A assinatura do tratado de independência (1825), e, principalmente, a promessa de finalizar o tráfico de escravos, repercutiu nos periódicos405. Através da análise desse tema nos impressos podemos observar como o Spectador, o Atalaia e o Verdadeiro Liberal apresentaram suas ideias e nos deram pistas sobre seus projetos sociais para o Brasil. Os liberais não apresentaram um programa em comum, e é em torno do debate da escravidão que transparece, de forma mais incisiva nas fontes analisadas, uma das primeiras diferenças de seus pensamentos.
A discussão em torno do tráfico de escravos, segundo Alain El Youssef, foi politizada, e em 1826, defender o fim do tráfico era defender a posição do Imperador, e ir contra, era fazer oposição406. Porém, o que percebemos nos periódicos pesquisados é diferente. Plancher, Chapuis e João Maria, mesmo em posições políticas distintas, foram contra o tráfico negreiro407.
403 O Verdadeiro Liberal, nº 09, 21 de março de 1826 e nº 16, 06 de abril de 1826.
404 SOUZA, Iara Lis Franco Schiavianatto Carvalho. Pátria coroada: o Brasil como corpo político
autônomo (1780-1831). São Paulo: UNESP, 1999, p.329.
405 Uma abordagem completa sobre as opiniões dos jornalistas durante o Império foi realizada por:
YOUSSEF, Alain El. Imprensa e escravidão: política e tráfico negreiro no Império do Brasil (Rio de
Janeiro, 1822-
1850). 2011. 300 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
406 YOUSSEF, 2011, p.87.
407 Um fragmento de pesquisa já foi apresentado sob forma de artigo. Ali estão reflexões mais
O Spectador, representante dos áulicos, utilizou transcrições da obra Cours D’écon. Polit., do economista, estatístico e historiador russo Heinrich Friedrich Von Storch para defender o fim do tráfico e a assinatura do tratado. Segundo o jornal, faltavam “luzes” aos brasileiros para compreender porque o ministério se comprometeu com o fim do tráfico negreiro. Explicava aos leitores que a escravidão impedia o aumento populacional de uma nação, principalmente quando são comprados em outros países408. Além da dificuldade em aumentar a população, alegava que a escravidão “corrompe igualmente a alma do escravo, e do Senhor”, pois o escravo em sua condição de cativo tende a ser “preguiçoso, descuidado, ladrão, dissipador e bêbado”, o que o faz “baixo e vil”, consequência de “um coração ulcerado pela injustiça da situação”, e “logo que ele se apresenta ocasião; ele se mostra rebelde, vingativo e cruel”. Já o senhor, que “pode tudo o que quer”, às vezes quer o mal, o que torna difícil fazê-lo se conter “dentro dos limites do justo e do honesto”. Rodeado por escravos desde criança, se acostuma com a “lisonja” e o “deleite” dos escravos, contribuindo para o desenvolvimento da imoralidade409.
Além do prejuízo moral, existia o perigo da revolta escrava. Como a relação senhor/escravo era marcada pelo mando e desmando, existia uma desconfiança mútua. Dessa maneira, “as famílias não vivem nunca em completa segurança”, e o constante estado de alerta acaba por “prejudicar os interesses do rico”410.
Em meio a todos esses problemas, o Spectador defendeu que a solução seria a vinda de imigrantes. Uma “imigração bem dirigida” podia modificar a situação do Brasil, aumentando sua população e melhorando a economia411. O trabalho dos homens assalariados “é muito mais perfeito e vantajoso do que o de miseráveis escravos, que nenhuns interesses tomam em servir”, e o dinheiro utilizado para comprar os escravos seria melhor investido pagando o salário dos trabalhadores412. Com isso, no raciocínio de Plancher, o fim da escravidão representaria não apenas a melhora da economia, mas também o aumento da população e o desenvolvimento
nos referimos sobre a escravidão. Cf. REIS, Arthur Ferreira. Intelectuais e Escravidão: discussões sobre o fim do tráfico negreiro. In: Anais do 7º Encontro de Escravidão e Liberdade no Brasil
Meridional. Curitiba, 2015.
408 O Spectador Brasileiro, nº 225, 18 de janeiro de 1826. 409 O Spectador Brasileiro, nº 231, 03 de fevereiro de 1826. 410 O Spectador Brasileiro, nº 232, 06 de fevereiro de 1826. 411 O Spectador Brasileiro, nº 222, 11 de janeiro de 1826. 412 O Spectador Brasileiro, nº 233, 08 de fevereiro de 1826
“moral”, pois “não haverá mais negros e negras atulhando as nossas ruas e as nossas casas, dando mal exemplo com palavras e ações à incauta mocidade” e “envenenando os bons costumes”413.
Se Plancher defendia o fim escravidão, Chapuis propugnava apenas pelo fim do tráfico negreiro. Para ele, esse era “um comércio abominável, que ofende tanto a Religião, quanto a Moral, e que deve ser proibido”. Todavia, a proibição devia ser gradual, caso contrário, a agricultura seria lesada. Sendo assim, acreditava que “o Governo Brasileiro, quando tratou de conceder os quatro anos, conciliou sabiamente todos os interesses”. A solução para o fim do tráfico era simples: aproveitar os escravos que aqui estavam. Por isso, alegava que os senhores deviam tratar bem os escravos “dando-lhes melhores alimentos”, cuidando das “suas enfermidades e fazendo-os adquirir amor e interesse à casa”, o que “aumentará, triplicará a sua cultura, e que sem comprar um só escravo, terá sempre tantos braços quantos lhes forem necessários”. Fazia defesa do fim do tráfico e do tratado firmado com a Inglaterra, porém, defendia a continuidade da escravidão através do método de reprodução endógena414.
