“Experimentos não podem ser transplantados; eles precisam ser reinventados.”
Paulo Freire, 1978 A visão da educação brasileira não pode ser catastrófica nem triunfalista, afirma Cortella. O país completou 507 anos, mas o sistema nacional de educação tem pouco mais de 75 anos. Na seqüência, temos o processo de urbanização que o Brasil sofreu nos últimos 40 anos, além da industrialização e a concentração dos meios de produção provocando uma transferência massiva da população rural para as áreas urbanas.
O conhecimento tem uma especificidade inerente, ligando-o à História em sua estrutura e conjunturas, em cada época, manifestando seu sentido de diferentes maneiras, no interior da escola. No dizer de Cortella, “A escola está grávida de história e sociedade, e, sendo esse processo marcado pelas relações de poder, o conhecimento é também político. Por que não utopias coletivas? Por que não projetos políticos?” (2004, p. 156).
O aspecto político do conhecimento pode direcionar o como e o quê fazer no processo gradativo da conquista de uma realidade social superadora das desigualdades, em que a utopia de um futuro almejado, torna-o possível e real estando com um pé no futuro e o outro fincado no fazer de hoje. “Não um qualquer, mas um amanhã intencional, planejado, provocado agora. Um amanhã sobre o qual
não possuímos certezas, mas que sabemos possibilidade.” (CORTELLA, 2004, p.158-159)
Reafirmando a ação transformadora da articulação entre educação e política apresentada na rebeldia ética de Freire, Cortella ressalta a tarefa dos educadores e das educadoras, na junção entre a epistemologia e a política: o esforço questionador do “porque aqui é assim!” A possibilidade de ruptura da inevitabilidade começa pela recusa da ditadura dos fatos consumados e na ditadura fatalista do presente nos obstáculos do cotidiano.
Cortella acredita e insiste no conhecimento como ferramenta da liberdade, da convivência igualitária, de saber trocar as experiências vividas.
Há um ditado chinês que diz que, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um; porém, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando uma idéia, e, ao se encontrarem, eles trocam as idéias, cada homem vai embora com duas. Quem sabe é esse mesmo o sentido do nosso fazer: repartir idéias, para todos terem pão. (2004, p. 159)
O conhecimento é uma construção cultural e a escola é o veículo que o transporta. Pode-se dizer que a escola é, pois o vínculo do vivido e do produzido no espaço escolar e no da comunidade em que está inserida. Nesse vínculo está o ponto central da construção de um currículo na concepção de uma educação crítica e transformadora, aqui denominado Currículo Vivido.
Isso significa a compreensão do currículo como o conjunto de todas as decisões e ações da escola, não se limitando apenas à grade curricular, disciplinas, provas, testes, trabalhos escolares. Na experiência do projeto inovador, retomando as conquistas da gestão de 1989-1992, a preocupação foi dereverter o processo de prescrição, entendendo o próprio currículo como uma construção política, histórica e social.
Uma política educacional que pretende a garantia dos direitos do cidadão e a inclusão social direcionados ao processo de emancipação e autonomia do individual e do coletivo. Estes conteúdos são apreendidos na prática da vivência coletiva na sociedade civil e nas instâncias governamentais. Ao currículo compete a ambiência necessária para tais práticas. No interior das unidades escolares, essa ambiência configura-se no movimento de reorientação e de formação permanente, na reflexão e na criação de instrumentais que viabilizem as ações e práticas da
cidadania participativa. Compete-lhe, ainda, a criação de espaços para reflexão, sistematização, organização e para o conhecimento produzido coletivamente.
Ao mesmo tempo em que inclui o ensino formal, amplia as temáticas inerentes à singularidade da comunidade local, ao incluí-la na própria construção do que lhe é significativo e necessário no âmbito da vida real. Isso, no projeto inovador, significou extrapolar os muros da escola e trabalhar coletivamente com os colegiados, grêmios e associações escolares, com a comunidade local e com os representantes dos movimentos organizados da sociedade civil.
Esse coletivo, construindo e reconstruindo o currículo, abre amplo campo de ação política e educativa à participação da população na interferência e acompanhamento da gestão pública, possibilitando efetivamente reverter o cenário das desigualdades sociais e de exclusão.
Na nova concepção de currículo, há ainda outra dimensão do Currículo
Vivido no Projeto Inovador, em que a escola é também o espaço da vida
comunitária, da convivência e da troca do saber relacional. O currículo está voltado para a totalidade das relações humanas e sociais no interior das unidades escolares, no contexto social da comunidade local e aquelas situadas entre as instâncias regional e municipal. Nessa dimensão, está a formação plena do ser humano como ser das relações sociais.
A construção curricular implica a ambiência necessária para relações sociais mais justas e respeitosas. Volta sua preocupação em reverter o processo de silenciamento e exclusão opressiva. Investe nas possibilidades de vida que cada ator social envolvido traz em si mesmo, bem como na construção do coletivo e do espaço público, no qual o povo possa construir sua história, refletindo a liberdade e a dignidade na alma de sua gente.
No Currículo Vivido, o conhecimento se faz pão repartido, alimentando diversos saberes e que, ao ser socializado, se multiplica em outros e novos saberes, onde todos se beneficiam dos valores, das vidas vividas, das práticas e das experiências acumuladas na história.