criação de bens e mercadorias; e a produção dos modelos organizacionais do sistema, valores incrustados nas relações, costumes e ideologias sociais.
Assim, ao considerar o espaço como um plano dimensional em que a sociedade vê cristalizado o resultado do seu trabalho, estamos interpretando-o como um produto social, mas também como um condicionante de articulação das condições que reproduzem as práticas sociais, econômicas e políticas. O espaço geográfico, “conjunto de objetos criados pelo homem e dispostos sobre a superfície da terra, é assim um meio de vida no presente (produção), mas também uma condição para o futuro (reprodução)” (CORRÊA, 1991, p. 55).
Na interpretação das diferentes configurações de acumulação capitalista, podemos concebê-las intrinsecamente ligadas à organização espacial. Esta última, envolvida diretamente com o resultado do trabalho, refletirá todas as relações de apropriação-
dominação numa sociedade fundada na produção/circulação/consumo de mercadorias11. As
contradições apreendidas no espaço serão manifestações da lógica desse sistema.
O conceito de organização, nesse caso, ultrapassa a concepção tradicional de influência da gestão empresarial e da sociologia funcional, que o lê a partir de uma visão racionalista simples, com um funcionamento fixado a um organograma e movido por finalidades claramente definidas. À esta visão de organização como “sistema cooperativo”, contrapomos um olhar mais abrangente, que alcança o conjunto de processos sociais ao tornar possível a dinâmica de um sistema por meio de suas composições, contradições, mudanças e superações. Como lembram Lévy e Lassault (2003, p. 680) (...) Il est nécessaire de saisir l’ensemble des processus rendent possible que les agencements sociaux s’organisent. On en vient ainsi à l’organisation considérée en tant que dynamique organisatrice, système des forces qui organisent… l’organisation”.
A organização espacial (ou territorial) implica, tal como aponta Corrêa (1991, p. 54), que os objetos fixos e as formas espaciais “estão distribuídos e/ou organizados sobre a superfície da Terra de acordo com alguma lógica”. Desse modo, “o conjunto de todas essas formas configura a organização espacial da sociedade”, que é assim constituída pelo
11
“Em uma sociedade de classes, a organização espacial refletirá tanto a natureza classista da produção e do consumo de bens materiais, como o controle exercido sobre as relações entre as classes sociais que emergiram das relações sociais ligadas à produção” (CORRÊA, 1991, p. 55/56).
conjunto das inúmeras cristalizações criadas pelo trabalho social. O caráter repetitivo das operações econômicas, políticas e culturais em sociedade implicam que se tenha uma localização fixa para os objetos e que fluxos de produtos e pessoas se realizem com eficiência, resultando em materializações constituídas por padrões de localização
(CORAGGIO apud CORRÊA, 1991)12. Os pontos, linhas e áreas que correspondem à
linguagem desses padrões de localização, nunca indiferentes ao movimento da história,
representam a organização espacial ou territorial13.
Nesse sentido, a busca por uma análise mais completa das heterogeneidades das transformações sociais, políticas e econômicas em tempos de mundialização capitalista, perpassa por uma investigação da dialética espacial e de sua organização. “Os dois conjuntos de relações estruturadas (o social e o espacial) são não apenas homólogos, no sentido de provirem das mesmas origens no modo de produção, como também dialeticamente inseparáveis” (SOJA, 1993, p. 99).
1.1.2. COMO TRABALHAR O TERRITÓRIO A PARTIR DO CONCEITO DE ESPAÇO?