De opinião mais radical sobre a escravidão era João Maria da Costa. O redator da Atalaia, ao invés de justificativas econômicas, utilizou argumentos morais e religiosos. Buscava desenvolver a “empatia imaginada”415, mostrando que os escravos também eram homens e que não mereciam perder sua liberdade. Apelava para desumanidade do tráfico, para a violência da escravidão e o ataque aos preceitos religiosos e morais que esse tipo de cativeiro atentava.
Segundo o jornalista português, o tráfico era “cruel e desumano”, praticado por “bárbaros e tiranos” que eram indiferentes para com a vida humana416. Através da descrição da viagem em um navio negreiro, afirmou que só se dá “a estes desgraçados a porção de nutrimento inexatamente necessária para deixarem de morrer de fome”. Afirmava que se as pessoas conhecessem “todas as transações
413 O Spectador Brasileiro, nº 233, 08 de fevereiro de 1826. 414 O Verdadeiro Liberal, nº 08, 18 de março de 1826
415 HUNT, Lynn. A Invenção dos Direitos Humanos: uma história. São Paulo: Companhia das
Letras, 2009, p.31.
infames” e “todos os crimes” que produz o tráfico, elas não comprariam escravos417. Chegou a descrever um fato, quando
Um pobre preto tento sido por esta maneira levado à força, a mãe veio oferecer pelo seu resgate uma boa soma de dinheiro; o honrado branco ficou com o dinheiro, e dois dias depois tanto a mãe como o filho tinham-se feito à vela para a América418.
João Maria apelou para as “Leis da natureza”, segundo as quais era proibido traficar “indivíduos da sua mesma espécie: pois que os homens, e a sua liberdade não são gênero de compra e venda”419. Por fim, afirmou que era advogado da abolição e chamou os escravistas de “pequenos opressores da liberdade dos homens”, atribuindo ao fim da escravidão o título de “baluarte da liberdade brasileira”, pois uma nação de escravos é fraca e corrompida já que ela não é formada de iguais420. Os argumentos de Chapuis e Plancher se aproximam muito da visão sobre os escravos vigente no Brasil do oitocentos, tema este analisado por diversos autores. Segundo Maria Emília Prado, a percepção de que o trabalho escravo contribuía de maneira decisiva para a visão negativa do trabalho dos brancos – o que podemos perceber na argumentação de Plancher - era um dos argumentos mais utilizados pelos defensores do fim do tráfico421. Além disso, os argumentos econômicos também podiam ser encontrados em escritores anteriores como José Bonifácio e Antônio José Gonçalves Chaves, sendo a economia o principal argumento contra a escravidão422. Já o medo da revolta escrava e o caráter prejudicial que a escravidão tinha para a formação da nação relacionam-se ao que José Murilo de Carvalho chamou de razão nacional423.
João Maria fugiu dessa matriz e apresentou um projeto social, em relação à escravidão, mais “radical” quando comparamos com os outros jornalistas estudados. Defendia não só o fim do tráfico, como também da escravidão, através de argumentos morais e religiosos. O escravo era reconhecido como um humano, um
417 Atalaia da Liberdade, nº 11, 13 de março de 1826. 418 Atalaia da Liberdade, nº 11, 13 de março de 1826. 419 Atalaia da Liberdade, nº 10, 10 de março de 1826.
420 Atalaia da Liberdade Extraordinária, 15 de fevereiro de 1826.
421 PRADO, Maria Emília da Costa. Ordem Liberal, Escravidão e Patriarcalismo: as ambiguidades do
Império do Brasil. In: GUIMARÃES, Lúcia Maria Paschoal; PRADO, Maria Emília da Costa. O
Liberalismo No Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Revan, 2001, p.175.
422 ROCHA, Antônio Penalves. Ideias antiescravistas da Ilustração na sociedade escravista brasileira.
In: Revista Brasileira de História, vol.20, n.39, 2000, pp. 37-68.
423 CARVALHO, José Murilo de. Escravidão e Razão Nacional. In: CARVALHO, José Murilo de.
igual. O argumento econômico era secundário e dava lugar ao argumento moral. Porém, o problema moral não se concentrava no desenvolvimento da sociedade brasileira, mas por a escravidão ser contra as leis da natureza, um atentado à vida dos homens africanos. Por isso, defender a escravidão era um ataque frontal a liberdade e a religião. Portanto, João Maria defendia ideias à frente de seu tempo424. Segundo Youssef, grande parte dos intelectuais brasileiros eram contra o tráfico negreiro. Para o autor, comentários favoráveis ao tráfico só se deu em momentos pontuais, como o momento de assinatura do tratado de independência. Argumenta ainda que o debate foi politizado, e nos termos da época, defender o fim do tráfico era defender o Imperador, e ser contra era ser oposição425. No entanto, achamos necessário relativizar a politização desse debate, tendo em vista que os três jornalistas por nós analisados, por mais que fizessem parte de grupos políticos opostos, defenderam o fim do tráfico426.