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H OTELL

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4. RESULTAT

4.5 H OTELL

p. 143), em sua importante obra sobre a geografia do poder, enfatiza isso a partir de uma passagem bastante esclarecedora: “É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível”. Logo a seguir fortalece: “O território é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por conseqüência, revela relações marcadas pelo poder”. Por fim acrescenta: “Evidentemente, o território se apóia no espaço, mas não é o espaço. É uma produção a partir do espaço. Ora, a produção, por causa de todas as relações que envolve, se inscreve num campo de poder” (RAFFESTIN, 1993, p. 144).

Para o autor, falar de território implica reconhecer uma “multidimensionalidade” de poder que incorpora a noção dialética de produto e condição de transformação do processo social. Na sua percepção, o território se apresenta como um recorte responsável por abranger a dimensão material da realidade sob a dinâmica de uma configuração política, econômica e ideológica, com efeitos diretos sobre a sociedade como um todo.

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CORAGGIO, José Luís. Considerações teórico-metodológicas sobre as formas sociais da organização do espaço e suas tendências na América Latina. Planejamento, Salvador, 7 (1), 1979.

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“Une organisation spatiale est ainsi une fraction d’espace quelconque dotée d’une structure et de principes organisateurs repérables par l’analyste. L’avantage du terme est qu’il évite de recourir de façon sauvage à espace ou territoire ou réseau, puisqu’il désigne quelque chose de général, dont l’échele peut être très variée, et qu’on qualifie plus précisément ensuite avec une sémanthique appropriée. Cet usage générique semble intéressant puisqu’il permet de découper l’espace en sous-ensembles, de lancer leur analyse et la recherche de leur spécificité, tout en insistant bien sur le fait que ces sous-ensembles sont organisés et résultent de dynamiques organisatrices, dont il convient de comprendre les logiques” (LÉVY e LASSAULT, 2003, p. 680).

Em Raffestin (1993), o território é objetivado de relações sociais, de poder e dominação. Isso delimita campos de ações sobre o espaço, fragmentos que constituem o território como materialidade e que revelam como os agentes e as práticas sociais produzem os recortes mais ou menos delimitáveis que se inscrevem nas dinâmicas políticas, econômicas e ideológicas.

Porém, embora se refira a delimitações, Reffestin não enrijece as dimensões escalares do conceito, uma vez que reconhece e indica transposições de limites do poder, sobretudo a partir dos meios de comunicação e de circulação, assim como através de atividades econômicas. É nesse sentido que enfatizamos também a sua proposta de interescalaridade, um olhar de renovação frente ao já tradicional preceito ratzeliano de território, essencialmente fixado no referencial político do Estado-Nação. Observamos, desse modo, uma abordagem mais abrangente sobre o conceito de território, ligada ao conjunto de relações políticas, econômicas e culturais-ideológicas projetadas no espaço, envolvendo toda uma rede de relações que, ao mesmo tempo em que exerce, também sofre influência da materialidade territorial.

Em Souza (1995) também encontramos uma clara defesa em favor da distinção dos conceitos de espaço e território. O autor (1995, p. 98) ilustra suas ideias a partir de alguns exemplos, entre os quais a de uma possível “perpetuação de representações espaciais territorializantes mesmo após a organização espacial original ter se modificado sensivelmente ou entrado em decadência”; e a situação extrema de uma cidade-fantasma, outrora esplendorosa e hoje reduzida a ruínas, isto é, um espaço social constituído, mas sem se apresentar como território de quem quer que seja.

Para Souza (1995, p. 87), o território ganha um sentido mais flexível sendo lido como um campo de forças ou uma rede de relações sociais que podem “formar-se e dissolver-se, construir-se e dissipar-se”, e isso de modo relativamente rápido, numa escala temporal periódica que tanto pode durar séculos como semanas ou dias, ao se estabelecer de forma regular ou cíclica.

