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F RITIDSBOLIGMARKEDET

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4. RESULTAT

4.1 F RITIDSBOLIGMARKEDET

Em julho de 1986, o então candidato ao Governo do Estado do Ceará pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Tasso Jereissati, respondia aos repórteres do jornal Diário do Nordeste, durante uma campanha eleitoral marcada por forte disputa entre os grupos políticos participantes: “A era que queremos iniciar é a de exterminação da miséria em nosso estado. Não só a miséria material, mas a miséria humana, que se encontra em nosso povo” (DIÁRIO DO NORDESTE, 05 de julho de 1986, apud CARVALHO, 1999, p. 186). Numa outra edição do mesmo jornal, o empresário fortalecia: “o clientelismo é o pai da miséria e a miséria é fundamental para que sobreviva o regime dos coronéis... sem a miséria, o povo deixa de ser dependente dos coronéis e de ser dependente do poder” (DIÁRIO DO NORDESTE, 27 de julho de 1986 apud CARVALHO, 1999, p. 186).

A campanha de Tasso esteve fortemente marcada por uma concepção de “mudança”.

Ao mesmo tempo, construiu-se no imaginário político do “coronelismo” 5 a ideia de atraso e

o estigma do Ceará arcaico, enquanto reproduziu-se em torno da imagem do jovem empresário, moderno e próspero, a condição de eficácia para marchar contra as “forças do passado”. A partir do slogan, “O Brasil Mudou, Mude o Ceará”, o empresário-político se colocava não só como um candidato ao governo de um estado, mas como liderança e

imagem mítica de uma ruptura com as antigas práticas de clientelismo6, em função da qual

se desenharia um projeto ambicioso: o da construção de um “Ceará novo”, desprendido simbolicamente do Nordeste tradicional.

Com expressivo número de votos, isto é 61% do total válido para aquele ano, o candidato sagrou-se vitorioso e demarcou um novo rumo para a política cearense. Administrar o estado passaria pela tarefa de racionalizar os objetivos e as ações propostas,

5 Empregou-se correntemente a palavra na ocasião para designar a política cujos principais líderes estaduais e

locais sentiam dificuldades de diferenciar os interesses públicos e privados, sintetizando a dominância do padrão tradicional de alcançar resultados eleitorais com a manipulação da “vontade coletiva” pela via de pactos pré- estabelecidos. Esta definição destoava de conceituações clássicas, como a de Leal (1986, p. 20), para quem “coronelismo”, implica num regime político baseado na “troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente influência social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras”. Em função desses desacordos, o conceito será trabalho com mais cuidado numa outra parte deste capítulo.

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O clientelismo é entendido aqui como um conjunto de práticas de relações de poder cuja principal característica é a existência de uma rede de relações pessoais e diretas entre pessoas que ocupam posições assimétricas na dimensão política e econômica. Fundamenta-se naquilo que Faoro (1998, p. 637) chamou de “clientela”, peça de uma ampla máquina na qual “a visão do partido e do sistema estatal se perde no aproveitamento privado da coisa pública (...), de modo a converter o agente público num cliente, dentro de uma extensa rede clientelista”.

estabelecendo cuidadoso planejamento através de uma gestão mais próxima dos empreendimentos empresariais, sobretudo com forte vinculação a investidores capitalistas de diversos tipos, internos e externos ao Ceará.

A vitória eleitoral de Tasso Jereissati em 1986 implicava, na verdade, a realização de um projeto que começou a ser desenhado em 1978, quando um grupo de empresários locais concluiu que poderia fazer uso da formação universitária adquirida nas maiores escolas de economia e administração do país para redesenhar a trajetória socioeconômica

cearense, afastando-a das influências da política conservadora dos “coronéis”7. Na crença

de representar a vanguarda do movimento econômico no Ceará, esse novo grupo de empresários se transformou num crítico do modelo político vigente, considerado o maior entrave na busca pelo livre interesse de capitalistas e trabalhadores.

A divisão simbólica entre as elites “atrasadas” e “modernas” se deu com a eleição da diretoria de uma entidade associativa empresarial de pouca expressão local, o Centro Industrial do Ceará (CIC). Segundo Gondim,

até então, era praxe que o presidente da conservadora Federação das Indústrias do Ceará - FIEC assumisse também a presidência do CIC, mas essa tradição foi alterada pelo empresário Flávio Costa Lima em 1978, que abriu mão daquele cargo em favor de Benedito (Beni) Veras (GONDIM, 2000, p. 414).

Essa era a oportunidade da qual os empresários citadosprecisavam para colocar em

prática suas ideias modernizadoras.

Para Carvalho (1999, p. 179) o tempo “de re-fundação do CIC funciona como uma espécie de ‘memória’ que referencia e credencia seus personagens a participarem das grandes disputas políticas a partir de 1986”. O CIC se tornou um fórum de debates em pleno contexto de transformação na política cearense e brasileira, no qual a intensa discussão sobre os ritmos da abertura democrática e o papel do poder público nas decisões econômicas locais e nacionais destacou o conjunto de seminários organizados por Beni Veras e seus sucessores presidentes, entre os quais Amarílio Macedo, Tasso Jereissati, Sérgio Machado e Assis Machado.

Segundo Amarílio Macedo,

7

No discurso dos novos empresários, as lideranças tradicionais da política cearense eram representadas pela figura do “coronel”, aquele que utiliza seus poderes públicos para fins particulares e “mistura, não raro, a organização estatal e seu erário com os bens próprios”. Seria a figura retratada por Faoro (1998, p. 636 e 637), para quem a origem do poder derivava “mais do prestígio e da honra social, tradicionalmente reconhecido, do que da situação econômica”.

as nossas pretensões no processo de discussão eram tão destemidas, que a gente saiu para transformar o CIC num fórum de debates, não de assuntos de Fortaleza e do Ceará, mas de assunto de Brasil no Ceará. Então, foi aí que a gente desencadeou um processo de atrair cabeças de ponta daquela época do cenário nacional que eram uns dos maiores questionadores do governo e questionadores sobre múltiplos aspectos: tanto econômicos, como político, cultural como filosófico (entrevista a Amarílio Macedo in MARTIN, 1993, p. 181).

Esse momento é assinalado pelos membros do CIC como divisor de águas na realidade social cearense. Os empresários interessados pelo debate político através dos fóruns nacionais descobriram que também objetivavam conquistar o poder local e, com isso,

implantar políticas que rompessem com as práticas do governo dominante8. Em seu lugar,

um novo projeto estava sendo construído, no qual o papel do Estado era o de se desprender das obrigações tradicionais e assumir a tarefa de impulsionar o crescimento econômico. Somado a isso, seria necessária uma recuperação das finanças públicas a partir de uma flexibilidade da ação estatal no tratamento das demandas sociais.

Com a vitória nas eleições de 1986, esses preceitos passaram a direcionar os rumos da política cearense. Ancorados na crise do modelo instituído pelas elites tradicionais e contando com a mobilização de novos agentes políticos, econômicos e sociais, os empresários do CIC conseguiram eleger Tasso Jereissati para o cargo de governador, fazendo com que o projeto político do grupo fosse aceito como representante dos interesses gerais da sociedade.

Desde então, esse modelo de gestão foi reproduzido, inicialmente, a partir de uma hegemonia do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) no governo estadual, que durou vinte anos através de nomes como Ciro Gomes, Lúcio Alcântara e o próprio Tasso Jereissati, reeleito por duas vezes. Recentemente, entretanto, houve mudança no partido que administra o governo cearense: assumiu o poder o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Isto, porém, em nenhum momento significou transformação nos rumos da política econômica, na medida em que o representante da legenda, Cid Gomes, irmão do ex- governador Ciro Gomes, é estreitamente ligado ao projeto de modernização idealizado pelo CIC na década de 1980.

As práticas desse novo estilo de fazer gestão, no início largamente divulgado pelo slogan “governos das mudanças”, se fundamentam numa filosofia burguesa ao defender ações como o fortalecimento das tendências industrializantes, a racionalização dos sistemas

8 “Esses dirigentes tinham claro que a eles cabia a tarefa de libertar o Ceará do domínio dos ‘coronéis’, que

técnicos de organização do território, a atração de investimentos externos e a reestruturação da máquina pública baseada numa política de “enxugamento” e “privatização”.

Ao advogarem em favor de uma maior liberdade de mercado e em defesa de uma proposta ligada aos preceitos da modernidade capitalista em sintonia com as transformações que se dão em escala nacional e global, os empresários-políticos terminaram por investir pesadamente na sua imagem pública, desprendendo-se do estigma da “nordestinidade”, e construindo a “boa imagem” do Ceará em torno de um projeto de acumulação industrial capaz de atrair empreendimentos privados e recursos externos.

O território cearense, até então reconhecido simbolicamente no Brasil como o recorte ambiental, político e econômico mais “nordestino”, na pior das acepções que esse termo possa representar; sofre uma grande reestruturação em função daquilo que foi divulgado como uma “tomada de consciência racional da sua nova geração de políticos”. Imagens como as da inclemência da natureza, da miséria extrema, da ignorância da população e da corrupção das suas lideranças foram substituídas pelas paisagens idílicas do litoral exuberante e pelo papel agora nacional de políticos centrados na construção moderna de um Ceará e de um Brasil aberto às influências da nova configuração mundial da acumulação capitalista.

Ao sanar as finanças públicas e realizar uma administração estatal marcada pela eficácia dos instrumentos de gestão, tudo isso sem comprometer o crescimento econômico do estado, que esteve entre os maiores do país; o sucesso político do novo projeto foi

divulgado internacionalmente9. Dois de seus representantes, Tasso Jereissati e Ciro Gomes,

foram além de uma rede de influências estadual e regional e se tornaram nomes conhecidos pela sua participação nacional em coligações eleitorais, exercendo forte influência e muitas vezes tendo sidos cogitados a assumirem o posto de candidatos a Presidência da República.