Nossa ressalva quanto à proposta de Souza (1995, p. 97) está no fato de que o sentido de território sugerido parece desconsiderar a relevância da materialidade, interpretada como “substrato”, ao justificar que a dimensão territorial implica somente num conjunto “de relações de poder espacialmente delimitadas operando sobre um substrato referencial”. Sem deixar de reconhecer o quanto essa noção é rica em mobilidade, fluidez e imaterialidade, observamos também como tal perspectiva pode esvaziar o conteúdo espacial do território, ao incorrer, como afirma Costa (2006), numa possível sobrevalorização da dimensão temporal e social-histórica, em detrimento de uma base social-geográfica.

Diante de uma preocupação com a ‘espaciologia’ ou com o determinismo das formas espaciais, devemos justamente ter cuidado para não sugerir um excesso de ‘sociologização’ ou de ‘historicização’, de alguma forma ‘desgeografizando’ o território, abstraído da base social- geográfica como condição indispensável à realização destas relações (COSTA, 2006, p. 81).

Para Souza (1995), Raffestin tem uma visão menos abrangente de território ao considerá-lo como substrato, comprometendo a amplitude da sua abordagem relacional. Mas, em Raffestin (1993), esse conceito precisa ser lido com atenção, pois o autor não o interpreta somente como uma base material onde se dá o conjunto contraditório das relações sociais, políticas e culturais. Muito pelo contrário, seu olhar supera a simples tentativa de uma revisão temática ratzeliana, ao reconhecer uma dimensão ontológica no território e sugerir uma abordagem relacional dos processos econômicos, políticos e culturais-ideológicos, e tudo isso num plano interescalar. Para este geógrafo, território não é só palco, envoltório, no sentido mecânico do termo, mas uma dimensão material que recebe e oferece possibilidades de ação/transformação da realidade.

Por isso, assim como já havia afirmado Costa (2006), somos muito mais condescendentes com Raffestin, uma vez que, apesar do território não se limitar a substrato, ele tem sim uma expressão material que não se reduz a um campo de forças instável, porquanto de natureza social. A nosso ver, a abordagem de Raffestin reconhece o papel geográfico na formação social, além de enfatizar o sentido da organização territorial, na qual se desenvolve e se materializa toda a dinâmica resultante das relações em sociedade.

Para finalizar a seção, e pensamos que reiterar essa ideia é necessário, insistimos que o conceito de território (mesmo multidimensional, interescalar e relacional) não se apresenta como sinônimo de espaço geográfico. Acreditamos no espaço como um conceito maior, que envolve a totalidade das relações sociais e se coloca como referência mais ampla na análise da materialidade geográfica. Ele abrange, articula, condiciona e reproduz todo o conjunto das relações sociais e se apresenta também como acumulação desigual de tempos (SANTOS, 2004). Já o território, nessa perspectiva, se coloca como um recorte relacional a envolver política, economia e cultura/ideologia, se impondo como uma das dimensões singulares de maior expressão do espaço geográfico, sempre a partir de uma visão interescalar.

Com essa afirmação, em nenhum momento estamos defendendo a tese que os dois conceitos sejam mutuamente excludentes, nem argumentando que sejam contraditórios em essência, isto é, antagônicos, pois temos a noção que a relação que se dá entre espaço e território é processual e de interação, na medida em que, ao parafrasear Saquet (2007), sabemos o quanto eles se entrelaçam, se superpõem e, não raro, se completam em

reciprocidade14. Um está no outro, como afirma Saquet (2007), mas, em última instância, não acreditamos que tenham o mesmo significado.

Em nossa acepção, por fim, território é um recorte que abrange poder, e se constitui numa base operacional para a materialização de inúmeros interesses que não são meramente políticos e econômicos, mas envolvem também e, sobretudo, necessidades

culturais e ideológicas. A abordagem territorial direciona a leitura (i)material15 das relações

de poder; seus conflitos e contradições; complementaridades e multidimensionalidades na esteira do amplo movimento de organização espacial das relações em sociedade.

1.2. O QUE A MODERNIDADE FOI FAZER NA PERIFERIA? ORIGENS E SIGNIFICADOS

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