Como uma das variantes na concepção deste “Ceará moderno”10, o território do

estado (ver cartograma 01) foi inserido no circuito da produção industrial nacional e global, no qual a montagem de uma estrutura de equipamentos que permitissem a fluidez da distribuição e do consumo capitalistas garantiu a reconfiguração dos sistemas técnicos, aprimorados para consolidar modelos de produção, circulação e consumo pautados nos preceitos da competitividade, com forte articulação junto aos agentes da mundialização.

9

O livro da economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT), a norte-americana Judith Tendler, intitulado “Bom Governo nos Trópicos” e reportagens como a do The Economist (Survey Brazil: hope from the

North-East), de 07 de dezembro de 1991, revelam o alcance da difusão imagética proporcionada pelo “jeito de

fazer política” dos empresários cearenses. 10

O completo arranjo de propostas econômicas foi pretensioso e buscou aparelhar o território ao materializar obras e redes técnicas que objetivavam dinamizar a indústria de transformação, a agricultura científica voltada para a exportação de commodities (sobretudo a produção de frutas frescas) e o turismo litorâneo de grandes massas.

Estradas, portos, aeroportos e infovias foram construídos e municípios que tinham sua vida econômica sustentada pela agricultura de subsistência e pelo comércio tradicional passaram a conviver com um novo vetor de desenvolvimento, calcado na atividade industrial, que impôs um rearranjo nas funções e nas temporalidades do espaço urbano regional. Isso transformou as formas e as funções de algumas cidades, as quais sofreram mudanças no ordenamento territorial e na capacidade de gerar e acumular riquezas, implicando um crescimento econômico e a ampliação das ações e dos objetos modernos no território.

O processo de reestruturação industrial resultou em mudança também dos antigos modelos de produção hegemônicos, repercutindo quantitativa e qualitativamente nos fluxos, nos equipamentos urbanos e nas formas de consumo da sociedade. A dinamização da produção material na indústria foi responsável por um novo quadro a redefinir o processo produtivo, reorganizando velhos componentes econômicos a despeito, em contrapartida, da preservação de muitos outros elementos de natureza tradicional.

Com base no conjunto de transformações supracitado, objetivamos reconhecer os aspectos principais que fazem parte do projeto político e econômico da nova elite dirigente cearense. Delineadas na década de 1980, as mudanças mais visíveis, de fato, começaram a ocorrer somente na metade dos anos de 1990, quando o projeto começou realmente a se concretizar. Assim, partimos da concepção de que a nova configuração política e econômica constituída no estado é uma coisa vaga, desprovida de concretude, se destituída da compreensão do espaço e do território como dimensões de materialização das ações empreendidas. Com base nas acepções de Raffestin (1993) e de Santos (1999 e 2008) de que a economia, a política e a ideologia estão no território e que este lhes dá vivência efetiva, procuramos definir as relações multidimensionais e interescalares do território cearense, para além das limitações de um recorte formal, isto é, político-administrativo.

Mas o que há de particular nas concepções e nas ações dos empresários-políticos que lhes possibilitaram a oportunidade de reunir elementos capazes de transformar o Ceará num “território” inserido no projeto de modernidade pautado nessa nova razão instrumental? Estaria de fato mais aberto aos preceitos da mundialização capitalista, alinhando-se aos objetivos de uma nova configuração de acumulação, na qual a relativização das distâncias, a instrumentalidade da técnica e a aceleração das velocidades se apresentam como fenômenos destacados? Como encontrar o econômico e o político enquanto instâncias territoriais e qual a relação que estes têm com o ideológico na proposta cearense de transformação da sociedade? Como levar em conta a periodização e a produção histórica do “territorial” diante do discurso deflagrado de ruptura das coisas e dos fatos, fortemente presente na representação social e política dos industriais cearenses apresentados como sujeitos coletivos?

Essas perguntas suscitam inquietações na tentativa de interpretar os pontos centrais desta tese, ao enxergar as transformações no Ceará por meio da investigação geográfica; com base nos conceitos de espaço e território. Mas as interrogações são fundamentais também para a formulação e a discussão dos desdobramentos de nossa proposta, pautados na busca da compreensão da reestruturação do território a partir dos resultados da acumulação industrial. Por isso, consideramos fundamental definir o contexto territorial, político e econômico que fez do projeto cearense um mecanismo de estreita relação com as demandas da nova configuração da acumulação capitalista, sobretudo a partir dos elos estabelecidos com o sistema produtivo. Os itens que seguem propõem uma discussão mais aprofundada nesse sentido.

Organização: Henrique Alves. APOIO: FCT-UNESP/GASPERR.

Capital do Estado Principais cidades

Ceará

Brasil Região Metropolitana de Fortaleza Região Metropolitana do Cariri

Cartograma 01: Divisão político-administrativa do estado

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